terça-feira, 21 de junho de 2011

É CONTRA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA? FAÇA-A PARAR

"Não posso esperar até crescer"

Sou totalmente contra a violência infantil. E dentro do critério da violência infantil incluo as tais “palmadinhas pedagógicas”, tão aceitas pelos pais pais brasileiros. Já escrevi vários posts sobre o assunto, e todos renderam inúmeras discussões.
Esses dias fiquei chocada ao ver um comercial irlândes contra a violência infantil. Chama-se “Não posso esperar até crescer”. É horrível, mas muito eficiente. No Brasil existe o Disque 100 para denunciar violência infantil, que em 2010 recebeu mais de 80 ligações por dia.
Mês passado dei uma palestra no Senac sobre a objetificação da mulher na propaganda. Havia outras três palestrantes, e uma delas era a Maria da Penha. Comprovei através das palestras o que sempre desconfiei: que há uma relação muito grande entre criança que apanha e adultos agressores. A criança que apanha (e não precisa apanhar no grau de violência visto no comercial -– criança aprende rápido, e ela só precisa aprender que bater é o único jeito de resolver problemas, e que a violência é algo banal, que faz parte do cotidiano) tem grandes chances de promover bullying na escola. A criança que apanha provavelmente baterá nos filhos que terá, pois acha que sua educação “rígida” funcionou (funcionou pra quê, ninguém diz ao certo). E há relação entre o menino que apanha e o homem que bate na mulher. Geralmente é o mesmo cara. Então, mães e pais, se vocês são contra a violência doméstica, você pode ajudar: não bata no seu filho (nem na sua filha, lógico).
Violência doméstica e violência infantil caminham juntas, sempre. E outro combustível que as perpetua é o nosso silêncio, a ideia tão difundida que cada pai e mãe tem o direito de “educar” sua criança como quiser, e que “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Acho este comercial de Londres muito eficiente, e não menos terrível (e educativo pra quem acha que violência doméstica só acontece em países pobres, entre pessoas pobres). Um em cada cinco assassinatos em Londres é resultado da violência doméstica. O slogan diz: “Você faz a ligação. Nós fazemos parar”. No Brasil o Ligue 180 é específico para denunciar violência doméstica contra a mulher.
Pois é, aí é que está: nós podemos fazer parar.

49 comentários:

AMANA MEDEIROS disse...

Gente, esse comercial irlandês é muito forte. Fiquei chocada.

Lola, como sempre, de parabéns pelas reflexões. Concordo com cada palavra sua.

Bruno S disse...

Achei que não tinha post hoje.

Essa é uma briga dura. Muita gente boa e defende a "palmada corretiva" como método educacional.

Sinceramente, eu não vejo como possa funcionar.

Rubens disse...

Definitivamente, bater não é argumento, logicamente isso nunca vai ensinar nada, além de que violência é um meio de coagir e só.

Quando dei aula para crianças, ficou muito claro que aquelas que apanhavam dos pais, tinham muito mais insegurança e eram crianças mais retraidas e de certo modo mais agressivas também.

Quem ama educa, não bate.

Gabriele disse...

Realmente, é uma questão polêmica. Mas uma professora minha tirou todas as dúvidas e receios que eu tinha por ser anti-palmada, em uma aula em que esse assunto veio a tona. Alguns colegas achavam que um "tapinha não é nada" e a professora perguntou: "Se eu me levantasse agora, fosse até uma de vocês que estava conversando durante a aula e desse um tapa em vocês, isso não seria nada? Isso não seria uma violência terrível? Não é uma invasão de espaço, do corpo? Vocês não iriam quem sabe até a polícia me denunciar? Só porque você é pai ou mãe de uma criança, você tem direito de inflingir tal violência sobre ela? Só por que ela é menor ela não tem os mesmos direitos que você?". Depois disso, passei a ter mais segurança para defender a educação sem palmada.
Eu sou alguém que quando lembro de minhas "palmadas" na infância, lembro com certo mal-estar. Parece que consegui guardar toda a sensação do que é ser agredida por um adulto que amava, sem direito de defesa, sem às vezes nem entender o que eu fiz de errado. E olha que era meio raro eu apanhar, pq eu tinha muito medo mesmo. E, à princípio, não eram castigos "super violentos" nem nada, era tapa "comum" (e vara às vezes). A sensação, mesmo assim, era horrível.

Anne Liesel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anne Liesel disse...

Oi Lola

Eu sou mãe de um, guri que está sendo criado sem palmadas, sem berros, sem violência física ou verbal.

Foi um compromisso pessoal que assumi depois de mta leitura, mta informação, baseada no quanto é péssimo apanhar, coisa que eu senti na pele quando era criança.

Não vou dizer que é fácil, a gente perde a paciência às vezes e tem que se policiar. Os pitis homéricos que meu filho dá às vezes esgotam a minha paciência. E aí, o que fazer?
Saio de perto, conto até 100, espero ele se aclamar, se for necessário coloco de castigo, sempre explicando o porquê da punição.
Criar filhos é exercitar diariamente a tolerância, a paciência e o amor.

Nirsan Grillo disse...

Maravilhoso saber que pessoas como você levantam a bandeira da não violência, da proteção à criança, ao adolescente, à mulher.
Dói aos meus ouvidos quando ouço alguém falar que bate em criança, seja qual for a justificativa!

Nane disse...

Eu apanhei muito (sempre da minha mãe) na infância e adolescência.Que eu me lembre , na maioria das vezes por motivos banais.Certa vez apanhei nua enquanto era xingada de vagabunda, porque fui pega de mãos dadas com um menino no colégio.A minha mágoa é profunda até hoje.No entanto acabei dando palmadas nos meus filhos.Sempre me arrependia e jurava nunca mais repetir.Mas demorei pra conseguir realmente me conscientizar e parar.Por isso acho extremamente importante tais campanhas.Aos pais é mostrada a ação terrível que estão praticando e é uma oportunidade de mudança.E as crianças são salva deste mal.

Nirsan Grillo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
paulinha disse...

me lembro de ouvir histórias terríveis, quando era criança, sobre as surras de cinto que minhas primas levavam de um tio. não conseguia, naquela época, assimilar a desproporção da reação dele (nunca consegui). o comercial irlandês me deixou aqui boquiaberta, revivendo essa sensação de não-assimilação.

The Buk's On The Table disse...

Adoro esse site: http://www.naobataeduque.org.br/

Renato Mattar disse...

tem esse vídeo do POWA, People Opposing Women Abuse (eu acho), que, apesar de ser na África do Sul, acho que pode se encaixar bem no Brasil.

http://vimeo.com/17109940

Baumwolle disse...

Olha, realmente, o comercial irlandês é de fazer você congelar com o tamanho do realismo nele. E que vontade de ter um desse passando aqui no Brasil. Mas desconfio que isso irá demorar um pouco ainda, tsc.
E como a Anne Liesel, também fiz um compromisso pessoal sobre não lançar mão de tapas, gritos e palavras ofensivas, apesar de não ter filhos no momento e saber que demorará bastante para que um mínimo de vontade de ter apareça, mas as memórias das experiências que passei (nada perto do que o menino do comercial irlandês sofre) marcaram bastante as minhas opiniões sobre o uso desse tipo de violência, ainda mais os comentários que faziam tentando explicar o motivo de terem "extrapolado" comigo... Deprimentes.

Cinthya disse...

O que eu vi aqui na Austrália, Lola, em um caso real é que "em briga de marido e mulher não se mete a colher" porque os ingleses-e a comunidade inglesa-preza muito por sua individualidade. E se as pessoas são adultas, então ... Num começo de manhã, em um dia qualquer, escuto gritos de um casal. Ele xingou ela de todos os nomes-estavam em frente ao nosso apto-até que ele a empurrou, ela caiu. Decidi ligar para polícia. Então, meu marido falou que não fizesse isso pois eles eram adultos, sabiam resolver as situações e que não gostariam da interferência de ninguém. Argumentei que ela poderia sair muito machucada dessa história ou até morrer. Ele retrucou: "é nossa cultura. nós não gostamos de interferência. sabemos resolver nossos problemas" e por aí foram os argumentos.

É difícil mudar uma cultura, viu?!?

*A autora do comentário não sofreu violência por emitir sua opinião =D

Arlequina disse...

http://www.youtube.com/watch?v=8V-zxWY3vsY

Lola, dá uma olhada nesse anúncio educativo. Super dez e passa a mensagem, pelo menos pra mim. Acho que chegou a ganhar até prêmio.

P a o l a* disse...

Concordo com cada palavra dita, a palmada pode de fato funcionar se o objetivo for fazer o filho deixar de tomar determinadas atitudes, todavia, as razoes pelas quais o filho pára não são por repeito ou consciência, mas por medo. É um método que falha por distanciar o filho dos pais, pois gera desconfiança daí porque acaba gerando uma certa ''rebeldia'' no filho, quando este toma consciencia dos absurdos cometidos pois o diálogo fica comprometido e o filho só tem como alternativa agir tão brutalmente quanto os pais. Eis a perpetuação da violência em seu ciclo vicioso.
Mudando de assunto, sei que é fã de Chico Buarque, o que achou das frases da música ''querido diário'' do novo disco dele que fala ''nao bato nela, mas se ela chora, desejo me inflama'' e ''amar mulher sem orifício''? Parabéns pelo blog!

Milena disse...

Já apanhei muito do meu pai quando era criança, eu e meu irmão, não era nada que nos debilitasse, mas não eram só tapinhas. Era surra com cinta. Além de nos agredir fisicamente, meu pai agredia minha mãe moral e verbalmente, no começo ela não interferia, depois ela tomou uma atitude, denunciou na delegacia da mulher (pela violência psicológica contra ela, acho que bater na gente está incluso aí) e não deixava mais ele encostar na gente. E olha, minha mãe é a principal renda da família, ela que sustenta a gente, meu pai é desempregado desde não sei quando... Ela mandou ele sair de casa e ainda ofereceu pensão (!!!)

Milena disse...

(continuando) Um tempo depois meu pai implorou pra voltar pra casa, desde esses tempos ele está pianinho, sabe, mas ainda assim, eu não gosto muito dele. Quero dizer, gosto porque é meu pai, ele nunca mais fez mal pra gente, mas não esqueço do que aconteceu, confesso que às vezes eu queria que ele nem existisse. Mas realmente, meu pai cresceu vendo o meu avô espancar, espancar MESMO ele, os irmãos, e a mãe. Minha mãe vive me lembrando disso, pra eu considerar essas coisas e outras pelas quais ele já passou, fora o tanto que ele já melhorou...

Milena disse...

Haha, só mais um último comentário, Lola: uma amiga minha me passou o seu blog ontem e eu amei, mesmo :) Tava desistindo da internet já, tudo que eu via era um mar de intolerância, ignorância, ataques, escondidos no anonimato. Eu ia citar exemplos aqui mas daí mesmo que eu ia escrever mais um livro na sua caixa de comentários haha Olha, continue com o trabalho, muito bom, beijos!

Carol Balan disse...

Eu acho que bater em criança é uma das maiores covardias que existe! É um grande absurdo, não educa, não resolve, só coloca medo e gera perturbações. Duvido que alguém que apanhou quando criança, possa afirmar, hoje, que lembra disso como uma boa lembrança. Eu apanhei e lembro que me sentia humilhada. Me convenceram que eu devia bater em meu filho, quando eu já não tinha mais o que fazer para controlá-lo. Eu o fiz, me arrependi muito, só consegui que ele aprendesse a bater nos outros e voltei à minha crença anterior: não devemos bater em crianças (nem em ninguém!) nunca!! Ele tem 3 anos e meio e eu espero conseguir reverter o mal, que tenho certeza que lhe causei! BATER EM CRIANÇA É COVARDIA!!!

floresfrutas disse...

já tentei ligar no 100 repetidas vezes, em horários diferentes, e não fui atendida. tentei no 180, a mesma coisa. mesmo sabendo que não era o caminho ideal, chamei a polícia que atendeu a ocorrência prontamente, em menos de meia hora. funcionou. os estrondos e os berreiros pararam, nunca mais ouvi. a pm me aconselhou a repetir a denúncia no 100, para que o caso fosse ao conselho tutelar. liguei no dia seguinte e não consegui, de novo. liguei direto no conselho tutelar da região, mas eles só respondem a chamados do 100.

Rapha da Alice disse...

Lola, nunca comento mas sempre leio pois tenho vc linkada em meu blog e vejo suas atualizações. Não comento pois tenho uma filha de 10 meses que me deixa muito ocupada, hehe, ou leio ou comento. Enfim.

Vi o vídeo, entrei no site deles, quero saber a repercussão. Não apanhei (apesar de ter sofrido a violência passível de "piada") mas meu padrasto batia muito nos próprios filhos. Não baterei em minha filha e faço muita campanha contra Violência intantil.

Esse vídeo é forte, chocante. Mas de que adianta sutileza? Lembrei de uma campanha que a Xuxa estava, onde dizia "Imagine alguém batendo no seu filho. Imagine se esse alguém fosse você" ou algo do gênero. Realmente tem um certo impacto, ainda mais quando a pessoa vê as frases soltas. Mas não acredito ser suficiente, é preciso esse "tapa na cara" para mostrar a realidade.

Não é só espancamento. Começam gritos, tapinhas na mão, palmadas e por aí vai. São inúmeros os argumentos contra, mas as pessoas preferem ignorar. Eu acredito em campanhas mais sérias, com menos "fumaça". Se viessem reclamar que estavam se sentindo mal, seria só apresentar as estatísticas de quantas crianças são maltratadas. Quantas destas são maltratadas por pessoas de confiança. E que uma dessas pessoas de "confiança" pode estar ao teu lado e você nem saberia.

Agora vou correr dar um cheiro na minha cria, pq temos que criar filhos melhores para o mundo!

Beijos cheios de admiração

Rapha, mãe da Alice
http://maternarconsciente.blogspot.com/

Daní Montper disse...

Não consigo entender alguém que tem coragem de bater em uma criança, não importam as "melhores" intenções.

Imagina, você dar uma palmada numa criança bem menor que você, indefesa, que espera que seja protegido por ti, e não educado na violência - que, aliás, não é educar.

Robson Fernando de Souza disse...

Eu pessoalmente achei o comercial irlandês não tão realista no que tange à violência física punitiva, pelo menos pro que via ao meu redor - não lembro de ter visto pais baterem na cara dos filhos, derrubarem no chão, pisarem na cabeça dos filhos... Nesse caso, muitas pessoas, ao verem o vídeo, acaba pensando que "isso é só nos piores casos, nos mais exagerados, nos casos realmente criminosos, nos casos em que o pai chega bêbado e vai bater nos filhos etc."

A não ser que realmente o espancamento propriamente dito (que se vê no comercial) como forma de "correção disciplinar" seja muito mais comum do que eu pense.

E Lola, creio que seria bem melhor você colocar estatísticas, dados de estudos psicossociais sobre violência parental. Porque este texto, sem esse tipo de dados, acaba soando incompleto, mais uma crença ou opinião do que uma informação objetiva que deve ser divulgada.

No momento eu venho simpatizando com a ideia de não bater nos filhos, mas ela precisa de mais dados objetivos pra conscientizar os jovens de hoje que, nos próximos meses ou anos, vão se tornar mães e pais. É certo que escorar a inaceitabilidade da palmada predominantemente em estatísticas é muito justificar os meios pelos fins, mas pra muitos a ficha ainda não caiu.

Daní Montper disse...

Lola, nada a ver com o post: eu te mandei um e-mail sobre a marcha das vadias do Rio. ;-)

Gizelli Sousa disse...

Minha mãe conseguiu quebrar um ciclo de violência. Meu avô batia muito nela e nos irmãos. E ela sempre dizia: "Jamais vou bater nos meus filhos". Meu avô, um homem simples, na época um homem bruto (que a idade e a vida tornou suave...) respondia a ela: "Se você não bater nos seus filhos, eles baterão em você".

Ainda sim, minha mãe nunca me bateu. Ela me criou com diálogo e educação. Nunca gritou comigo, nunca usou de qualquer tipo de intimidação. E tem TODO o meu respeito, amor E AMIZADE.

Já o meu pai, embora nunca tenha me batido (apenas porque minha mãe o proibiu), sempre foi do tipo que impõe seu argumento gritando mais alto. E ISSO eu não farei com os meus filhos. Também é violência, psicológica.

Blanca disse...

Achei que não tinha post hoje. +1

Que comercial... argh. Fiquei enjoada. Ótimo ator, o menino. Nossa...


Minha mãe me dava tapinhas educativos na mão. Nada muito forte, e acho que peguei isso dela e acabei fazendo com o meu irmão.

É não funciona.

Luciana disse...

Gostei muito do seu post.Este tema me interessa bastante e foi mto bom vê-lo aqui no blog.

Ilana disse...

Lola
Um jornalista publicou um artigo miserável sobre a marcha das vadias...aí está uma nota que publiquei no meu facebook! Foi bom partilhar com vc e o maridão a energia na marcha
abraço
Ilana
http://www.facebook.com/note.php?note_id=180845505306898&comments

De como o streaptease psíquico de um subalterno da mídia de terceira categoria pode ser revelador: ainda a marcha das vagabas!
por Ilana Viana Do Amaral, terça, 21 de junho de 2011 às 02:44

Por qual razão o termo ativista incomoda? Mais exatamente, por qual razão o termo ativismo em geral pode incomodar muito a um pequeno assalariado de quinta categoria da micromídia?

Essa foi a pergunta que eu comecei a me fazer quando iniciei a leitura de um texto publicado em algum jornal mequetrefe da cidade por um tal de Bruno Pontes. A leitura aliás, só fiz, porque em tempos de rede social alguém me enviou o link desse insignificante e comecei...como a curiosidade matou o gato, fui lendo....

E juro, a cada linha o que me chamava a atenção não era a imbecilidade do conteúdo, a opinião do tal empregado do jornal, não. A opinião do ente era uma bobagem dessas que você pode escutar embaixo de qualquer pé-de-pau, numa sombra, às três da tarde, ali pelo centro da cidade...uma coisa tipo “o machismo não existe, feministas lutam contra o que não há”, isso para dizer do sem sentido que era, na sua (dele) opinião, uma “coisa” chamada Marcha das vadias.

Não, a marmota não me chamou a atenção pelo argumento nem pela sucessão de tolices...Foi o conjunto, por demais revelador, que se me afigurou como uma verdadeira epifania... epifania do ressentimento!

O que chamou a atenção no que o tal ente dizia não foi o que ele pensava querer dizer. Foi o que ele disse sem querer, e disse sem nem mesmo saber que dizia.

O tipo começava falando do ativismo em geral, que o entedia...e passava então a falar de tema, segundo ele, menos entediante. Este lhe tirava do tédio. Sim, ele se movia para denunciar, ainda que sem levar a sério, o ativismo das vadias. Dizia ele que o machismo não há mais por aqui, que acabou faz tempo e, aludindo à marcha canadense, se queixava da falta de autenticidade das vadias de lá (que falta faz Benjamin...autenticidade?Ô my!), para dizer que as ativistas só imitavam um meretrício que deveras não praticam ...

Ilana disse...

aí vai o resto da nota...

Que ele não possa entender o escracho, o escárnio e o humor, bem se lê no seu microtextículo... é claro que a re-significação que as marchas operam na linguagem não pode ser alcançada pelo tal...mas por que é mesmo que não pode?

Na verdade, o ente mesmo nos explica. Resumindo o seu artigo: o ativismo entedia e o ativismo feminista irrita. Ele tenta fazer ironia (tãooooo banal....), mas no fim do percurso irônico (no qual, pelo menos desde os Schlegel, mora somente a verdade do Eu), a verdade que não queria e nem deveria ser dita, aparece, no chiste. E a verdade diz do Eu Bruno P., não do objeto.

Ao dizer, ironizando, que se assusta ao ver passar pela sua janela uma jovem desavisada, que será estuprada na próxima esquina, B.P. berra e não é ouvido. Finalmente, revelando toda a razão do ódio ao ativismo, conclui o tipo: “ foi atacada ao dobrar a esquina, penso, impotente.”

Que a impotência é e foi a razão mais profunda do machismo e da misoginia, impotência que é sempre a de lidar com o próprio desejo, impotência que se traduz mais que freqüentemente na morte do objeto, isso nós que marchamos contra o machismo já sabíamos.

O que nós não sabíamos e a rigor não precisávamos saber, era, como diria minha bela sobrinha quando pequena, desse “stripitismo” psíquico do autor. @s pobres coitad@s que, como eu, deram azar de receber este link, tivemos que ser vítimas do desejo de B. P. de compartilhar sua patológica inveja da buceta que, como diz Maria Alice, “quando não mata de tédio, mata de careta” (porque o cabra se retorce inteiro à simples menção da dita cuja ou qualquer coisa que remeta a ela!)

Porque juro, não precisa nem ter lido Freud nem Lacan, sequer ter ido pro divã alguma vez, para entender tudo.

Para não entender precisaria não saber ler...pois o que o chiste explicita é justo o que o discurso desde sempre, desde o começo, dizia sem querer. O ativismo (e ainda mais o ativismo das vadias) é insuportável para o impotente.

Não é de nós e da nossa marcha que ele fala. Não, B. P., poderia dizer a ele alguém que o conheça, “de te fabula narratur”.

Não foi contra os homens que as vagabundas, vadias, quengas, raparigas ou tantas outras palavras injuriosas (que retomamos e re-significamos) marchamos, não. Havia na marcha muitos, muitos homens mesmo...desses que não têm medo e nem inveja de buceta, nem medo e nem inveja de “bucetas dentadas”, como diz meu amigo Eduardo Braga (que estava lá), bucetas cujas donas são mulheres senhoras das próprias vidas, dos próprios corpos!

Foi dos impotentes, que precisam do pau do Estado, do pau de fogo, do pau de “dar em doido” para suprir aquele que lhes falta. Que só sabem usar o seu próprio, como ocorre no estupro, se o pau é transformado em arma, inventando uma potência que não possui para dar conta de um desejo que só é o seu porque já não há outro a desejar.

=Maíra= disse...

Lola, você sabe de algum site/livro com dicas ou instruções sobre como educar sem bater? Fico com vontade de divulgar informações mais "mastigadas" pra algumas pessoas, mas não tenho uma boa indicação... Ab

Renata disse...

Lola,
aqui um spot francês, reconciliador...
http://www.youtube.com/watch?v=ZgAMczPxs60&feature=player_embedded

BETO disse...

Lola, adoro seu blog, e sempre vejo opiniões fortes aqui. às vezes sou a favor e às vezes sou contra, como no caso da "palmada pedagógica". Claro que não sou a favor de surras violentas, mas sou a favor da palmada e sei que esse assunto é polêmico.
Quando era criança meu pai e minha mãe me davcam palmadas. Não foi nada que me traumatizou, até por que eles semre foram muito carinhosos e eu só levava palmadas quando aprontava. Era um corretivo. Hoje sou professor universitário, e tenho alunos que são verdadeiros monstros de falta de educação. Tenho medo dessa permissividade atual, onde se pode de tudo. Eu, quando aprontava, sentia o olhar de reprovação de meus pais e sabia que, quando chegasse em casa, a palmada ia comer. rsrsrs. Isso não me tornou um adulto ressentido, mas sim conhecedor de limites. Posso estar errado? Posso, admito, mas comigo funcionou, e bem, desse jeito.

Sexo c/ Amor? disse...

post maravilhoso! a educação necessária: evolução emocional! as pessoas que não cresceram e descontam nos mais fracos, o auto-ódio. Piaget sempre ensina que os homens possuem linhas diferentes de amadurecimento.
beijos

Lar Ternura disse...

Sem falar na tremenda covardia que é um adulto bater em uma criança, pois a sua força é de adulto e essa força "aplicada" num corpo infantil que não tem como se defender sozinho.

samya disse...

Bom dia Lola, tudo bem?
O Numero 100 não funciona em todas as cidades do Brasil não. Na maioria das vezes você so pode contar com a policia militar ou civil mesmo. Na minha cidade existe o conselho tutelar mas eles so "se metem" em caso de ligação "violência/drogas" para todo o resto se considera um fator cultural, não so a violência familiar como também casos de incesto. Na vida privada não se mete.

lola aronovich disse...

Dani, querida, ou eu não recebi seu email sobre a Marcha das Vadias do Rio, ou eu ando recebendo tanto email que tô ficando confusa. De qualquer jeito, fiz uma rápida busca na minha caixa de emails, procurando “Dani” e “Marcha das Vadidas do Rio”, e vc não apareceu. Então tem chance de não ter chegado mesmo. Por favor, mande!


Robson, sei que sem os dados, acaba ficando incompleto. Mas tem post que tem que ser rapidinho pra escrever, senão não sai. Ando com pouquíssimo tempo, infelizmente.

lola aronovich disse...

Gente, muito orgulho de vcs que conseguiram romper com o ciclo de violência, ou que, dizendo não a todos, decidiram educar os filhos sem bater. Tenho certeza que, se depender da gente, a gente faz um mundo melhor. Por falar nisso, muito bom esse comercial francês que a Renata recomendou. Fala justamente disso de quebra o ciclo da violência.


Ilana, muito boa a sua resposta a esse jornalista babacão.

lola aronovich disse...

Maíra, perdão, não conheço muitos livros sobre educar crianças. Como não tenho filhos, não é bem a minha leitura de cabeceira... Por que vc não entra, por exemplo, no Pequeno Guia Prático de Mães (linkado na página da frente do blog), e pergunta pra autora?


Gente, que chato saber que o 100 não funciona como deveria!

ana_alice disse...

é engraçado que hoje em dia, depois do sucesso daquele programa Supernanny (que até tem uma versão brasileira), muita gente acordou pra essa realidade.

mas eu sempre tive isso dentro de mim. era instintivo. eu via mães batendo e berrando com os filhos na fila do mercado, no ônibus, etc. e aquilo me doía. me dava vontade de ir lá e parar.

eu (e outras pessoas) não fazíamos isso, pq essa ideia de que cada um pode fazer oq quiser com seus filhos já faz parte do consciente coletivo. claro q eu nunca presenciei uma SURRA absurda, só 'tapinhas'.

eu confesso que até hoje tenho medo de chamar a atenção de alguém assim, abertamente, mas não só sobre esse assunto.

tb me calo, com culpa, qd alguém, por exemplo, joga lixo no chão ou não cede lugar no ônibus aos idosos/grávidas, etc.

medo da reação, sabe? pq, ao meu ver, alguém tão agressivo e egoísta provavelmente não vai respeitar oq eu tenha a dizer e vai tentar me agredir também.

seja me xingando (o mais provável), seja tentando me bater (daí até a polícia chegar...)

me limito a criticar a tal pessoa pras outras pessoas da fila, dizer "que absurdo" num tom mais ou menos audível. pq isso mtas vezes funciona, constrange o agressor.

é estranho pq quando alguém chuta um cachorro na rua (seu próprio cachorro ou um vira latas abandonado) geralmente alguém vai reclamar.

mas quando um pai bate no filho, muita gente acha até BOM (tipo, "isso, EDUCA mesmo essa criança chata q não para de chorar") por se sentir incomodado tb.

não que eu goste de criança birrenta, mas há outras formas de se chamar a atenção. dialogar, por ex.

eu entendia as broncas da minha mãe desde muito cedo. pq ela não partia do pressuposto q eu n ia entender, nem perdia a paciência na hora de explicar.

não era só um "NÃO VOU LEVAR XYZ". ela me dizia "tá caro, nós não temos dinheiro pra levar isso. comprar tal e tal coisa é mais importante, pq nós precisamos delas. XYZ não é urgente, qd eu puder, eu compro". (ou "XYZ faz mal pra vc, vai te deixar dodói" ou qualquer outro motivo)

ela não mentia, não berrava, só explicava. sempre funcionou. NUNCA fiz birra. nunca fiquei chorando/gritando/me jogando no chão.

e das crianças educadas q eu conheço, nenhuma delas apanha ou tem pais histéricos. já as mal educadas...

Ju disse...

essa campanha também é muito boa http://www.youtube.com/watch?v=DtT6tirsaMA

Gab disse...

ótimo post, já tive discussões com pessoas queridas e que eu considerava esclarecida e que defendem que as tais "palmadas pedagógicas" (oxímoro!!!) não fazem mal... minha opinião? estão querendo se justificar sobre a própria história deles... não aguento essa de "apanhei sim, e sobrevivi", pelas deusas, que pensamento mais torto!
algumas pessoas já comentaram, mas o que se trata é de um tratamento DESIGUAL, dia após dia crianças são tratadas de um modo que JAMAIS nós adultos trataríamos uns aos outros, e tudo vai sendo naturalizado, virando pensamento hegemônico sobre criação de bebês e crianças!
acho sempre um exercício se colocar no lugar da criança e pensar se fosse um adulto a gente faria um mesmo, daria um "tapinha pedagógico", ou outras barbaridades consideradas normais (que em geral tem a ver com cada vez menos proximidade física, não pode dar colo, não pode dormir junto, não pode nada, o amor e o aconchego viraram tabus!)
avançamos bem na defesa dos direitos de vários grupos e segmentos sociais, mas ainda falta avançar muito pra reconhecer e respeitar os direitos das CRIANÇAS!
desculpe pelo "tratado", Lola, mas esse assunto realmente mexe comigo!
grata pelo post, e por todo o seu blog que é ótimo, com excelentes informações e argumentações pra gente seguir nesta e em outras lutas contra os preconceitos do mundo!
Gabriela

Drica Leal disse...

As opiniões são divididíssimas sobre esse tema aqui no Brasil!

Tá uma palmada não é o mesmo que espancar, mas quem defineo limite? è impossível! Então, na dúvida, sou contra castigos físicos para crianças.

Porém infelizmente são poucas alternativas disponíveis que ensinem aos pais como impor limites claros aos filhos sem a velha palmada. Junte-se á isso uma peguiça mesmo em pensar em como educar da melhor a criança,esse indivíduo em formação, e temos um impasse daqueles!
Eu particularmente passei a tomar pavor de crianças cujos pais são permissivos. Toda vez que vou em casas de amigos, parentes, conhecidos que tem filhos crianças ou adolescentes o que vejo é praticamente uma ditadura dos "pirralhos", eles é quem mandam em casa e tudo acaba girando em torno as vontades (caprichos, na verdade) deles e eles enxergam os pais e familiares adultos como meros serviçais. Crianças e adolescentes assim tendem a achar que todos os adultos são palermas como seus pais e honestamente minha vontade é sentar a mão na cara de alguns, mas me contenho, rs. Só me resta imaginar os monstros que serão quando adultos e o retorno dessa educação permissiva para a sociedade e para os próprios pais no futuro.

Valentina, uma mulher que fala disse...

PENA EM REGIME FECHADO DE NO MÍNIMO 10 ANOS DE RECLUSÃO.
SÓ ASSIM ISTO MELHORARÁ
POR MIM SERIA PENA DE MORTE
EU O MEU BLOG SPOIAMOS VCS!

bruna lazarini disse...

Lembrei desse post na mesma hora em que li que as "palminhas pedagógicas" viraram nome de livro, está sendo lançado agora:
http://www.revide.com.br/blog/yara-racy/post/tapa-na-bunda/

Alessandra disse...

Lola, como mãe e feminista, gostaria de ter escrito esse post. Também acredito que as "palmadas pedagógicas" estão intimamente relacionadas à violência contra a mulher. Muitíssimo obrigada!

Alessandra disse...

Livros que ensinam a educar SEM bater:
- O bebê mais feliz do pedaço, Harvey Karp

- A criança mais feliz do pedaço, Harvey Karp

- Limites Sem Traumas, Tânia Zagury

- Besame Mucho, Carlos Gonzalez

Tem a comunidade do orkut "Pediatria Radical" e o site da Rede "Não Bata, eduque" (http://www.naobataeduque.org.br)

Anônimo disse...

Gente isso realmente me tocou e muito bom saber que ainda tem gente que abrange essa causa.me da nojo e raiva so depensar em alguem batendo em uma crianca totalmente desprotejida que espera ser amada e nao espancada.lola adorei o seu post na minha opiniao deviam ter mais como este por ai para poder conscientizar as pessoas a nao baterem em seus filhos eu como mae fico de coracao partido pelas pobres criancas que sofrem diariamente com seus pais irresponsaveis e e por isso que eu digo lola continue a escrever posts assim.

Muito obrigada

Anônimo disse...

Sou contra qualquer tipo de agressão tanto com minha filha, como com filhos (as) dos outros, chega a me incomodar bastante certas cenas que presencio, inclusive da vizinha de mesmo quintal, que não bastasse as varias chineladas que a menina leva, ainda tem a agressão psicologia que acho ainda pior, com gritos, xingamentos e palavras para menosprezar a pequena, porem como não há um meio de denuncia que não seja via telefone, e se eu fizer desta forma todo mundo vai ouvir tudo, temo represália com minha filha, animais deste tipo podem fazer qualquer coisa, devia existir canais on-line para se fazer estas denuncias, hoje todo mundo esta conectado.