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Koppe, um leitor antigo aqui do blog, viu este quadrinho da Elise Gravel sobre a história da roupa para meninas e meninos e decidiu traduzi-lo.
Vai que desenhando a sinistra Damares entenda...
Diante das reclamações, a Dafiti explicou que o produto era da responsabilidade de um de seus parceiros, a Eiblu, que foi descredenciada. Retirou a camiseta do ar, pediu desculpas, e afirmou "repudiar qualquer tipo de manifestação de preconceito e discriminação". Menos mal, né?
Outra violência vem do tipo de "jornalismo" que eu pensei que (assim como o colunismo social) já estivesse extinto. É aquela seção que fotografa mulheres na rua e dita se aquele look está "certo" ou "errado". Porque alguém morreu e nomeou o jornalista Deus pra decretar verdades absolutas sobre moda.
De todo modo, a coluna traz duas fotos com o rosto coberto por um desenho, para evitar processos (afinal, você não pode tirar foto de alguém na rua -- ou na internet -- e ofendê-lo; existe uma coisa chamada "concessão do uso de imagem", ou "termo de cessão de direitos para uso de imagem", como qualquer pessoa que já apareceu na TV ou num vídeo sabe). A primeira diz:
E a outra: "Não pode. Se você está naqueles dias em que não está a fim de se produzir, melhor não sair de casa então. Para não dar nisso. Nesse look deprimente, com bermuda apertada e barriga saltando, chinelão 'véio' e camiseta desbeiçada. Acho que nem para dormir sozinha essa produção passa. Eu ficaria com vergonha de mim mesma".
Chato ver meu nominho sendo usado pra isso, mas obviamente não é pessoal e duvido que a jornalista me conheça. "Lola" é um nome fofo que vem cada vez mais sendo usado para ser marca de roupas, cosméticos, cabeleireiros, animais de estimação etc. Aqui, como o pseudônimo da jornalista é "Lolô", suponho que ela use "lola" como sujeito de suas críticas, que nada mais são do que puro "body shaming". Em outras palavras, você pega uma parte do corpo de uma pessoa, quase sempre mulher, e a humilha por isso. Nas duas imagens, vemos uma mulher acima do padrão de beleza magérrimo. Logo, ela nem deveria por os pés na rua, segundo a colunista, porque é "um crime" usar blazer "estourando o botão", ou "bermuda apertada", "barriga saltando".
O que mais me choca é a ordem de que, se você não quer se produzir, não saia de casa. A rua é pública, não é uma passarela. Mulheres saem de casa por mil e um motivos, e não precisam estar impecáveis, muito menos para agradar homens ou colunistas de moda. Eu sempre lembro de alguma dessas colunas dizendo na minha infância e adolescência que a mulher têm que estar sempre maquiada, bem vestida, cabelo lindo, salto alto, até quando vai à padaria, porque nunca se sabe quando vai encontrar o príncipe encantado (o meu -- se é que alguém ainda acredita nessa asneira de príncipe -- eu conheci num torneio de xadrez, sem maquiagem nem salto alto).
É esse tipo de baboseira que se ensina às meninas desde muito cedo, que as mulheres devem ser decorativas, devem viver em função de seduzir homens. Até na hora de dormir sozinha precisamos estar maquiadas!
Todo mundo conhece o "ditado" "Não existe mulher feia, existe mulher sem dinheiro", ou, mais direto ainda, "Não existe mulher feia, existe mulher pobre", associando assim, na cara dura, pobreza à feiura. Ai de você, mulher pobre, que não tem grana ou tempo para um banho de loja ou uma academia ou uma cirurgia plástica. Seu destino é ser fotografada sem permissão na rua para servir de exemplo negativo de aparência (e ai de você se você tem dinheiro -- meu caso -- mas tem mais o que fazer além de se render a um padrão inatingível de beleza. Você também será perseguida).
Mas sabe o que é bacana? É que o segundo look, de uma mulher com camiseta, bermuda ou short e chinelo, é o que eu mais vejo na rua. Aliás, não só na rua, mas nas universidades também. Grande parte das alunas se veste desse jeito, pelo menos aqui no Nordeste, que é quente pacas. E elas se sentem ótimas, confortáveis, poderosas. Óbvio que nem andar "desleixada" as salva de serem assediadas na rua, mas esse é outro assunto.
O tutorial de maquiagem, em que a sorridente apresentadora instrui "Depois do espancamento, essa parte do rosto ainda está sensível, então não pressione", foi amplamente repudiada em todo canto. As feministas marroquinas começaram uma petição clamando para não cobrir violência doméstica com maquiagem. E a TV se retratou.
Nunca senti vontade de usar vestimenta considerada muito “feminina”, “chamativa”, “decotada”. Esse distanciamento com relação à preferência por roupas desse feitio me trazia uma incógnita -- por que muitas meninas e mulheres gostam desse tipo de roupa? Uma resposta possível, porém questionável, seria a de que vivemos em uma sociedade livre, em que temos o direito de nos vestir como bem entendemos.
Comecei a ler o livro Backlash, da Susan Faludi, em concomitância com O Mito da Beleza, da Naomi Wolf. Qual não foi minha surpresa ao encontrar posts no seu blog referentes às duas obras. E em decorrência disso pensei em escrever a você sobre o assunto.
Tenho problemas em encontrar shorts que cubram metade da canela, a regra é short ultra curto. Dizem que vende mais, mas “vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?”. Peças cavadas e decotadas são o hype. Fomos nós mesmas que assim decidimos? Pelo que sei da indústria da moda, tenho sérias dúvidas. Antes mostrar a pele era tabu. Hoje, parece que criamos um tabu novo.
Entendo muito pouco de pornografia. Já ouvi dizer que parcela do que usamos no nosso cotidiano já foi fetiche exibido em filmes para as gerações passadas. Creio que há quem diga que nossa indumentária contemporânea é fruto da libertação sexual da mulher. Mas será mesmo? Não estamos vivendo um conservadorismo velado, às avessas? Nossas festas de carnaval exibem mulheres nuas, nossa sociedade nos conserva reprimidas. Podemos (e até devemos) trabalhar fora de casa, porém os papéis de gênero seguem quase intocados para grande parcela da população.
Um trecho do livro Cisnes Selvagens, da autora chinesa Jung Chang, cita brevemente que o comunismo de Mao acabou com o poder de decisão das pessoas sobre o que vestir. A vontade de se expressar através de indumentárias existia, mas era completamente reprimida. Estamos longe desse tipo de realidade cruel. Algumas religiões ultraconservadoras pregam o uso de certo tipo de vestimenta, mas por lei ninguém é obrigado a se submeter. Estaria a lei nas nossas mentes? Inculcadas?![]() |
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