sexta-feira, 17 de novembro de 2017

"TANTAS DÚVIDAS: SOU BISSEXUAL?"

A M. me enviou este email um tempão atrás. Eu respondi dizendo que iria responder. Também pedi para um coletivo LGBT responder, mas demorou demais. Ajudem a tirar algumas dúvidas da M., pessoas queridas! (trolls: morram). 

Oi Lola, resolvi te escrever pois estou muito confusa e gostaria da opinião de alguém de fora. Alguém como você, admirável, com opinião própria, um exemplo para mim.
Depois de ler o post "Nunca pertenci à heterolândia" eu fiquei paranoica. Me analisei 50 vezes. Algumas coisas até batiam (principalmente o fato de não me apaixonar por ninguém há 4 anos), outras não. Afinal de contas, sempre fui convicta de que gostava de meninos. Resumindo: participei e participo da "heterolândia". 
Lembro da primeira vez que gostei de um garoto. Eu tinha meus 5 ou 6 anos. De lá para cá gostei de outros meninos, até os 13/14 anos, depois disso mudei de cidade. Foi um tanto traumático na época por que eu não me adaptava de forma alguma à nova escola e sofria bullying até da professora. As coisas só foram piorando e lógico que eu desenvolvi alguns transtornos que me prejudicam até hoje. 
Desde essa mudança eu nunca mais consegui gostar de ninguém. Isso não era um problema até um tempo atrás, agora está sendo. Como assim não se apaixona por ninguém? Como assim não tem um namorado? Como não tem faniquitos quando um cara está só de cueca?(acho lindíssimo, admiro, mas sem faniquitos). 
Sempre tive opiniões e gostos um pouco diferentes da maioria. Por exemplo, sempre achei mulheres muito mais sexy do que homens (apesar de achá-los atraentes), e apesar de ser uma fantasia mais comum para homens do que para mulheres, acho sexy duas mulheres ficando. Nem por isso me achava homo ou bissexual. Mesmo tendo curiosidade, sempre encarei como uma fantasia e nada mais. Afinal, nunca me apaixonei ou tive qualquer interesse nem pelas minhas amigas nem por nenhuma outra garota. 
Mas depois de ler o post não sei o que pensar de mim mesma. Dadas as condições, várias questões começaram a aparecer na minha cabeça. Talvez eu realmente seja bissexual. Meu leque de opções seria muito maior do que o de outras pessoas, certo? E se eu escolhesse me relacionar apenas com homens? (por uma questão de comodismo? Sim. Por um preconceito que existe em mim e eu nem sabia? Sim. Eu não seria hipócrita em um email tão sincero). Estaria certo ou estaria errado? Eu estaria mentindo para mim mesma ou apenas exercendo o meu direito de escolha? 
Sei que há vários jovens com 18/19 anos que são super maduros, bem resolvidos e que estão com o botão "vivo da forma que quiser" bem ligado. Acho isso ótimo mas seria uma grande mentira se eu dissesse que também sou assim. Ainda sou imatura, ainda corro pra cama da minha mãe quando tenho pesadelo, prefiro Toddy a café, faço cara feia pra tomar injeção. Será que simplesmente não posso esperar ser madura o suficiente pra resolver me relacionar com pessoas do mesmo sexo que eu? E se de repente esse tempo for de 50 anos? Aí é errado? E se esse tempo não chegar e eu resolver me relacionar apenas com homens? Então o erro é multiplicado por mil?
Venho de uma família aberta, liberal, independente, que me apoia. Ainda posso sonhar em casar de véu e grinalda com o príncipe encantado e ter uma família de margarina (do século 21, por favor!), ou sendo bissexual este sonho é proibido? 
Não sei se sou bissexual, é que dados os fatos já estou me considerando. Eu sei que esse e-mail é bobo, longo e cheio de questões, mas estou confusa. Sei que não ter um namorado aos quase 19 para os jovens é um problema e sei também que até hoje não tive um por simplesmente não deixá-los se aproximar. Tive pretendentes? Tive, mas sempre inventei defeitos e cortava antes mesmo de dar uma chance. Acho que fico esperando olhar pra cara deles e pensar "Bingo! É esse!" Fico com medo de nunca ter um namorado.
Claro que com isso eu começo a ficar apavorada. Não sei se sou bissexual, não sei se posso continuar agindo como sempre agi, não sei se é possível gostar de ambos os sexos, não sei se tenho que agir de outra maneira.
Querida Lola, sei que não é sua função me achar (e sim minha) nem me dar um chacoalhão para que eu acorde pra vida, mas sou admiradora e fã sua e do seu blog.

Minha resposta: Quantas dúvidas, querida M.! E todo esse turbilhão de emoções causado por um (ótimo) guest post de uma moça que se descobriu lésbica. 
Bom, primeiro, não fique ansiosa. Respire fundo. Você pode errar, você pode experimentar. Mas sugiro que, antes de mais nada, você apague a palavra "normal" da sua cabeça. Dane-se o que é visto como normal! E não se preocupe com o que é certo ou errado. Em matéria de sexualidade, isso é muito relativo. 
Porém, não entendi o que te levou a pensar que você é bissexual. Você nunca ficou ou se sentiu atraída por uma menina ao vivo, pelo que entendi. Você só acha mulheres mais sexy que homens e você acha que dá tesão ver duas mulheres ficando. Sinceramente, e eu sou totalmente leiga no assunto, acho que só isso é insuficiente. Muitas mulheres hétero acham outras mulheres bonitas e sexy, e nem por isso querem se relacionar sexual ou afetivamente com elas. 
Pelo jeito você pensa que pode ser bi por não se interessar por rapazes há tanto tempo. Mas esse tampouco é um indício certeiro. 
É tão importante assim pra você precisar saber o que você é ou não é? Não dá pra experimentar e ir descobrindo aos poucos? 

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

SOBRE O PÊNIS DE ALEXANDRE FROTA

Pra quem não sabe, a revista Fórum publicou um artigo polêmico anteontem. Polêmico porque a Fórum é de esquerda, e a esquerda tem ética, coisa que a direita não tem. Se fosse a direita divulgar um problema de saúde de alguém de esquerda, ela nem piscaria duas vezes.
Pelo que diz a revista, o ex-ator pornô Alexandre Frota, hoje um auto-intitulado representante da moral e dos bons costumes e grande porta-voz da extrema direita brasileira, abriu um processo contra a Bradesco Saúde em 2014. Frota havia sido diagnosticado como portador de disfunção erétil, e, por isso, queria usar seu plano de saúde para implantar uma prótese peniana.
Frota precisou ir à justiça porque seu plano de saúde queria conceder-lhe apenas uma prótese não inflável, que, segundo a petição, não consegue o mesmo nível de ereção e faz com que o pênis permaneça sempre ereto. Em dezembro de 2014, a Bradesco Saúde e Frota chegaram a um acordo, e o ator e oportunista político conseguiu a cirurgia. O caso estava em segredo de justiça, mas, no dia 31 de outubro, deixou de estar. O juiz entendeu que, pelo processo já ter sido resolvido, não havia mais necessidade de segredo. 
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Frota escreveu um tuíte dizendo que "entendia" por que o juiz tirou o processo arquivado do segredo: porque seria um juiz envolvido com direitos humanos. Felizmente, desta vez Frota não falou deste juiz -- pelo menos por enquanto -- da mesma forma que falou de um outro no final do mês, que reverteu a condenação da ex-ministra Eleonora Menicucci: que ele (o juiz, não Frota) "não julgou com a cabeça, julgou com a bunda" (aliás, será que o juiz do caso da ação da prótese peniana tirou o processo de Frota do segredo de justiça para se solidarizar com o outro juiz? As datas coincidem).
A revista Fórum recebeu a informação sobre o processo e, segundo seu editor, meu amigo Renato Rovai, refletiu bastante se publicaria ou não uma matéria sobre isso. Afinal, o caso é de âmbito privado. Interessa mesmo a prótese de Frota?
Rovai gravou um vídeo muito bom refletindo sobre o que é de interesse jornalístico ou não. Como exemplo, comentou o caso de um supremacista branco nos EUA flagrado em ato sexual com um negro. Isso foi notícia não porque haja qualquer coisa errada com dois homens transarem, ou com um branco e um negro transarem, mas por um supremacista branco (cujo discurso se baseia inteiramente no racismo e na homofobia, além de na misoginia e no antissemitismo) falar algo em público e, na vida pessoal, fazer algo bem diferente. 
Rovai perguntou também se a notícia sobre um presidente viciado em cocaína seria um fato jornalístico, e concluiu que sim (eu concordo. E lembro que havia inúmeros rumores sobre o vício de Collor em 1989, que a mídia brasileira não destacou. Eu só fiquei sabendo deste e de outros podres dele lendo a Vanity Fair. Se bem que suspeito que Rovai estava aludindo a um candidato a presidente que hoje, graças aos bons céus, não tem mais chances). 
No caso de Frota, a Fórum achou a notícia relevante porque trata-se de um sujeito que tem na sua suposta imagem viril a maior parte de sua persona, e porque é justamente ele que usa e abusa de ofensas relacionadas à "falta de macheza" para viver atacando adversários políticos. 
É verdade. Na segunda-feira, dia em que a matéria da Fórum foi ao ar, Frota foi convidado para um quadro do programa Super Pop e lá falou de seu atrito com o ator José de Abreu: "Eu fui no restaurante porque queria que ele cuspisse na minha cara pra ver se ele realmente honra o que ele tem pendurado entre as pernas". 
No mesmo dia, Frota mentiu descaradamente. Disse ao R7 que o processo contra o Saúde Bradesco não existia. A Fórum mantém que o processo tem 150 páginas e pode ser checado, porque agora é público. 
No seu Twitter, no entanto, Frota riu da situação. 
Hoje ele deu outra versão numa entrevista para Quem
Ele agora alega que nunca teve problemas com ereção, que não precisou de prótese, e que apenas procurou o plano de saúde porque o pênis ficou torto para a esquerda (estou rindo ao escrever isso, parece que tô inventando, mas tá realmente escrito aqui). Disse que não houve problemas com o plano de saúde (mais uma mentira: se não houve problemas, por que Frota abriu uma ação contra o plano?). E, na maior cara de pau, afirmou: "Vou lutar para que milhares de homens se tratem, como eu me tratei de uma patologia normal". 
Isso vindo de um sujeito que xinga os outros de "pau mole" o tempo todo...
Frota é tão mau caráter que atacou uma amiga minha, a professora universitária Camila. Ela, feminista, respondeu a ele algo sobre política no seu Twitter Ele logo partiu para a intimidação sexual. Ela respondeu que devia ser triste ter como única coisa para se gabar na vida ter sido casado nos anos 80 com uma mulher fantástica que hoje fingia não conhecê-lo. A resposta de Frota foi "Eu já te comi". Camila não deixou barato. Disse que isso não aconteceria nem se a sobrevivência da espécie humana dependesse disso. 
Bom, sobre este caso todo, lógico que sobrou pra mim. Um cara que eu nunca vi surgiu no Twitter pra questionar como alguém podia confiar na opinião de uma baleia como eu dona da Fórum (pois é, as coisas que a gente descobre sobre nós mesmas!). Outro, este um troll profissional, tomou as dores do Frota e decidiu colocar um link pra um arquivo com montes de dados pessoais (endereço e telefone residenciais, números de documentos etc) de mim e de meus familiares (eu denunciei pro Twitter, que mais uma vez disse que aquilo que o troll que vive pra me atacar faz não viola as regras da comunidade). Alguém por aqui, em comentário não aprovado, escreveu "Tá com peninha do Frota? Leva pra casa".
Isso porque escrevi alguns tuítes sobre a notícia da Fórum. Em nenhum caso fiz graça por ele ter problemas de ereção ou ter uma prótese. Problemas com ereção são super comuns e afetam um em cada cinco homens com mais de 50 anos, mas quem tem vida sexual sabe bem que todo homem já broxou na vida, e tudo bem, até porque tem um monte de atividades que podem ser feitas durante o sexo que não precisam incluir um pênis. Mas zombei, e zombo, da hipocrisia do Frota, sim.
Praticamente qualquer coisa que Frota diz ou faz é hipócrita. O cara diz representar a família brasileira ao mesmo tempo que não paga pensão pro filho, por exemplo.
Não é um tanto incoerente que um cara de direita, que costuma dizer que nada que é do Estado preste, e que a salvação do país seria entregar tudo pra iniciativa privada (estrangeira, de preferência), tenha que processar seu plano de saúde particular para ter direito a atendimento? 
Frota é homofóbico, ataca gays a torto e a direito, principalmente o deputado federal Jean Wyllys (que é assumidamente homossexual e tem orgulho de ser gay). Mas há várias fotos (como esta ao lado) em q ele, nu, beija homens nus. E aí, isso não é hipocrisia? 
O bom de ser de direita deve ser que você pode ser incoerente e contraditório e mentir nas suas explicações ou não explicar nada, e ninguém de direita que gosta de você vai se incomodar com a sua hipocrisia. Então Frota sonha com uma carreira política, e tem boas chances, imagino, de se eleger deputado estadual ou federal, por ser famoso e por conseguir se manter na mídia. Pra gente assim, o velho "falem mal, mas falem de mim" é uma necessidade.
Eu não zombo dos problemas eréteis de Frota. Aprendi há alguns anos, com pessoas inteligentes aqui do blog, que rir de "pau pequeno" é uma espécie de capacitismo. Eu nunca fiz piada com pau pequeno, mas claro que já ri de piadas do tipo. Pra mim, existe uma distinção grande entre rir e fazer a piada. Uma ação é bem mais ativa que a outra, eu acho.
Eu ri, e continuo rindo, de piadas como a do ótimo site de humor Sensacionalista, que "noticiou" que a justiça negou um transplante de cérebro ao Frota. 
Eu não rio do pinto torto do Frota, não tô nem aí com o pinto torto do Frota, mas, pô, vai me dizer que não é divertido o cara falar pra imprensa que "Não foi problema de ereção, foi que meu pênis entortou pra esquerda"?
E, de resto, posso ter pena de um problema de saúde que acomete um desafeto (não quer dizer que tenho que ter pena, apenas que posso. Não sou candidata à santa e não sou hipócrita de dizer que não gostaria que os mascus que me atacam e ameaçam há anos morressem), mas não tenho pena de um ser desprezível como Frota. 
Um cara que faz "piada" em rede nacional sobre ter "feito sexo" (é estupro que se chama) com uma mãe de santo, e depois processa feministas que o chamam de estuprador, e aí nas audiências dos processos manda seus capangas agredirem as manifestantes. 
E não sei, não soa incoerente pra vocês que a galera viva chamando feminista de mal-amada e mal-humorada, e aí, quando a gente mais uma vez constata que mal-amado dá em árvore, e a gente ri disso, o pessoal vem dizer que você não pode rir?
Pois eu tô rindo. 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A LUTA DAS MÃES QUE PROCURAM SEUS FILHOS

A cada 3 minutos uma pessoa desaparece no Brasil. É muito mais comum do que se imagina. Já ouvi que ter um desaparecido na família é pior do que ter um filho morto, por exemplo (que pais e mães já consideram uma dor indescritível), porque você não tem certeza do que aconteceu com quem você ama.
Reproduzo aqui a excelente reportagem de Mariangela Castro para a J.Press (Agência de Reportagens da Jornalismo Júnior da USP) sobre mães que continuam procurando seus filhos. 

“ELA ESTÁ VIVA E PRECISANDO DE MIM”
Quando Marcele da Silva Ribeiro, há dois anos atrás, pediu para sua filha do meio Polyanna Ketlyn ir ao bar em frente sua casa comprar uma caixa de fósforos, ela não imaginava que esta seria a última vez que a veria.
Polyanna tinha 10 anos em abril de 2015. A rua estava movimentada naquela noite e, antes de sair, pediu para sua mãe 0,50 centavos a mais, porque também queria comprar um doce de banana. Se passaram 10 minutos sem que ela voltasse pra casa, então Marcele foi ver o que tinha acontecido. Hoje já se passaram 2 anos e ela ainda não voltou: “Quando cheguei ao bar soube que ela não tinha ido até lá, meu coração apertou e nesse momento eu já sabia que algo de muito anormal tinha acontecido. Entrei em desespero total, sem forças pra andar ajoelhei no chão e gritei o nome da minha filha. Esse foi e está sendo o pior momento da minha vida.”
Nesse momento, os vizinhos apareceram e ajudaram a procurar, buscas foram feitas em toda a região. No dia seguinte o caso já estava na mídia, mas desde então ninguém teve nenhuma notícia. A vida de Marcele se resume ao movimento #voltapolyanna: ela divulga diariamente fotos da sua filha nas ruas e nas redes sociais, cola cartazes, produz faixas e até manifestações. “Muita gente ruim brincando de passar trote me caluniando, é um verdadeiro inferno, estou sem rumo, desesperada. Sei que ela está viva precisando de mim, chamando por mim, eu preciso encontrá-la! Não tem um dia que eu não me culpe, não sei mais o significado da palavra felicidade”.
A CADA 3 MINUTOS
O caso da Marcele não é isolado: ela compartilha da mesma dor que outras milhares de mães brasileiras também sentem. O ministério público entende que o conceito de desaparecimento, apesar de ser sempre multicausal, engloba 3 principais situações: o voluntário, involuntário e forçado. O primeiro, apesar de voluntário, deve ser trabalhado porque na maioria das vezes é protagonizado por vulneráveis (crianças e adolescentes) que não possuem consentimento válido juridicamente. Caso seja uma pessoa maior de idade e sã, ao ser encontrada cabe a ela a escolha de querer ou não rever a família, podendo também realizar acompanhamento psicológico na promotoria, o qual visa a reestruturação dos laços familiares.
O desaparecimento involuntário diz respeito à pessoa que não pôde reagir, seja em casos de acidente, catástrofes naturais ou até doenças mentais. Nesses casos, o local do desaparecido é informado à família assim que este for localizado. Por fim, o forçado é o mais grave, pois envolve crime e ameaça; está ligado a organizações de tráfico (material ou humano), violência urbana, policial ou doméstica — essa última, apontada como causa recentemente.
Um dos maiores problemas que se tem hoje na busca pelos desaparecidos é a questão da orientação na própria delegacia para aguardar 24 horas antes de dar queixa. Uma pessoa desaparece no Brasil a cada 3 minutos e o BO deve ser feito imediatamente, mesmo que não haja certeza, já que as primeiras horas são cruciais para encontrar o desaparecido.
Um mapeamento feito pelo Ministério Público de São Paulo, através do PLID (Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos), mostra que em 60% dos casos os desaparecidos são homens, em 40% dos casos possuem entre 12 e 20 anos e em 75% dos casos não possui causa definida.
“EU NÃO CONSIGO PENSAR NO MEU FILHO MORTO”
Allisson dos Santos Almeida trabalhava como porteiro e estudava para a faculdade de Design Gráfico, mas estava de folga no dia 24 de agosto de 2013. Sua mãe, Mirian dos Santos, chegou em casa às 18h e ligou em seu celular, quando ele disse estar na casa da namorada. No dia seguinte, a namorada dele informou que os dois estavam juntos porém, à noite, um amigo ligou dizendo que estava perdido e Allisson foi ajudar o rapaz. Nunca mais voltou. “Eu me sinto vazia, me falta a minha melhor parte, me sinto perdida, meu mundo perdeu a cor”, conta Mirian.
Desde então ela cola fotos nas ruas, faz cartazes com o rosto dele, para nos pontos de ônibus, posta no Facebook, faz camisetas, vídeos, e tudo que lhe é possível fazer para encontrar o seu filho. Em 2014, Mirian passou a fazer parte do movimento Mães da Sé que, segundo ela, lhe tem dado muita assistência:
“Temos que ter apoio de pessoas que passam pelo mesmo problema, temos que ter alguém para olhar e pensar ‘se ela não desistiu, eu também não vou desistir’”, continua. “A única coisa que me dá esperança é que pra mim o meu filho tá vivo, a última vez que o vi ele estava dormindo, eu não consigo pensar no meu filho morto. Eu estou aqui não só de braço, mas de coração e de portas abertas para recebê-lo”.
“TUDO QUE EU TE FALAR EM SENTIMENTOS AINDA NÃO VAI EXPLICAR A DOR QUE SINTO”
“Mães da Sé” e a “Mães em Luta” são as duas principais ONGs de São Paulo responsáveis por dar suporte às que procuram por seus filhos. Suas fundadoras compartilham dessa luta do mesmo modo que suas filhas compartilham o nome: Fabiana.  
No dia 12 de novembro de 1992, Fabiana Renata Gonçalves, de 13 anos, foi andando de casa até a escola no bairro do Jaraguá. Ela saiu às 14h30 para o caminho diário que durava pouco mais de 20 minutos, mas naquela quinta-feira não chegou ao seu destino.
Vera Lúcia, sua mãe, voltou do trabalho à noite e, para não assistir o horário político, levou seus outros dois filhos na padaria com a intenção de encontrar com Fabiana no caminho. Quando percebeu, já estava na porta da escola e lá lhe informaram que não houve aula naquele dia e que ninguém tinha visto sua filha. Desde então ela procura: Fabiana é uma das meninas mais divulgadas no Brasil afora e, em 25 anos, Vera não teve nenhuma notícia.
Ao longo de sua luta, ela conheceu outras mães. Uma delas também procurava uma Fabiana desaparecida aos 13 anos na Zona Norte.  Juntas começaram a militar. A partir de um encontro na Praça da Sé, muitas famílias apareceram para discutir o assunto: começou assim o movimento “Mães da Sé”.
Em 2005, Vera Lúcia quis se dedicar a um projeto que focasse mais na prevenção do desaparecimento, surgiu a ONG “Mães em Luta”, na qual trabalha hoje. Ela realiza principalmente atendimento familiar, divulgação de informações sobre os meios de busca e oferece consulta jurídica e terapia individual. “As famílias sentem que com elas nunca irá acontecer, que foi um problema específico, e não é assim. O desaparecimento envolve várias questões sociais e econômicas”.
A falta de políticas públicas e de noção da importância do tema torna o assunto mais complicado. Vera diz que a própria polícia não possui treinamento para lidar com o social: “Eles acham que o desaparecido é sempre o garoto ou a garota que tem já tem problemas. Minha filha desapareceu aos 13 anos, isso há 25 anos, mas muita gente fala ‘nossa mas você deixava ela ir sozinha? que descuido’. O julgamento é muito grande”.
Segundo ela, o engajamento das mães de desaparecidos nas ONGs é fundamental para manter a esperança viva. Ter alguém que as represente e que sinta a mesma dor é o que as faz não desistir: “Nós não prometemos encontrar, mas prometemos tentar aliviar a dor e divulgar o máximo que a gente puder. O que tiver ao nosso alcance, vamos fazer.”
“A gente não sente, a gente não vive, a gente passa a simplesmente sobreviver”, diz Vera sobre o sentimento de uma mãe sem o filho. “A dor é tão grande, tão grande, tem um buraco que mesmo depois de anos e anos nada o preenche. Não sabemos o que aconteceu, é uma história que teve início mas ainda não teve fim. Não pensamos em mais nada, só nisso. É só busca. Tudo que eu te falar em sentimentos ainda não vai explicar a dor que sinto.”
“TEM UMA COISA ME FALANDO QUE EU VOU ACHAR ELE”
Quando Robson Roberto da Cruz desapareceu ele já era adulto: 15 meses atrás, tinha 39 anos. Robson tem esquizofrenia (nesse caso, é considerado desaparecimento involuntário) e saiu de casa por se sentir excluído da sociedade e da família, segundo sua mãe Ivilda Maria Pessulado. “As pessoas não acolhem o pessoal doente”.
Ivilda procura o seu filho por todo o país, já foi de São Paulo a Tocantins atrás dele e nunca recebeu nenhuma notícia. “Ele não é uma pessoa má, mas alguém precisando de ajuda. O que eu tô sentindo, o que todas essas mães estão sentindo, é uma dor que não para. Eu tô nessa busca todo dia, mas a fé eu não perco nunca. Tem uma coisa me falando que eu vou achar ele; não sei como e não sei quando, mas eu vou achar o meu filho”.
“NADA É MAIS IMPORTANTE DO QUE O SER HUMANO QUE NÃO ESTÁ”
O Ministério Público de São Paulo (MPSP) implantou em 2013 o sistema PLID (Programa de Localização e Identificação do Desaparecido), que consiste em uma base de dados que analisa os Boletins de Ocorrência feitos na Secretaria de Segurança Pública. A utilização do programa é importante para que seja possível mapear as características e obter informações.
A Promotora da Justiça e Coordenadora do PLID do MPSP, Eliana Vendramini, diz que a principal dificuldade no trabalho com desaparecidos é a falta de políticas públicas e a falta de um sistema integrado que una todas as bases de dados presentes nos hospitais, na polícia, no IML (Instituto Médico Legal) e também as informações biométricas do estado. “A nossa função não é resolver caso a caso, embora a gente possa, aqui estamos mais preocupados com o direito coletivo, o direito que está sendo violado por falta de política pública.” A existência deste sistema é prevista por lei desde 2014, entretanto a falta de diálogo entre os órgãos públicos dificulta sua criação.
Segundo Vendramini, já foram registrados dezenas de casos em que a pessoa é dada como desaparecida por meio do Boletim de Ocorrência e alguém com o RG no bolso é enterrado como indigente, simplesmente por não ter ocorrido um cruzamento de informações entre a polícia civil e o IML. Ou seja, a família pode passar 15 anos procurando uma pessoa que foi morta 3 dias depois de ter desaparecido. “A gente chama isso de re-desaparecimento, porque a pessoa desapareceu, foi feito o boletim, depois a pessoa apareceu, morta, e o Estado desapareceu com ela”, explica.
Até 2014, o Boletim de Ocorrência feito nas delegacias não geraria nenhuma investigação, havia apenas registro e bloqueio do RG; às vezes se consultava o banco de dados do IML, mas nem isso era regular. Foi desenvolvido então, pelo MPSP, um fluxograma de pesquisa mínima; entretanto, a investigação só é obrigatória em casos de crianças e doentes mentais. Mesmo depois de muita luta das ONGS e do próprio Ministério Público, o adolescente não é incluído.
Também foi criada pelo MPSP uma cartilha que reúne todas as informações sobre desaparecimento (o que fazer, onde ir, com quem falar). 
Ainda sem previsão de início, ela será distribuída na sociedade, começando pela Zona Leste, por esta ser a área que concentra a maioria dos casos. “O desaparecimento tem uma ligação muito forte com o mapa de exclusão social, porque obviamente vai acometer pessoas com menos atenção pública, como saúde, educação e lazer”, diz Eliana. O Ministério Público de SP, assim como as outras ONGs, também fornece atendimento psicológico gratuito para a família.
“Eu sei que o Brasil tem mil dificuldades, há quem diga ‘ah, tem coisa mais importante’, mas nada é mais importante do que o ser humano que não está. Perdemos a noção de humanidade, de importância, achamos banal enterrar alguém sem identificação. Quanto custa uma vida? A cada segundo tem gente sofrendo porque alguém tá desaparecido, sofrendo muito. O que deu no Estado de não fazer algo sobre isso?”.
“EU NÃO VENDI MEU FILHO”
Teresa Brito tinha 22 anos em 1981. No dia 5 de julho (sexta-feira), estava arrumando a casa na qual trabalhava como doméstica no Leblon (RJ) quando entrou em trabalho de parto. Sua chefe a levou para o Hospital no qual teve o seu filho às 22h. Durante o horário de visitas do domingo, uma mulher chamada Marta e outra chamada Ane a obrigaram a fugir do hospital com seu filho e entrar em um carro. Depois de dar muitas voltas, as duas mulheres a deixaram em frente o prédio em que ela trabalhava e levaram o seu filho embora.
“Eu fiquei tão desesperada. Eu não vendi meu filho. O que eu mais quero na vida é vê-lo. Eu me sinto muito mal por isso, eu deveria ter gritado, deveria ter chamado alguém do hospital, mas eu não fiz, eu era muito ingênua”, conta Teresa, que hoje tem 58 anos e muita esperança de encontrar quem perdeu, “A gente pode passar fome e frio, e eu digo isso porque já passei, mas nada se compara com a dor de perder um filho. Por que eu não posso pelo menos dar um abraço nele?”.
“NO FRIO É PIOR”
Maria Aparecida da Silva Santos está na luta há 3 anos. Ataide da Silva desapareceu no dia 27 de agosto de 2014, sem documentos, foi de ônibus até o Terminal Varginha e nunca mais voltou. “Tava com a cabeça ruim, sabe?”.
 A esperança de entrar seu filho vivo, mesmo sem ter recebido nenhuma notícia em todo esse tempo, é grande no coração de Maria Aparecida: “Eu queria uma resposta pelo menos, porque de noite você não dorme. E nesses dias frios é pior, sem saber se está na rua, sofrendo, se está na chuva, não é fácil, não. Mas não pode desistir, tem que lutar!”
“LUTO E LUTA TÁ MUITO PRÓXIMO, MAS MUITO DISTANTE”
O projeto “Caminho de Volta” tem tido grande importância na busca para encontrar os desaparecidos. Criado em 2004 pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), em parceria com a Secretaria de Segurança Pública, tem como objetivo auxiliar as famílias que possuem crianças ou adolescentes desaparecidos. O projeto possui um banco de dados e um banco de DNA dos familiares dos desaparecidos, apoio psicológico e propostas de ensino.
Marcelo Neumann é psicólogo e co-fundador do “Caminho de Volta”. Ele acredita que as mães se envolvem mais na luta do que os pais devido à cobrança social; nossa cultura atribui à mulher as responsabilidades de cuidar do filho, e isso é absorvido por elas. “A mãe se sente culpada por alguma coisa que ela não fez, essa luta é um pouco uma reparação. Muito do ‘sentimento perdido’ está envolvido também, o filho é uma extensão hereditária da existência daquela pessoa no mundo. Por isso ela não desiste.”
Por mais que não fique claro, existe muita diferença entre desaparecimento e morte, pois o ritual de luto, de encerramento, não existe no primeiro caso. “Aquela coisa de não saber onde seu filho está é muito angustiante, porque ainda existe a ideia dele estar vivo, ainda existe a esperança. Luto e luta tá muito próximo, mas muito distante, a luta é pela vida e o luto é pela morte.”
Neumann acredita que a ausência do Estado nessa questão é uma violação dos Direitos Humanos, por isso, seu trabalho tenta empoderar as mães no sentido político: “O sofrimento é contínuo, podemos fazer um trabalho psicológico e tudo mais, mas isso não é o suficiente pra elas, no final do dia eu não devolvo o filho delas. Portanto a saída política é uma forma de gritar para as outras pessoas. Tem que falar pro  mundo sim, tem que mostrar nas mídias, tem que vestir a camisa. A participação delas nas ONGs é essencial. Não pode guardar essa dor dentro de si.”
“É MIL VEZES PIOR QUE A MORTE”
Ivanise Esperidião da Silva Santos é a presidente e fundadora do movimento “Mães da Sé” e mãe da segunda Fabiana. Ela trabalha com esse movimento há 21 anos, desde o desaparecimento de sua filha: “Quando eu vivi a minha luta sozinha cheguei à beira da loucura. Três meses depois do desaparecimento, no dia 31 de março de 1996, mães se juntaram na Praça da Sé e assim o movimento surgiu. Não paramos mais”.
23 de dezembro de 1995 foi o dia em que Fabiana desapareceu. Ela estava com amigas na casa de uma colega de escola, a 3 quadras de onde ela própria morava. Por volta das 20h elas foram embora, se separando a cerca de 120 metros de distância da entrada da rua da Fabiana. Ela tinha 13 anos, hoje tem 35 e Ivanise nenhuma informação.
As mães que participam do movimento se reúnem a cada 15 dias na Praça da Sé, aos domingos, para chamar a atenção da sociedade. De segunda à sexta-feira a ONG as atende, oferece acompanhamento psicológico e assessoria jurídica caso necessário. Eles também realizam palestras para as crianças e adolescentes das redes públicas de ensino, com o objetivo de prevenir o desaparecimento.
O movimento atende mães de todo o Brasil e já cadastrou mais de 10.000 casos, destes, 4.528 pessoas foram encontradas. “A minha filha está em cada uma dessas pessoas e a certeza e que ela está viva em algum lugar desse planeta é o que me mantém viva. Quando você compartilha sua dor com outras pessoas ela se torna mais amena. Somos irmanadas pela mesma dor e mesma esperança, pelo mesmo sentimento”. 
Para Ivanise, a luta das que procuram “é viver um luto inacabado, é uma ferida que não cicatriza, é um silêncio que não tem resposta e é mil vezes pior que a morte”.
Uma pessoa demora em média 21 minutos para ler este texto.
Enquanto você lia 7 pessoas desapareceram.