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domingo, 20 de julho de 2008

MEUS AMIGUINHOS NO ZÔO DE DETROIT

Fomos ao zoológico de Detroit semana passada, pela segunda e última vez. Foi tudo ótimo. Vi dois rinocerontes e agora tenho a impressão de saber tudo sobre eles. Vou compartilhar todo o meu vasto conhecimento com vocês: sabiam que eles têm dois chifres, um maior e outro menor, e que ambos são feitos do material parecido com as nossas unhas? Às vezes esses chifres caem, mas crescem novamente. Rinos são o segundo maior mamífero terrestre da Terra, só perdendo pro elefante (uma vez eu vi um Discovery Channel da vida em que eles falavam que elefantes eram os maiores mamíferos terrestres do mundo, e imediatamente perguntei pro maridão: “Maiores que as Lolinhas?”, e ele: “Você é mamífero?”). Rinos têm olhos pequenos e não enxergam muito bem, mas ouvem que é uma maravilha, por conta de suas orelhas giratórias. E o olfato também é um primor. São estritamente vegetarianos e são considerados “arquitetos de suas paisagens”, porque comem a vegetação em volta, e levam sementes pra outros lugares. Precisam de muitos banhos de lama pra se proteger das picadas dos insetos. O que eu adoro sobre os rinos é que eles parecem tão antigos. Devem ser da época dos dinossauros, ou quase.Daí fomos ao covil dos dois tigres mais ativos que já vi na vida. Porque felinos, em geral, bom, digamos que são conhecidos por dormir muito. Pra mim, esse é um exemplo de como a natureza é sábia. Imagina se leões, grandes, fortes e predadores do jeito que são, fossem ativos como esquilos? Não ia sobrar nada pra contar a história. Então a natureza fez de leões máquinas mortíferas... e os pôs pra dormir durante dois terços do dia. Do lado do covil dos tigres havia um leão e uma leoa – ambos no sétimo sono, claro. Mas os tigres estavam numa atividade febril. Não sei se haviam comido ou o quê. Eles pulavam e corriam. Havia uma espécie de barril que usavam pra brincar, como se fossem dois gatinhos. Aliás, são dois gatinhos. Impressionante como têm exatamente os mesmos movimentos dos gatos domésticos, só em tamanho menor. Portanto, pessoas problemáticas que dizem não gostar de gato, sejam coerentes. Não gostam de gatos, não podem gostar de tigres, leões e panteras. Porque um é o focinho do outro.Um dos tigres até entrou numa lagoinha. Nunca vi um tigre entrar na água. Okay, talvez nesse sentido eles não sejam idênticos ao meu gatinho Calvin, que não toma banho há sete anos.

Passamos também por um borboletário. É bonito, e há duas portas pra entrar e sair, com guardas do zôo. As duas nunca podem ficar abertas ao mesmo tempo, pra evitar que borboletas saiam. Elas são lindas e tal, mas vamos ser francos: não vamos a zoológico pra ver borboleta. Borboleta tem no meu jardim em Joinville, quando o Calvin tá dormindo. O que é o caso em dois terços do dia (vide “natureza é sábia”).Ai, as focas. Depois de aprender tudo sobre elas, odeio mais ainda quem usa casaco de foca. Como que pode? A carinha delas é tão parecida com a dos cachorrinhos. Lá no zôo de Detroit, dá pra ver as focas por cima e por baixo da água. Por baixo é melhor, já que elas passam a maior parte do tempo dentro da piscina. Ah, dá pra ficar o dia todo lá, vendo as foquinhas. É tão relaxante. Duas nadavam sempre juntas e formavam um casal. Conversei com uma guia que me disse que esse casal já passou da época reprodutiva faz tempo, mas ainda se ama muito – o que era visível. Uma foca em cativeiro vive trinta anos. Aquelas já estavam bem velhinhas e tinham catarata. Uma havia nascido em 1981, e a outra, em 1984. Mas ninguém avisou pra elas que estavam na reta final da vida. E, pelos movimentos e a felicidade, eu não diria nunca que elas estão pra bater as barbataninhas já já. Chuif. A guia me disse que não virão novas foquinhas, já que as regras pra reprodução de animais nos zoológicos, transferências e aquisições são muito rígidas.Havia uma outra foca que ficava mais solitária num cantinho e não se mexia tanto. Essa foi salva pelo zôo. Era lá de Michigan mesmo, e havia levado um tiro na cabeça. Estava cega. Alguém pode me explicar como o ser humano, tido como racional, faz uma maldade dessas?

Também vimos duas águias, típicos símbolos americanos. Elas estavam num lugar aberto, sem grades. Era um casal (águias formam par pra vida toda), e cada uma só tinha uma asa. Também haviam sido resgatadas pelo zôo. Muito lindas, elas podem viver 40 anos em cativeiro. E fazem um barulhão quando alguém (funcionário do zôo) invade seu território. Veja na foto como elas realmente adotam a mesma atitude de um casal humano antigo.

Gosto de ir a zôos e adoro os animais. Não sei se há cidade americana média sem zoológico, e cada um deve ter verba maior que todos os parques de algum país pobre. É chocante, às vezes, visitar zôos brasileiros, argentinos e uruguaios, e ver pouco espaço, ou espaço descuidado, ou poucos funcionários, ou – o pior que pode acontecer – criança jogando pedra nos bichos. Imagino que isso seja impensável nos EUA. O que a gente faz com uma criança que joga pedrinhas num bicho preso? Mais que punir, tem que educar. O mesmo não se aplica a quem atira numa foca ou numa águia. Esse, por mim, podia virar ração de tigre, ou adubo pra matinho de rinoceronte.Já viu spa de tigre? Pois é, pra mim foi a primeira vez.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

E NÓS COM ISSO?

Eu, o urso, e o voluntário que não acredita em aquecimento global


No último dia fomos a um dos zoológicos de Chicago, logo um que é dos últimos zôos grátis nos EUA. É muito legal poder entrar e sair de um zôo imenso, como se fosse um parque. Tá certo que os pobres bichinhos não têm o mesmo direito de ir e vir, mas eles parecem ser muito bem tratados. Já que estou divagando, preciso dar minha opinião sobre zoológicos: não tenho opinião formada. Fico morrendo de pena de ver os animais presos (chorei ao trocar olhares com um gorila triste), mas, ao mesmo tempo, sabe-se lá se esses animais estariam vivos ao ar livre, num mundo tão dominado pelos homens. Por exemplo, numa das placas li que um leão vive quinze anos no seu habitat e 25 em cativeiro. Se eu fosse um leão, preferiria ter uma vida mais longa garantida, e cheia de confortos, numa jaula enorme, ou arriscar o dia-a-dia numa selva tão perigosa?

Enfim, lá estávamos nós passeando pelo zôo quando fomos totalmente cativados pelo urso polar. O belo urso branco dispõe de grande espaço, mas ontem ele estava mais interessado em nadar. E os visitantes podem descer pra olhar o urso dentro d'água. E dá-lhe ursinho dando rasantes no vidro, usando o vidro pra ganhar impulso com as patas, encostando o focinho no vidro, e tudo mais (na realidade, ele vinha sempre na direção de um menininho nos braços da mãe, também colado no vidro. Uma hora o urso inclusive abriu o bocão, tentando abocanhá-lo. Acho que estava com fome). Lá pelas tantas surgiu um guia voluntário do zôo pra responder dúvidas sobre ursos polares. É óbvio que aproveitei pra fazer todo tipo de pergunta esdrúxula, mas em compensação descobri que esse urso mora com a irmã (que devia estar dormindo), se alimenta de peixes vivos e uma espécie de ração (e não de focas, como degustaria no seu habitat), e que sua patada equivale a uma martelada de não sei quantos pounds, porque esses americanos insistem em usar esse sistema métrico incompreensível. Então eu quis confirmar se esses maravilhosos bichos estavam ameaçados de extinção por causa do aquecimento global, que derrete as placas de gelo e faz ursinhos morrerem afogados, por não terem lugar pra descansar no meio do oceano (essa informação eu peguei do documentário do Al Gore – não tem jeito, tudo que sei aprendi no cinema). O guia disse que talvez, que essa questão era muito política, que até podia ser real, mas que nem eu nem ele estaríamos vivos nos próximos cem anos (nesse ponto eu quase interrompi com um “Fale por você”, mas ele tinha fugido tanto do tema que ficou difícil argumentar). Ou seja, esse senhor rapidamente esqueceu o urso e se pôs a falar sobre como, pra diminuir o aquecimento global, muita gente perderia o emprego. Eu tentei dizer que, sem o planeta, não haveria empregos de qualquer jeito, mas ele me cortou com algo do tipo: “É, eu sei, é polêmico, mas não dá pra nós americanos controlarmos o que seis bilhões de pessoas fazem com o mundo”. Nesse ponto eu não me contive e disse: “Ajudaria se vocês americanos, os maiores poluidores do planeta, pelo menos fizessem a sua parte”. Pouco depois o guia foi embora e nós continuamos admirando o urso.

Mas estou chegando à conclusão que essa ingenuidade americana é uma praga, uma hipnose coletiva. No mesmo dia, voltando pra Detroit, sentamos ao lado de um grupinho de três estudantes. No ônibus havia mesas, e os jovens usaram uma delas pra comer montes de hamburgers, um banquete de junk food. Eles saíram antes da gente, mas uma mocinha do grupo voltou pra checar se não tinham esquecido alguma coisa. Eu vi um papel embaixo das poltronas deles e apontei, ao que a estudante respondeu: “Obrigada, mas acho que não é nosso”. E saiu, deixando o lixo pra trás. Parece familiar?