Quarta publiquei um excelente guest post da Ana sobre a sexta temporada de Game of Thrones, e agora publico outro, este da Letícia.
Letícia Leal tem 34 anos, mora em Brasília e é fã de livros de fantasia. Ela fala com propriedade de uma série que, sem sombra de dúvida, foi alterada por causa das feministas e nossas críticas. E, surpresa: a série ficou muito melhor! Como várias leitoras apontaram, as personagens femininas poderosas (tipo, todas) salvaram GoT. Fala aí, Letícia!
Letícia Leal tem 34 anos, mora em Brasília e é fã de livros de fantasia. Ela fala com propriedade de uma série que, sem sombra de dúvida, foi alterada por causa das feministas e nossas críticas. E, surpresa: a série ficou muito melhor! Como várias leitoras apontaram, as personagens femininas poderosas (tipo, todas) salvaram GoT. Fala aí, Letícia!
Nunca escrevi sobre séries, mas quando a Lola propôs um texto sobre a 6ª temporada de Game of Thrones achei que poderia tentar discorrer sobre o assunto, tendo em vista que sou fã dos livros e da série e já tinha pensado sobre o desenvolvimento das suas personagens femininas ao final desta temporada do programa da HBO. (Atenção: o texto é repleto de spoilers!)
Aqui faz-se necessário separar dois universos distintos. Ao final do quinto livro nenhuma das personagens femininas está nas mesmas condições de liderança da série. Todas estão lutando para encontrar seu caminho de uma forma ou de outra.
Pois bem, talvez porque já aconteceria nos livros de qualquer forma, talvez pela grande repercussão da violência contra mulher nas temporadas anteriores, a verdade é que os produtores da série decidiram empoderar suas protagonistas, e tornar protagonistas algumas personagens que no livro nem pareciam desejar esse papel.
Na sexta temporada do programa da HBO, Daenerys Targaryen se consagrou a mais forte da história e a futura detentora do Trono de Ferro, quando matou, sozinha, sem dragões ou exército, todos os lideres Dothraki.
A personagem desenvolveu uma confiança que ainda está para ser vista nos livros e provou ser a conquistadora que muitos duvidavam que ela conseguisse ser, além de domar de uma vez por todas seus dragões e fazer discursos insuflados, que na maioria das vezes são protagonizados por personagens masculinos em filmes ou livros de fantasia.
Em Dorne as víboras resolveram matar o Regente e tomar o poder para si. Aqui preciso dizer que esse foi o núcleo que mais se distanciou dos livros, e isso irritou a maioria dos fãs. Duas das maiores comentaristas de Game of Thrones do Brasil, indignadas, disseram que as víboras não precisavam ser “feminazis”, isso mesmo, você leu certo, “feminazi”, adjetivo sendo usado por mulheres com milhares de seguidores no youtube.
As mulheres de Dorne que (bem diferente do livro) resolveram agir, porque estavam cansadas da pasmaceira de um líder muito tranquilo para o gosto delas, foram comparadas a nazistas, pra variar.
Já eu adorei a escolha dos produtores. Foi diferente, mas para mim fez sentido. Ellaria Sand desejava vingar Oberyn, e Doran Martell estava no caminho. Mais uma vez, a trama no livro é bem mais elaborada, mas sempre é, e na série eu achei divertido.
Em Bravos Arya Stark fez um treinamento relâmpago (num processo muito mais acelerado que nos livros), se fez assassina e resolveu vingar sua família, tudo na mesma temporada, fazendo suas próprias tortas com as vísceras dos filhos de Walder Frey, um dos mandantes do “casamento vermelho”.
Com certeza uma das melhores cenas da temporada, mas aqui a trama ser empoderadora não foi muita surpresa, já que a personagem sempre foi forte, mesmo assim, ter acelerado tanto sua história foi mais uma das boas escolhas dos produtores no sentido de tornar essa temporada uma temporada das mulheres.
No núcleo Greyjoy assistimos Theon jurar lealdade à irmã, Yara Greyjoy, numa casa extremamente machista. De certa forma foi também a redenção do personagem. Aqui reflito sobre como Theon ter se tornado um ser humano melhor, depois de toda sua tortura e degradação, fez dele uma figura avessa ao machismo das Ilhas de Ferro, ou pelo menos ao machismo que deixava sua irmã, mesmo apta, fora da linha sucessória. Essa força que ele deu a Yara foi um dos motivos que a fez fugir com os principais navios da ilha e buscar a aliança com Daenerys, e nos proporcionou um excelente diálogo e o começo da melhor aliança de todos os tempos.
Já em Porto Real, o final da temporada selou o protagonismo feminino ao colocar, sentada no Trono de Ferro, Cersei Lannister, uma mulher, que apesar de ter matado uma das melhores personagens femininas, Margaery Tyrell, e causado a morte de seu último filho, vingou sua caminhada da vergonha e se tornou rainha de Westeros, depois de queimar centenas de pessoas.
Em Winterfell, Sansa Stark, por sua vez, foi sem dúvida a melhor personagem da temporada. Seu crescimento foi espetacular, e provavelmente teve relação com ter sido a protagonista da cena de estupro da quinta temporada. Ter vingado a violência sofrida, com um sorriso no rosto, foi muito legal, pelo menos na minha humilde opinião.
Lembro que durante a quinta temporada da série, diversas fãs se revoltaram com as escolhas extremamente misóginas dos criadores do programa -- a principal delas, o estupro de Sansa Stark em sua noite de núpcias. Como Sansa nunca chegou a Winterfell nos livros, terem criado toda uma história só para que ocorresse uma cena de estupro não parecia razoável para essas fãs.
Concordo com as críticas, e apesar da maioria dos fãs e George R. R. Martin, autor dos livros, terem defendido os produtores, as reclamações parecem ter sido a razão das ótimas escolhas dessa temporada.
Aqui teço algumas considerações finais:
O prazer das protagonistas supracitadas estava na busca e conquista de poder e/ou vingança, e não em romances ou casamentos. Todas essas mulheres eram personagens inteiras cujos desejos não estavam de forma alguma ligados a ter maridos e filhos. A própria Sansa não se interessou na proposta tentadora do Mindinho, o que demonstra que nem mesmo casar com alguém detentor de poder a seduz.
A vilã e a heroína nesse momento da história são mulheres. No livro o autor busca o tempo todo contextualizar a loucura da Cersei. Achei bastante sensato que os produtores do programa deixaram essa parte ambígua. A Cersei da série não é de forma alguma uma pessoa evidentemente louca, o que a deixa, a meu ver, mais real e perigosa. A mulher que amamos odiar.
Daenerys em seu diálogo com Daario Naharis, no décimo episódio da sexta temporada, assim como em seu diálogo com Yara Greyjoy, é categoricamente feminista. Ela deixa bem claro que não recebe ordens de ninguém e que acredita que um vasto número de grandes MULHERES poderiam sucedê-la, sempre deixando clara a expressão “women” e não “men”, quando trata de posições de poder.
Com a aliança feminina entre Daenerys, Yara, Ellaria e, a melhor de todas, Olenna Tyrell, que perdeu quase toda sua família na explosão causada por Cersei, não há chance para a vilã.
É altamente provável que a guerra que está por vir e, portanto, a série, será protagonizada por mulheres, fato de forma alguma comum nesse universo de fantasia.
E não nos esqueçamos da abrangência desse programa, com fãs no mundo todo, que deverão assistir um confronto entre mulheres extremamente fortes na sétima temporada.
E não nos esqueçamos da abrangência desse programa, com fãs no mundo todo, que deverão assistir um confronto entre mulheres extremamente fortes na sétima temporada.
Nos sites que tratam do assunto li várias pessoas falando que foi a temporada das mulheres loucas.
Claro, afinal elas conseguiram seu protagonismo com muitas mortes e demonstraram prazer em suas conquistas, mas quando são homens liderando assassinatos e genocídios, eles não são considerados dementes, são líderes que fazem o necessário para conseguir ou manter o poder, exemplificando, mais uma vez, como o olhar de cada um molda a mensagem que chega ao interlocutor.
Claro, afinal elas conseguiram seu protagonismo com muitas mortes e demonstraram prazer em suas conquistas, mas quando são homens liderando assassinatos e genocídios, eles não são considerados dementes, são líderes que fazem o necessário para conseguir ou manter o poder, exemplificando, mais uma vez, como o olhar de cada um molda a mensagem que chega ao interlocutor.
Eu assisti a tudo considerando completamente normal o que essas mulheres precisaram fazer para conquistar seu protagonismo num mundo sangrento e machista. Não vi loucura em momento algum, e talvez até houvesse.
Enquanto assistia, o feminismo de diversos diálogos não foi percebido por mim, que noto sempre machismo. Não sei explicar bem o porquê, talvez porque feminismo é para mim o normal e só a misoginia me salta aos olhos.
Só agora, relembrando os diversos momentos citados acima, percebo a diferença grandiosa entre essa temporada e as anteriores.
Só agora, relembrando os diversos momentos citados acima, percebo a diferença grandiosa entre essa temporada e as anteriores.
Importante citar ainda a cena de nu frontal masculino e a considerável diminuição de cenas com nu feminino.
Essa combinação de escolhas ajudou a fazer dessa temporada a melhor de Game of Thrones até o momento.
































