quinta-feira, 8 de outubro de 2015

GUEST POST: QUANDO O OPRIMIDO SE UNE AO OPRESSOR

Recebi um relato muito interessante e bem escrito de uma moça chamada Julia:

Sempre estive um ano adiantada na escola, porém quando terminei o ensino médio passei por alguns anos de indecisão sobre qual curso eu realmente queria cursar. Estava, enfim, na universidade, mas agora não como a pessoa mais jovem da turma. Entrei na faculdade com a idade que a maioria sai, 22 anos. 
Não sei bem se pela idade ou se porque já trabalhava há 5 anos, minha expectativa era encontrar um pessoal mais maduro do que no ensino médio, com ideias e comportamentos mais responsáveis e adultos. A verdade é que eu estava bastante empolgada. E assim tinha que ser, pra aguentar a rotina de 8 a 9 horas de trabalho de dia e mais 4 horas de estudo à noite.
Primeiro dia de aula. Procurei minha sala e, embora um pouco atrasada, consegui encontrar. Pela janelinha da porta, vi que o professor já estava a postos e falava com a turma. Bati na porta, pedi licença e entrei. Qual não foi o tamanho da minha surpresa quando comecei a ouvir assobios de “fiu-fiu” e comentários do tipo “linda” e “gostosa”! Enrubesci. Não tinha passado por aquilo diante de uma sala de 50 alunos nem no ensino médio, que cursei em escola pública. Achei muito constrangedor, além de desrespeitoso com o professor, que dizia “classe, por favor!”. Procurei uma carteira vazia e sentei-me. 
À medida que mais meninas atrasadas chegavam à classe, o comportamento se repetia: “fiu-fius” e os mesmos comentários que fizeram a mim. O professor não conseguia controlar nem identificar os autores exatamente, até porque cada vez mais meninos aderiam à “brincadeira”. A maioria das meninas demonstrava constrangimento, outras nem tanto. Aquilo deveria ser coisa de primeiro dia, pensei. Estava errada: o “fenômeno” se repetia dia após dia. Exceto com as meninas consideradas “feias”, que sentavam nas carteiras mais à frente da sala, consideradas as nerds ou CDFs pela “turma do fundão”.
Embora tímida e um pouco seletiva com amizades, não demorei a me enturmar. Tinha mais afinidade com a galera da frente, que eram os mais “zoados” pelo resto da sala. A maior parte meninas. Sempre comentávamos como era desagradável aquela atitude de assobios. Aquilo não deveria caber num ambiente universitário. Mas a situação não mudava, por mais que a maioria das meninas demonstrasse não gostar.
Passado aproximadamente um mês de aula, já tínhamos um grupo de emails da classe para trocarmos materiais e informações das aulas, além de piadinhas, é claro, nem todas de bom gosto. Sobre as de mau gosto, me refiro principalmente aos emails que comentavam, sem citar nomes, como lhes agradava a roupa ou a aparência de algumas meninas. Eu simplesmente não me manifestava sobre esses emails, ignorava-os. Algumas meninas “entravam na onda”, mas eram poucas. A maioria fazia como eu, não comentava.
Aquele clima de “assédio” me incomodava cada vez mais. E contribuía pra minha frustração com o ambiente universitário também. Até hoje não sei se dei azar ou se isso acontecia com a mesma intensidade em outras turmas. Minha paciência chegou ao fim quando chegou um email sugerindo a criação de um “ranking das meninas”. Os meninos queriam dar notas para cada uma das meninas da turma, com base numa série de critérios como “cabelo”, “bunda”, “rosto”, etc. 
Cheguei a pensar que a ideia seria rechaçada por alguém, mas ela começou a tomar força nas trocas de emails e estava prestes a se concretizar. Eu pouco me lixava pra que raio de nota eu receberia ou em que posição daquele ranking idiota eu ficaria. Eu era mais velha do que aquelas garotas de 17 anos e, qualquer que fosse o resultado daquele absurdo, eu sabia que era forte e que poderia suportar comentários. 
Mas eu juro que me preocupei com minhas colegas, que já eram zoadas com comentários maldosos como “tem bigode”, “se veste que nem uma velha”, dentre outros. Eu sabia que elas se sentiriam humilhadas, pois aqueles maldosos iriam nos colocar como últimas do tal ranking. Eu não podia ficar calada, mesmo que fosse a única a me manifestar sobre aquilo (e fui). Respondi o email assim: “Gente, pelo amor de Deus… A última vez que vi esse tipo de ranking eu estava na 6a série. Vamos crescer, por favor, estamos na universidade!”.
Foi assim que meu pesadelo começou. Com um mês de universidade eu passei a ser a pessoa odiada da turma. Meu email foi respondido pelos autores da ideia de forma extremamente grosseira, com frases do tipo “se enxerga”, “tá com medo porque é horrorosa?”, etc, etc e etc. Ninguém me defendeu nos emails. Recebi uma avalanche deles. Não respondi mais. 
No mesmo dia à noite, entrei na classe e a galera do fundão me vaiou. Dei de ombros e me sentei. Minhas colegas vieram falar comigo demonstrando apoio, mas em particular. Fiquei contente. Mas o tímido apoio não durou nem duas horas. O pessoal do fundão falou com elas que aquilo tudo era uma brincadeira para aumentar o entrosamento da sala, pras pessoas se conhecerem melhor e… elas caíram! Ou seja, perdi o apoio até do “meu pequeno círculo de amizade”, que me colocou de lado.
A partir de então eu fiquei sozinha. Era zoada todos os dias como “velha”, “radical”, “mal amada”, entre outros adjetivos. Não tinha mais companhia pra conversar, fazer trabalhos, nem pra ir à cantina tomar um lanche. Fiquei triste, confesso. Não pelo o que aqueles imbecis faziam comigo, mas por não ter o apoio de uma única pessoa sequer, de uma única garota. Me isolei. Comecei a faltar e a perder a vontade de estar ali. 
O resultado foi a reprovação por faltas em diversas disciplinas. No semestre seguinte fiquei com a grade de aulas bagunçada devido às reprovações e tive de fazer várias disciplinas em turmas diferentes, o que me possibilitou conhecer pessoas bacanas com as quais tenho amizade até hoje. Mas nunca mais levei os estudos universitários com a mesma seriedade e empolgação do início. Fui “passando de ano” até me formar, sempre na média.
Se me arrependo de algo? Acho que sim. Primeiramente de ter aguentado calada a hostilidade que criaram contra mim. Acho que deveria ter reagido, chamado todas aquelas garotas de covardes e desafiado aqueles meninos idiotas, que só eram valentes porque estavam em bando, diga-se de passagem. Não conseguiam sustentar um debate de ideias que fosse, ganhavam no grito.
A opressão só pode sobreviver através
do silêncio
Não sei se me arrependo de ter me manifestado contra o ranking. Mas acho que hoje faria de forma diferente, de forma mais política, buscando um diálogo, pois foi muito duro passar 6 meses excluída e ainda por cima prejudicar meus estudos. De certa forma sinto que eu “venci”, pois apesar do isolamento e humilhação que enfrentei, o tal ranking nunca foi concretizado. Nem naquele semestre nem em semestres posteriores. 
Isso prova que no fundo eles sabiam que estavam errados, que eu tinha razão sobre o absurdo que aquilo representava. Também o meu objetivo original, que era o de poupar minhas (então) colegas de uma humilhação pública e injusta, foi atingido. Mas hoje vejo que esse “vencer” é relativo, pois pra isso eu tive de “carregar a cruz sozinha”, e eu não tenho “talento pra ser Jesus Cristo”. Hoje eu teria deixado o tal ranking acontecer para depois “militar”. 
Aquelas meninas precisavam (infelizmente) sentir na pele a agressão para, quem sabe, se unirem para combater não só aquele fato em si, mas a mentalidade machista predominante (nos meninos e nas meninas) daquela classe.
Foi muito duro pra mim ver o oprimido se unir ao opressor para se proteger. Penso ser esta a forma mais covarde possível de se obter proteção. Mas foi exatamente isso que eu presenciei ali. 
Penso se isso não é uma característica muito humana, aquela ideia de “se não pode vencê-los, junte-se a eles”. Freud e a psicanálise devem ser capazes de explicar isso bem. 
Hoje fico feliz quando encontro pessoas que não buscam o caminho mais fácil para se protegerem, mas se colocam na luta com coragem. O mundo é carente de pessoas assim. Pessoas do calibre de um Nelson Mandela, Martin Luther King Jr., ou simplesmente como eu e você, como a Lola Aronovich. A vocês, corajosxs, anônimos ou não, meu muito obrigada por existirem. 

Meu comentário: Obrigada, Julia querida. Vale a pena lembrar uma frase de Paulo Freire, referência em educação em todo o mundo, mas absolutamente odiado pelos conservadores (por que será, né?): "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor". 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

MASCUS EXPLICAM TITANIC

Jack e Rose, causando rage em recalcados desde 1912

Relevem porque mascus são lunáticos e, portanto, têm um senso da realidade um tanto distorcido. Ah, e também: linguagem de ódio. Sério. Mas selecionei alguns comentários num fórum mascu que falavam de Titanic, o filme.

- Titanic foi um dos primeiros filmes a mostrar o que os judeus queriam de realidade para o ocidente.
Meus caros, irei descrever o enredo:
1. Vagabunda casada com um bilionário embarca no Titanic. Vadia é arrogante e fútil, marido é trouxa e atende todos os desejos dela sem pestanejar.
2. Marginal embarca no Titanic.
3. Vadia começa a dar para o marginal, corneando o bilionário na cara dura.
4. Bilionário cuckold dá uma fodendo joia para ela, mesmo sabendo que é corno.
5. Vadia não dá uma foda e continua a dar para o marginal.
6. Cuckold arrisca a vida para salvar a vadia.
7. Nenhuma foda é dada. Vadia abandona o bilionário e é socorrida por um beta escravoceta. Fica velha e em uma atitude puramente emocional, joga uma jóia de valor milionário no oceano.
E o que a mídia chama isto: UMA LINDA HISTÓRIA DE AMOR.
Em nenhum momento, ninguém dá uma foda para o bilionário beta que amou a vadia. O beta é retratado na história como um otário e as vadias todas babam pelo Leonardo Di Caprio que se torna um sex-symbol.
Isto, meus senhores, isto é o marxismo cultural.

- Titanic é a história de um homem honrado, de boa família que faz tudo por uma mulher. Tal mulher aprecia "arte inovadora" e despreza o sujeito, e posteriormente se envolve com um pardo pobre que vive de dar golpes e pintar prostitutas nuas. Por fim, entrega a virgindade ao pardo enquanto o homem honrado é mostrado como vilão para os desavisados.

- O cara amava a vadia, deu uma joia para ela, e mesmo assim foi transformado em antagonista.
Ele era bonito, era rico, era elegante, do porte físico, estava pau a pau com o Leonardo di Caprio.
Porém, por ser romântico, amoroso e trabalhador foi simplesmente DESPREZADO pelas esgotalheres.
Eu tinha 13 - 14 anos nesta época, e vadias já colecionavam fotos do Di Caprio.
Isto é o gênero feminino, um gênero podre e imundo.

- Não era questão de interesse mesmo, ela via no Ricaço um sujeito chato, sem graça que não ofereceria nada mais além do que o dinheiro dele. Mesmo o ricaço dando todo o amor e atenção que ela precisasse.
Di Caprio era um pilantra que aplicava o 171, ela queria apenas viver uma aventura com ele, gastar a buceta e depois pegar a foda fora quando a viagem terminasse e voltar para o ricaço cuckold.

- Quem foi que botou o o diamante no bolso do casaco para incriminar o Jack? O seu homem de bem. O personagem do Di Caprio não tinha nada de marginal. Ele era apenas pobre, porém honesto, já o milionário, não.
E ele não tratava a Kate Winslet como vadia, como os marginais tratam. Era romântico.
Ele viu que ela voltou saiu do bote e voltou ao navio e mesmo assim pegou o outro bote para se salvar, pegando uma criança estranha apenas para conseguir entrar no bote. Já o "marginal" morreu na água gelada pra salvar a vida dela, porque não tinha espaço para ele no pedaço de madeira para os dois.
Você distorceu a porra toda.
A única coisa que concordo aí foi ela ter traído o outro pelas costas. Isso é vadiagem. De resto, só merda que você postou.

- Você é só mais um que caiu no conto dos judeus.
O milionário tinha mesmo que parecer um personagem mau, afinal ele era o burguês, machista e opressor e é assim que Hollywood tem que pintá-lo.

- Se fosse eu o protagonista, a vadia e e o DiCaprio já estariam no fundo do mar antes mesmo da metade do filme.

- E não acredito que se baseia apenas na vadiagem de uma bostilher vagabunda ludibriando um rico e dando para quem vê com mais apelo sexual.
Que porra é essa de jogar joia no mar?

- Nunca assisti Titanic.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

GUEST POST: REFLEXÕES SOBRE BELEZA E AUTOIMAGEM

Shaonny Takaiama é jornalista, já colaborou com este blog, e tem portfólio e página no FB. Recentemente ela saiu da loucura de SP e foi morar no interior de Goiás, "cheia de gente espiritualizada e gordofóbica". Aqui ela escreveu suas impressões:

Vir para Alto Paraíso fez com que eu repensasse muitos dos meus hábitos e estilo de vida. Por exemplo, aqui, eu parei de fazer escova no cabelo. Não que eu tenha deixado de ser vaidosa, mas é porque a voltagem da cidade é 220, e o meu antigo secador era 110, então, não fazia sentido trazê-lo pra cá e eu achei melhor vendê-lo. 
Aqui eu também quase nunca uso maquiagem. Adoro me maquiar, mas aprendi a me sentir bonita sem usar deste artifício. Acho que a busca pela simplicidade é o que me move hoje em dia. Todo este ritual de se maquiar diariamente hoje me parece por demais complexo e sem sentido. Perder pelo menos 30 minutos diários pintando a cara já não combina mais comigo. 
Mas, em São Paulo, se eu saísse na rua de cara limpa, me sentiria completamente esquisita. Ir trabalhar sem maquiagem então, nem pensar! Outra coisa com a qual eu relaxei é com a pintura do cabelo. Adoro ser ruiva, mas aqui eu tenho outras prioridades, pois ganhar dinheiro numa cidade pequena é muito mais difícil do que numa cidade grande. 
Então, eu pinto o meu cabelo quando sobra alguma grana pra comprar a tinta e, quando não sobra, tudo bem ficar com raízes castanhas e o resto do cabelo vermelho desbotado... Não vou criar rugas de preocupação por causa disso! E se eu criar, aceitarei cada uma delas como eu aceito cada linha do meu corpo. Não vou me esconder atrás de um pancake, de um corretivo, de um BB Cream, de um milagroso creme anti-celulite ou anti-estrias, de um shake emagrecedor ou de um photoshop. 
Eu quero mais é gostar de mim, me aceitar do jeito que eu sou. Não sou do tipo que esconde a idade porque cheguei nos temidos trinta anos –- na verdade, 33 -- nem pretendo esconder meus cabelos brancos quando eles começarem a aparecer. Amo ser ruiva de farmácia, mas acho os cabelos grisalhos lindos também. Espero um dia ter uma cabeleira toda grisalha e brilhante! 
E com o meu corpo, estou vivendo este mesmo processo de aceitação. Aqui, uma cidade cheia de ladeiras com predomínio de pessoas magras que andam de bicicleta pra cima e pra baixo e adotam o estilo de vida vegano, eu sou uma gordinha solitária. Em São Paulo, onde há um fast food a cada esquina e onde o sedentarismo predomina, eu era uma gordinha que se sentia aceita, incluída. 
Ainda mais porque em Sampa está crescendo um movimento de empoderamento das mulheres gordas, de valorização da autoestima feminina independentemente do tipo físico e do peso na balança. Lá existem lojas especializadas no público plus size. Já aqui, eu sou exceção, pois quase não há pessoas acima do peso, muito menos lojas atentas para a questão da diversidade. 
Apesar de a cidade ser um reduto de pessoas místicas e altamente espiritualizadas -- que, em tese, deveriam se preocupar em conhecer a fundo o interior de cada um --, eu já recebi diversos olhares tortos e de desdém por não fazer parte do seleto grupo de pessoas esquálidas de Alto Paraíso. Estes olhares já me fizeram muito mal, já me entristeceram demais. Tenho sentido na pele a gordofobia muito mais do que eu sentia em São Paulo, essa é a grande ironia. 
Mas hoje eu acho bem triste quem julga o outro pela sua aparência física. Qualquer preconceito é ruim, e quem julga um livro pela capa está perdendo a chance de conhecer uma história incrível. Assim, aos que já me julgaram por eu ser mais redonda do que o restante das pessoas, eu lamento esta atitude: vocês estão deixando de conhecer uma pessoa que tem muita história pra contar apenas porque a capa deste livro não agradou aos seus olhos. 
Um conselho: aprenda a conviver com as diferenças, pois elas servem para enriquecer a sua vida. Eu já fui bem magra, já pesei cinquenta quilos há bem pouco tempo, sete anos, para ser exata. E nesta época em que eu era magra e estava dentro dos padrões estéticos aceitos pela sociedade, só eu sabia o quanto eu era infeliz. 
Hoje estou acima do peso por uma série de problemas hormonais e emocionais pelos quais passei e ainda passo. É raro quem chega aos 33 anos incólume, sem ter vivido um processo doloroso mais difícil, sem ter tido uma história de perda, sem ter caído uma vez que seja. Minha vida é um eterno ciclo de cair e levantar, uma grande história de superação. Nestas situações, o corpo, que somatiza tudo o que acontece com nosso emocional, é quem mais sente a barra. 
Meu corpo é o reflexo de tudo o que eu vivi –- coisas boas e ruins –- e eu sou grata a cada uma delas, pois elas me fizeram ser quem eu sou hoje. E também sou grata ao meu corpo, que tem segurado a onda bonito! Eu tenho emagrecido aos poucos, graças à minha melhor amiga, a Branquela, minha querida bicicleta do coração, e à mudança de hábitos alimentares. 
Mas eu quero emagrecer não pela questão estética, que nunca foi de fato um problema para mim, mas para os outros. Quero emagrecer para ter mais disposição física para as longas caminhadas dentro do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Eu consigo caminhar 5 km a pé numa boa, mas meu joelho sempre reclama no fim do dia. 
Quero conseguir atravessar a nado a Cachoeira São Bento sem perder o fôlego. Quero conseguir subir de bike a avenida principal da cidade e me sentir vitoriosa depois de enfrentar esta ladeira vertiginosa. Para tudo isso, não restam dúvidas de que, sendo magra, tudo é mais fácil. 
Mas, para as outras áreas da minha vida -- trabalho, amor, família, amigos, etc -– sinceramente, não faz a menor diferença se eu estou na falácia do “peso ideal” ou se eu ainda preciso perder 23 kg. E, como eu estava dizendo, em São Paulo, eu vivia me escondendo por meio da escova, da tintura e da maquiagem... 
Apesar de ser feminista, nunca consegui me livrar destes ditames de beleza morando na cidade grande. Tive que mudar de estado para aprender a me aceitar do jeito que eu sou. Hoje eu aceito as ondas naturais do meu cabelo -– que hidrato usando babosa que eu encontro na rua --, aceito as curvas do meu corpo roliço -- a despeito dos olhares tortos das pessoas --, e aceito as linhas de expressão que têm aparecido no meu rosto a cada dia... porque, afinal de contas, ondas, curvas e linhas nada mais são do que figuras geométricas. Por que ainda odiamos tanto a geometria do nosso corpo? Fica aí a reflexão.