quinta-feira, 24 de março de 2011

LIZ TAYLOR, A DOS OLHOS VIOLETAS

Fazia tempo que Elizabeth Taylor, que morreu ontem aos 79 anos, não filmava e só era conhecida por sua vida pessoal – sua excêntrica amizade com Michael Jackson, seu fascínio por diamantes (que eu sempre achei a maior besteira, mas é que eu não só não acho joias bonitas, como ainda as acho cafonas e inúteis), seu envolvimento na campanha contra a Aids. Mas na realidade eu nunca fui muito interessada na sua vida pessoal. Eu e todo mundo sabíamos dos seus oito casamentos (e eu sempre me perguntava: por que alguém quer se casar tantas vezes? Não é possível só namorar mesmo, morar junto?). Achava interessante ela ter se casado duas vezes com o grande ator que foi o Richard Burton, e sei dessas fofoquinhas inconsequentes como ela ter "tirado" (muitas aspas aí) o Eddie Fisher da Debbie Reynolds (Eddie e Debbie são pais da Carrie Fisher, a princesa Léa de Guerra nas Estrelas; eu sou um poço de cultura inútil). Aí, na década de 80, lembro de Liz ter casado com um caminhoneiro e se separado pouco depois. Era o tipo de coisa que saía na revista Manchete.
Lembro que todo mundo falava dos seus olhos violeta, e eu sempre tentava ver se os olhos eram mesmo dessa cor (acho que eram sim, não eram azuis, eram diferentes). Eu a achava bonita mas de um jeito comum, não uma Ava Gardner. Aí uma vez eu fiz um curso de roteiro de cinema com o cineasta Ícaro Martins (de O Olho Mágico do Amor), e a gente ficou um tempão discutindo se a Elizabeth era ou não uma grande atriz. Não sei por que discutimos isso, mas a nossa conclusão foi que ela era, sim. Das grandes.
Um pouquinho subestimada, claro. Cleópatra foi um dos filmes mais caros de todos os tempos, fracassou na bilheteria, e Liz foi culpada por isso. E seu primeiro Oscar foi meio uma premiação de piedade, por ela estar doente. Disque Butterfield 8 não tem nada de memorável. Mas pô, ela fez Quem Tem Medo de Virginia Woolf! Ela era muito nova pro papel de mulher de meia idade que tem um relacionamento um tanto doentio com o marido, mas mesmo assim esteve excepcional. O elenco todo (os quatro) é incrível, a peça de Edward Albee é o máximo, mas pra mim Liz é a alma do filme. Esse seu segundo Oscar em 66 foi mais que merecido.
E ela fez dois filmes baseados em peças de Tennessee Williams, dois papéis difíceis: Gata em Teto de Zinco Quente, suspeitando que seu marido Paul Newman é homossexual, e De Repente No Último Verão (55). Tudo bem que Maggie the Cat em Gata é um grande papel pra qualquer atriz mas, por mais que eu ame Williams de paixão, De Repente é um pouco trash, muito over, vai. Eu adoro a peça e o filme. Só que a história de uma moça que vê seu marido gay sendo comido vivo por jovens e depois é ameaçada de ser lobotomizada pela sogra é rocambolesca demais.
De Assim Caminha a Humanidade ninguém se lembra de nada além do James Dean. Mesmo assim, Liz está ótima em Um Lugar ao Sol, um grande filme em que seria fácil ela desaparecer diante de papéis mais suculentos, como o da Shelley Winters e do protagonista Montgomery Clift.
Não se pode esquecer que Liz foi uma atriz mirim, do tipo que vê sua carreira deslanchar tão rapidamente quanto sumir (Jodie Foster é exceção, não a regra). Lembro dela em Lassie e naquele um com cavalos, National Velvet. E nessas besteirinhas que são O Pai da Noiva (1950). Ah sim, e No Caminho dos Elefantes, isso porque eu via o Cinemania com o Wilson Cunha.
Esqueci quase tudo de A Megera Domada e, do ousado mas não muito bom O Pecado de Todos Nós só me vem à mente o Marlon Brando. E acho que o último filme que vi com ela foi sua breve aparição nos Flintstones, em 94.
Ela era um símbolo de uma era de Hollywood que morreu faz tempo. E o incrível é que, apesar de sua saúde frágil, ela enterrou todas as lendas vivas com quem contracenou: James Dean, Montgomery Clift, Rock Hudson, Richard Burton, Marlon Brando, Paul Newman... Não vou dizer que ela foi a última diva de um tempo que não volta mais porque Lauren Bacall (e a própria Debbie Reynolds) ainda vive. Mas sem dúvida Liz é um mito.

10 comentários:

J.anquevitti disse...

Poxa Lola, com certeza ela vai fazer muita falta. Apesar de eu ser um completo leigo em cinema, gostei muito de todos os filmes nos quais Elizabeth Taylor participou.

Já sobre a vida pessoal dela eu sempre soube muito pouco, apenas que ela tinha se casado muitas vezes e que era amiga da Michael Jackson.

De qualquer forma, é mais uma estrela (sim, ela pode e deve ser chamada de estrela) que nos deixa...fiquei muito triste quando soube de sua morte. E Hollywood parece ficar cada vez mais escassa de pessoas assim.

Abraços

Rosa Lopes disse...

Passaram muitos filmes com ela na Sessão da Tarde, e quem me fez gostar de drama foi ela em Gata em Teto de Zinco Quente.
Mas eu tinha um certo desprezo por seu potencial sexy, futil. Sei claro que era um apelo cinematográfico, como se hoje tivesse evoluido, né kkkk, mas o posicionamento passivo ou não também é uma escolha.
Bj

Meg disse...

Fiquei triste ontem. Triste como se mais um professor da UFSC tivesse morrido (e a gente bem sabe que deu de gente morrer naquela universidade).

Comecei a me preocupar como você quando falou em não querer ver a notícia quando o Chico Buarque morrer. Eu não quero ouvir que Jack Nicholson ou Meryl Streep vão morrer algum dia. Ou Maggie Smith. Tem que botar essa gente no formol.

Ela foi o showbiz americano comprimido em uma pessoa só. Aquela classe ninguém mais tem. Triste. Totalmente triste.

Borboletas nos Olhos disse...

Podem me chamar de cafona mas tem certas mortes que são, para mim, perdas pessoais. Geralmente representam a morte de algo que as atravesssa, como é o caso de Newman e Taylor. Eles eram, pra mim, justamente ícones de algo que eu admiro e é referência pra minha identidade pessoal: a época de filmes feito para adultos (não só na faixa etária mas na capacidade de ver e interagir com temas adultos). Antes dos filmes precisarem agradar - apenas - ao adolescente em nós. Mesmo afastada das telas eu a sabia ali, como bastão e símbolo. Agora vou ali, pra ver se me consolo, dar uma espiadinha na hora mágica em que Bacall, poderosa, diz pro Bogart: se quiser me chamar, assovie. Você sabe assoviar, não sabe?

cronicasurbanas disse...

Bem, eu a achava uma ótima atriz e sim, belíssima. E até divertida, como nesse episódio do programa Here's Lucy, com a Lucille Ball. OK, ninguém fica sério quando se trata de Lucille Ball, mas Liz e Richard Burton pareciam estar se divertindo.
E tenho um conhecido que trabalha com programas de AIDS nos EUA que diz que ela trabalhou muito mesmo nessa área e estava sempre pronta para colocar seu rosto e nome nas campanhas.
É das últimas - se não a última - grandes divas de Hollywood...
abraço,
Mônica

Luciano Carneiro disse...

Ela seria lembrada só por sua participação em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, ouso dizer. Mas eu também amo Gata em Teto..., que só não é a melhor adaptação do Tennessee Williams pro cinema por conta de um certo bonde do desejo. Acho que toda atriz deveria ter a chance de interpretar uma personagem feminina do T.Williams, não acha? Mas concordo com você, De Repente, No Último Verão não me agrada. Os atores estão todos bem, e há alguns ótimos momentos e diálogos, mas, no geral, a história é vergonhosamente ruim. Mantém o interesse, mas que final é aquele?! Além de trash, é xenofóbico!

Pedro @snoopy_xxx disse...

Eu não sei muita coisa sobre Elizabeth Taylor, mas de alguma forma, parei pra pensar em sua morte e por algum motivo senti um carinho por ela. Engraçado esse tipo de sensação né? Não me lembro de ter visto algum filme dela, mas sempre soube da amizade dela por Michael e só hoje da sua luta pelos gays. Espero que a lenda que essa mulher se tornou nunca seja esquecida.


A Valéria Fernandes também escreveu um ótimo texto sobre Liz Taylor:
http://shoujo-cafe.blogspot.com/2011/03/morre-elizabeth-taylor.html


Lola, lembra daquele caso do garoto de 18 que foi denunciado por ter beijado um menino de 13 no cinema? Então, tá rolando uma petição a favor dele, já que ele corre o risco de levar 15 anos de cadeia! Acho um exagero só, ainda mais num país onde existe várias meninas que engravidam aos 12 ou 13 anos e a justiça nem cogita a hipótese de dar cadeia para esses papais, afinal, são héteros...
http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N5309

Laetitia disse...

Não sou apaixonada pela Liz, mas gostei das atuações dela nos (poucos) filmes que vi. Atrizes da geração dela (e não só da geração dela, claro), bonitas como ela, acabavam tendo o talento ofuscado pela beleza... eu me lembro da minha mãe se referindo a ela como "uma mulher bonita", nunca como grande atriz.

De qualquer forma, é uma grande perda. Das atrizes "viventes" atuais, meu amor fica todo com a Meryl Streep e com a Julianne Moore...

Aqui Brasil com S disse...

Não acompanhei a fundo a carreira de Madame Taylor. O que sabia sobre ele se resumia que era inglesa, seus oito casamentos, a luta contra a AIds e seu famoso filme Cleópatra que assisti, e realmente ela era de uma beleza inesquecível,um olhar penetrante, quase inatingível e pensando bem era... ahahahah!!! pelo menos para mim que a vi na telinha.
Talvez a força e a ousadia dela foi o que construiu esta imagem de uma atriz de peso.

Cl. disse...

Poxa, Lola. Vc acha que ela foi a culpada pelo fracasso de Cleopatra? E o roteiro derrapante? haha. Pode ter sido na época, mas hoje a principal memória que se tem do filme é a figura de dona Liz. E no filme De repente, no verão passado, ela era prima do Sebastian, e a Katharine era sua tia. Rola uma confusão pra saber se eles eram ou não amantes, já que tem o caso da homossexualidade (censurada) na adaptação pro filme, que acabou perdendo a essência da coisa.
Se você é um poço de cultura inútil eu sou tipo uma hidroelétrica (súbita e triste constatação). Sei tudo da vida desses atores. haha.

Pensando bem, você deve saber mais do roteiro de Cleopatra que minha pessoinha, e acabei ficando curiosa. Onde é que a Liz ficou sendo culpada pelo fracasso do filme??

To lendo um monte das suas crônicas de filmes, principalmente os antigos. Fico extasiada quando concordo com você (tudo haha), adoro essa sensação de ser entendida e ver minhas opiniões representadas! haha sou egoísta não.
Bj Lola.