quinta-feira, 27 de março de 2008

CRÍTICA: PAIXÃO PROIBIDA / Rabo de quimono

Paixão Proibida (Silk), que estréia amanhã no Brasil, é um filme suntuoso e bem às antigas. Na realidade, não é muito diferente do fraco O Amor no Tempo do Cólera (em que todos os colombianos falam inglês com sotaque latino), mas não tem nada a ver com Desejo e Reparação, que alguns críticos erroneamente acusam de ser convencional. Paixão é puro Hollywood do passado: todo mundo fala inglês, independente do país de origem (pelo menos desta vez sem sotaque), a música romântica é perpétua, a direção de arte é de sonho, e a narração em off não acrescenta grande coisa às imagens. Desta vez estamos numa aldeiazinha francesa por volta de 1860. Um comerciante, interpretado pelo Alfred Molina, que costuma se sair melhor dessas enrascadas que outros atores, inventa de transformar a cidade numa grande fábrica de tecidos. Pra isso, ele usa seda. Mas precisa trazer os ovos do bicho da seda do Japão, e convoca o filho do manda-chuva local pra essa perigosa empreitada. “Perigosa” porque o Japão ainda era um país fechado aos estrangeiros, estava em guerra constante, e, antes da inauguração do Canal de Suez, levava meses prum europeu chegar lá.

O protagonista é um rapaz inseguro (feito pelo Michael Pitt), recém-casado com uma moça magrinha que eu levei horas até notar que era a Keira Knightley. Ele começa sua narração em coma em off dizendo que vai contar a sua história, e pode ser pra você mesmo. A gente pensa que ele tá falando com o espectador otário aqui, mas no fim vemos que ele narra pra um ouvinte encontrado no seu jardim. Eu esperava que, no final da narração, a gente veria o infeliz ouvinte ou já morto ou prestes a se suicidar, como acontece no hilário Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu. Lembra, né? Assim que o carinha fala da sua vida amorosa, a vítima-ouvinte ou pula do avião, ou comete harakiri, ou se enforca. Paixão evoca isso. Se fosse um filme mais honesto, o ouvinte se mataria, porque é dureza escutar uma historinha tão chata sem esboçar uma reação minimamente dramática. E a narração não descansa. Só fica de fora nas várias cenas de sexo (nisso bem diferente da velha Hollywood), nenhuma nem distantemente erótica.

Coitado do Michael Pitt. Ele, que tá tão bem como um dos psicopatas no remake de Violência Gratuita (Funny Games), surge completamente insosso em Paixão. Não é o único. A Keira também passa em branco. Todos os personagens são passivos demais. Não dá pra entender como o Michael se apaixona por uma gueixa que ele vê umas três vezes no Japão. Nunca fala com ela, e ainda assim é capaz de arriscar a própria vida por ela? Ou eu sou cínica demais, ou esse negócio de amor à primeira vista envolve um pouco mais que só olhar pra pessoa e pimba, vamos trocar a Keira pela japonesa! Só sei que me irritei com o personagem do Michael. Não pode ver um rabo de quimono sem querer mudar toda a sua vida?

Há coisas instigantes em Paixão, mas poucas. É legal a gente saber que hoje, tendo dinheiro, pode cruzar o mundo em questão de dias, não meses ou anos, e sem ter que passar pela Sibéria. E, como eu já disse, as imagens são lindas. Pra completar, o filme ao menos rendeu uma doce conversa entre o maridão e eu. Ainda vou falar mais sobre isso, mas, pros iniciantes, a gente se conheceu num torneio de xadrez. Perguntei pra ele depois do filme:

- Amore, você acredita em amor à primeira vista?

- Acredito.

- E você acha que com a gente foi assim?

- Foi. Primeiro eu vi esse rostinho lindo, e aí a coisa foi.

- Como assim?

- Ah, eu ganhei um peão.

- Você quer dizer que se eu não tivesse perdido aquela partida...

- ...eu nunca mais falaria com você.

- Puxa vida, olha só. Se a gente não tivesse jogado aquele torneio e você vencido a partida, a gente não taria aqui, agora, juntinho...

- Você seria rica...

- É, muito rica, mas não feliz.

- Eu sei como é.

Se mesmo uma romântica incurável como eu não pode apreciar Paixão, quem há de?

2 comentários:

Claudemir disse...

Lola vc ja viu O Despertar de uma Paixão? Gostei bastante desse filme e pela sua crônica parece que Despertar e Silk são filmes parecidos. Estou aguardando o post contando a história de como vc conheceu o maridão.

lola aronovich disse...

Não, não vi esse Despertar (tive que procurar pra descobrir que chama-se The Painted Veil). Vou escrever sobre como eu e o maridão nos conhecemos, sim.