quinta-feira, 25 de julho de 2013

GUEST POST: QUERO VER AS MENINAS DE SALVADOR SE ORGULHAREM

Tata Ribeiro em Salvador

Hoje é o Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, data criada em 1992, e o Blogueiras Negras está promovendo uma blogagem coletiva
Para fazer uma reflexão sobre esta data importante, convidei uma leitora negra latino-americana para escrever um guest post. E a Tata Ribeiro aceitou o convite. Ela é integrante de um grupo de pesquisa em Geotecnologias, Educação e Contemporaneidade. Além de ser aspirante a mestranda, Tata trabalha com o resgate da memória, história oral e cultura local em regiões periféricos de Salvador. Viva a maior cidade negra fora do continente africano!

Eu sou baiana de Salvador, tenho 30 anos, sou mãe solteira e sou negra. Não sou de nenhum movimento, mas sou uma amante da história oral e sempre que tenho oportunidade participo de grupos, palestras, diálogos sobre os mais diversos temas relacionados ao papel da mulher negra na sociedade. 
Como tanta gente sabe, cerca de 80% da população de Salvador é composta por negros. É a maior cidade negra fora do continente africano e, como não é de se espantar, a maioria dessa população é de baixa renda. Segundo um mapeamento feito em 2011 pela Secretaria do Planejamento do governo da Bahia, bairros como Alto do Cabrito têm 93% de negros. Nesses bairros os índices de violência são elevados, sem falar do tráfico de drogas e da  mortalidade entre os jovens, triste de ver. 
Mas essa não é a minha realidade. Sou de uma família com situação financeira relativamente boa, sempre estudei em escola particular, tive brinquedos caros, lazer, viagens, carro e outras tantas coisas que o dinheiro pode comprar. Não me lembro, durante toda minha vida escolar, de ter na minha sala de aula mais do que cinco negros.  E sempre tinha um comentário, uma brincadeira, uma referência negativa ao cabelo crespo, algo que eu mesma dava o nome de racismo velado. Aquele que a pessoa não compreende que é racismo, que ela acha que não ofende, que ela não precisa se desculpar, que vem seguido da frase "Negro adora se fazer de vítima e não entende que é uma brincadeira". 
Em algum momento da minha adolescência isso me gerou inquietação, que me fez querer ter nascido ou branca ou pobre, pois aí, num caso ou em outro eu estaria junto com os meus. Mas aprendi a conviver com o racismo velado; hoje eu só entro numa de tentar mostrar para a pessoa o cunho racista se ela valer a pena pra mim, se não, nem entro no mérito, e deixo de considerar amiga.  
Isso aconteceu semana passada numa discussão no Facebook sobre o cabelo black power atrapalhar a visão dos outros colegas na sala de aula, que um cabelo "desses" deveria estar "arrumado". Um horror, um tanto de pessoas contra, outros tantos a favor. Quase cem comentários depois, onze da noite, eu estava sendo chamada de burra e tendo que digerir a frase "Tenho até um tio negro, acho cabelo black lindo, mas na sala de aula tem que estar preso." Desculpem-me, mas pra mim esse tipo de racismo (e de sua negação) é pesado, não há paz! 
Durante o ensino médio inteiro eu tive uma grande amiga, que achei que seria para toda a vida de tão ligadas que éramos. Os pais dela eram divorciados e a mãe dela estava com um paquerinha negro. Aí foi a primeira vez que vi o racismo velado na casa da minha melhor amiga branca, quando a mãe dela disse: "Ele é 'neguinho', mas não tem problema. Não quero mais ter filhos, principalmente com ele". Meu mundo desabou naquele instante. 
Um ano depois foi a minha própria amiga. Já estávamos na faculdade e combinamos de irmos ao Iate Clube de Salvador e ela ligou para o amigo que havia nos convidado para saber se não haveria problemas em me levar. Ele, a princípio, não entendeu o motivo, já que ele não era racista. Ela deu diversas pistas, e ele não entendeu nenhuma. Ela acabou falando: "por causa da cor, é um clube elitizado". Não tive mais como olhar nos olhos dela, me afastei e ela nem sabe a razão, nem conversamos sobre nada.
Se eu for contar cada momento, cada comentário, esse texto não teria fim. Adoro a cultura africana tribal e ancestral, pois é esta que permaneceu na Bahia. A cultura africana é completamente diferente da cultura afro-brasileira. Sempre uso acessórios que fazem referência à essa cultura, tecidos, lenços, turbantes e contas. Não é religiosidade; é cultural mesmo. Em nenhum país da África tem acarajé,  candomblé e muito menos caruru de santo. 
A minha família paterna é de uma cidade chamada Cachoeira, onde haviam fazendas e engenhos de cana de açúcar. Meu bisavô, um negro de olhos azuis, tinha dois veleiros e trazia mercadorias para a capital, e minhas tias-avós trabalhavam na fábrica de charutos que existe lá até hoje. Já minha vó materna é branca e loira, de família austríaca que fugiu para o Brasil. 
Sair com a minha avó e ter que ficar reafirmando que ela é minha avó é um verdadeiro tormento. Aliás, minha avó teve três filhos com um negro. Meu filho também tem um tom de pele mais claro, e já fui chamada de babá! Um rapaz me parou enquanto eu caminhava com o carrinho de bebê na orla e perguntou se eu não tinha uma amiga ou uma prima que queria trabalhar numa casa de família. Eu prontamente disse que não e falei com ele da dificuldade pra se conseguir uma babá, eu mesma estava sem e ele mal conseguiu falar depois que percebeu que eu era a mãe. 
Esse ponto de ser confundido com babás, seguranças, domésticas gera nos negros de classe média e alienados de Salvador um dos fenômenos mais tristes de se ver, porque eles  "precisam" estar sempre bem vestidos, com roupas de marca, passando a impressão em cada conversa de que "subiram na vida". Morro de preguiça, nenhum deles recebe minha atenção, porque eu não quero passar pra ninguém essa imagem de "preta clara" porque meu universo é completamente diferente desse. Quero ver a minha cidade linda, histórica, cultural e rica, diferente de tudo isso que a TV passa como cidade da festa e da preguiça.
Baiano tem uma coisa de múltiplas identidades culturais. Baiano é axé, pagode, funk, música afro, rock ou  jazz, é ir para um lugar cheio de pessoas, tão cheio que mal dá pra se mexer. É ficar olhando o mar, e eu sou exatamente assim, uma baiana típica. Quem nunca veio pra Salvador e viu o tamanho do mercado informal é que fortalece essa imagem de preguiça. 
Quando observo a carência afetiva e a falta de estrutura familiar das crianças do projeto no qual sou voluntária penso sobre a falta de contextualização das pessoas que sentam nas suas salas com ar condicionado e digitam nos seus computadores.
Eu me sinto imensamente orgulhosa de fazer parte de uma transformação ao colocar um turbante e ir para a escola pública em comunidades carentes de Salvador tentar mudar a visão que a menina negra tem de si mesma. Mostrar pra ela a importância de se sentir bem, feliz, bonita fora do estereótipo dos outdoors das grandes avenidas. Mostrar a beleza da voz dela, do cabelo dela, e de sentir orgulho de ser negra, mulher e nordestina. 
Quando ensino uma menina a fazer um roteiro para programa de rádio, fazer uma pesquisa de conteúdo que mostre para o mundo que a comunidade dela é muito mais do que um corpo estendido no chão, me sinto maravilhada. Quando eles começam a falar sobre suas histórias e memórias eu enxergo uma outra beleza e vejo que falta muita compreensão sobre o potencial das pessoas. Muitos amigos me chamam de louca, dizem que eu não deveria levar meu notebook pra favela, que não tem razão pra eu tentar mudar "esses marginais" (pasme!). 
Mas eu me sinto uma negra privilegiada e quero contribuir para mudar o quadro social da minha cidade. Faço questão. Quero ver essas meninas tendo oportunidades de escolha e sentindo muito, muito orgulho de si mesmas. 

PS: A Paula escreveu um post muito bacana. Eu ia publicar aqui, mas ela publicou no seu blog. Então vão lá!

46 comentários:

Mayara Arend disse...

Olha, mexer no cabelo não, mas dependendo do Black power, provavelmente teria que ir pro fundo da sala ou pros cantos, como um aluno alto qualquer.
Fora isso, achei lindo o texto, é sempre importante lermos esses textos para checar nossos privilégios e entender o quão longe estamos de conseguir realmente entender alguém com uma realidade que não vivemos.

André disse...

Sempre que tem post sobre negros, as fotos de maior destaque mostram mulheres negras bonitas, jovens e magras. Creio que não seja essa a intenção, mas fica parecendo que o respeito ao negro como pessoa está atrelado a aparência física.

Maria Valéria disse...

Tenho uma amiga que nao vejo ha muito tempo, que ha muitos anos disse que nao queria ficar com um menino porque era era " meio moreninho" .Detalhe: o pai dela era mulato e bem mais moreno que o menino com quem ela nao quis ficar..A mae dela ,branca.
Essa amiga era de classe media alta, usava roupas de marca, estudou em escola particular, etc.etc.
Ate em famílias onde existem negros, tem racismo.pai da menina era negro e ela era racista. Juro que nao consigo entender., e fiquei triste quando ela me falou isso.
Me identifiquei muito com seu post e nao teve como nao lembrar dessa historia.

Beatriz Gosmin disse...

Na minha universidade, quando há junção de salas, há uma menina que tem um cabelo black power, e desde que a vi a acho SUPER. Sério, ela é linda e charmosa, não tem como não olhar e admirar, não sei como certas pessoas conseguem sentir repugnância, preconceito em si.

=D

Tata Ribeiro disse...

André, essa realmente não foi a intenção. Nenhum desses aspectos relacionados à aparencia física minimizam a luta diária da mulher negra na busca constante por respeito. O respeito é algo difícil de existir até dentro da própria comunidade negra, muitas das crianças que fazem parte do projeto tem dificuldades de se expressar, alguns deles mal chegam a olhar as pessoas nos olhos, pois foram criados com a ideia de que o "negro precisa saber o seu lugar". A nossa maior dificuldade é de desmistificar esse conceito para gerar uma auto-afirmação das crianças como negras.

Isabel Moraes disse...

Gostei do texto, mas um pequeno adendo: gostaria MUITO que os soteropolitanos parassem de se referir a propria cultura como "cultura baiana". O interior também existe, é muito diferente da capital e TAMBÉM É BAHIA!

Danizita L. disse...

Nossa, interessante essa data, vou procurar saber mais sobre ela.

E viva as mulheres negras da América Latina e de todo o mundo!

Rovena C. Reys disse...

Muito bom o texto. Por mais que toda mulher passe por algumas situações, a realidade da mulher negra é ainda mais difícil. Tem situações que a gente não consegue nem imaginar.

Tata Ribeiro disse...

A cultura de Salvador é baiana, Isabel. A cultura baiana não é excludente e fiz questão de falar Baiano para ressaltar o aspecto das múltiplas identidades culturais.

Mariana de Lacerda disse...

Ah, Tata, deu para entender muito bem o comentário da Isabel: Salvador é Bahia, mas Bahia não é (só) Salvador. Achei o comentário pertinente, e "cultura soteropolitana" é mais adequado, mesmo.

Flavio Moreira disse...

Por conta da data a Ana Claudia Pereira, do Blogueiras Feministas, postou um texto muito lúcido sobre a questão: http://blogueirasfeministas.com/2013/07/feminismos-e-justica-social-as-lutas-das-mulheres-negras-nao-cabem-em-uma-unica-palavra/

Junior disse...

Salvador é também a cidade onde vi mais racismo e classismo de todos os lugares que eu já viajei no Brasil. Me chamou atenção especialmente que nos outdoor por toda a cidade, não existem negros. Raros são os mulatos. Rosto de propaganda, só ariano, europeu. Eu já estive em outras cidades do Nordeste, como Fortaleza e do Sudeste com alto índice de negros e nunca vi isso. Em Salvador foi o que mais me chamou atenção (além do trânsito maluco)

Cristiane Lima disse...

Eu moro em Salvador e vejo que aqui o rascismo é muito forte e velado. Parece que não existe lugar em que se valorize tanto a mulher loira. Acho que se a Tais Araújo andasse nos lugares "elitizados"daqui, não olhariam para ela.

Andando de ônibus, percebo que a maioria das mulheres (negras, brancas, morenas) usam o cabelo alisado e quem não o faz é vista como desleixada.

Eu fico pensando sobre como deve ser difícil ser negro aqui... Sou morena de cabelo cacheado e minha mãe, liso e já ouvi muita idiotice em minha vida por causa do cabelo e suas comparações, tipo " o cabelo da sua mãe é tão lindo, o seu parece com o do seu pai?.

Se tivesse com minha mãe e amiga de cabelo liso já ouvi a pérola "ela parece mais filha dela do que você".

Alisei a raiz do cabelo por um tempo (não faço isso há 8 anos quando tomei consciência dessa babaquice toda) e me sinto muito bem e livre com meu cabelo cacheado.

Quando ouço algum comentário que eu considere rascista, eu rebato e faço isso muuuito nos salões de beleza. Os cabeleleiros daqui adoram alisar o cabelo, aí eu sempre digo "adoro meu cabelo" pra não me encherem.

Fico preocupada com as crianças pois esse tipo de olhar da sociedade faz com que elas internalizem a idéia de que para ser bonita tem que ser ou parecer o mais branco possível.

Já ouvi histórias bizarras sobre os blocos de carnaval que, antigamente, exigiam foto porque tinha que ser "bonito", leia-se branco, para estar lá. Acho que isso não ocorre mais mas é bastante sintomático.

Pergunte ao soteropolitano classe média o que se quer dizer ao falar"tal bloco só dá gente bonita". Podre.

Vejo que está começando a ocorrer uma mudança pois (mesmo vendo a maioria alisada) vejo mais gente com o cabelo trançado e black power do que há 10 anos.Pode ser impressão mas é o que sinto.

Espero, do fundo do coração, que isso mude. Acho cruel, sobretudo com as crianças.

Cristiane Lima disse...

Onde se lê "rascismo" leia-se "racismo", foi mal rsrs.

K disse...

Vejo dificuldade em lidar com questões racistas até dentro do feminismo. Lindo post.

Elaine Pinto disse...

"Vejo dificuldade em lidar com questões racistas até dentro do feminismo"

Exatamente. O texto que o Flavio indicou é perfeito ao tratar disso.

afrolesbofeminista disse...

Feliz por ler esse post maravilhoso de uma conterrânea.

Muro das Lamentações disse...

Sou de Salvador, meu pai é negro e minha mãe é branca. Até o momento eu já presenciei inumeros casos de racismo, mas não foi de brancos com os negros, e sim, dos negros com os brancos. Mas eu não posso falar da realidade em toda salvador. Eu moro no centro histórico, falando dessa região posso garantir que nunca vi o povo negro tão preconceituoso em toda minha vida. O pior que nem podemos nos defender, que no final vai sobrar pros os brancos. Antes das pedras, eu estou falando de uma determinada área de Salvador que eu conheço bem. Eu sei que os negros em todo o Brasil sofre o preconceito, mas no resto do brasil os negros são minorias. Aqui são a maioria e eles praticam e muito o preconceito também

Maria Fernanda Lamim disse...

nossa...maravilhoso! eu sempre quis conhecer Salvador , por sua Historia. Agora quero mais ainda. Parabens a autora pelo tra.balho desenvolvido. Tambem trabalho em favela no Rio e conheco essa realidade. As meninas de la precisam muito de referencias e de mudar sua auto imagem. Muito bom! :)

Julia disse...

Vc veio a Salvador há quanto tempo, Junior?

Eu sou de Salvador e vejo muitos outdoors com modelos negros.

De uns anos pra que essa é uma mudança visível, pelo menos pra mim.


E também vejo muitas mulheres com penteados afros por aqui, sempre. Tranças, blackpowers. Cabelos naturais. Claro que tem muita mulher com cabelo alisado, mas tem muita com o cabelo natural também.





Muro das Lamentações disse...

Ah devo dizer, que eu que sou parda, já fui acusada injustamente de racista, quem dirá meus amigos branco? Aqui se você não for negro, e ver uma coisa errada ou eles provocarem uma briga do nada, você pode ir pra cadeia acusado de racismo. Pior do que o preconceito velado, é ser acusado injustamente de preconceituoso.(Corta como uma navalha)ainda mais quando você está na luta por igualdade e dignidade para as pessoas nesse mundo. Muita gente usa desse fato para se fazer de 'coitadinho'. Esse dias fui num show na Praça Teresa Batista, e uma senhora cantora disse claramente: Aqui é nossa área, não adianta vim esses 'gringos' brancos querer tomar nossos lugares. E no show tinha vários estrangeiros,e tinha vários brancos, os que entenderam o português da senhora se retiram no mesmo momento. O pior foi ver o clamor das pessoas aplaudindo o ódio daquela senhora. Simplesmente ÓDIO que alguns negros tem dos brancos. Eu esperei a senhora descer do palco, estava com aquilo engasgado na garganta, pois vi meu marido chateado e triste, em um show que deveria ser algo cultural as pessoas aplaudiram o racismo e a xenofobia. Eu Queria falar com a senhora tanta coisa, mas fui segurada, iria sobrar pra mim ali na história, se ela falando tanta baboseira no palco foi aplaudida o que seria dos meus ossos se fosse lá tirar satisfação?. Voltamos pra casa, e um grupo de pessoas ficaram machucadas com aquela cena que presenciamos. O que seria pra ser uma noite tão boa, acabou sendo motivo pra discutir se vale mesmo a pena morar em Salvador. Até porque isso não é a primeira vez que aconteceu em nossas vidas.Só quero ver quem é o branco que tem coragem de usar uma camisa '100% brancão' aqui. É triste você presenciar qualquer tipo de racismo, mas o pior é quando o racismo vem dos negros, que já sofreram isso tanto vezes na pele. Sempre vai sobrar pra minoria, e no caso de salvador, a minoria é branca.

afrolesbofeminista disse...

Também notei muitos cabelos black's nos últimos tempos. Sempre me apaixono por uma guria de cabelo black..rsrs...

Laurinha (Mulher modernex) disse...

Texto muito bom e muito consciente.
Parabéns para a autora!

Nathaly Moraes disse...

Nooossa, me identifiquei quando ela diz que tem preguiça de entrar em discussão quando a pessoa não lhe interessa!! Tenho feito isso: quando o ser vale a pena,. até debato, quando demonstra muito racismo, preconceito sobre qualquer coisa e muuuuita estupidez, desisto fácil de discutir e corto do círculo de amizade. Melhor maneira de evitar gente tosca!!! Também morro de preguiça de ficar explicando... rsrs

Julia disse...

Mas essa cara de chorona combina bem com vc mesmo, hein Muro das Lamentações?


Eu também sou parda, considerada branca aqui, e eu aplaudiria se estivesse lá. De pé.

E tem mais, nunca fui acusada de racismo, talvez pelo fato de que não sou racista. Só uma suposição, tá?

Ainda vem com aquela velha do "porque não posso usar uma camisa escrita 100% branco" pra provar que não sabe porra nenhuma do que tá falando. E sabe do que mais? Eu não vou te explicar.
Te vira, chorona!

Tata Ribeiro disse...

Olha só, o racismo não é uma exclusividade dos brancos contra os negros e não ocorre só em Salvador, talvez o conceito esteja confuso pra você. Mesmo em Salvador a minoria é negra, a minoria social é muito mais representativa e esse fenômeno de responder com agressividade e violência como mecanismo de defesa também é comum, é importante refletir sobre o contexto social das pessoas, não para justificar, mas para compreender as atitudes.

Mayara Arend disse...

Gente, uma dúvida.
Vcs consideram o cabelo negro trançado como "natural"?
Pq existe toda a conversa e empowerment para que as negras amem seu cabelo e tal, mas o trançado me parece restringindo, me parece, pela lógica, a mesma coisa que prender apertadinho ou que alisar, ele restringe o cabelo.
Mas posso estar errada por não ter entendido o contexto.
Acho lindo o cabelo trançados naquelas tranças pequenas, mas parece levar um tempão e dar uma trabalheira... Não?
E depois deixa assim pra lavar e tal ou desfaz sempre? Aí sim seria impraticável em termos de tempo :S

Clarissa disse...

Tata, eu adorei o seu texto! Muito bonito e revelador.

Sou soteropolitana, o meu pai e' negro e indio e a minha mae e' branca. Por causa da loteria genetica, eu nasci de pele clara e cabelos quase lisos e por isso sou considerada 'branca' na maior parte do Brasil. Enquanto voce diz que tem que convencer as pessoas de que a sua avo e' a sua avo', comigo sempre aconteceu o mesmo, mas no caso, as pessoas olham torto porque a minha avo e' negra. Sai de Salvador ha' mais de uma decada, mas sempre que posso volto para visitar a familia e matar as saudades da terra. Me da' raiva notar os olhares enviezados das pessoas, mesmo as pardas como eu, quando estou com a minha avo' ou outros membros da minha familia. E,par aminha tristeza, quando vou a Salvador, sou tratada como turista por todas as pessoas estranhas que encontro nas ruas.

De vez em quando eu me pergunto quantas oportunidades eu tive e que foram negadas a outras pessoas da minha familia por causa da cor da nossa pele.
Esse racismo velado, e as pessoas que nao se reconhecem racistas, e' tao doloroso quanto o racismo escancarado.

Cristiane Lima disse...

Mayara,

Creio que o cabelo trançado é tão elogiado não pelo fato de ser natural e sim por ser visto como uma afirmação da cultura afro.

Sob o ponto de vista da comodidade, parece não ser um dos mais confortáveis. Conversei com 2 meninas que usavam as trancinhas e me disseram que o couro cabeludo ficava meio dolorido quando iam dormir (depois acostumavam), que demorava uma tarde pra colocar e que podiam lavar a cabeça sem precisar tirar as tranças.

Quanto a durabilidade do penteado, não perguntei.

Eu acho bonito e acho que você tem razão quando fala que "restringe o cabelo" pois não deixa de ser uma alteração de sua forma natural mas mesmo assim nada se assemelha ao artificialismo do cabelo alisado.

Acho que cada um faz com o seu cabelo o que quiser mas o problema começa quando se torna uma "imposição social" perpetuada muitas vezes inconscientemente e desde a mais tenra idade...

Cristiane Lima disse...

Clarissa,

Acho que o o pior tipo de racismo é o velado pois às vezes é muito sutil. No caso do racismo escancarado há a possibilidade de defesa.

Um exemplo aconteceu com o marido de uma amiga que parece um indiano e foi seguido por uma segurança o tempo todo num shopping de Curitiba. O que ele poderia fazer numa situação dessas?

Essa mesma amiga, loira e bem branquinha, vem pra cá às vezes e, numa dessas vindas, a levei na casa de uma conhecida (elitista e que, por motivos óbvios,, não tenho mais contato) e esta elogiou sua educação (minha amiga mal abriu a boca) e que achou sua pele linda...
Se esta mesma amiga, que estava vestida toda hiponga nesse dia, fosse negra e estivesse vestida da mesma forma eu tenho certeza que teria sido tratada de uma forma bem diferente.

Tata Ribeiro disse...

Mayara os cabelos trançados dão muito trabalho sim, levam um tempão para ficar prontos. Uso ocasionalmente pois o fio do meu cabelo é bastante fino e ele fica quebradiço. Dá pra lavar com as tranças, mas a limpeza não fica completa e toda semana precisam ser refeitas.
Olha só, eu não fico muito apegada a essa questão do cabelo natural ou alisado. Acho que é uma escolha que cabe a cada um, pintar, cortar, alisar... eu uso o meu 'natural' mas clareio as pontas do cabelo, ficam bem douradas. Não acredito que a forma de usar o cabelo agrida a identidade negra, pra mim o que agride é querer exigir que a negra alise os cabelos e isso deve ser uma escolha dela!

Tata Ribeiro disse...

Clarissa e Cristiane,
Esse racismo velado é realmente bem doloroso, muitas vezes sutil e muito humilhante. Fico muito feliz de terem gostado do texto e muito triste ao saber que muita gente passa por situações semelhantes.

Thaís B disse...

O texto está excelente, adorei!

Já presenciei também muito racismo velado, é bem triste. Eu, bem branca mas de cabelo enrolado e armado, já fui alvo de piadinhas de "cabelo ruim" e de seus "conselhos"(muitas aspas) de para deixar o cabelo liso. Mas ainda é bem pouco comparado ao que um negro de verdade passa.
Vejo na rua várias negras, principalmente meninas, tentando ter características caucasianas: alisando o cabelo, pintando de loiro e já vi uma de lente verde (era tão artificial que dava agonia de olhar). Sei que cada um deve ser como quer, porém dá para ver claramente que elas não estão daquele jeito por vontade própria e sim por imposição de uma mídia e sociedade eurocêntrica que martela na cabeça de todo mundo, mas especialmente delas, que só o fato de ser branca loira de olho claro ou ter algum desses fenótipos)faz a pessoa ser bonita. É triste demais!! Sou de São Paulo mas minha família é baiana (e branca), uma das vezes que viajei à Bahia uma amiga (negra) da minha mãe apareceu e quando me viu falou "Minha nossa sua filha é tão branquinha e loirinha do olho verde, parece uma boneca!!". Eu me senti um pouco desconfortável, porque a mulher me olhava "maravilhada" demais e pensei "Ué, é por isso pareço uma boneca??? E se eu fosse negra??".

Eu acho um milhão de vezes mais bonita a beleza natural, quando a pessoa cuida da sua aparência respeitando sua etnia! Acho lindo quando vejo negras de black power ao invés de ser alisado e pintado de loiro.

Tata Ribeiro disse...

Thaís Querida, vejo essa questão de permanecer 'natural' para ser considerada bonita como outra imposição social à mulher negra. Essa ideia de que pele negra 'não combina' com cabelos ruivos ou loiros é muito negativa, pois a maioria dos tons existentes hoje para pintar os cabelos não são naturais para ninguém. Ninguém nasce com o cabelo acaju cromado médio, concorda? Então, só as brancas podem usar cosméticos tais, tinturas e etc? Não, né? Lembrei agora de uma reportagem que li sobre uma ilha na Oceania onde os negros são 'naturalmente' loiros.

Roxy Carmichael disse...

muro das lamentações:
que tal pesquisar melhor sobre os conceitos de minoria e maioria?
vai aí uma dica: não em a ver necessariamente com número.

depois que tal pensar melhor sobre a frase: "sobra pros brancos?". já rolou esse movimento 100% branco, vc não ficou sabendo? ficou conhecido como NAZISMO.

entre nas universidades e veja quantos professores negros, alunos negros tem lá, ah claro, e o reitor tb, veja se é negro. depois vá a um shopping center com lojas bem caras, veja quantos consumidores são negros. e veja quantos faxineiros e seguranças são brancos. faça uma visita a um presídio, a uma favela e contabilize tb a proporção de negros e a proporção de brancos.

que deus tenha piedade da sua alma (sei lá, de repente acabei sendo contaminada pela franciscomania!!!).

Roxy Carmichael disse...

ser acusado de preconceituoso COM CERTEZ é pior do que sofrer racismo.
como sabemos os preconceituosos é que são espancados pela polícia e depois perguntados sobre o que estavam fazendo na rua, as mulheres preconceituosas precisam mandar suas fotos anexadas no curriculum pra trabalhar em lojas e quando o empregador negro despótico olha pra foto delas diz: com essa cara de preconceituosa? não contrato! até pouco tempo atras por exemplo só existia maquiagem pra pele negra. a mulher preconceituosa só podia comprar base negra e saía na rua com black face.

Aline Couto disse...

Lindo texto! Sou de Salvador também. Emocionada de ver um texto de uma conterrânea aqui na Lola. :D

É triste o racismo que ainda perdura aqui. Galera com seus preconceitos "velados", como os vários que a Tata citou, que são os piores de se erradicar, porque ao contrário ds episódios onde um branco chama um negro de "macaco", não tem aquela forte reação da sociedade, não tem polícia prendendo, não tem nada. Tudo continua na sua opressiva ordem.

Salvador é extremamente segregada. Só não vê quem não quer. Você entra num shopping ou numa loja cara, olha lá a cara dos vendedores, das clientes. Depois, sai do shopping e vai pegar um ônibus de frente a um bairro pobre, e parece que você nem tá mais na mesma cidade. São outras pessoas, com outros traços, outras caras. E vem gente defender "cotas para pobres, não para negros, pq branco tb é pobre bla bla bla"... Vai explicar. Vc só perde tempo. É foda.

Thaís B disse...

Tata Ribeiro
Eu falei isso mais como minha opinião e valendo para todas as etnias, lógico que se a pessoa quiser pintar de rosa ou qualquer outra cor, até mesmo loiro pode pintar ué, tranquilo. O problema é que vejo muitas pintando não porque gostam, mas sim para entrar dentro do padrão imposto pela mídia, as vezes sem nem querer. Se uma negra quiser pintar de loiro (e já vi na internet sobre negros que tem loiro natural, achei bem interessante) pode pintar sem problemas, mas conheço mulheres que simplesmente pintam acreditando que só por ser loira fica mais bonita, basta ver a indústria da beleza, como se fosse uma beleza "superior". Isso, para mim, equivale ao mesmo de uma pessoa alisar seu cabelo crespo porque vive escutando "só cabelo liso é bonito", e não por escolha própria.

Drica Leal disse...

Me orgulhei de ter uma conterrânea como você, Tata! E me identifico muito com você em vários pontos!

Também sou negra de class média, de família formada por brancos e negros do lado paterni e brancos e indígenas do lado materno e entre meus irmãos, eu sou a que tem mais características africanas e adoro isso. Dois irmãos puxaram mais ao lado branco da família, pele clara, cabelos lisos, e o outro ao lado indígena, então é uma mista só, minha família, fora os tios e primos que são de todas as cores, rosotos e cabelos possíveis nessa mistura, rs.

Na minha família, alguns tiveram ascenção financeira, o que me faz em algumas ocasiões transitar por um universo que em Salvador é quase exclusivamente branco. Não tenho filhos, mas isso de ser confundida com babá, empregada, etc, sempre aconteceu comigo, visitando parentes em condomínio de luxo, ou saindo com eles para lugares onde frequentemente sou a única negra. Na minha família, eu sou a única ligada em questões sociais, então acho que meus parentes não percebem o desconforto que é estar em lugares da dita elite baiana sendo a única negra. O quanto incomoda a maneira como me olham ou tratam, antes de saberem que eu sou a "irmã do fulano" ou "sobrinha do cicrano" ou "tia da beltrana" (meus sobrinhos são todos "brancos" na aparência. Acho qiue por isso desenvolvi uma postura de desdém e até antipatia mesmo antes de fa,ar com as pessoas nessas ocasiões, acho que algums amigos e colegas de parentes meus me acham metida, mal educada ou coisa parecida, porque como já perdi a paciência com certas atitudes babacas, a princípio,mtratomtodos dessa tal elite baiana sem esconder minha cara de enfado e sempre que posso demonstro o quanto eles são burros. Porque ô gentinha culturalmete vazia e tapada, viu? Muito dinheiro e nenhuma bagagem cultural, intelectual!

Mas que bom que nada disso fez você esmorecer nas suas convicções! Porque às vezes desanimo, em ver como essa elite branca de Salvador pode achar normal que numa cidade com 80% da população de afrodescendentes quase todas essas pessoas sejam relegadas aos guetos, à subalternidade, ao subemprego, que não se questionem nem um segundo sobre o absurdo que é!

Outra coisa que me incomoda muito entre os brancos daqui é a hipocrisia. O que tem de madame e artistas brancos da Bahia que vão em casas de Candomblé saudar a mãe de santo (Candomblé em Salvador está virando religião de madame e descolados culturais, acho curioso isso), mas no dia a dia tem atitudes preconceituosas contra negr@s é assombroso! Os ídolos da música baiana? Todos brancos, fazendo música negra! São tantas distorções que aho que só quem vive por aqui é calaz de entender...

Enfim, parabéns, fico muito orgulhosa mesmo de ter alguém como você na minha cidade!

Beijos!

Drica Leal disse...

Peço desculpas pelas palavras emboladas, letras engolidas, trocadas, repetidas... Teclado touch travando, um porre, rs.

Ah, Tata, amei sua foto na Jam no MAM, o Solar do Unhão é o lugar mais bonito que conheço!


Tata Ribeiro disse...

Thaís,
Que bom que concordamos e se trata só de uma questão de gosto pessoal! A influência da mídia sobre a mulher quando se trata de beleza é realmente muito forte. Aqui mesmo no blog da Lola tem vários textos ótimos sobre isso..

Tata Ribeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tata Ribeiro disse...

Drica,
É sempre reconfortante encontrar mulheres que passam por situações semelhantes e reagem de forma diferente pra fazer a gente refletir sobre nossas atitudes. Gostei muito do seu comentário. Ano passado fui para um ciclo de debates sobre Candomblé e Sincretismo Religioso na Biblioteca dos Barris, contando a história do Candomblé na Bahia e, mesmo quando era considerada uma atividade ilegal, sempre existiram uma significativa parcela de pessoas das classes altas que praticavam! Mais curioso ainda, né?

Hamanndah disse...

Eu de Salvador me orgulhei deste post. Pedi a minha colega, que escreve bem, e negra e historiadora para escrever um texto sobre o dia 25/07 para colocar no meu blog e passar por email para o blogueirasnegras. Orgulhosa fa baiana. Tata

@dddrocha disse...

Lindo post, inspirador também. Me deu vontade de dar um grande abraço na autora.
Lendo esses posts sobre a questão racial me fazem lembrar o quanto somos racistas, mesmo inconscientemente.

Larissa Mateus disse...

Adorei o post! Não suporto o fato de ainda existirem pessoas que tem receio ou vergonha de assumir que é negro. Também sou alvo de muito preconceito, ainda mais porque uso o cabelo black (amo), mais ultimamente a unica coisa que eu faço é ignorar, tem pessoas que não valem à pena discutir ! Amei o blog e já estou seguindo, quando quiser visitar o meu está super convidada, http://negadoblack.blogspot.com.br/
Beijo, fique com Deus!