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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

SE EU FOSSE UM BIG MAC

Nos EUA existe o dollar menu nas lanchonetes fast food. No Brasil sanduíche de grife é comida de rico.

Segunda foi um dia especial. Eu e o maridão fizemos o que costumamos fazer sempre numa sexta-feira, mas numa segunda. Fomos ao supermercado e depois ao shopping, carregando as bolsas de pano com a comida (porque não usamos sacolas de plástico), pra ver um filme. Foi estranho porque o super se encontrava lotado, em plena segunda. Imagino que o pessoal estava voltando das férias. Enquanto esperávamos na fila, a caixa e sua colega, que ajuda a embalar as compras, riam com um cliente. Quando chegou a minha vez de ser atendida, a caixa, ainda rindo, falou alguma coisa que não entendi, e seguiu com uma pergunta: “Você já deu a bundinha?”. Eu fiquei confusa, e indaguei: “Foi isso que o cliente perguntou pra vocês?”. E a caixa: “Não, não. A gente tava falando de cerveja. Mas e aí, você já deu a bundinha?”. Frente a minha cara de perplexidade, quiçá até de susto - o que é isso, moça? Eu te conheço? Será que morri e reencarnei na pele de alguma amiga íntima sua? -, ela explicou que “dar a bundinha” tem algo a ver com beber cerveja pelo lado de baixo da lata. Algo assim. Eu só pude balbuciar: “Eu não bebo”. E fui embora rapidinho.
O ano começou bem, como você tá vendo.
Chegamos ao cinema, que tinha uma fila imensa pra ver E se eu Fosse Você 2. Deixei o maridão na fila, e fui comprar um mini-calzone que pra mim é a última sensação: vem carne cortada em cubinhos com quatro queijos. Enquanto não viro vegetariana, muito menos vegana, devo declarar que amo carne com queijo, e que não sei como os judeus, com sua cozinha kosher que não permite misturar carne e leite, fazem pra se divertir. Enfim, aquele mini-kalzone custa 5 reais. Eu acho caro, porque o trequinho é pequeno, mas praticamente não há outra coisa pra se comer num shopping por esse preço. Aí, passando pelo McDonald's, vi o preço do Big Mac. Foi chocante. Cheguei na fila e disse pro maridão: “Amor, chuta quanto custa um Big Mac aqui no Brasil”. E ele: “Não sei: seis reais?”. Eu: “Ahn, não.”. Ele: “Cinco?” Eu: “Não”. Ele: “Menos que cinco não deve ser”. Eu: “Você tá falando em dólar ou em real?”. Quando lhe contei o preço - doze reais! - ele quase caiu de costas em cima de alguém na fila.
No ano em que vivemos nos EUA, comemos pouquíssimas vezes no McDonald's . Quando comemos, foi só porque estávamos com fome e queríamos economizar. Lá e nas concorrentes eles têm o que chamam de “one dollar menu”, o cardápio de um dólar. Um cheeseburger sai por um dólar. Um sundae. Um pacotinho mini de batata-frita. Tudo um dólar cada. Que eu saiba, não existe alimento pronto mais barato que se se possa comprar nos EUA. Ou seja, McDonald's é comida de pobre. Todos os estudos mostram que, nos EUA, há muito mais lanchonetes fast-food em vizinhanças pobres (e negras) do que ricas. Não sei como é no Brasil. Pode ser que existam McDonald's em favelas, mas duvido que vendam tantos Big Macs de doze reais quanto nos shoppings. Porque, convenhamos, doze reais é dinheiro pra chuchu por um sanduíche. Eu e o maridão debatemos sobre quantos cheeseburgers a um real vendidos na esquina aqui de casa precisaríamos comprar pra ter o equivalente a um Big Mac. Dois? Três, sendo muito generosos? A gente compra três e coloca um em cima do outro, tá bom? Talvez o pão não seja com gergelim, mas acho que consigo sobreviver sem. E alguém vai ter que suar muito pra me convencer que quem come batata-frita tá muito preocupado com gergelim!
Sei lá, eu só acho divertido que comida de pobre americano seja a mesma que dá status à classe média brasileira. Essa mesma classe média que comemora quando um Starbucks ou um Burger King chega ao Brasil, porque isso é sinal de civilização. Lembro quando o primeiro McDonald's foi inaugurado na Av. Paulista, na década de 80, e o pessoal só faltava se ajoelhar diante de tanta grandeza. Era como se Tio Sam tivesse tido piedade de nós.
E aí fomos ver E se Eu Fosse Você 2. Eu não sou uma completa idiota. Imaginava que, com aquele trailer, e com o primeiro filme sendo a bomba que é, a sequência não seria boa. Mas sabe quando a vontade de ir ao cinema ver qualquer coisa fala mais alto? E eu gosto do Tony Ramos. Mas o filme é revoltante! Reforça todos os estereótipos de como homens e mulheres devem se comportar numa sociedade machista. Mesmo o pessoal que morria de rir com as piadas esdrúxulas engasgou numa cena em que a mulherzinha diz que quer do ex-marido apenas uma pensão de 4 mil reais por mês. Isso não é dito com suprema ironia - alguém até lembra que a maior parte da população sobrevive com menos. Eu me pus a calcular rapidamente quantos Big Macs dava pra comprar por mês com essa pensão. Deu uns 300. De onde deduzi que sim, é possível viver com tão pouco dinheiro no Brasil. E sem precisar fazer o que a caixa do supermercado perguntou se eu fazia.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

CRÍTICA: SE EU FOSSE VOCÊ 2 / Mostruário do machismo

Gloria no corpo de Tony faz o que as mulheres sabem fazer: gastar e passear em shopping.

Se eu Fosse Você 2 é o pesadelo de toda feminista que luta pela abolição dos estereótipos de gênero (sabe, supor que mulher gosta de rosa, homem de azul; que mulher é frágil, homem é forte etc etc). Não que ele seja o único pesadelo. Parece que tantos filmes e outras produções culturais são feitas pra reforçar esses clichês de que mulher é assim, homem é assado, que não tem nem mais graça. Minha mente se encarregou de apagar tudo do primeiro filme, mas pelo jeito é o mesmo do segundo: Tony Ramos e Gloria Pires são marido e esposa que, sem nenhuma explicação convincente, trocam de sexo. Tony se aprisiona no corpo de Gloria e vice versa, mais ou menos como acontece com o Steve Martin em Um Espírito Baixou em Mim. O que se segue é um bando de chiste do Tony agindo afeminadamente e nos lembrando como homofobia e machismo sempre caminham juntos.
Um dos maiores problemas é que vemos um pouquinho, uns quinze minutos, do Tony e da Gloria nos seus corpos usuais, e eles não são estereótipos tão exagerados. Gloria só vira mulherzinha frágil, tonta e indefesa quando vai pro corpo do Tony. Tony só se transforma num grosseirão autoritário quando está no corpo de Gloria. Se eles não capricham nos clichês, a comédia não existe. E a platéia é cúmplice em gargalhar de gagues ultrapassadas. Riu pra valer do Tony jogando futebol (tá no trailer), tentando encontrar um banheiro, e sendo cantado pelo professor de ginástica. Mas mesmo um público muito complacente com essas bobeiras deu uma leve engasgada quando Tony e Gloria discutem um eventual divórcio. Tony no corpo de Gloria decreta, sem ironia, que ela vai receber “apenas” 4 mil reais por mês de pensão, e que a maior parte da população brasileira consegue se virar com essa mixaria. Dê sua engasgada também se você acha que com 4 mil por mês dá pra levar um vidão. Eu fico só imaginando como devem ser essas reuniões entre roteristas da Globo e o diretor Daniel Filho. Alguém diz: “Então vamos fazer ela sobreviver com uma pensão de dez mil reais e...”. Outro: “Dez mil? Pode parecer muito pra alguns espectadores. Vamos reduzir um pouco”. “Tá, então vamos dizer dois mil”. “Dois mil? Você tá louco? Aí também não! Temos de ser realistas! Ninguém vive com isso!”. Então um grupo que ganha mais do que merece fixa um valor que não tem nenhuma conexão com a realidade.
E pra mostrar como capitalismo e machismo estão interligados, os homens de Se eu Fosse têm profissões. O Tony é dono de uma agência de propaganda, o Chico Anysio, que eu odeio com todas as forças (sempre odiei, antes d'ele se casar com a Zélia Cardoso de Melo, ministra do Collor) é um construtor milionário, o filho dele é botânico, e há alguns advogados. Enquanto isso, a Gloria não trabalha, a filha adolescente da Gloria vai acompanhar o botânico pra onde ele for, a mulher do construtor, Maria Luisa Mendonça, acha que homem serve pra fornecer cartão de crédito, e por aí vai. Como as mulheres do filme não têm a menor ambição, elas passam seus dias comprando roupa e planejando casamentos. A gente vê a diferença quando a filhinha conta que está grávida. A mãe fica feliz e radiante, já que esse é o destino de toda mulher - ter filhos e cuidar deles, e tanto faz se a filha se casa com 25 ou com 16 anos -, e o pai se revolta. Não porque a filha é muito nova, mas porque ele imaginava que ela fosse virgem. Lindo, não?
O filme incentiva a gravidez na adolescência (algumas semelhanças com Juno). A gente não sabe ao certo quantos anos tem a menina (o rapaz tem 22), mas ela parece ser tão jovem quanto péssima atriz (veja a cena em que ela chora ao conversar com a mãe. O público engasgou nesse momento também. É de deixar qualquer um boquiaberto, sério). Os pais do noivo, também felizes e radiantes com a notícia da gravidez, vão dar ao jovem casal logo duas casas, uma no campo, outra na cidade. Eles não querem nem ouvir falar de aborto, já que são católicos, anuncia o patriarca. E os pais da noiva vão chorar comovidos no casório que, como manda a tradição - e o filme está aí pra reiterar todas as tradições - eles têm que pagar. Já não é uma herança machista que o pai da noiva pague o casamento? Por que será que isso acontece? É porque o pai precisa agradecer que algum homem vai cuidar da filha, pois destino de mulher direita é esse, passar das mãos do pai pras mãos do marido, sem intermediários. Se eu Fosse Você 2 é um filme do século retrasado (e vem aí outra sequência). Que o público goste tanto dessa baboseira mostra o quanto ainda precisamos percorrer pra criar uma sociedade igualitária.