Recebi um relato muito interessante e bem escrito de uma moça chamada Julia:
Sempre estive um ano adiantada na escola, porém quando terminei o ensino médio passei por alguns anos de indecisão sobre qual curso eu realmente queria cursar. Estava, enfim, na universidade, mas agora não como a pessoa mais jovem da turma. Entrei na faculdade com a idade que a maioria sai, 22 anos.
Não sei bem se pela idade ou se porque já trabalhava há 5 anos, minha expectativa era encontrar um pessoal mais maduro do que no ensino médio, com ideias e comportamentos mais responsáveis e adultos. A verdade é que eu estava bastante empolgada. E assim tinha que ser, pra aguentar a rotina de 8 a 9 horas de trabalho de dia e mais 4 horas de estudo à noite.
Primeiro dia de aula. Procurei minha sala e, embora um pouco atrasada, consegui encontrar. Pela janelinha da porta, vi que o professor já estava a postos e falava com a turma. Bati na porta, pedi licença e entrei. Qual não foi o tamanho da minha surpresa quando comecei a ouvir assobios de “fiu-fiu” e comentários do tipo “linda” e “gostosa”! Enrubesci. Não tinha passado por aquilo diante de uma sala de 50 alunos nem no ensino médio, que cursei em escola pública. Achei muito constrangedor, além de desrespeitoso com o professor, que dizia “classe, por favor!”. Procurei uma carteira vazia e sentei-me.
À medida que mais meninas atrasadas chegavam à classe, o comportamento se repetia: “fiu-fius” e os mesmos comentários que fizeram a mim. O professor não conseguia controlar nem identificar os autores exatamente, até porque cada vez mais meninos aderiam à “brincadeira”. A maioria das meninas demonstrava constrangimento, outras nem tanto. Aquilo deveria ser coisa de primeiro dia, pensei. Estava errada: o “fenômeno” se repetia dia após dia. Exceto com as meninas consideradas “feias”, que sentavam nas carteiras mais à frente da sala, consideradas as nerds ou CDFs pela “turma do fundão”.
Embora tímida e um pouco seletiva com amizades, não demorei a me enturmar. Tinha mais afinidade com a galera da frente, que eram os mais “zoados” pelo resto da sala. A maior parte meninas. Sempre comentávamos como era desagradável aquela atitude de assobios. Aquilo não deveria caber num ambiente universitário. Mas a situação não mudava, por mais que a maioria das meninas demonstrasse não gostar.
Passado aproximadamente um mês de aula, já tínhamos um grupo de emails da classe para trocarmos materiais e informações das aulas, além de piadinhas, é claro, nem todas de bom gosto. Sobre as de mau gosto, me refiro principalmente aos emails que comentavam, sem citar nomes, como lhes agradava a roupa ou a aparência de algumas meninas. Eu simplesmente não me manifestava sobre esses emails, ignorava-os. Algumas meninas “entravam na onda”, mas eram poucas. A maioria fazia como eu, não comentava.
Aquele clima de “assédio” me incomodava cada vez mais. E contribuía pra minha frustração com o ambiente universitário também. Até hoje não sei se dei azar ou se isso acontecia com a mesma intensidade em outras turmas. Minha paciência chegou ao fim quando chegou um email sugerindo a criação de um “ranking das meninas”. Os meninos queriam dar notas para cada uma das meninas da turma, com base numa série de critérios como “cabelo”, “bunda”, “rosto”, etc.
Cheguei a pensar que a ideia seria rechaçada por alguém, mas ela começou a tomar força nas trocas de emails e estava prestes a se concretizar. Eu pouco me lixava pra que raio de nota eu receberia ou em que posição daquele ranking idiota eu ficaria. Eu era mais velha do que aquelas garotas de 17 anos e, qualquer que fosse o resultado daquele absurdo, eu sabia que era forte e que poderia suportar comentários.
Mas eu juro que me preocupei com minhas colegas, que já eram zoadas com comentários maldosos como “tem bigode”, “se veste que nem uma velha”, dentre outros. Eu sabia que elas se sentiriam humilhadas, pois aqueles maldosos iriam nos colocar como últimas do tal ranking. Eu não podia ficar calada, mesmo que fosse a única a me manifestar sobre aquilo (e fui). Respondi o email assim: “Gente, pelo amor de Deus… A última vez que vi esse tipo de ranking eu estava na 6a série. Vamos crescer, por favor, estamos na universidade!”.
Foi assim que meu pesadelo começou. Com um mês de universidade eu passei a ser a pessoa odiada da turma. Meu email foi respondido pelos autores da ideia de forma extremamente grosseira, com frases do tipo “se enxerga”, “tá com medo porque é horrorosa?”, etc, etc e etc. Ninguém me defendeu nos emails. Recebi uma avalanche deles. Não respondi mais.
No mesmo dia à noite, entrei na classe e a galera do fundão me vaiou. Dei de ombros e me sentei. Minhas colegas vieram falar comigo demonstrando apoio, mas em particular. Fiquei contente. Mas o tímido apoio não durou nem duas horas. O pessoal do fundão falou com elas que aquilo tudo era uma brincadeira para aumentar o entrosamento da sala, pras pessoas se conhecerem melhor e… elas caíram! Ou seja, perdi o apoio até do “meu pequeno círculo de amizade”, que me colocou de lado.
A partir de então eu fiquei sozinha. Era zoada todos os dias como “velha”, “radical”, “mal amada”, entre outros adjetivos. Não tinha mais companhia pra conversar, fazer trabalhos, nem pra ir à cantina tomar um lanche. Fiquei triste, confesso. Não pelo o que aqueles imbecis faziam comigo, mas por não ter o apoio de uma única pessoa sequer, de uma única garota. Me isolei. Comecei a faltar e a perder a vontade de estar ali.
O resultado foi a reprovação por faltas em diversas disciplinas. No semestre seguinte fiquei com a grade de aulas bagunçada devido às reprovações e tive de fazer várias disciplinas em turmas diferentes, o que me possibilitou conhecer pessoas bacanas com as quais tenho amizade até hoje. Mas nunca mais levei os estudos universitários com a mesma seriedade e empolgação do início. Fui “passando de ano” até me formar, sempre na média.
Se me arrependo de algo? Acho que sim. Primeiramente de ter aguentado calada a hostilidade que criaram contra mim. Acho que deveria ter reagido, chamado todas aquelas garotas de covardes e desafiado aqueles meninos idiotas, que só eram valentes porque estavam em bando, diga-se de passagem. Não conseguiam sustentar um debate de ideias que fosse, ganhavam no grito.
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| A opressão só pode sobreviver através do silêncio |
Não sei se me arrependo de ter me manifestado contra o ranking. Mas acho que hoje faria de forma diferente, de forma mais política, buscando um diálogo, pois foi muito duro passar 6 meses excluída e ainda por cima prejudicar meus estudos. De certa forma sinto que eu “venci”, pois apesar do isolamento e humilhação que enfrentei, o tal ranking nunca foi concretizado. Nem naquele semestre nem em semestres posteriores.
Isso prova que no fundo eles sabiam que estavam errados, que eu tinha razão sobre o absurdo que aquilo representava. Também o meu objetivo original, que era o de poupar minhas (então) colegas de uma humilhação pública e injusta, foi atingido. Mas hoje vejo que esse “vencer” é relativo, pois pra isso eu tive de “carregar a cruz sozinha”, e eu não tenho “talento pra ser Jesus Cristo”. Hoje eu teria deixado o tal ranking acontecer para depois “militar”.
Aquelas meninas precisavam (infelizmente) sentir na pele a agressão para, quem sabe, se unirem para combater não só aquele fato em si, mas a mentalidade machista predominante (nos meninos e nas meninas) daquela classe.
Foi muito duro pra mim ver o oprimido se unir ao opressor para se proteger. Penso ser esta a forma mais covarde possível de se obter proteção. Mas foi exatamente isso que eu presenciei ali.
Penso se isso não é uma característica muito humana, aquela ideia de “se não pode vencê-los, junte-se a eles”. Freud e a psicanálise devem ser capazes de explicar isso bem.
Hoje fico feliz quando encontro pessoas que não buscam o caminho mais fácil para se protegerem, mas se colocam na luta com coragem. O mundo é carente de pessoas assim. Pessoas do calibre de um Nelson Mandela, Martin Luther King Jr., ou simplesmente como eu e você, como a Lola Aronovich. A vocês, corajosxs, anônimos ou não, meu muito obrigada por existirem.
Meu comentário: Obrigada, Julia querida. Vale a pena lembrar uma frase de Paulo Freire, referência em educação em todo o mundo, mas absolutamente odiado pelos conservadores (por que será, né?): "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor".

















































