segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A DIREITA É MUITO, MUITO BAIXA

Ish, desta vez os salafrários realmente me atingiram!

Surgiu uma nova leva de ataques, que começou lá pelo dia 4 de janeiro. 
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Um troll que me persegue faz tempo, um tal de Ines Bolsonaro (nome verdadeiro: Fabiano) pegou um tuíte meu de 2014, em que eu ria de algum troll que havia dito que eu ganhava 10 mil e Silvio, meu marido, 12 mil. Para "provar" que eu estaria mentindo, Ines colocou um print do Portal da Transparência com o meu salário... de julho do ano passado. Quer dizer, depois de uma progressão funcional e dois reajustes que sequer cobrem a inflação, meu salário havia aumentado. 
Porém, o mais mentiroso do tuíte de Ines foi a segunda parte, referente ao meu marido. Num gigantesco esforço investigativo, Ines descobriu que Silvio foi demitido de uma das escolas onde dava aula: "ele foi afastado né? por causa de umas paradas sinistras né contra ai pra nós ou quer que eu conto?" (tudo sic). 
Em seguida, outro tuíte: "A gordassa ta com o cu na mão, Lola conta pra nós porque seu marido foi afastado da escola que ele dava aula, tão simples comentar mana". 
Pensei bastante se respondia ou não a esse patife. Adiei durante dias, porque o que esses dementes mais desejam é algum tipo de diálogo comigo, e eu não falo com reaças ou mascus. Mas não dá pra ignorar e deixar as mentiras crescerem. A direita é tão baixa que ela nem precisa acusar um inimigo de algo específico. Basta apenas sugerir. Se você diz que um professor foi despedido por cometer "umas paradas sinistras", o que as pessoas imaginam? Bem, todo tipo de "suposição" sórdida surgiu nos tuítes do Ines/Fabiano -- meu marido teria transado com uma criança ou com a diretora da escola, ou batido numa aluna, ou roubado dinheiro. 
A verdade? Em fevereiro de 2015 Silvio foi demitido, depois de quase quatro anos naquela escola, porque o Christus simplesmente fechou o programa de xadrez. Na época, havia um outro professor de xadrez na escola (em outra unidade; são várias) que também foi desligado, mas, como ele já dava aula de alguma outra matéria, continuou na escola lecionando aquela outra matéria. Já Silvio, que só dava aula de xadrez -- algo que faz há 45 anos --, foi dispensado. Vários pais e alunos reclamaram do fim do xadrez naquela escola. Alguns contrataram Silvio como professor particular. Ele dá aula para esses alunos até hoje. 
Eu sou suspeita pra falar, lógico, mas Silvio, vulgo maridão, além de ser um dos melhores enxadristas do Brasil, é um excelente professor de xadrez. Seus alunos sempre tiveram ótimos resultados nas competições e na escola (pois o xadrez costuma melhorar o desempenho do aluno em outras matérias). Silvio sempre foi um professor modelo por todas as escolas que passou -- workaholic, competente, querido por todos. Ele ainda conversa com alunxs de quinze, vinte anos atrás, tamanho é seu vínculo com eles. Aliás, se alguém quiser ter aula particular com ele, presencialmente ou na internet, é só mandar um email para silviocunhapereira@gmail.com
(E pessoas de Fortaleza, venham jogar no Clube de Xadrez da UFC, onde Silvio também dá aula. É um espaço incrível e democrático, criado por ele com a ajuda de alunos bolsistas, e aberto a todas e todos, não precisa fazer parte da universidade). 
Fora isso, Silvinho é uma pessoa maravilhosa, sem inimigos. Ele reserva suas guerras para os tabuleiros. Os únicos inimigos que têm são figuras escrotas, quase sempre anônimas, que não o conhecem, nunca o viram ou falaram com ele, e o atacam unicamente porque ele é meu marido. E falta na direita alguma figura de autoridade que diga "Putz, pera lá, é muito sujo inventar acusações contra os familiares de uma feminista que você odeia". Pelo contrário, as figuras de autoridade da direita encorajam esse tipo de comportamento baixo.
Ines se empenha tanto em "destruir minha vida" (como ele prometeu num tuíte) que eu fico pensando se ele é pago ou faz isso por amor à causa. Faz no mínimo três anos que esse perfil me xinga, faz montagens com fotos minhas, cria mil e uma mentiras sobre mim e minha família, me ameaça (acho que "Vc não passa do Natal", entre outros, conta como ameaça, não?), coloca legendas em vídeos para me insultar, e me associa a qualquer baleia, porco ou hipopótamo que apareça em alguma notícia na mídia. 
Além disso, abriu uma conta falsa em meu nome numa rede social chamada Curious Cat, e com ela assedia centenas de menores de idade -- já falei que é no meu nome, uma professora universitária, casada, de 50 anos de idade, que não tem o menor interesse sexual por menores? Ines também começou várias contas no Twitter cuja única intenção é pedir para qualquer seguidor(a) meu que não doe dinheiro pro meu blog. 
Outras pessoas que ele também persegue descobriram seus dados: óbvio que ele não é mulher, não é Inês, e sim Fabiano, apelido Byanu, um semi-analfabeto desempregado quase beirando os 30 anos que mora com os pais em Santa Bárbara do Oeste, SP, e tem sérios problemas de autoestima devido a uma doença de pele. Por isso ele ataca mulheres, principalmente feministas.
Em agosto a revista Veja fez uma matéria sobre a ligação entre trolls e partidos políticos e destacou Ines como exemplo de quem obsessivamente persegue desafetos (euzinha).
Casal apaixonado em Havana,
dezembro 2017
Como eu nunca cometi qualquer crime na vida, meus inimiguinhos tentam ir com tudo pra cima do Silvio -- que é, tipo assim, a pessoa mais ética que existe (foi isso que fez com que eu me apaixonasse por ele 27 anos atrás. Isso e seu senso de humor. Ah, e ele ser lindo e sexy). Além de quererem destruí-lo unicamente para me atingir, há um outro motivo pra eles atacarem o Silvinho: eles não se conformam que uma feminista seja casada com homem (feminazi é tudo lésbica, segundo eles), ou que uma gorda seja amada. Mascus passaram anos determinados a mostrar que o maridão não existia, que todas as fotos que eu apareço com ele são photoshop, que ele seria um ator contratado... 
Eu e Silvinho há um quarto de século
Quando essa "hipótese" ficou ridícula demais até pra eles, passaram a atacá-lo. Foram vários sites de ódio em seu nome, com fotos dele, nosso endereço residencial, textos que pregam pedofilia e neonazismo, inúmeras montagens. E isso é só a superfície. O líder da quadrilha misógina jura que todo dia dedica tempo criando perfis do Silvio associando-o à pornografia infantil e drogas e abrindo domínios no nome dele. Seu sonho é que a polícia arrombe a porta daqui de casa, prenda o maridão, e saia em toda a mídia, antes que ele possa provar sua inocência.
O problema é que, nesses anos todos de ataques e ameaças, eles só conseguiram encontrar um crime hediondo que Silvinho cometeu. É que, em 2009, a pedido da minha mãe, ele anunciou na net a venda do velho casaco de pele dela. Pronto. Foi o suficiente pro maridão ser descrito como traficante internacional de casacos de pele (sério!). 
O outro "crime" associado a ele foi um misterioso e nojento tuíte contra a Dilma que ele teria curtido em 2010. "Misterioso" porque o maridão não tuita desde 2013, a "curtida" não aparecia no perfil dele, e ele nunca curtiu qualquer tuíte na vida e nem sabe como fazer isso (porque nem mexe no Twitter). Mas em setembro do ano passado Ines fez um carnaval em cima dessa curtida inexistente. 
Porém, convenhamos: é muito pouco. Como assim, em dez anos que o Silvinho tá na rede, foi só isso que "descobriram" contra ele?! O desapontamento dos mascus é enorme. Eles falam sempre em convencer uma moça a gravar um vídeo dizendo que o maridão a estuprou (essa moça já fez isso com outro inimigo dos mascus, assim como também gravou vídeo dizendo que foi estuprada por um mascu -- e gostou. Viram como falsas acusações de estupro existem?! Pena não são partem de feministas, e sim de misóginos). Outro plano infalível do Cebolinha é criar um perfil falso em alguma rede social para fazer o Silvio se apaixonar e me trair. Boa sorte!
Ines/Fabiano continuou durante dias com a baixaria contra Silvio: "A Lola ainda não respondeu será se eu ligar no ... [escola em que Silvio costumava dar aula] eles me informam o motivo?" (e aí coloca o telefone da escola); "eu conto o seu segredinho em uma melhor oportunidade segura a marimba" e "Se ta com medo das pessoas saber seu segredinho e seu papo feminista cai por água abaixo né? Aí você não vai poder mais ficar mendigando e pedir dinheiro ne, manda um abraco pro seu marido o Silvinho kkkkk". Entre vários outros tuítes. 
Eu denunciei o perfil do Ines no Twitter pela, sei lá, trigésima vez, e desta vez, pra minha surpresa, eles acataram a denúncia. Bloquearam a sua conta por doze horas (não sei bem como funciona, creio que a pessoa não pode dar RT e só pode se comunicar com quem a segue). Assim que o "gelo" das 12 horas acabou, Ines voltou a repetir todos os tuítes de antes, com a novidade "por que a Lola está desesperada em esconder a verdade sobre seu marido?" 
Eu o denunciei novamente e seu perfil foi suspenso. Se vai voltar, eu não sei. Espero de coração que a conta de um troll profissional feito apenas para atacar pessoas não tenha vez no Twitter.
Amiguinhos de Ines/Fabiano, ou talvez o próprio, se revoltaram com a suspensão da conta (porque tentar destruir a vida de uma pessoa é só "zoeira") e falaram em iniciar um "Lolagate". 
No mesmo dia já tinha thread sobre o assunto no Dogolachan, para que todos meus inimiguinhos pudessem se articular melhor: "Finalmente vai ser divulgado os set's de pedofilia do Silvinho Xeque-mate" (sic). Um peguntou pro outro: "Que coxinhas você vai mobilizar pra denunciar ela?", e o outro respondeu "Muita gente irá". 
No mesmo dia criaram um site chamado "Lolagate", um site que não consegue acertar meu nome duas vezes seguidas mas promete contar "toda a verdade" sobre mim (por exemplo: eu estudei na FAAP. Ish, que terrível! Agora vocês já sabem. Aguardo tremendo o post divulgando que eu nasci em Buenos Aires!). E os autores (anônimos) do site enviaram email pra todas as delegacias virtuais passando o link do site, "urgindo aos cavalheirescos policiais que tomem as medidas cabíveis contra a cyberstalker Dolores Aronivich preeminentemente". 
No mesmo dia um mascu das antigas, que eu imaginava já ter morrido (mascus não vivem muito), gravou um vídeo sobre a Lei Lola. O vídeo bate algum tipo de recorde: em onze minutos o cara não é capaz de dizer uma só verdade sobre mim. Só pra ilustrar: ele me acusa de pegar leve com homens de esquerda, e aí cita um professor. Ahã, tanto eu "passei pano" pra ele, mascu, que o sujeito está me processando em 300 mil reais. 
Pouco depois alguém passou a deixar vários comentários anônimos aqui no blog, fingindo preocupação sobre "acusações gravíssimas contra você e seu marido". 
Um dizia ter "ouvido falar" que Silvio estava preso por pedofilia e desvio de dinheiro público. Outro (provavelmente da mesma pessoa) dizia que eu deveria esclarecer o que estava havendo, já que eu estaria "à beira de um processo administrativo e praticamente condenada em diversos processos". 
Hue, como ri o líder da quadrilha, o patife que deve ter escrito esses comentários ridículos. 
Perigo! Mascu surtando!
Ele está crente que vai fazer com que a UFC abra um processo administrativo contra mim porque, segundo ele, que está cursando Direito, eu uso o meu cargo para difamar pessoas (pois é, eu que difamo, não eu que sou difamada!). A prova? É que em quase todas as entrevistas que dou pra mídia sobre os mascus, sou creditada como "professora da UFC" ou "professora universitária" ou "professora de Literatura em Língua Inglesa". E isso, galera, é usar cargo pra difamar pessoas! Como se as matérias não mencionassem a profissão de todos os entrevistados! 
E quanto a "praticamente condenada", bom, até agora respondo a dois processos, ambos de mascus criminosos que foram presos em 2012 pela Operação Intolerância. Os outros "milhares de processos", que segundo o líder da quadrilha estão pra aparecer, ainda não chegaram. Mas uma coisa é abrir processo, outra é ganhar. Falta muito pra isso. Portanto, baixa a bolinha, mascu. 
E sobre o maridão, no dia em que os mascus "ouviram dizer" que ele foi preso, ele estava na praia, comigo. Até tirou uma selfie. Observem sua expressão preocupada.
Ines/Fabiano abriu uma outra conta, repetiu os mesmos tuítes da conta suspensa, eu o denunciei, ele foi "congelado" por 12 horas; quando voltou, repetiu os tuítes de sempre (a história não acaba nunca), eu o denunciei novamente, e o Twitter vergonhosamente respondeu que o perfil não viola as regras. 
Acreditam? Mandar ligar pro ex-emprego de alguém insinuando que a pessoa foi despedida por "coisas ilícitas" não viola as regras! Passar a vida atacando desafetos e suas famílias não viola as regras!
No entanto, apesar de todos esses ataques covardes, ainda estou no lucro. Em janeiro do ano passado, o Google estava quase derrubando meu bloguinho. E no final do mês chegamos a uma década de vida! Algum(a) designer gostaria de fazer um selo comemorativo de dez anos de bloguinho?

sábado, 13 de janeiro de 2018

LESBOCÍDIO: POR QUE A CRIMINALIZAÇÃO DA LGBTFOBIA É MAIS QUE NECESSÁRIA

Só nos primeiros dias do ano, oito lésbicas foram mortas no Brasil. É um número chocante para nos lembrar que somos o país mais lgbtfóbico do mundo, onde mais se matam pessoas pela sua orientação sexual. 
Reproduzo o artigo de Géssica Souza de Castro publicado ontem no Juntos!

No último domingo (7) uma notícia chocante circulou nas redes sociais. Anne Mickaelly, 23 anos, foi assassinada pelo pai de sua namorada enquanto a pedia em casamento em Samambaia, DF. Segundo testemunhas, Anne Mickaelly soltou fogos de artifício antes de fazer o pedido de casamento. Inconformado com o relacionamento das duas jovens, o pai de sua namorada (46 anos) pegou uma faca e correu atrás da vítima. Após ser alcançada foi esfaqueada na cabeça e no rosto. Anne morreu na via pública e o homem fugiu e permanece foragido.
Esse último caso é o primeiro caso de assassinato de mulheres lésbicas com maior repercussão na mídia neste início de ano. Porém, nos 8 primeiros dias de 2018 já foram registrados cerca de 8 mortes de mulheres lésbicas, entre suicídios e assassinatos com características de execução e crime de ódio. Assim como, em 2016, o caso de Luana Barbosa dos Reis, que foi brutalmente espancada até a morte por policiais militares em Ribeirão Preto, foi o único caso que obteve alguma expressão em meio a diversos assassinatos de lésbicas.
Por que falamos em lesbocídio?
Casos marcados pela brutalidade, violência e covardia rapidamente tornam-se destaque na grande mídia, afinal, a violência é muito lucrativa para o capitalismo. Porém, apesar da mercantilização da violência, notícias como essas trazem à tona uma discussão extremamente importante e muitas vezes negligenciada na mesma proporção:
Mulheres lésbicas estão sendo assassinadas pelo simples fato de serem lésbicas e nada está sendo feito para que isso pare. Além disso, há pouquíssimas informações e registros sobre a morte dessas mulheres.
O conceito de lesbocídio surge da necessidade de entender o crime contra a vida de mulheres lésbicas, o qual não é suficientemente explicado quando utilizamos termos socialmente consolidados como a homofobia e o feminicídio.
De acordo com Suane Felippe Soares e Milena Cristina Carneiro Peres, no trabalho intitulado LESBOCÍDIO: AS HISTÓRIAS QUE NINGUÉM CONTA (em Anais do V Enlaçando Sexualidades, Salvador, 2017), a dificuldade de enquadrar o assassinato de lésbicas tão somente através do feminicídio ou homofobia se dá pelo fato de que as violências que caracterizam a lesbofobia são direcionadas exclusivamente às lésbicas que sofrem não apenas por se relacionarem com pessoas do mesmo sexo como também por serem mulheres. Dessa forma, a lesbofobia precisa ser compreendida a partir da junção de pelo menos dois preconceitos que atingem as lésbicas: o fato de serem mulheres e de serem homossexuais.
A expressão desses dois preconceitos que atingem as mulheres lésbicas, ou seja, a lesbofobia, é claramente perceptível na brutalidade de casos como o de Anne Mickaelly e de Luana Barbosa dos Reis. É a reação social na sua forma mais brutal contra aquelas que se opõem ao sistema violento da heterossexualidade compulsória, que se multiplica contra aquelas que além de não heterossexuais também não são “femininas”. Já a maioria das lésbicas assassinadas são as que não performam a feminilidade, segundo o mesmo estudo de Suane Felippe Soares e Milena Cristina Carneiro Peres.
Por que criminalizar a LGBTfobia?
Diante de casos como o de Anne Mickaelly e de Luana Barbosa dos Reis (e de diversas outras mulheres lésbicas assassinadas que nem ao menos sabemos o nome) e dos números alarmantes de assassinatos de toda a comunidade LGBT, precisamos analisar esse cenário como um processo de extermínio da comunidade LGBT movido pelo preconceito e totalmente consentido pelo Estado.
A bancada da bala e da bíblia no Congresso Nacional, representada por Bolsonaro e Marco Feliciano, utilizou todo o seu arsenal de conservadorismo para paralisar o andamento do projeto de Lei 7582/2014, que define os crimes de ódio e intolerância e cria mecanismos de combatê-los, incluindo os crimes de ódio contra LGBTs. É Preciso entender o combate à LGBTfobia como uma questão política séria e também como uma questão de classe e raça. A grande maioria dos LGBTs assassinados são negros e economicamente e socialmente vulneráveis. Logo, não há uma fórmula simples para combater os crimes de ódio contra nós LGBTs.
Sem excluir a necessidade de políticas públicas capazes de combater a LGBTfobia estruturalmente, precisamos encarar a criminalização da lgbtfobia como uma medida emergencial capaz de desfazer a cortina de fumaça que encobre os crimes de ódio que resultam em letalidade e, consequentemente, que seja capaz de proteger a integridade física e o direito à vida dos LGBTs.
Os crimes de ódio são cometidos principalmente contra os grupos socialmente minoritários, como mulheres, negros e LGBTs. Segundo a advogada Flávia Teixeira Ortega, “o crime de ódio é mais do que um crime individual; é um delito que atenta à dignidade humana e prejudica toda a sociedade e as relações fraternais que nela deveriam prevalecer. Ele produz efeito não apenas nas vítimas, mas em todo o grupo a que elas pertencem. Assim sendo, podemos classificá-lo como um CRIME COLETIVO DE EXTREMA GRAVIDADE.”
Assim como a Lei do Feminicídio visa proteger as mulheres contra os crimes de ódio resultantes em letalidade expressados pela violência de gênero, os dispositivos jurídicos contra o racismo protegem os negros e negras contra os crimes de ódio acentuados pelo preconceito racial. Porém, não há dispositivo jurídico específico que proteja a comunidade LGBT dos crimes de ódio resultantes em letalidade com motivação na sexualidade da vitima. Para fins penais, os crimes contra a vida de pessoas LGBT comprovadamente assassinadas em razão de sua sexualidade são caracterizados simplesmente como assassinatos por motivo TORPE.
Até quando?
Abril de 2016, Ribeirão Preto:
protesto contra o assassinato de Luana
Em memória de Anne Mickaelly e de Luana Barbosa dos Reis e diversos outros e outras LGBT que são assassinadas devido a sua forma de viver, de amar e de sua condição socialmente vulnerável, devemos afirmar categoricamente que a nossa sexualidade não se trata apenas de uma questão individual, trata-se de uma grande parcela da população que tem todos os dias os seus direitos fundamentais violados. Devemos efetivamente nos levantar contra a LGBTfobia e afirmar o nosso direito a vida!

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

CHEGA DE SAUDOSISMO DOS "BONS TEMPOS" EM QUE HOMENS PODIAM ASSEDIAR MULHERES EM PAZ

Anteontem foi o dia de algumas mulheres notáveis, e outras nem tanto, falarem besteira.
A vencedora Elisabeth
Moss vestida de preto
Um manifesto com cem nomes franceses de mulheres intelectuais e atrizes (a mais famosa, sem dúvida, é Catherine Deneuve, mas a escritora Catherine Millet e a cineasta Brigitte Sy também assinam) foi publicado no jornal Le Monde contra o clima de puritanismo sexual em Hollywood. Foi uma resposta ao movimento Time's Up, apoiado por mais de 300 atrizes (na maior parte americanas), que fez muitas mulheres vestirem-se de preto contra o assédio sexual na cerimônia do Globo de Ouro, no domingo.
As signatárias do manifesto basicamente anti-feminista escreveram: 
"O estupro é um crime. Mas a sedução insistente ou desajeitada não é um crime nem o galanteio uma agressão machista. Desde o caso Weinstein houve uma tomada de consciência sobre a violência sexual exercida contra as mulheres, especialmente no âmbito profissional, onde certos homens abusam de seu poder. Isso foi necessário. Mas esta liberação da palavra se transforma no contrário: nos intima a falar como se deve e nos calar no que incomode, e os que se recusam a cumprir tais ordens são vistos como traidores e cúmplices".
Campanha francesa #Balancetonporc,
que manifesto condena
O manifesto condena a "caça às bruxas" e prega que os homens devem ser livres para abordar mulheres: "Esta justiça expeditiva já tem suas vítimas: homens punidos no exercício de seu ofício, obrigados a se demitirem [...] por terem tocado um joelho, tentado dar um beijo, falado de coisas íntimas em um jantar profissional ou enviado mensagens com conotações sexuais a uma mulher que não sentia uma atração recíproca".
O manifesto, que pode ser resumido na frase "Como mulheres, não nos reconhecemos neste feminismo que, além de denunciar o abuso de poder, incentiva um ódio aos homens e à sexualidade", evidentemente não foi bem aceito pelas feministas. Um grupo de feministas francesas respondeu com um texto cujo título é "Os porcos e seus (suas) aliado(a)s têm razão de se inquietar". 
Além de chamar Deneuve e outras de "aliadas dos porcos" (uma alusão à versão francesa do movimento #MeToo -- escolhido a personalidade de 2017 pela revista Time --, o #balance ton porc, ou "denuncia teu porco"), elas as comparam ao "colega incômodo ou o tio cansativo que não entende o que está acontecendo":

Sempre que a igualdade avança, mesmo que meio milímetro, as boas almas imediatamente nos alertam para o fato de que arriscamos cair no excesso. No excesso, estamos totalmente dentro. É aquele do mundo em que vivemos. Na França, todos os dias, centenas de milhares de mulheres são vítimas de assédio. Dezenas de milhares de agressões sexuais. E centenas de violações. Todos os dias. A caricatura está aí.
"Não se pode mais dizer nada". Como se o fato de nossa sociedade tolerar -- um pouco ---menos do que antes as propostas sexistas, assim como as propostas racistas ou homofóbicas, fosse um problema. "Nossa! Era francamente melhor quando podíamos chamar as mulheres de vagabundas tranquilamente, hein?". 
Não. Era pior. A linguagem tem influência no comportamento humano: aceitar insultos contra as mulheres significa, na verdade, autorizar as violências. O controle de nossa língua é um sinal de que nossa sociedade está progredindo.
“É puritanismo”. Fazer com que as feministas pareçam travadas ou mesmo mal-amadas: a originalidade das signatárias da tribuna é... desconcertante. A violência pesa sobre as mulheres. Todas. Pesa sobre nossos espíritos, nossos corpos, nossos prazeres e nossas sexualidades. Como imaginar, só por um instante, uma sociedade liberada, na qual as mulheres disponham livremente e plenamente de seus corpos e de suas sexualidades, enquanto uma em cada duas declara já ter sofrido violência sexual? [...]
Os porcos e seus (suas) aliado(a)s estão preocupados? É normal. Seu velho mundo está desaparecendo. Muito devagar -- devagar demais -- mas inexoravelmente. Algumas reminiscências empoeiradas não mudarão nada nisso, mesmo publicadas no Le Monde.
(leia aqui o texto na íntegra). 

Esta "briga", digamos assim, entre francesas e americanas, não é novidade. A Europa costuma ter muito mais apreço pela liberdade sexual do que os EUA. Quinze anos atrás, por exemplo, a feminista francesa Elisabeth Badinter escreveu um livro interessante, Rumo Equivocado, em que critica o "puritanismo" e o "vitimismo" do feminismo dos EUA e se distancia dele:
"Insensíveis à nova onda do feminismo norte-americano, que sustentava um discurso essencialista, separatista e 'nacionalista', recriando um novo dualismo sexual de oposição, as francesas sonhavam com uma relação pacífica com os homens de sua vida: pai, marido, chefe e todos os demais". 
Mas Badinter não falava de nenhum caso específico, enquanto o manifesto de Deneuve e outras 99 francesas se opõe justamente a um movimento político e organizado contra o assédio sexual na indústria do entretenimento (que, como sempre, influencia denúncias de assédio como um todo, não apenas dentro da indústria). É absurdo que, neste momento em que as mulheres ganham força, um grupo de mulheres venham chamar de puritanas e moralistas aquelas que têm coragem de denunciar o assédio. 
É ridículo também porque movimentos como o #MeToo não têm nada a ver com condenar a paquera e muito menos os homens, e sim de exigir respeito no ambiente de trabalho. Qualquer pessoa minimamente sensata que lê os relatos sobre os assédios de Harvey Weinstein, James Toback (o caso mais emblemático, pra mim, é o desse diretor bastante desconhecido, Toback. Antes de ser acusado de assédio por mais de 38 mulheres, sua tática foi denunciada pela já extinta revista Spy... em 1989! Ele passou a usar a matéria da revista para mostrar que era alguém na fila do pão) e tantos outros, se pergunta: "Mas como eles conseguiram agir dessa forma durante décadas?" Ué, conseguiram porque a maior parte das vítimas não denunciava. Ou, quando denunciava, não era levada a sério. 
Assédio sexual não é o mesmo crime que estupro. Mas tem o potencial de destruir a carreira de suas vítimas. E vale dizer: são vítimas. Chamar uma mulher que sofreu assédio de "vítima" não a coloca como incapaz ou vítima eterna. Comportamentos abusivos contra mulheres são ensinados e internalizados. Muitas mulheres têm dificuldade em reconhecer o que sofreram como assédio (ou mesmo como estupro), porque somos doutrinadas desde crianças a acreditar que os homens, seus desejos e suas avaliações, vêm em primeiro lugar. É fundamental aprendermos que podemos denunciar. 
Isso quer dizer que a palavra da vítima é lei? Óbvio que não. Para qualquer denúncia, em qualquer crime, deve haver uma investigação, depois um julgamento, depois uma condenação, se o crime for comprovado. O que muda com o clima que vivemos agora é que, em vez das denúncias das mulheres serem recebidas como mimimi e "você está inventando, sua vadia", elas estão simplesmente sendo recebidas sem serem descartadas de antemão como mentirosas.
E tratar os agressores como sedutores insistentes ou desajeitados é no mínimo risível. Não há nada de "desajeitado" num produtor poderoso aparecer nu para uma atriz e querer receber uma massagem. O que há de "sedução insistente" num cara bloquear uma colega de sair do quarto dele e forçá-la a vê-lo se masturbar? Qual parte de "aprenda a aceitar um 'não'" esses homens que "insistem na sedução" não entendem?
E se você denuncia, ou encoraja outras mulheres a denunciarem, você é puritana, moralista, contra a liberdade sexual do pobre cara que, tadinho, só quis mandar fotos do seu pau pra um monte de mulheres (e aí o cara te processa em 300 mil reais. True story!). 
Ontem a colunista Danuza Leão escreveu outra de suas besteiras fenomenais. Disse: "Espero que essa moda de denúncia contra assédio sexual não chegue ao Brasil. O que aconteceu no Globo de Ouro me pareceu um grande funeral. Apesar dos vestidos lindíssimos, acho que aquelas mulheres (que foram à cerimônia de preto) foram muito pouco paqueradas e voltaram sozinhas para casa". De novo a ideia fixa de tachar quem denuncia de mal-amada!
Conhecida por seus textos elitistas, Danuza teve a ousadia de escrever: "É ótimo passar em frente a uma obra e receber um elogio. Sou desse tempo. Acho que toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz. Viva os homens".
Demorou, mas depois de algumas décadas, as revistas femininas aprenderam que assédio sexual na rua não é elogio ou galanteio. Essas revistas trocaram matérias estúpidas que sugeriam "Está se sentindo com a autoestima baixa? Vista uma roupa colada e passe em frente a um canteiro de obras! Melhor que terapia" por "Assédio sexual é um problema sério. Denuncie!" 
Campanhas como #Meu Primeiro Assédio deixaram claro que a primeira vez que uma mulher ouve uma grosseria vinda de um completo estranho que se acha no direito de avaliar (ou tocar) no seu corpo não acontece quando ela magicamente atinge os 18 anos, mas muitos anos antes. Em outras palavras, houve toda uma mudança de atitude quanto ao assédio sexual. Mas Danuza parou no tempo, não acompanhou. Pra ela, ser contra o assédio é ser contra os machos. Pra ela, uma mulher só pode ser feliz se tiver a validação dos homens. 
Ou seja, com esse saudosismo ultrapassado do "Deixem os homens paquerarem em paz, suas feministas peludas e mal-amadas", Danuza é aquele "colega incômodo ou o tio cansativo que não entende o que está acontecendo", como disseram as francesas. A nossa tia do pavê, versão 2018. 

UPDATE: Catherine Deneuve pediu desculpas por ter assinado o manifesto desastrado, lamentou não ser considerada feminista, e se posicionou contra o assédio sexual.