terça-feira, 23 de agosto de 2022

UMA ENTREVISTA PADRÃO SALLES

Ontem eu vi a entrevista inteira (40 minutos) que o pior presidente de todos os tempos deu ao Jornal Nacional. Foi a primeira das sabatinas. Hoje é a vez do Six Gomes. Quinta é o Lula.

Pelo que constatei nas redes sociais, teve muita gente de esquerda que deixou o ódio à Globo falar mais alto e pelo jeito se distraiu. Disse que foi uma conversa de comadres, que foi tudo acertado, que William Bonner e Renata Vasconcellos deixaram Bolso mentir à vontade e não fizeram nenhuma pergunta difícil ou importante... Acho que não viram a mesma entrevista que eu. 

Na entrevista que vi, o tom dos entrevistadores foi hostil desde o início, e o psicopata do planalto foi massacrado. Não que isso seja muito difícil, pois tá pra nascer um orador pior, mais incompetente, arrogante e mentiroso. O Estadão, aquele da escolha muito difícil, contou três mentiras por minuto, mas confio mais no levantamento de uma mentira por minuto. Ele não foi desmentido todas as vezes, mas foi em várias. Tem gente que fica esperando que, no momento da mentira, a TV coloque no ar a prova de que é mentira. Mas não é bem assim o jeito que as entrevistas funcionam, principalmente as que são ao vivo.

Pra quem tem dúvida se Bolso se saiu mal, é só ver a reação dos bolsonarentos, que reclamaram da cara de cínico do Bonner. O âncora começou perguntando sobre por que o presidente xingou ministros do STF. Bolso disse que isso era fake news, que ele não xingou. Mas sabemos que o Capetão chamou Alexandre de Moraes de “canalha” e Luís Roberto Barroso de “filho da p*ta”. Ele se embananou e não soube responder, apenas balbuciar "você falou ministros, não ministro". 

Em seguida, Bonner questionou os ataques que Bolso vem fazendo à democracia, e pediu um compromisso público de que o resultado das urnas seria respeitado, independente do vencedor. O golpista não conseguiu mentir sobre isso (o que já diz muito -- ele mente sobre tudo, exceto que não dará golpe). Emendou com um "desde que as eleições sejam limpas e transparentes". E quem decide se a limpeza e transparência das eleições? Ele, claro! Na sua falta de comprometimento, deixou evidente que não aceitará a vitória de Lula.

Outra falta de comprometimento surgiu com a pergunta da Renata, que acabou sendo o ponto que mais repercutiu de toda a entrevista. A troca foi mais ou menos assim: "Você se arrepende de ter imitado pessoas com falta de ar?" Bolso: "Eu não imitei". Renata: "Sim, imitou. Se arrepende?" (silêncio) Bolso: "Vamos mudar de assunto?" 

Teve muita gente no Twitter que opinou que lembrar Bolso zombando da falta de ar de pacientes com covid não tira voto dele. Preferem que as entrevistas foquem no Queiroz, nas rachadinhas, no cheque de 89 mil... Tudo assunto batido de três ou quatro anos atrás! Pra piorar, ao insistir em temas passados (e que não ocorreram durante seu governo), ficamos com a impressão de que não há corrupção no governo Bolsonaro, que é justamente o que ele quer que acreditemos!

Não é questão de opinião. Há pesquisas qualitativas que mostram que uma das piores coisas que Bolso fez foi imitar falta de ar de gente morrendo. Por exemplo, numa discussão em grupo, concluiu-se: "A cena do presidente Jair Bolsonaro no auge da pandemia imitando um paciente com falta de ar depois de dizer 'todos vamos morrer', foi o que mais provocou reações negativas em grupos de eleitores". Lembram de uma pastora, ex-apoiadora do genocida, que pediu desculpas publicamente após a imitação grotesca? Pois é. Quem acha que a pandemia não será muito explorada durante a campanha não está entendendo o jogo direito. São os quase 700 mil mortos, resultado da gestão desastrosa de Bolso, que mais impedem as mulheres de votar no Capetão. Por isso, a pergunta de Renata foi a mais bombástica pra Bolsonaro, do ponto de vista eleitoral.

Rapidamente a frase "falta de ar" virou uma das mais procuradas nos sites de busca. Por incrível que pareça, muita gente não sabia de mais essa barbaridade do genocida. Ele imitou pessoas com falta de ar nas suas lives em 18 de março de 2021 e 6 de maio de 2021. Desesperado com a repercussão negativa, ele agora deu a explicação oficial pra imitação: não era deboche, era uma denúncia do protocolo Mandetta, "que só recomendava ir ao hospital após sentir falta de ar. Foi justamente o contrário: eu defendi essas pessoas. Quem mandou ficar em casa é que desprezou suas vidas". Só sendo muito bolsominion pra acreditar numa cretinice dessas.

Entre outras mentiras e baboseiras, Bolso afirmou que virar jacaré faz parte da literatura portuguesa, que escalou ministros seguindo critérios (mencionando um "padrão Marcos Pontes, padrão Salles" de competência, ao mesmo tempo que, para tentar explicar os cinco ministros absurdos no Ministério da Educação, disse "as pessoas se revelam quando chegam"), culpou Sérgio Moro pela interferência na polícia federal, e os ribeirinhos e o Ibama pela destruição da Amazônia! 

Numa resposta ensaiada, parece ter agradado sua bolha. Bonner apontou que ele se elegeu prometendo uma nova política e xingando o Centrão, e hoje governa com o Centrão. Bolso respondeu acusando Bonner de querer que ele seja ditador para governar sem o apoio do Congresso. Nesse quesito, faltou perguntar sobre orçamento secreto. E óbvio que muitas questões fundamentais, como a volta do mapa da fome, ficaram de fora. 

Em seguida, no Jornal da Globo, Renata Lo Prete vaticinou que a negativa de Bolso sobre imitar pacientes com falta de ar foi sua mentira mais flagrante na entrevista do JN, mas que houve várias outras, como a insistência num tratamento precoce que nunca existiu, ou que o governo foi rápido em providenciar oxigênio pra Manaus, ou sobre as urnas eletrônicas (a Isabella elencou algumas das muitas mentiras do seu Jair). 

Como Lo Prete conclui, houve um "apagão do presidente diante de todas as perguntas que exigiam dele dizer o que pretende fazer com o país se for reeleito". Sim, ele não aceitou se arrepender por imitar pessoas com falta de ar, nem afirmar sem meias palavras que respeitará o resultado das eleições. Resta saber se os que ainda estão indecisos ou pretendem anular o voto perceberam não só o embuste que é seu Jair, mas também a destruição e o perigo que ele representa.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

GUEST POST: SOBRE CONSTELAÇÕES E ESTRELAS

Edvilson Castro Brasil é médico e eleitor do Lula 13. Eis seu guest post sobre constelações familiares:

Acompanhando o Twitter, vi um post endereçado a Lola sobre Constelação Familiar, em que ela oferecia o espaço para quem quisesse escrever sobre o tema. Acabei me oferecendo, inclusive como uma oportunidade de externar algumas opiniões e preocupações sobre o assunto.

Conheci a Constelação Familiar (CF) em 2013, num momento da minha vida em que as coisas não podiam estar mais caóticas. Estava em processo de saída de uma chefia que acabou com minha saúde mental (chefia da perícia médica do INSS em Alagoas) e desencadeou o que, hoje, identifico como a minha primeira crise de Burnout, sobre o que ainda posso escrever um dia. Tinha acabado de receber um diagnóstico clínico bastante complicado e ainda estava tentando descobrir o caminho para conduzir aquela nova condição na minha vida. Vida amorosa não existia. Enfim, tudo parecia conspirar para a manutenção e agravamento da minha condição de angústia.

Fui, então, convidado a conhecer a técnica através de uma amiga psicóloga. No início, estranhei e tentei fugir, mas depois acabei aceitando a ideia e me joguei de verdade. Participei ativamente de vários grupos de constelação, obtendo, sim, uma melhora geral do meu quadro, o que despertou o meu interesse a ponto de chegar mesmo a fazer uma formação e tentar atuar como terapeuta.

De forma simplificada, podemos dizer que a técnica se propõe a buscar informações que estão no inconsciente das pessoas e, por consequência, de suas famílias. Postula-se que exista um inconsciente familiar (bebendo no inconsciente coletivo, teoria de Jung), que seria uma espécie de repositório de informações, tornando possível acessar, através de um membro do sistema, as informações sobre todo o mesmo. Não carrego no peito a pretensão de esgotar o assunto ou de dar explicações definitivas sobre a técnica em si e seus fundamentos, se têm veracidade científica ou não. Inclusive, e principalmente, por considerar que um assunto dessa magnitude não pode e nem deve ser discutido na superficialidade.

O meu primeiro estranhamento foi em relação à qualquer pessoa poder se tornar um constelador, mas fui vencido pelo fato de que, para isso, era necessária uma formação que dura, em sua maioria, mais de um ano. E fomos tocando o barco.

Mas, escorpiano não consegue ficar muito tempo sem pensar e observar coisas. Em um desses cursos, em São Paulo, tive a oportunidade de ver o criador da técnica, o alemão Bert Hellinger. Naquela ocasião, ele já se encontrava, salvo engano, com 89 ou 90 anos. Uma constelação, em especial, chamou minha atenção. Um rapaz, que se encontrava sentado próximo de mim, até pouco tempo, era o cliente. O meu gaydar havia apitado no momento em que o vi, não me restando muitas dúvidas sobre o fato de ele ser gay também. Não me recordo qual o tema que ele queria tratar, mas lembro bem que não estava diretamente ligado à esfera sexual. 

Bem, de forma resumida, a coisa prosseguiu e o que se mostrou foi uma dificuldade de relacionamento com sua mãe, confirmada pelo cliente, e aí o rapaz foi colocado na situação de que, se não resolvesse internamente suas questões com a mãe, teria dificuldades na vida, e até aí, tudo bem, porque em quase todas as abordagens terapêuticas, mesmo na psicanálise, não conseguimos fugir muito do peso da nossa relação com nossos pais, e a mãe sempre tem um papel importante na formação de nossas psiquês, indiscutivelmente, mesmo as ausentes por qualquer motivo. Mas Bert falava que ele precisava se resolver com a mãe porque, só aí, atrairia a mulher que o completaria!. O constrangimento do rapaz era visível. 

Minhas amigas que estavam comigo também estranharam, mas permaneceram e permanecem até hoje dizendo amém. Neste mesmo evento, em relação a um caso de abuso sexual, foi reforçada a ideia de que, sempre que houver abuso, a culpa seria da mãe, que não conseguindo “cumprir o seu papel de esposa”, acabava por dar, de forma inconsciente, a permissão para o abuso. Voltei para Maceió com muitas caraminholas na minha cabecinha. Continuei lendo, estudando, e observando.

A primeira pergunta que fiz, e que me faço até hoje, é: quem definiu esses papéis? Qual o papel de esposa esperado e que aquela mulher que teve a filha abusada não conseguira cumprir? Quem estabeleceu esses papéis? E aí, precisamos historiar o processo um pouquinho. 

Como citado anteriormente, Bert Hellinger tinha, nessa época, perto dos 90 anos. Ele nasceu no dia 16 de dezembro de 1925, em  Leimen, e morreu no dia 19 de setembro de 2019, em Bischofswiesen. Ou seja, um cara que nasceu na Alemanha do pós-Primeira Guerra e pré-Segunda Guerra, e que em dado momento de sua vida, aos 20 anos (1945) foi ordenado pela Igreja Católica. Foi um jovem na Segunda Guerra, tendo inclusive lutado nesta (e ele era alemão!), e depois foi padre até o final dos anos 60, o que significa uma vida de quase 25 anos de sacerdócio em uma igreja e época onde os papéis sociais eram muito bem definidos, porque ainda não havíamos começado a colocar nossas cabeças, asas e unhas para fora. Era o patriarcado em sua forma mais pura, ainda.

As discussões sobre o feminismo, por exemplo, estavam começando. Simone de Beauvoir estava escrevendo O Segundo Sexo por essa época, e só veio a se declarar uma feminista publicamente em 1972. A rebelião de Stonewall só ocorreria em 28 de junho de 1969, deflagrando o pontapé inicial para termos Pabllo Vittar hoje em dia como um fenômeno de mídia mundial.

Outras pessoas contribuíram para a gênese da Constelação Familiar. Algumas delas, inclusive, divergiram em relação a certos pontos, que incluíam (só vim a perceber depois) alguma parte das interpretações desses “papéis” sociais. 

Tá, cara, mas onde você quer chegar com essa ladainha?

Eu quero apenas fazer perceber que, dadas as circunstâncias descritas acima, essas definições de papéis são, inevitavelmente contaminadas por uma época e uma história de vida de uma pessoa que, a partir de um certo momento de sua vida, começa a ser idolatrado como um novo Messias. E, sim gente, esse cara tinha 90 anos, e era alemão. Era a cabeça de um cara alemão viajado pelo mundo todo, mas de 90 anos. Não dá pra esperar que ele pensasse igual a quem tem 40 anos hoje. Mas era de se esperar que quem tem 40 anos hoje tivesse senso crítico em relação a algumas coisas, e não transformasse uma técnica que pode, sim, ser muito interessante, se bem usada, em algo próximo a uma seita.

Talvez o problema não seja a técnica em si, mas as definições de papéis utilizadas e suas interpretações dentro do campo fenomenológico. E não, não é pra ser uma seita, apenas um recurso de auto descoberta, que pode ser bem usado, ou mal usado. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

TRÊS REPORTAGENS PARA ATESTAR A FALÊNCIA DO BRASIL DE BOLSONARO

Ontem eu li três reportagens muito boas que eu tenho que compartilhar. E acho que estão interligadas.

A primeira foi esta, sobre uma professora de uma escola particular para alunos ricos em Porto Alegre. Ela estava lecionando sobre iluminismo e a exclusão histórica das mulheres pra sua turma da oitava série quando um aluno a interrompeu gritando: "Onde tem mulher, só acontece m*rda!" Depois de mais confusão, ele acabou sendo convidado a sair da sala. Os pais do aluno misógino, provavelmente frequentador de chans incels, entraram com queixa contra a professora, e ela foi demitida. Ou seja, não pode falar sobre invisibilidade feminina das mulheres na política, que alunos bolsonarentos (e seus pais) não gostam! 

A segunda foi a excelente reportagem da repórter Ana Clara Costa na Piauí sobre a Jovem Klan. Há muitos detalhes saborosos sobre como o dono da emissora, Tutinha, faz tudo por dinheiro. E ainda nega que sua empresa seja bolsonarista!

Na matéria fica evidente a importância que Reinaldo Azevedo (hoje admirado por bastante gente de esquerda, o que não consigo entender) teve para promover o antipetismo e a extrema-direita no Brasil. Em 2014, por exemplo, vinte dias depois da eleição de Dilma, tio Rei entrevistou Aécio Neves, encampando a tese que as eleições foram fraudadas. Saiu da emissora em 2017, mas o estrago já estava feito. 

A matéria revela que o laboratório para a Jovem Klan virar TV foi o YouTube. Sabendo que tinha tratamento especial, e que seus canais no YT jamais seriam derrubados ou desmonetizados, a Klan passou a incluir cada vez mais fake news e discurso de ódio na sua programação. 

A TV (a cabo, não aberta) da Jovem Klan tem baixo custo de produção. Paga mal os seus apenas 500 funcionários (quase todos terceirizados). O assistente de produção do seu programa mais importante ganha apenas R$ 2,5 mil, e não vai à redação porque não há vale-transporte.

Não preciso nem dizer que os reaças em geral e a Jovem Klan em particular (nome melhor pra definir a linha ideológica da emissora não tem) ficaram furiosos com a matéria. Aí a Piauí fez um vídeo apontando a mudança de opinião dos comentaristas.

Mas a reportagem mais impactante que li ontem foi um furo do jornalista Guilherme Amado pro Metrópoles (haverá outras, é uma série). Ele teve acesso a mensagens trocadas num grupo de WhatsApp chamado Empresários & Política. Lá, bolsonarentos como o véio de Havan, o dono do Coco Bambu, do Mormaii, da Multiplan, da W3Engenharia, entre outros, defendem golpe de Estado caso Bolso não ganhe.

O dono do shopping Barra World, José Koury, escreveu no grupo: "Prefiro golpe do que a volta do PT. Um milhão de vezes. E com certeza ninguém vai deixar de fazer negócios com o Brasil. Como fazem com várias ditaduras pelo mundo”. 

O dono do Grupo Sierra (empresa gaúcha especializada em móveis de luxo), André Tissot, respondeu: “O golpe teria que ter acontecido nos primeiros dias de governo. Em 2019 teríamos ganhado outros dez anos a mais”. Ao ser questionado sobre a matéria, Bolso teve mais um chilique (o outro de hoje foi este, em que tentou roubar o celular de um youtuber que o chamou de "Tchucatchuca do Centrão). 

E claro que a opinião desses ricaços não é apenas um desejo. Eles têm dinheiro, o que compra influência e poder. É chocante quando um deles fala em dar bônus e prêmios a funcionários que votarem em Bolso. Outro empresário lembra que, apesar da ideia ser fantástica, isso poderia, sei lá, de repente ser visto como compra de votos. Como é difícil ser empresário no Brasil, pô!

Mas é isso: de um lado, existem 33 milhões de brasileiros passando fome. Do outro, meia dúzia de bilionários crentes de que podem continuar mandando no país. E eles se consideram patriotas! Sonegar imposto e tramar contra a democracia do seu próprio país é patriotismo agora!

Nunca foi tão fácil escolher um lado. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

UMA SEMANA DURA PRA BOLSO, E LINDA PROS AMANTES DA DEMOCRACIA

Esta semana vem sendo terrível pro pior presidente da história do país.

Segundo o jornalista Ricardo Noblat, assessores do Coisa Ruim e homens do mercado financeiro garantiram a Bolso que esta semana seria o começo da virada -- que, faltando um mês e meio pras eleições, e com o início da campanha propriamente dita (lógico que Bolso já está em campanha para reeleição desde janeiro de 2019), o presidente finalmente colheria os frutos da decisão puramente eleitoreira de lançar um "pacote de bondades" na reta final. Importantes pesquisas divulgadas esta semana mostrariam seu crescimento.

Não foi isso que aconteceu. Já na segunda, com a divulgação da primeira pesquisa, da FSB/BTG (um banco não muito fã da esquerda), um banho de água fria pra extrema-direita: Lula 45%, Bolso 34%, apontando que Lula tem chance de vitória já no primeiro turno. No mesmo dia, a Petrobrás anunciou a redução de 18 centavos no preço da gasolina. Foi o bastante pro Twitter ficar repleto de mensagens com a tag "Lula subiu, gasolina caiu!". 

Na terça foi a vez da pesquisa Globo/Ipec (ex-Ibope), mais ou menos um replay da BTG: Lula 44%, Bolso 32, Ciro 6%. No segundo turno, se houver, seria Lula 51%, Bolso 35%. 

E ontem veio a pesquisa Genial/Quaest cimentar qualquer chance de reviravolta do Capetão: Lula 45%, Bolso 33%, Ciro 6%, e Simone Tebet, agora empatando com Ciro dentro da margem de erro, 3%. No segundo turno, Lula teria 51%, e Bolso 38%.

Ainda assim, de acordo ao Intercept, o núcleo duro da campanha do PT espera que Bolso reduza a distância que Lula tem quando dê pra sentir mais o efeito do Auxílio Brasil. Até agora, tudo indica que os mais pobres não são bobos, sabem que o genocida não fez absolutamente nada por eles, e vão pegar e usar os R$ 600 e continuar votando 13.

Semana passada muita gente ficou assustada com uma pequena reação de Bolso. Afinal, a rejeição das mulheres a ele e a aproximação de Lula com os evangélicos tinha diminuído. Mas foi fogo de palha. Lula tem acima de 39% dos votos há anos. Em 2018, por exemplo, quando esteve injustamente preso, era esse seu patamar. Foi por isso que foi proibido de concorrer. Se concorresse, seria eleito. 

O que fez com que a situação se normalizasse -- Lula mantivesse seus 12% de vantagem sobre Bolso? -- nesta semana decisiva? A Veja atribui isso à desistência de Janones, que agora apoia Lula efusivamente. O ato pela democracia no dia 11 de agosto também reforçou que a população em geral abomina as ameaças golpistas de Bolso. Os bolsominions adoram, mas isso afasta o eleitor de centro. 

E ontem Bolso sofreu mais um vexame -- teve que ouvir calado o discurso do ministro do STF Alexandre de Moraes, que ontem tomou posse como novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Xandão prometeu combater as fake news e o discurso de ódio (duas marcas registadas da extrema-direita) e disse que o Brasil é a única democracia que apura e divulga os votos de uma eleição no mesmo dia. Foi aplaudido de pé. A cara de choro de Bolso fala tudo. A atitude de Carluxo, sentado e se recusando a bater palmas, também. 

Mas nada é tão ruim que não pode piorar. Muitos dos presentes (havia mais de duas mil pessoas lá) relatam que, enquanto Bolso ficou isolado, Lula era cercado por fãs e pela imprensa a cada passo que dava. Esta foto, que mostra todos olhando pro próximo presidente da República, dá um bom indício do que aconteceu. Até Bolso só tinha olhos par Lula!

Que semana difícil, hein, miliciano? E amanhã ainda sai a Datafolha. Um leitor disse que precisa encher o tanque, mas vai esperar até sexta pra isso, depois da pesquisa.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

CADA UM TEM OS ALIADOS QUE MERECE

Micheque e seu marido Jair estão em plena campanha, empenhadíssimos para reconquistar o voto das evangélicas. 

Como percebeu a socióloga Christina Vidal, especialista em política e religião, a terceira-dama mudou o corte de cabelo e está vestindo roupas mais largas e pudicas, "encarnando o projeto da mulher virtuosa, a 'Mulher V'" (conceito popularizado por uma filha de Edir Macedo que defende uma "mulher moderna à moda antiga", argh). E também apelando para o preconceito religioso (e racista) contra "macumbeiros", lógico. 

Pode até funcionar. Mas, para tanto, o casal precisará aparar umas arestas. Por exemplo, não pegou nada bem eles terem ido a um almoço no domingo em Belo Horizonte com Guilherme de Pádua e sua terceira esposa, Juliana (entre outros casais convidados). Antes foram a um culto na Igreja Batista da Lagoinha, onde Guilherme é pastor há cinco anos. 

Nem todo mundo sabe que Guilherme é bolsonarista de carteirinha (neste vídeo de maio de 2020 ele e Juliana participam de um ato golpista pró-Bolso em frente ao Congresso), mas todo mundo sabe quem é Guilherme, ainda mais agora que está sendo exibido o documentário Pacto Brutal. Trinta anos atrás, o então ator matou com 18 tesouradas sua colega -- a atriz Daniella Perez -- na novela De Corpo e Alma, com a cumplicidade de sua primeira esposa, Paula Thomaz. Foi um crime que chocou e paralisou o Brasil, tirando o foco do impeachment de Collor (hoje aliado a Bolso).

Condenado a 19 anos, Guilherme ficou menos de 7 anos preso. Saiu em outubro de 1999, e já passou a frequentar a Igreja Lagoinha. Sobre ele, o filho do dono da igreja já justificou: "Guilherme cumpriu a pena. Ele é uma bênção. Nenhum de nós somos os mesmos, constantemente somos transformados pela misericórdia de Jesus”.

Poucos ficariam sabendo do encontro de Guilherme e Juliana com Jair e Michelle se não fosse a colunista Fábia Oliveira, do Em Off. Pra piorar, tem uma foto de Ju e Mi posando juntas, sorridentes. Pra piorar mais ainda, pouco depois a primeira-dama fundamentalista cristã deixou um emoji de choro numa postagem da novelista Glória Perez (mãe de Daniella e também apoiadora de Bolso) sobre o documentário. Muita gente a acusou de hipócrita e falsa. 

Como não podia deixar de ser, bolsonarentos estão caprichando nas fake news de que Guilherme apoia Lula (não Bolso, como ele já deixou claro em 2020). Juliana se comprometeu a negar qualquer amizade com Michelle que, segundo ela, nem sabia quem ela era (outro colunista alega que Bolso não estava em BH no dia). E a gente aqui, fã da tag #NuncaFalha (as piores pessoas sempre votam e fazem campanha pro genocida), vê mais um exemplo de como aquele slogan fascista deles (bandido bom é bandido morto) só vale pra quem não é aliado deles.

Após ler essas notícias todas, comentei com o maridão sobre como, para as igrejas evangélicas, um assassino como Guilherme de Pádua é muito mais valoroso do que alguém que nunca matou, porque segue aquela narrativa de redenção através da fé. 

Eu: "Se a gente se convertesse, ia ser exemplo de qual superação, a gente que nunca cometeu nenhum pecado muito sério? Que nunca matou, nunca roubou, nunca usou drogas, nunca foi alcoólatra, nunca se prostituiu? A gente iria dizer o quê, que não acreditava em deus e agora pagamos 10% de tudo que ganhamos pra pastores milionários?"

Maridão: "Eu já joguei a Leningrado".

Eu: "O que é isso? O que tem a ver?"

Maridão: "Pro pessoal do xadrez, jogar a defesa Leningrado é um pecado muito grave".

Eu: "Pelo menos a gente nunca votou no Bolsonaro". 


UPDATE em 14/8: Numa das lives que duram horas para um canal reaça, Bolso confirmou que esteve sim, por poucos minutos, no almoço (depois do culto em que ele e Michelle discursaram) com pastores da Igreja Batista Lagoinha, em BH, da qual Guilherme de Pádua faz parte. A esposa atual (Juliana, não Paula Thomaz, que foi cúmplice de Guilherme no assassinato de Daniella) tirou foto com Michelle. Guilherme é apoiador de Bolso há anos. Cadê a fake news? A propósito, depois o trecho da entrevista sumiu da live. Quanto vocês querem apostar que Bolso não vai processar a colunista que falou desse encontro?