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quinta-feira, 3 de outubro de 2024

CAROLINE, CONDENADA A 18 ANOS PELO ASSASSINATO DE ELÍDIA

Estou faz uma semana pra escrever sobre este caso tenebroso, mas agora vai.

Na quarta-feira retrasada, dia 26 de setembro, ocorreu o julgamento de Elídia Geraldo, jovem de 19 anos que, no início de julho de 2019, saiu com um casal de amigos em Ubá, cidade de Minas Gerais com 100 mil habitantes. Foi dada como desaparecida durante vinte dias até que seu corpo foi encontrado num matagal por seu tio.

Eu não sei quase nada sobre Elídia, mas conheço um pouco da história de sua assassina, Caroline de Paula Dini (que agiu junto com seu namorado, Igor Resende Lana).

Uma semana depois do desaparecimento, os pais de Elídia (foto ao lado) deram uma entrevista para a Rádio Educadora de Ubá, pedindo ajuda para encontrar a filha, e dizendo que ela foi a uma festa do aniversário da cidade. A mãe contou que Elídia tomava remédios, tinha tendências suicidas, mas era "trabalhadeira" (cuidava de uma idosa). No final da entrevista a mãe de Elídia revelou que, um dia após o desaparecimento, "apareceu um casalzinho procurando a Elídia, perguntando se a Elídia tava em casa". Caroline disse para a mãe de Elídia que a jovem desaparecida havia ficado com o celular dela, e ainda pediu: "Quando ela chegar, a senhora manda ela levar o celular na minha casa". 

Caroline e Igor foram presos um mês depois, no dia 12 de agosto de 2019, e confessaram ter matado a jovem por estrangulamento. Mas disseram à polícia que "não cometeram o crime de estupro contra Elídia Geraldo. Apenas deixaram suas vestes baixadas para confundir a investigação policial". Por toda a cidade, circula até hoje a ideia de que foi um ritual satânico. 

Caroline tinha a mesma idade de Elídia quando cometeu o crime. Foi perseguida por misóginos desde que era menor de idade. Muito antes de mascus da Discord "escravizarem garotas online" (obrigando jovens a se mutilarem, mandarem nudes e se filmarem machucando animais), Caroline passou por tudo isso: fez vídeo enfiando crucifixo na vagina, acusando um desconhecido de estupro, dizendo que tinha sido estuprada por um mascu neonazi, Gustavo Guerra, e que gostou. Mas não era apenas uma vítima. Tal qual seus algozes, era também de extrema-direita, misógina, pedófila, e torturadora de animais. Adotava o codinome de Emma.

Em janeiro de 2017, ela não aguentou mais as perseguições e a vida horrorosa que levava e simulou seu suicídio. Não demorou muito para que os mascus percebessem que ela não havia morrido. Passaram a atacá-la de novo. Ela ainda não tinha 18 anos.

Pouco depois, eu e outra professora feminista tentamos ajudá-la. Conversamos com advogadas, com a defensoria pública, pedindo o acompanhamento do Conselho Tutelar. Eu passei o telefone dela para um agente bonzinho e prestativo da Abin, que ligou pra ela, oferecendo auxílio. Ela teve a opção de ir acompanhada por uma advogada a uma delegacia e denunciar quem a perseguia havia anos. Preferiu contar tudo a Marcelo Valle Silveira Mello (líder mascu e criador de um chan de ódio que está preso desde maio de 2018, condenado a 41 anos de prisão). Foi recompensada com a moderação do chan. 

Em novembro de 2017 ela me enviou um email com o título "Emma aqui, de coração aguardo sua resposta". Ela escreveu (tudo sic): "desde criança me interessei por gore e pornografia bizarra, eu nao tinha amigos e sofria bullying, me batiam me desprezavam, todas minhas amigas me traíram e eu peguei ódio delas e de todo mundo, minha irma por assim dizer é uma 'merdalher' que obviamente é a mais bonita mas ela é burra fútil vazia superficial que nao sabe conversar nada a nao ser garotos roupa e dinheiro, e vendo toda aquela atençao dada pra ela e pra mim nao, só fui me isolando e criando um ódio sem igual... no mais tardar tive anorexia e fui diagnosticada como borderline e esquizofrenica, o que tbm foi dificil pra mim pois nenhum relacionamento eu me dava bem, ai que achei o chan e vi ali um lugar em que eu poderia expressar meus ódios internos sem ser julgada, entao passei a sentir amor pelo ambiente e por algumas pessoas que me fizeram mal, mas sabe pq eu nunca os odiei tanto e nem nunca me importei com nada? PQ EU ME ODEIO. Eu nao gosto do movimento feminista pq acho ruim e injustificavel [...] fui criada em meio ao ódio e em uma familia super religiosa e fanatica, eu nunca disse em video que os mataria e eu nunca faria isso, posso ter comentado no twitter na hora da raiva pq eles pegam no meu pé sempre".

Nesse email ela contou que, quando fingiu o suicídio, Arthur Lopes (um mascu de Aracaju que hoje, pasmem, é candidato a vice-prefeito da capital pelo PCO - Partido da Causa Operária), que ela considerava seu melhor amigo, vazou "fotos horríveis" que ela tinha passado pra ele.

Não foi o primeiro email que ela me mandou. Eu nunca respondi, nunca falei com ela. Ainda em novembro, recebi outro email, dizendo ser da irmã dela. Provavelmente era da própria Caroline.

Num vídeo que gravou há mais de seis anos e que ainda circula (e é monetizado pelo YouTube!), Caroline repete toda a ladainha mascu e diz que a mulher atual está degenerada, que perdeu todo o respeito, "coração e a própria inteligência", e "são atraídas pelo mal, pelo maligno, isso comprova que elas gostam do perigo", e que mulheres apanham porque querem, porque gostam, e que toda mulher se atrai por marginais, que feminismo é uma ideologia de morte, e que a culpa não é do homem que mata, é do feminismo. "Se você é uma mulher, lute pela sua alma. Dê uma chance para o homem beta", e termina dizendo que seu nome é "Maria Dolores" (como tantos mascus, ela também era obcecada por mim, chegando a inventar que era minha filha).

Em maio de 2018 Marcelo foi preso. Em junho, outro moderador do chan, André Garcia (codinome Kyo), deixou uma mensagem jurando que iria se matar, ouviu o coro de sempre ("leve a escória junto"; houve ofertas para pagar sua passagem para Fortaleza, para que ele me matasse antes de se suicidar), e, na mesma noite, saiu às ruas de Penápolis, interior de SP, onde morava, matou uma moça que ele nunca tinha visto antes e vice-versa, e se matou. Pouco depois, Caroline (e o chan) migrou pra deep web. Continuou fazendo vídeos de pedofilia e torturando animais. Talvez ainda fosse moderadora quando o massacre de Suzano foi parcialmente planejado no chan, em 13 de março de 2019.

No dia 13 de julho de 2019, assim que Elídia desapareceu, antes de seu corpo ser localizado, recebi emails anônimos e mensagens no blog acusando Caroline e Igor. Na mesma hora encaminhei esses emails para a Polícia Federal e para um agente da Abin. Escrevi: "Não sei se vc lembra, mas tentamos ajudar a Emma em 2017. Ela é uma jovem com muitos problemas que faz parte do Dogolachan há anos. Dizem que ela é moderadora do Dogolachan agora (ela chegou a ser em 2018, quando o chan ainda não estava na Deep Web). Já recebi acusações de que ela tinha sites de pedofilia e pornografia infantil (passei essas informações pra PF faz tempo). Ela mora em Ubá, MG, justamente a cidade em que Elidia morava. Emma é perigosa e acredito sim que ela seja capaz de matar alguém. Encontrei essas informações sobre o desaparecimento de Elidia: 'Segundo a família, Elidia saiu de casa sozinha e chegou a encontrar com um casal de amigos no Horto Florestal e segundo os pais ela teria ficado com o aparelho de celular de uma moça, que foi buscar no dia seguinte na residência da jovem'. Por favor, vc pode falar com alguém da polícia de MG? Se essa jovem desaparecida não fosse de Ubá, eu não  prestaria muita atenção. Mas é da mesma cidade da Emma, e as informações que li (que Elidia se cortava, por exemplo, e já tinha tentado suicídio) parecem conectá-las."

Durante o julgamento na semana passada, Caroline chorou, disse se sentir culpada, declarou várias vezes que não se lembrava do que aconteceu, afirmou que ouvia vozes. Porém, na época, ela agiu com frieza, mantinha perfis fakes para enviar ameaças, e tirou selfie na delegacia.

Caroline e Igor foram condenados a 18 anos de prisão cada um pelo assassinato de Elídia e ocultação de cadáver. Caroline segue presa na penitenciária de Juiz de Fora. Mascus são perigosos e matam. Caroline é uma das muitas provas disso.

terça-feira, 3 de maio de 2022

CHEGANDO A HORA DE IR PRA PRISÃO, BRENO

Não sei se vocês lembram de um mascu neonazi chamado Breno Alves, de Franca, SP. Eu falei dele aqui no blog em dezembro, quando recebi a boa notícia de que ele havia sido condenado a 15 anos de prisão.

Breno, que fez parte do Dogolachan, me ameaçou durante anos e fez vídeos me difamando. Poucos dias antes do massacre de Suzano, em março de 2019, ele me enviou um email com novas ameaças, prometendo que estavam arrecadando dinheiro para contratar um matador de aluguel para me eliminar (clique para ampliar).

Mas o que mais me chamou a atenção era que ele se vangloriava de como o chan estava crescendo na Deep Web. Duas semanas depois, houve o massacre de Suzano, que matou 8 pessoas e que havia sido parcialmente planejado no chan que Breno (entre outros) administrava.

Breno, que era chamado de "Macaco Confederado" pelo chan -- macaco por ser pardo num ambiente extremamente racista que ele apoiava, e confederado por ser um grande fã do sul escravagista dos Estados Unidos --, ameaçou e perseguiu muitas outras pessoas. Estou usando o passado, mas infelizmente ele continua solto, e tenho certeza que não mudou de cabeça nem se arrepende de todo o mal que causou. 

Semana passada ele foi condenado em segunda instância a 14 anos de prisão. Não entendi direito por que o Tribunal de Justiça de SP acrescentou mais um crime (racismo) a sua coleção, mas ao mesmo tempo reduziu a pena de 15 para 14 anos. Breno já havia sido condenado por divulgação de pornografia infantil e apologia ao nazismo. Graças a um habeas corpus, ele aguarda o julgamento de seus recursos em liberdade. Tomara que não esteja cometendo mais crimes enquanto isso.

Discordo muito da decisão do TJSP, que rejeitou a acusação de organização criminosa. Breno fez parte de pelo menos um chan que promoveu massacres. Só porque essas organizações são incompetentes não quer dizer que não existam! E claro que há hierarquia nos chans. Tanto há que um dos vídeos que Breno fez contra mim (dizendo ser meu aluno e me denunciando por trocar uma nota por sexo) foi encomendado pelo dono do Dogola, como um rito de iniciação. Aliás, assim como mascus mais famosos como Marcelo (preso quatro anos atrás, em maio de 2018) e Emerson (que fugiu para a Espanha em 2018), Breno também batia na própria mãe.

Entre vários outros crimes, Marcelo foi condenado por associação criminosa (inicialmente a 41 anos, mas sua pena foi reduzida a apenas 11 quando seu advogado conseguiu retirar a condenação por terrorismo). Por que Breno, que foi um de seus subordinados, que foi um dos responsáveis pelo Dogolachan na Deep Web exatamente na época do massacre de Suzano, não foi condenado por associação criminosa? Além disso, ele comandava um coletivo neonazi com 82 pessoas. 

Logo não haverá mais pra quem recorrer e Breno será finalmente preso. Não sei quanto tempo ficará preso, mas fico desde já muito feliz que a justiça está sendo feita. 

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

PRA COMEMORAR: MASCU NEONAZI CONDENADO A 15 ANOS DE PRISÃO

Na quinta, o Ministério Público do Estado de SP me enviou um email: 

"Prezada Sra. Lola,

Sabedores dos dissabores experimentados em razão das perseguições promovidas por Breno Alves da Silva, vulgo 'Confederado', valemo-nos do presente e-mail para informá-la acerca de sua prisão, efetivada em 27/10/2021, em decorrência da prisão preventiva decretada por ocasião da prolação de sentença na ação penal proveniente da "Operação Iluminati", que o condenou à penal total de 15 anos e 6 meses de reclusão.

Desejamos que tal informação traga paz ao seu espírito e renove sua confiança na justiça."

Claro que renovou um pouco a minha confiança! Breno era um mascu neonazi da quadrilha do Marcelo que se autointitulava "Confederado" e que me ameaçava bastante. Em junho de 2018, uns dias depois de outro mascu, Kyo (na realidade, André Luiz Gil Garcia), atirar numa mulher que ele nunca tinha visto em Penápolis, SP, onde vivia, e em seguida se matar, Breno fez um vídeo parabenizando Kyo e prometendo que a próxima seria eu. 

Em fevereiro de 2019, poucos dias antes do massacre de Suzano, que foi parcialmente planejado no Dogolachan, Breno me enviou um email festejando o sucesso do chan na Deep Web: "Você perdeu. Nós ganhamos". Afirmou também que estavam arrecadando dinheiro para contratar um matador de aluguel para me executar. 

Num outro vídeo (creio que de 2017) que gravou com seu rosto, mas se apresentando com o nome de um outro mascu, Breno (com a bandeira racista dos estados confederados no fundo) disse que era meu aluno de inglês na UFC e que, por estar sendo reprovado, me perguntou o que eu poderia fazer. Segundo ele, eu respondi que ele poderia trocar sexo pela nota. Como ele recusou, eu passei a persegui-lo, além de assediá-lo na sala, e até hoje eu ligo pra sua casa e mando fotos e vídeos pornôs pra ele. Ele, tadinho, até falou com meu marido, mas Silvio já sabia de tudo e não podia fazer nada, já que eu sou uma pessoa muito importante na esquerda. Breno até tentou falar com a reitora (a UFC nunca teve uma reitora). Por aí vai o festival de fake news.

Mas isso é fichinha perto do que ele fez com outras pessoas. Em 2016 ou 17, Breno, vestido com uma camisa pró-Bolsonaro, agrediu um rapaz negro e gay numa praça em Franca, SP (saiu matéria na TV local). Foi feito BO, e Breno processou o rapaz que agrediu (lógico que abandonou o processo pouco depois). 

No final de 2019, Breno estava aterrorizando uma comunidade gamer. Um rapaz me pediu ajuda, apavorado, e me enviou um dos áudios que Breno lhe havia mandado. No áudio, Breno diz que está indo pra cidade do rapaz estuprar seus dois filhos e sua esposa na frente dele e decapitá-la. Um  horror.

Em janeiro de 2020, a Operação Iluminati fez busca e apreensão e emitiu ordens de prisão em SP, RJ e Franca "para identificar integrantes de organização criminosa que estimula ódio, especialmente contra minorias e mulheres, em fóruns". 

Infelizmente, eles ficaram pouquíssimos dias presos. Assim que foi solto, Breno me enviou email dizendo: "Breno aqui vadia, fui solto hoje às 1hrs... hahahahahah ainda pude beber e aproveitar meu sábado sua obesa, estou gozando de plena impunidade porca. 5 dias só, deu pra engordar e ler uns livros". 

Em fevereiro do ano passado recebi email de uma moça desesperada que já estava sendo perseguida por ele havia três meses. Ele ligava pra ela e jurava que iria estuprá-la, matá-la e depois se matar. A todos, eu recomendava gravar as ameaças, fazer boletim de ocorrência, não responder a ele.

Eu não sei mais sobre o que Breno fez, porque o processo e a sentença correram em segredo de justiça. Mas deve ter sido muito, pra ele pegar 15 anos de cadeia. No dia seguinte encaminhei o email do Ministério Público de SP pra todas as pessoas que eu sabia que Breno havia atacado. 

Na sexta de manhã, recebi email de um outro mascu. Este é um mascu que, pra tentar ser aceito pela quadrilha do Marcelo, gravou alguns vídeos a meu respeito. Num deles ele dizia que eu tinha abusado sexualmente dele num banheiro de um congresso escolar. 

Ele também postou várias ameaças a mim durante pelo menos dois anos e meio. Em algumas ele tirava fotos dele armado. Numa dessas ameaças, ele postou a compra de passagens aéreas da cidade dele para Fortaleza, onde ele iria cometer um "acto sancto" -- me matar e depois se suicidar. 

"Bom dia lola, eu soube através do instagram que um cara que te ameaçava foi condenado a 15 anos. Fiquei feliz também, nunca fui com a cara dele. Até hoje na verdade eu sou perseguido por esses caras. Eu já falei muita merda na internet, me arrependo bastante. Já em 2017 eu tinha te mandado um email dizendo que eu me arrependi e pedindo desculpas. Tem um video no youtube com meu nome completo falando coisas horríveis a seu respeito, alguem tentando me prejudicar colocou aquilo lá no youtube. Gostaria que você soubesse também que aquele careca no video falando merda junto comigo é um dos que tá sendo testemunha contra mim em um processo que o xxxx me processou. Você deve ter muita raiva de mim mas só quero que saiba que eu sou da paz e espero que você nao esteja também movendo um processo contra mim em segredo de justiça. Tenho medo disso. Já que estou desempregado e não tenho condiçoes pra arcar com despesas juridicas. Em fim, não votei no bolsonaro e aquela epoca de jorgice ficou no passado e aprendi bastante com meus erros".

Não é verdade que ele mandou um email pedindo desculpas. Ele de fato me enviou um email em agosto de 2017, dizendo que parou de frequentar o chan depois que divulgaram um vídeo hediondo que ele fez pregando a morte de mães solteiras (outros vídeos que fez ameaçavam uma menina de 3 anos, filha de um mascu rival, de estupro). Na mensagem pra mim ele também emendava: "To mandando esse e-mail aqui pra voce pra vc ver que eu não sou um cara ruim, eu só fazia aquilo pra zoar muito, as pixaçoes de suastica nos muro fui eu mesmo que fiz pkspaoksoakpso mas é passado". Absolutamente nada minimamente parecido com um pedido de desculpas. Nem naquele email nem neste.

Enfim... Foi bacana que a Revista Fórum e o Mídia Ninja espalharam a boa notícia da condenação do Breno. Que isso sirva de aviso para outros mascus que seguem apostando na impunidade.

Ah, uma das pessoas que foram atacadas por Breno e pra quem contei sobre sua prisão me respondeu: 

"Você nos aqueceu o coração com seu email! Não pela merecida prisão daquele crápula, mas por ter lembrado de nós e da nossa angústia. O mundo precisa de mais pessoas como você... literalmente havia lágrimas nos olhos da minha esposa quando contei que você nos escreveu com essa informação".

Também fiquei com os olhos marejados ao ler sua resposta. Pouco a pouco a gente vai tornando o mundo um lugar melhor e mais seguro

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

A MISOGINIA QUE MATOU SOL NÃO É UM CASO ISOLADO

Tem um monte de coisa acontecendo e estou dando muitas entrevistas sobre o caso do gamer que matou Sol. Não estou dando conta! Mas a parte boa é que as/os jornalistas compartilham bastante informação que sabem comigo, e eu compartilho tudo com a delegada do caso. Afinal, todos nós queremos entender e ajudar a elucidar este terrível feminicídio.

Hoje publiquei um artigo na Carta Capital. Reproduzo parte dele aqui: 

Um crime hediondo e ao mesmo tempo aparentemente fútil e inexplicável ocorreu em São Paulo na última segunda à tarde, chocando o país: Guilherme, de 18 anos, matou uma colega gamer, Ingrid, apelido Sol, de 19 anos. Havia um mês que eles tinham se conhecido na internet. Ela foi à casa onde ele morava, e ele a matou com faca e espada. Filmou seu corpo ensanguentado e, no vídeo, exclamou “Olha que maravilha!” Ia se suicidar, mas foi convencido pelo irmão a se entregar à polícia. Está preso. 

Às 23:09 da noite de segunda, recebi um e-mail supostamente de Guilherme (de quem eu nunca tinha ouvido falar), com o título “Um ato louvável de Asmodeus”, com quatro links – três de vídeos curtos em que ele se orgulha de ter assassinado Sol, e um com um “livro” de 52 páginas – e um texto que já mostrei aqui.

Por que eu, uma professora universitária de meia idade que não entende nada de games, recebi tal email? 

Pode ser porque Guilherme tinha fé que eu divulgasse sua obra, já que, como ele escreveu, "para a minha pessoa o importante é toda a humanidade ler esse meu livro". Porém, mais provável é que, como tantos frequentadores de chans (fóruns anônimos) misóginos, ele me conhecia, de tanto que seus amigos virtuais falam de mim (nunca positivamente). 

Por ser ativista feminista e ter um blog desde 2008, há pelo menos uma década sou ameaçada e atacada por rapazes de extrema-direita que não odeiam apenas mulheres, mas também negros e pessoas LGBT. Odeiam o mundo, pra falar a verdade. Quase sempre levam vidas miseráveis, sem estudos, sem emprego, sem namorada, sustentados pelos pais, mais especificamente pela mãe. Sentem-se acolhidos em espaços tóxicos e anônimos, em que podem compartilhar seu ódio e fantasias. Uma recorrente é sequestrar alguma menina, prendê-la num porão, estuprá-la e torturá-la até a morte, só pela diversão, só pra demonstrar poder, só pra poder dizer “Olha que maravilha” pros confrades. Outra é cometer massacre numa escola. Engana-se quem pensa que são todos jovens como Guilherme, ou ainda mais novos. Há muito marmanjo de 30, 40 anos. 

Eu li o “livro” de Guilherme. É uma bobagem genérica em que ele se diz uma pessoa boa, planeja um “ataque contra o cristianismo”, sem entrar em detalhes, lamenta ser dependente da mãe, ao mesmo tempo que considera obrigação dela sustentá-lo, e deixa escapar seu rancor por não conhecer o pai biológico ("Se eu tivesse a capacidade de criar leis, uma das primeiras seria: Em caso de abandono de seu filho(a) você estará sujeito a pena perpétua a caminho da pena de morte. A justiça deveria exterminar todos os pais que abandonam seus filhos"). O que se vê no resto do livro é uma decepção amorosa muito grande ("Eu não amo ninguém, a única coisa que amo é a minha missão neste planeta"), um ódio à humanidade (“Eu odeio profundamente essa humanidade, se eu tivesse a capacidade, eu queimava todos, isso é um sonho, ver todos os humanos queimando e gritando, quando eu penso nisso eu me sinto muito bem"), o apreço pelos “soldados” “nesta caminhada” (“Se eles tivessem alguns recursos, como por exemplo armamento pesado, de fato a nossa comunidade daria início a terceira guerra mundial, com o intuito de exterminar a humanidade deste planeta, nós iria matar sem dó e nenhuma piedade"), e uma insistência que ele é mentalmente são ("Cheguei a um nível magnífico onde consigo manter o controle e o equilíbrio entre o meu cérebro e o meu emocional”). Sim, nota-se o nível magnífico de controle e equilíbrio.

Por que Guilherme matou Sol? Não sabemos. Talvez só porque algum channer o desafiou a fazer isso. Talvez porque Sol “atravessou o seu caminho”, como ele disse. Tem toda pinta de ter sido premeditado.

Ontem recebi um outro email “denunciando” que o tal Crazychan que Guilherme menciona seria “um grupo de whatsapp liderado por um adolescente de 14 anos que atua pelo nickname de EPYSP. Este rapaz sonha em se tornar uma figura conhecida na internet, e então recruta as piores pessoas para o grupo dele: crianças de 10-12 anos, e faz com que elas consumam pornografia infantil e divulguem o dia inteiro no grupo de whatsapp dele". 

À noite, como que para complementar a descrição, um covarde me ligou para me ameaçar: se eu não tirasse a menção ao Crazychan do meu blog, ele iria me matar. Pedi pra falar com a mãe dele. Eu queria perguntar se ela sabe que seu filho passa a vida ameaçando mulheres na internet. 

Outra informação que tive, e que passei imediatamente à delegada que investiga o caso, refere-se a um post publicado no Firechan, uma extensão do Dogolachan (o criador desse chan foi preso em 2018 e condenado a 41 anos de prisão por vários crimes como racismo, terrorismo, associação criminosa e pedofilia). 

Um tal de “Ghostfag” se apresentou como mentor de Guilherme, que pensava que o jovem gamer iria cometer um ato terrorista como bombardear uma escola ou igreja em vez de matar uma “vadia e-girl”. Conta Ghostfag: “Decidi ajudar já que há tempos não temos um sacrifício decente ao recinto, qualquer tentativa de obter um pouco de sangue para destravar as engrenagens da máquina do ódio é sempre bem-vinda”. De acordo com o “mentor”, Guilherme parecia apaixonado por Sol, mas iria matá-la caso ela “desistisse” de cometer o ato na igreja com ele. 

Ghostfag termina: “Guilherme é nosso irmão, soldado que jamais deve ser esquecido! Tenho orgulho de poder participar de um momento tão lindo no recinto confrades, saibam que a luta continua, por mais que os tempos sejam obscuros a palavra de Kyo segue com força total na mente dos nossos jovens dogoleiros! Não há judeu, feminista ou esquerdista que possa nos deter”. 

Leia o restante do meu artigo na Carta Capital.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

AMEAÇAS A VEREADORAS NEGRAS E TRANS NÃO DEVEM SER TRATADAS ISOLADAMENTE

Creio que foi Ana Lúcia Martins (PT), primeira negra eleita vereadora em Joinville, a primeira desta nova leva de políticas formidáveis a receber ameaças e xingamentos. No dia 22 de novembro, um rapaz de 22 anos de um bairro periférico da maior cidade do Estado foi alvo de busca e apreensão na sua casa -- aliás, na casa da mãe, que o sustenta. Parece que ele conseguiu engolir o chip do celular. Ainda assim, terá que alegar muita esquizofrenia pra se livrar da pena de 2 a 5 anos de cadeia. 

Como o caso teve bastante repercussão, suponho que isso gerou inveja numa quadrilha neonazista e misógina, a dos Homens Sanctos, que espalha seu ódio principalmente através de um chan (um fórum anônimo, um image board), o Dogolachan. O líder e criador do chan, Marcelo Valle Silveira Mello, foi preso em maio de 2018 pela Operação Bravata, e condenado a 41 anos de prisão por terrorismo, racismo, pedofilia, incitação à violência, entre outros. Atualmente está no presídio federal de Campo Grande.

Em fevereiro último, um moderador do chan, Raphael Imbuzeiro, parceiro de Marcelo de longa data, mais conhecido como Technomage, se matou. Ele e outros quatro mascus foram alvos em janeiro da Operação Illuminate. Sofreram busca e apreensão em suas casas e ficaram uma semana presos. Mas não há informação. Não sei se os inquéritos foram adiante.

Em junho de 2018, André Gil Garcia, mais conhecido como Kyo ou Fuego Sancto, um outro moderador do chan, que agia junto a Marcelo pelo menos desde 2010, se suicidou, não sem antes matar Luciana, uma moça que ele jamais havia visto e vice-versa, na rua da cidade onde morava, Penápolis, SP. 

Em julho do ano passado, outra moderadora do chan, Caroline de Paula Dini, que usava o codinome Emma ou Maria Dolores (dizia ser minha filha), matou junto com o namorado uma amiga em Ubá, MG, a jovem Elídia Geraldo. Caroline está presa desde então.

Essas são provas inequívocas de que o crime não compensa e de que ninguém melhorou de vida após fazer parte de grupos que promovem ódio. Mas há no mínimo uma pessoa que integra a quadrilha e que nunca foi presa. Seu apelido é Goec. Seu nome, eu tenho quase certeza qual é. É um brasileiro neonazista que mora na França. A Polícia Federal tem seu nome, carteira de identidade, e até endereço desde 2017. Eu entrava no chan para monitorar, alguém deixou lá as informações, eu tirei print e mandei pra PF.

Goec surgiu no Dogolachan no final de 2016. Começou me alvejando para cair nas graças de Marcelo. Como ele tinha acesso a um banco de dados completo, era capaz de fazer doxxing (encontrar e divulgar informações pessoais de alguém) bem detalhado. Suas primeiras vítimas foram leitoras minhas. Ele até criou um nome pra isso: "Jabbeira do Dia" (eles me chamam de "Jabba", logo, "jabbeira" deve ser quem me segue, imagino). Qualquer uma que se comunicasse comigo pelo Twitter seria marcada e receberia ameaças por email. Muitas vezes as ameaças vinham com chantagem: ou você me paga não sei quanto, ou mataremos sua mãe, que mora no endereço tal. Várias leitoras fizeram boletim de ocorrência.

Em dezembro de 2016, dois dias antes do Natal, Goec enviou um email terrorista para o reitor da universidade onde trabalho, a UFC. Ele dizia ao reitor que ou ele me exonerava, ou haveria um atentado a bomba que mataria 300 pessoas. O reitor levou o email para a PF, eu fui chamada para depor, e assim os mascus finalmente passaram a ser investigados por um crime mais sério, o de terrorismo. Se não fosse isso, talvez Marcelo não tivesse voltado à cadeia. Tanto eles sentiram o golpe que Goec, em janeiro de 2017, enviou vários emails para o reitor e a polícia pedindo desculpas, dizendo que não iria realmente cometer um atentado, era só que eu sou uma pessoa tão ruim que despertei os piores sentimentos nele.

Enquanto pedia desculpas, Goec continuava ameaçando deus e o mundo. Passou a atirar em todas as direções. Além de ligar para a casa de um delegado e escrivão da PF de Fortaleza, mandou ameaças para Joice Hasselmann, Carla Zambelli, Jean Wyllys (ameaçado desde 2011, assim como eu), o escritor Anderson França (que teve que se exilar em Portugal), Janaina Paschoal, Trump, Marcela Temer (parece que as ameaças a ela foram com o meu nome), e, mais recentemente, os ministros do STF e Allan dos Santos. 

Ou seja: ele faz isso há muito tempo, pelo menos desde 2016. Às vezes envia essas ameaças assinadas por Emerson Eduardo Rodrigues, um outro mascu neonazista que está foragido na Espanha. 

No final de 2017, Goec criou um site de ódio, o Rio de Nojeira, e colocou como autor um antigo desafeto, Ricardo Wagner Arouxa. Quando o site viralizou, muita gente acreditou que Ricardo de fato estava por trás, o que denota uma certa ingenuidade. Quase sempre, as ameaças e sites de ódio são obras de anônimos. Os nomes que aparecem como autores são quem os autores tentam incriminar.

Bom, certamente Goec deve ter se sentido mal que um joinvilense principiante de chans ameaçou Ana Lucia Martins antes dele e ganhou repercussão na mídia. Então Goec também enviou ameaças a ela. E a várias outras vereadoras negras e trans que foram eleitas. Duda Salabert (PDT), uma mulher trans e a vereadora mais votada de BH, recebeu quase o mesmo email que Ana Lucia, só que com ofensas transfóbicas em vez de racistas. Carol Dartora (PT), a primeira vereadora negra de Curitiba, recebeu email idêntico ao de Ana Lucia. Goec vem agindo no copy & paste mesmo.

Alisson Julio (Novo), que é cadeirante, foi o primeiro vereador com necessidades especiais eleito em Joinville. Ele manifestou sua solidariedade a Ana Lucia e também recebeu email com ameaças (e ofensas capacitistas). 

A primeira prefeita da história de Bauru, SP, Suéllen Rosim (que é evangélica, negra, jovem, de partido de direita, o Patriota), também recebeu ameaças. Mas no caso dela, assim como no de Ana Lucia, as primeiras ameaças pelo jeito não vieram do Goec, mas de algum amador local. No dia 3 de dezembro, um homem negro de 37 anos foi identificado pela Polícia Civil como autor de uma das mensagens racistas. Usando perfil falso, escreveu que Bauru  “não merecia ter essa prefeita de cor com cara de favelada comandando a nossa cidade. A senzala estará no poder nos próximos quatro anos”. No interrogatório, inventou que o objetivo era instigar pessoas de um grupo no FB a publicar comentários mostrando que elas são racistas. Ele será indiciado.

Boa parte desses emails com ameaças terroristas vêm assinados por Ricardo Wagner Arouxa, a quem Goec passou boa parte de 2017 e 2018 tentando incriminar. Os emails dizem "Eu estou desempregado, minha esposa está com câncer de mama e vivendo do auxílio emergencial", antes de partirem pras ameaças terroristas. Ontem falei um pouco por email com Ricardo. Pra piorar a situação, sua esposa está com câncer. De verdade.

Ricardo me disse: "Eles realizarão uma série de ataques, sempre escolhendo alguma minoria, na expectativa de viralizarem novamente. Ao invés de focarem um ataque só, resolveram atacar o Brasil inteiro, usando meu nome. O que acaba até mesmo fragilizando os próprios ataques (mas obviamente o que eles querem não é criar terror contra ninguém em específico mas sim, voltarem a ser notados pela mídia)".

Na época do Rio de Nojeira, Ricardo não só fez boletins de ocorrência, como um inquérito foi aberto. Porém, quando o interesse da mídia pelo caso acabou, aparentemente também acabou o interesse da justiça. A última notícia que Ricardo teve é que o inquérito foi transferido para a PF. Não sabe se foi arquivado. Ele, que já trabalhava com informática, agora está na área de segurança digital. 

Até o momento, essas novas tentativas de incriminá-lo não surtiram efeito: "Como já existe amplo material atrelado ao meu nome completo, explicando os casos no passado, quem faz a busca acaba replicando para os demais que trata-se de uma sequência dos ataques lá de trás. Minha vida está tranquila quanto a isso, sem ninguém me mandar ameaças publicamente ou mesmo em minhas redes no privado".

Ricardo tem a mesma impressão que eu sobre a polícia. Primeiro: que os sistemas não são integrados, o que dificulta demais as investigações. A PF do Rio, onde ele mora, não tem contato com a PF do Paraná, onde Marcelo e Emerson moravam, por exemplo, ou do Ceará, onde eu moro. As polícias tampouco dialogam entre si. Ricardo conta um fato escandaloso: quando ele esteve na PF para depor no início de 2018, cerca de dois meses antes de Marcelo ser preso, os agentes do Rio nunca tinham ouvido falar nele! Quer dizer, havia um criminoso ameaçando pessoas e instituições desde maio de 2013, e a PF do Rio, que estava investigando o Rio de Nojeira (cria do Goec e do Dogolachan, enfim, da quadrilha do Marcelo), não sabia quem era o Marcelo!

Portanto, há incompetência da polícia, que não está integrada, e que muitas vezes nem sabe o que está investigando, há falta de interesse, falta de vontade política (já que várias das pessoas ameaçadas somos opositoras do governo de Bolso, e todo o Dogolachan é seu fã de carteirinha). Para Ricardo, "Falta definir uma equipe a nível nacional para receber esses inquéritos (que devem ser inúmeros)". Em termos de equipamento e conhecimento, segundo Ricardo, a delegacia especializada em crimes cibernéticos "parecia anos 50, tecnologicamente falando. É tudo completamente isolado. Em pleno 2020 os sistemas não 'conversarem' entre si beira o surreal".

Diz ele: "No caso do meu inquérito, eu via que ele ficava parado por falta de materialidade suficiente para o promotor acatar a denúncia. Por isso, sempre ficou sendo segurado, enquanto eu alimentava com o maior número de informações possíveis". 

Quanto à doença de sua esposa, espero que ele melhore logo. Ricardo conta: "O tratamento dela termina terça agora e o próximo passo é a cirurgia. Estou fazendo de tudo para que essas notícias recentes não a atinjam e nem gerem qualquer tipo de problema para ela". 

Como se pode ver pelo depoimento de Ricardo, estamos jogados à própria sorte. Um brasileiro criminoso que mora na França pode seguir tentando incriminar um cara com quem ele brigou há muitos anos numa comunidade do Orkut. E pode continuar sendo racista, transfóbico, capacitista, misógino, e prometer atentados terroristas com políticas que representam a mudança. Goec age dessa forma desde o final de 2016. São mais de quatro anos de total impunidade! 

Peço às vereadoras, ao vereador, à prefeita, que não se desesperem, que não tenham medo. Embora a quadrilha do Dogolachan seja perigosa, ela é mais de latir do que de morder. O que Goec deseja com esses emails, além de tentar incriminar Ricardo, é silenciar as políticas através do medo, viralizar, conseguir mídia (pra eles é uma vitória), e, óbvio, divulgar sua ideologia de extrema-direita, racista, misógina, LGBTfóbica.

Que a mídia e as polícias entendam que essas ameaças não são casos isolados que caíram de paraquedas. Portanto, não devem ser analisadas ou investigadas separadamente, e sim em conjunto. Todas nós exigimos respostas e justiça. Não podemos ser tolerantes com os intolerantes.