quinta-feira, 7 de julho de 2022

FALA MESMO, SÂMIA!

Ontem a grande guerreira Sâmia Bomfim (deputada federal pelo Psol-SP, e candidata a um segundo mandato) conseguiu brecar uma moção de aplausos para a juíza e a promotora responsáveis por enfiarem uma menina de 11 anos num abrigo para que ela não pudesse abortar (como era seu direito).

Eu avisei, né, que a juíza receberia todas as honrarias possíveis e imagináveis dessa turma do atraso que vê toda a humanidade num feto, mas nenhuma humanidade numa menina de 11 anos que carregava esse feto, fruto de um estupro. E que querem homenagear uma juíza que, por questões pessoais, religiosas, puramente ideológicas, simplesmente descumpriu uma lei que existe desde 1940!

Então ontem na Comissão da Mulher da Câmara de Deputados uma deputada bolsonarenta qualquer quis passar essa moção. Sâmia, representando todas nós, perguntou, na lata: "Deputada, a senhora não tem vergonha na cara?" Sabemos a resposta.

"Fala mesmo Sâmia" foi parar nos trending topics do Twitter. A deputada também se manifestou nas redes: "Se eles acham que vão falar e fazer o que quiserem, estão enganados. Vamos seguir a luta pelos direitos das meninas e mulheres e será das nossas mãos que partirá a derrota desse governo fascista e misógino!"

Parabéns, Sâmia, por colocar essas pessoas no lugar delas -- no esgoto, de onde nunca deveriam ter saído e para onde voltarão em breve.


quarta-feira, 6 de julho de 2022

PROMOTORA CONTINUA PERSEGUINDO MENINA DE 11 ANOS QUE ABORTOU

Hoje a Paula Guimarães, do Portal Catarinas, junto com o Intercept Brasil, publicou um novo capítulo da saga "como a direita trata crianças que já nasceram".
A promotora Mirela Dutra Alberton, do Ministério Público de Santa Catarina, foi uma figura crucial (em conjunto com a juíza Joana Ribeiro Zimmer) na prisão da menina de 11 anos num abrigo para impedir que ela pudesse abortar, como era sua vontade -- e seu direito. Finalmente, a menina conseguiu abortar. E a extrema-direita do país decidiu continuar a persegui-la.
No dia 24 de junho, a promotora mandou a polícia recolher os restos fetais no hospital universitário onde o aborto foi realizado para uma necrópsia. Não há o que investigar. A menina não fez nada de ilegal. Desde 1940 (faz 82 anos!) o Código Penal permite o aborto em caso de estupro. A menina tinha 10 anos quando engravidou, o que configura estupro de vulnerável. Se for verdade que quem a estuprou foi um menino de 13 anos (isso sim ainda está sendo investigado, para não haver possibilidade de acobertar o crime de um adulto), ele e inimputável, por ser menor de idade, mas segue sendo estupro de vulnerável. A autoria de um crime não muda o crime.
A ação da promotora é mais uma tentativa desesperada de criminalizar um aborto que é permitido por lei. E mais um passo para continuar atacando uma menina de 11 anos (e sua mãe) que já passou por vários traumas.
A deputada federal Sâmia Bomfim comunicou no twitter que, junto à bancada do Psol, incluiu na "representação no CNMP [Conselho Nacional do Ministério Público] contra a promotora Mirela Dutra, do caso da menina de 11 anos de SC, [que] apure também a ordem de busca policial pelo feto, após o processo de aborto legal. Basta de violência misógina contra essa criança".
Sabemos que a preocupação dos "pró-vida" é apenas com quem ainda não nasceu. Crianças de 9, 10, 11 anos, para eles, devem servir seu papel de incubadoras. Ou morrer se prosseguirem com a gestação ou serem presas se conseguirem abortar.

terça-feira, 5 de julho de 2022

GAROTAS SÓ QUEREM TER DIREITOS

Outro dia alguém colocou uma imagem pra comemorar o aniversário de 69 anos da Cyndi Lauper: ela com uma camiseta incrível que diz "Girls just want to have fun/damental rights". Como todo mundo que viveu a década de 80 sabe, é um trocadilho com um grande sucesso da cantora. A gente tentou traduzir, mas o trocadilho se perde. O melhor que conseguimos fazer foi aproximar "diversão" de "direitos" (obrigada, Koppe querido!). De qualquer jeito, eu gostaria de ter uma camiseta feministona dessas.

segunda-feira, 4 de julho de 2022

STEALTHING, OU RETIRAR A CAMISINHA DURANTE A TRANSA SEM CONSENTIMENTO, JÁ É CRIME

Ontem o Fantástico fez uma boa reportagem sobre stealthing, que é retirar a camisinha na hora do sexo sem a parceira permitir. Essa é uma praga bem recorrente, que acontece muito mais do que a gente imagina.
O Fantástico tem uma série chamada "Isso tem nome", e já falou de gaslighting, (leia mais aqui), mansplaining e manterrupting, e etarismo, entre outros problemas. É uma iniciativa importante, por que como podemos combater algo que não conseguimos nem nomear? Infelizmente, os nomes continuam sendo em inglês, o que dificulta demais a divulgação e compreensão. Mansplaining até já é conhecido hoje como "macho palestrinha", mas os outros termos seguem sem tradução. Tem gente que ainda usa, por exemplo, revenge porn em vez do perfeitamente compreensível pornografia da vingança.
Mas não faço a menor ideia de um termo em português para stealthing (sugestões, por favor?). E olha que isso já ocorreu comigo e com várias mulheres que conheço.
Parece óbvio que o consentimento é pra fazer sexo protegido, ou seja, usando camisinha, e que se o cara tira o preservativo ou finge que vai colocá-lo e não coloca, ele está te enganando. Parece que tem muito canal e fórum misógino que ensina a fazer isso e encoraja. Depois a mulher engravida e, se quiser abortar, vai ter de ouvir (muitas vezes desses mesmos nojentos que fazem stealthing) "Por que não usou camisinha?"
Existe um projeto de lei, apresentado em abril, para criminalizar a prática com pena de até quatro anos de prisão. Mas, na realidade, o stealthing já pode ser enquadrado no artigo 215 do Código Penal (violação sexual mediante fraude), ou até no 130 (exposição a contágio de doença venérea). A pena é de 2 a 6 anos de prisão e aumenta se o ato causar gravidez ou transmitir alguma doença. O problema, óbvio, é como provar. Se provar estupro já é difícil, quanto mais complicado ainda é provar que o cara não usou camisinha quando você disse pra ele usar.  
Pra piorar, segundo os relatos, não basta o cara admitir que transou sem camisinha sem o consentimento -- ele também precisa admitir que teve intenção de causar algum mal.
A sugestão, para quem já passou por isso, é procurar atendimento médico como se procura no caso de estupro, tomar pílula do dia seguinte (no máximo 72 horas depois), e medicamentos para impedir doenças transmissíveis. Denunciar numa delegacia é recomendável, mas a mulher terá que ir munida de muita paciência. Os policiais não saberão o que é stealthing, ou que stealthing é crime, e tentarão a te persuadir a não fazer um boletim de ocorrência. E provavelmente não vai dar em nada.
Mas é pelo menos um registro de que você leva isso muito a sério. Se stealthing puder ser associado a estupro, talvez uma mulher que engravide possa insistir para fazer um aborto previsto por lei. O hospital não vai querer, e aí tem que levar pra justiça e torcer pra não pegar um juiz "pró-vida" desses que prendem menina de 11 anos num abrigo para impedir que ela aborte. De qualquer jeito, quando a primeira decisão da justiça permitindo aborto em caso de gravidez por stealthing passar, fica valendo como jurisprudência.
Lógico que, se o pior governo de todos os tempos conseguir um segundo mandato, tratará logo de proibir aborto em todos os casos. Então é imperativo chutar Bolso pra bem longe (de preferência pra dentro de uma cadeia).

sexta-feira, 1 de julho de 2022

MULHER NÃO TEM UM DIA DE PAZ

Como estou sem nada de tempo, reproduzo aqui um comentário anônimo deixado aqui.

A verdade é que mulher nunca tem paz. Cansativo demais.
Criança de 10 anos foi estuprada e abortou: massacraram a menina.
Klara Castanho foi estuprada e deu para adoção: massacraram a menina.
Nunca foi sobre ser pró-vida, só querem que as mulheres exerçam o papel de mãe a todo custo.
Essa história só prova que nunca é sobre defender bebê nenhum e sim sobre não permitir com que as mulheres tenham escolhas! Sempre foi sobre ter controle sobre as decisões das mulheres. Mas o pai pode escolher não ser pai, fazer filho a torto e a direito e não oferecer o mínimo. Muita gente nem sequer conheceu e próprio pai, mas deus a livre se a mulher não quiser ser mãe. Se for abusada então pode ter certeza que a agressão não vai parar no estupro, infelizmente. Ninguém foca nos criminosos, mas na criança, na adolescente ou na adulta que sofreu abuso e engravidou.
É mais sobre quererem mandar nos nossos corpos do que resolverem de fato o problema e penalizarem os culpados. Querem que as mulheres sejam objetos para sermos colocadas do jeito que eles quiserem, sem fazer valer as nossas vontades. É isso. Somos apenas peças nas mãos deles, que eles acreditam dominar para decidirem o que eles acharem que devem. Amam PUNIR mulheres com gravidez indesejada e maternidade forçada. Anti-aborto é misoginia pura.