Ontem na Folha um jornalista metido a revisionista histórico "politicamente incorreto"
(eufemismo pra reaça, pra disfarçar que o que eles fazem também é puramente ideológico) decretou, em pleno Dia Internacional da Mulher, que "o feminismo é importante demais para ficar nas mãos das feministas". Sim, vamos deixar o feminismo nas mãos hábeis e capazes dos anti-feministas!
Uma semana atrás, um jornalista intrinsicamente ligado à ditadura militar, Alexandre Garcia (que foi porta-voz do governo Figueiredo), decidiu "polemizar" (eufemismo pra ser abertamente preconceituoso) no Twitter. ![]() |
| Ariel Palacios tuita sobre feminicídio (clique para ampliar) |
Provavelmente tentando se superar no tuíte que escreveu mês passado ("feminicídio é invenção de quem pensa que homicídio é matar 'hômi'"), Garcia disparou, ao comentar uma notícia em que Jane Fonda revelava ter sido estuprada na infância: "E eu com isso?"
Diante das inúmeras críticas, ele tentou consertar, dizendo que não via ninguém reagir ou se escandalizar contra estupros quando acontecem aqui, só quando é ela fora. "Colônia", concluiu o filhote da ditadura financiada pelo Tio Sam.
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| Vamos deixar as manifestações pelos direitos das mulheres não com as mulheres feministas, mas com o pessoal que vai pra rua tirar selfie com PM |
Pois é, nós feministas nem existimos, né? A gente não reage ou se escandaliza com os estupros cometidos no Brasil. Isso que dá deixar o feminismo na mão das feministas!
O lugar que Garcia ocupa na Globo deve ser um prêmio de uma emissora que sempre apoiou o regime militar a um de seus personagens. A gente fica pensando como um reaça medíocre como Leandro Narloch é contratado para ser colunista do maior jornal do país. Aí a gente se lembra do Kim.
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| Mulheres (e homens) NÃO marcharam em Brasília ontem porque estavam ocupadas demais falando do decote da Emma Watson |
Como exemplos de como o feminismo se perdeu em questões imaginárias, o jornalista revisionista histérico Nardoch menciona dois assuntos que nem eu, nem minha timeline (majoritariamente feminista), conhecíamos: uma crítica a Emma Watson e a uma marca de roupas. A gente estava ocupada demais com o Dia Internacional da Mulher (se bem que é plenamente possível pra gente, que é multitask, criticar mais de uma coisa ao mesmo tempo).
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| Feministas prostestando em Brasília ontem. Provavelmente as "adolescentes reclamonas" que Nardoch chama de "carolas moralistas" |
Narloch chama o feminismo de "xucro" e argumenta que "as mulheres de verdade [...] precisam evitar que adolescentes reclamonas ridicularizem questões tão importantes da luta por direitos individuais".
E quem determina quem são as "mulheres de verdade" e que pautas feministas são importantes ou não, logicamente, são os homens machistas e anti-feministas. Nada como um homem em pleno Dia das Mulheres pra nos lembrar quais opiniões importam e quais vozes são ouvidas na nossa sociedade.
Na mesma linha do atraso e da total falta de contato com a realidade, o presidente golpista Michel Temer fez o que deve ter sido o pior discurso da história do Brasil no Dia Internacional da Mulher: "Eu tenho a absoluta convicção, até por formação familiar, por estar ao lado da Marcela, o quanto a mulher faz pela casa, o quanto a mulher faz pelo lar, o quanto faz pelos filhos". ![]() |
| Feministas protestam no Paraguai |
No discurso, Fora Temer colocou toda a responsabilidade da criação dos filhos na mulher, e nos "homenageou" apenas por isso. Não, minto! Ele também disse que a mulher é muito importante na economia -- quando vai ao supermercado e observa o reajuste dos preços!
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| Feministas protestam em Hong Kon |
Um discurso tão pré-histórico desses deixa claro como deve ter sido difícil pra Temer o papel de "vice decorativo" de uma mulher presidenta. Lembram daquela carta que ele mesmo divulgou antes do golpe, mostrando todo o seu rancor? Na carta ele lamentava-se por não ser protagonista, por ter papel secundário no governo. Com o discurso de ontem, em que vemos que mulher, pra ele, só vale se for subalterna, constatamos a principal razão do seu desconforto com Dilma.
O discurso foi tão desastroso que fez vários jornalistas (provavelmente não Nardoch ou Alexandre Garcia, que devem ter adorado) perguntarem a ministros se aquilo havia sido machista ("não", disseram as ovelhinhas).
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| Feministas protestam no Iêmen |
E rendeu discussão na Câmara dos Deputados também. O deputado Marco Maia (PT-RS), por exemplo, reclamou que o discurso atribuiu à mulher "um papel reduzido na sociedade". A deputada Shéridan, uma das 55 deputadas mulheres (10%), do mesmo partido do presidente, revoltou-se com as palavras do deputado: "Reduzido por que? Dona de casa se reduz a que? Muito me impressiona vossa excelência se reportar a uma condição de inferioridade da mulher por ela ser dona de casa".
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| Poema da grande Maya Angelou: "Você pode atirar em mim com suas palavras. Você pode me cortar com seus olhos. Você pode me matar com seu ódio. Mesmo assim, como o ar, eu me levantarei" |
A gente fica sem saber se essas pessoas falam tais barbaridades por ignorância ou cinismo. O papel de dona de casa e mãe foi praticamente o único a ser oferecido a mulheres de classe média durante décadas. Separava-se o espaço privado (da mulher) do público (do homem), afirmava-se que a mulher só podia ter poder dentro da seara doméstica, e apenas sobre os filhos menores (ela era a "rainha do lar", o patriarca, o "senhor do castelo"). Um dos motivos da nossa rebelião foi justamente contra essa limitação de espaço e oportunidades. E ser dona de casa hoje é um privilégio que somente algumas mulheres (como Marcela Temer) podem escolher. As mulheres que já são 40% dos chefes de família no Brasil não podem se dar ao luxo de não trabalhar fora.
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| Feministas protestam na Turquia |
Portanto, valorizar apenas um espaço -- logo aquele que sempre foi o único ofertado às mulheres -- é uma volta ao passado. Seria um discurso desastroso em qualquer dia do ano. Piora ao ser proferido logo numa data feminista, a do Dia Internacional da Mulher, por um golpista que destituiu uma presidenta democraticamente eleita.
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| Feministas protestam na Coreia do Sul |
E dizer que feministas são contra donas de casa é uma velha mentira dos anti-feministas. Não fomos nós feministas que fizemos a divisão sexual do trabalho, nem nós que determinamos que o trabalho doméstico não seria remunerado. Foi o patriarcado, este sistema que queremos derrubar.
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| Feministas protestam em SP, come- tendo a heresia de exigir estar na linha de frente dos protestos |
Narloch, Garcia, Temer, são homens de direita. Imagino que eles não se considerem misóginos, sequer machistas. Afinal (como a gente ouve um monte de machista dizer), eles são filhos de mulher, têm mãe, irmã, esposa, namorada, talvez tenham até amigas. Devem se achar cavalheiros, e devem olhar com grande saudosismo o tempo em que salvavam donzelas. E todos são anti-feministas. Às vezes, como no Dia Internacional da Mulher, pega mal ser anti-mulheres que lutam pelos direitos das mulheres. E aí eles inventam que opa, até que o feminismo é importante, o problema são essas malditas feministas, saca?
Felizmente, o 8 de março marcou, mais uma vez, a luta de milhões de mulheres, a enorme maioria assumidamente feministas, que saíram às ruas de todo o mundo para protestar. E felizmente, as nossas pautas e a validade do feminismo quem determina somos nós, não os anti-feministas.




















































