quarta-feira, 4 de setembro de 2013

GUEST POST: PASSEI DE OPRIMIDA À OPRESSORA

Tem se falado bastante da participação de duas celebridades, Preta Gil e Gaby Amarantos, numa edição do Fantástico chamada Medida Certa. 
Pelo que entendi, já que nunca assisti à atração e mal sei quem são essas pessoas, haverá uma competição para ver quem perde mais peso. Não em nome da aparência, que isso seria considerado fútil, mas em nome da saúde. A gente já conhece essa história.
Não tenho interesse em criticar pessoas, porque isso seria individualizar o problema. Eu critico um sistema: o sistema que só vê beleza em certo tipo físico, certa faixa etária, certa cor; que mede o caráter das pessoas, principalmente das mulheres, em centímetros da sua cintura; que ensina a meninas de dois anos que gorda é a pior coisa que ela pode ser na vida; e que ainda é hipócrita o suficiente pra fingir que a obsessão pelo corpo "perfeito" faz bem pra saúde.
A mídia obviamente faz parte desse sistema. E, enquanto Preta e Gaby são pessoas que têm o direito de fazer o que quiserem com seus corpos, elas também são celebridades, que alimentam e são alimentadas pela mídia. 
Suas "escolhas pessoais" num programa visto por um público gigantesco (ainda que, graças, caindo a cada ano -- o Fantástico já teve 80 pontos de Ibope; hoje comemora quando chega a 30), influenciam muita gente. E o recado de que deve-se fazer qualquer coisa para emagrecer, inclusive entrar numa competição e ter sua comida fiscalizada, é bem perigoso. 
Bom, bem antes do Medida Certa, a M. já tinha me enviado este forte relato da sua conscientização.

Comecei a ser agredida pelo padrão convencional de beleza com cinco anos de idade — no mínimo. Foi com essa idade que entrei no ballet, e desde então me lembro de ter preocupações com o meu corpo. Eu sentia uma vergonha infernal quando a professora pedia pra praticar alguns exercícios só de collant, pois marcava a minha barriga e eu não podia disfarçar com a saia. 
Creio que foi entre os 7 e 8 anos que passei a me achar, além de gorda, feia. Foi quando me dei conta de que ter as sobrancelhas unidas (Frida style), os cabelos volumosos e os dentes meio encavalados não fazem parte do padrão, assim como a barriguinha saliente que eu descobrira mais cedo. 
Hoje, quando paro pra olhar minhas fotos dessa época e lembro dos pensamentos terríveis acerca da minha aparência que me torturavam desde então, percebo como é extremamente doentio o conceito de beleza imposto pelo sistema e acatado por grande parte da sociedade. Eu não era uma criança feia, tampouco gorda. Deixei de me entregar a muitas brincadeiras e descobertas por causa de algo que colocaram na minha cabeça: eu precisava ser perfeita. Como meus pais não deixavam eu me depilar naquela idade, aos 10 anos eu tentei "desunir" minhas sobrancelhas com um aparelho de barbear e quase fiquei cega. 
Só fui usar os cabelos soltos depois dos 12 anos, e não foi porque havia aceitado minhas ondas, e sim porque havia comprado uma chapinha (que eu usava religiosamente até pouco tempo atrás). Se ainda hoje me privo de alguns sorrisos porque acho meus dentes feios, na infância me privava de praticamente todos.
Minha entrada na adolescência foi um inferno. Se antes os problemas com o meu corpo eram uma deturpação da realidade, agora eles estavam ali e eram reais. Aos 13 anos eu comecei a engordar um pouco, até que com 14 anos eu estava com 20 quilos a mais que o ideal. Saí do ballet porque sentia muita vergonha da minha nova forma física, além de que minhas professoras só me colocavam no fundo das coreografias e, apesar de não falarem nada, apenas os olhares das colegas já me violentavam psicologicamente. 
Passei a descontar tudo na comida e fui engordando cada vez mais, até o ponto em que quebrei todos os espelhos de casa pra não precisar mais me olhar. Sair de casa? Nem pensar! Eu só andava com a minha melhor amiga, e só saía de casa quando estritamente necessário. 
Minha viagem de 15 anos foi muito marcante e descreve bem como foi grande parte da minha adolescência: vexatória. Meus pais me pagaram uma viagem muito maior que o bolso deles na esperança de que eu socializasse, mas me deram a maior tortura que eles podiam me oferecer: duas semanas convivendo com um grupo de pessoas da minha idade. Pior: todas elas eram magras, ricas e muito bonitas, principalmente as meninas. Foi um inferno. Eu sentia vergonha 24h por dia. 
Achava que elas estavam sempre rindo de mim pelas costas, reparando nos meus defeitos, percebendo que eu não tinha tanto dinheiro, me ridicularizando. Antes de uma festa, tentei fugir do hotel, com a esperança de poder voltar pra casa e ficar sozinha. Isso resultou em mais vergonha ainda, pois todas tiveram que ficar esperando no hotel por mais de três horas antes de ir pra festa, enquanto os organizadores da excursão me procuravam. Isso foi na primeira semana de viagem e quando eu voltei pro hotel todas me xingaram muito. A menina que eu achava a mais bonita da excursão disse que "nem tinha reparado nessa guria, mas preferia não ter visto mesmo essa cara de ratazana gorda". Eu ainda me lembro dessas palavras, exatamente essas palavras.
Com 16 anos, eu estava decidida a não ser mais gorda. Pensava: "se não vou poder mudar meu rosto, então vou fazer o que posso pelo corpo". Fiz uma dieta completamente louca e emagreci 10 kg. Recuperei quase tudo em dois meses, mas o tempo sem aqueles 10 kg a mais me fez conhecer um pouquinho de autoestima. Eu ainda tinha os mesmos pensamentos que sempre tive, mas passei a controlar melhor minha vergonha, mesmo depois de retomar todo peso.
Mudei de colégio. Eu tinha um grupinho de amigas, saía em alguns finais de semana. Quando eu estava começando a ser "normal", aconteceu outro episódio vexatório, e foi justamente na perda da minha virgindade: eu não estava depilada (nem sabia que era pra estar!) e o menino espalhou isso pra absolutamente todo mundo do colégio. Ninguém mais me chamava pelo nome, só de Tony Ramos. Aconteceu a mesma coisa que havia acontecido na minha viagem de 15 anos: algumas pessoas nem sabiam da minha existência, mas passaram a saber só pra me ridicularizar. Agora eu era conhecida por todos os 3 mil alunos do colégio por causa da minha "mata atlântica", como eles chamavam. 
Me sentir gorda estava se tornando algo mortalmente incômodo de novo. E eu estava decidida a ser magra. Isso passou a ser o objetivo da minha vida. Eu precisava emagrecer pra ser eu mesma, pra não ser mais ridicularizada, não precisar mais me preocupar com quem me olha, não sentir vergonha de comer em público, não sentir vergonha de sentar, não sentir vergonha de usar nenhum tipo de roupa, não sentir vergonha de existir. Foi com muita força de vontade que em quatro meses eu perdi 21 kg, não com dietas malucas, mas com uma reeducação alimentar forte. Passei do manequim 42 pro 36. Finalmente, eu estava magra! 
Desde os meus doze anos eu não pesava tão pouco (eu estava com 17, então). E eu estava me sentindo bonita -- de fato, até meu rosto tinha mudado. Todxs se chocavam com a minha nova forma física, me elogiavam muito, e era gratificante receber tanta atenção, depois de todos aqueles anos de sofrimento. 
Foi aí que eu fui corrompida pelo sistema, dessa vez na posição de opressora e não de oprimida. Eu estava me sentindo tão bonita e magra que dedicava todo o meu tempo, dinheiro e esforço em me sentir mais bonita e mais magra. Não saía de casa sem maquiagem e chapinha, estava sempre com roupas justas ou decotadas. Comecei a mudar totalmente o meu jeito de vestir e de falar e meu círculo de amizades. Agora eu me dou conta que a minha prioridade, naquela época, era exclusivamente exibir o meu novo corpo. 
Eu ia onde tinha mais gente pra me admirar, me bajular, me dizer que eu era bonita. Eu tinha perdido a minha singularidade, mas não me importava, porque tinha sonhado com a beleza a vida inteira. Não me importava de ser só mais uma, contanto que fosse mais uma bonita. Eu estava fora de mim, eu não era mais eu. Passei a odiar pessoas gordas. Eu dizia que gordxs eram fracas e nojentas. 
Eu gostava de lançar olhares de desdém a pessoas gordas, principalmente mulheres. Logo eu! Sempre pensei que, depois de emagrecer, eu me engajaria em ajudar quem também está nessa luta, mas eu passei a ser o demônio do inferno em que eu sempre vivi! Quando me dei conta, eu já havia passado alguns meses nessa loucura completa. 
Isso que aconteceu comigo não é raro, hoje sei de várias pessoas que também passaram por isso. 
Mesmo assim, me sinto extremamente envergonhada de contar esses fatos, até porque isso aconteceu há pouco mais de um ano. Mas acho importante fazer esse alerta: o sistema pode corromper qualquer um. É muito fácil se deixar levar, e a vingança seduz muito. E a vingança, mais que contra os outros, é contra o que você era. Contra o que a sociedade te ensinou a achar a vida inteira que era inaceitável.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

"SER EU É DIFÍCIL", DIZ MENINA DE 13 ANOS

Recebi este relato desesperado(r):

"Meu nome é L. Tenho 13 anos, já tentei contar minha história para algumas pessoas, mas elas apenas dizem que eu quero chamar a atenção. Meus pais me repreendem muito. Eles simplesmente não entendem como eu sou, não entendem que não sou perfeita. Meu pai trabalha embarcado, e os quinze dias que ele está fora são uma maravilha, ninguém nem olha pra mim dentro de casa. 
Mas quando ele chega minha mãe quer dar uma de atenciosa, o que me dá raiva. Ela me espanca, frequentemente com cabides de madeira, cintos, vassouras, chinelos, e me chama de várias coisas, como inútil, imprestável, ridícula, arrogante, retardada, doente, lixo...  O pior é que meu irmão me odeia. Ele me odeia mesmo. Ele me bate, me chuta e manda eu fazer as coisas dele. Minha mãe finge que não vê isso. 
Um dia li em algum lugar que os animais são espancados antes de serem abatidos e resolvi virar vegetariana. Quando me recusei a comer carne no almoço, eles começaram a gritar, falando que eu não ia chegar a lugar nenhum com essa encenação, então eu voltei a comer. 
O pior é que se eu esquecer de lavar um copo, minha mãe faz a cabeça do meu pai e ele me espanca. Tenho várias marcas por conta disso. 
Já tentei me matar com remédios uma vez, mas não deu certo. Quando eles descobriram, foi mais uma surra e não falaram mais do assunto. Eles dizem que eu sou a derrota da família, que ninguém gosta de mim por isso. Não sou bonita, nem magra, e a única pessoa em que eu tinha conforto era a minha avó, ela me entendia e me fazia carinho quando eles me batiam, mas ela morreu e a minha mãe me culpa, por eu ter contado os meus problemas para ela. 
Já tentei cortar os pulsos também, não deu certo. Desculpe a palavra, mas minha vida é muito fodida. Não sei mais o que eu faço. Não tenho namorado nem amigos. Nem nada. Choro todas as noites antes de dormir, mas vou sorrindo para a escola. Ser eu é dificil. Quero me matar."

Minha resposta: Sinto muitíssimo por tudo isso que vc está passando. Sempre me revolto ao ver que pessoas que deveriam amar e cuidar bem de seus filhos os maltratam. Pais têm que tornar a vida de crianças e adolescentes mais fácil, não mais difícil. Eu não entendo essa mentalidade de que é preciso bater pra educar, de que se deve espancar os filhos pra que eles aprendam. Aprendam o quê? Que os pais são totalmente despreparados? Que eles não têm um pingo de criatividade, e que só sabem tentar resolver conflitos através da violência? Sério mesmo que é isso que os pais querem ensinar aos filhos, que violência é algo bom e justificável?
Seu irmão, pelo jeito, já aprendeu isso. Assim como ele bate em vc, ele muito provavelmente vai bater na mulher e nos filhos quando formar sua família, a tal "família tradicional" que os conservadores tanto querem salvar (salvar do quê, né?). E assim se perpetua a violência. Não por coincidência, os conservadores são os que mais defendem as tais "palmadas educativas". Está na bíblia, dizem eles. 
E tudo isso baseado num conceito de propriedade privada absurdo, de que só porque os filhos "são deles", eles podem fazer o que quiserem. E é aquele negócio: já que bater é tão bacana, já que funciona tão bem, já que é tão eficaz pra criar ótimos cidadãos, por que permitir que apenas pais e membros da família batam nas crianças e adolescentes? Vamos deixar que todo mundo bata! Estranhos na rua, amigos dos pais, professorxs -- vamos todos bater nas pessoinhas em formação! Porque aí sim o mundo ficará melhor, mais pacífico! Perdão pelo sarcasmo, mas fico indignada com essas coisas.
Todo o modo como crianças e adolescentes são tratadas na nossa sociedade me parece errado. Há toda uma hierarquia ditatorial nas famílias que não permite que muitas crianças (e principalmente meninas, porque obviamente há o recorte de gênero também, como pode ser visto na sua história) não tenham voz. Num livro lindo e triste da Toni Morrison, O Olho Mais Azul, a narradora, uma menina negra de 9 anos, descreve como é o relacionamento entre crianças e adultos na família:
“Os adultos não falam conosco -– eles nos dão instruções. Eles dão ordens sem dar informação. Quando tropeçamos e caímos eles olham rapidamente pra gente; se nos cortamos ou nos machucamos eles perguntam se somos loucas. Quando ficamos resfriadas, eles balançam a cabeça em reprovação por nossa falta de consideração. Como, eles nos perguntam, vocês querem que qualquer um faça alguma coisa quando vocês todas estão doentes? Não podemos responder”.
E ela não está falando da família disfuncional do romance! É um bom resumo de como muitos pais veem os filhos como problemas, obstáculos.
O que eu quero dizer é que vc não está sozinha, L. Pode acreditar que há milhões de meninas da sua idade na mesma situação. Mas a maior parte sobrevive, L., então nada de pensar em se matar, tá bom? Por favor, tire isso da sua cabeça. 
Vc provavelmente está passando pelo pior período da sua vida. De toda a sua vida que, se vc permitir, vai chegar até os 80, 90 anos. Só que ela não vai ser assim f*dida pra sempre. Ela melhora. É que quando a gente é jovem e dependente dos pais (de péssimos pais, como os seus), não temos liberdade nem muitas escolhas. Mas, já já, vc poderá fazer boa parte das suas escolhas. Amigos e namorados aparecerão com o tempo, vc vai ver. Não tenha pressa.
Não tente contar sua história pra muita gente, porque a maioria vê meninas de 13 anos como seres inferiores que estão de mimimi, como se a vida que vc leva fosse um mar de rosas. Mas vc não pode continuar apanhando, L. Isso não é permitido por lei. Existe um Estatuto da Criança e Adolescente, que vc deve ler para saber quais são seus direitos como cidadã.
O Brasil, assim como tantos países em desenvolvimento, é um lugar que não gosta de criança, e muito menos de adolescente. Chamamos todos de "menor de idade", e vemos adolescentes como inimigos perigosos. A cada caso de adolescente que mata alguém, vociferamos para que a maioridade penal caia para 16 anos. 
E, óbvio, vamos querer que esta mesma maioridade caia para 14, 10, 8... Se uma criança de 6 anos cometer um crime, vamos querer puni-la com as leis dos adultos também. Porque a intenção de quem pede a redução da maioridade penal não é reabilitar ninguém. É simplesmente punir. E eu fico ainda mais triste quando vejo que pessoas ligadas a movimentos sociais, como feministas, adotam esse discurso punitivista, mas essa é outra história.
Muito mais adolescentes são mortos neste país do que matam. Só que a gente se comporta como se eles, vocês, fossem o problema. A gente vê uma comoção incrível pra reduzir a maioridade penal, mas só defensores de direitos humanos (que são detestados pela turba) falam em defender adolescentes.
Por mais que nosso país tenha uma infra-estrutura muito ruim para lidar com esses graves problemas sociais, vc não deve aceitar tudo calada. Há um telefone para denúncias, o número 100 (e o Disque Denúncia 181, se vc é de SP).
Então ligue e denuncie. Sobre o seu irmão, não sei se ele também é adolescente, suponho que seja, mas, de qualquer jeito, ele não pode continuar batendo em vc. A Lei Maria da Penha também vê violência de irmãos como violência doméstica.
Peço para que vc não se renda, L. LUTE. Vale a pena lutar.

UPDATE! Email recebido da L. em 4/9: "Eu conversei com os meus pais e eles concordaram que a minha vida seria bem melhor se eles me ajudassem em vez de me baterem. Graças a Deus nem precisei utilizar os recursos que você me disponibilizou, mas agora minha vida está melhorando. 
Quando sua resposta veio, me senti acolhida, respeitada e feliz. Pelo menos uma pessoa me entendia. Você.  Então, tomei coragem de dizer que eu estava me sentindo acuada com a minha própria vida, não estava legal e estava sem vida. Com a sua ajuda, consegui conversar com os meus pais e estamos em fase de transição. Muito obrigada. E me senti muito feliz porque você publicou meu desabafo. Obrigada de novo".

Muito obrigada pelo retorno, L.! São coisas assim que me fazem continuar com o blog. 

domingo, 1 de setembro de 2013

ALTERNATIVAS PARA NÃO SE MACHUCAR

A Fernanda traduziu esta lista que viu num tumblr para pessoas com ansiedade, depressão, ou que praticam auto-mutilação. Segundo ela, há pouca informação sobre self-harm em português na internet, e esta lista num blog conhecido pode ajudar muita gente (e, claro, pode ser útil a quem sofre de outros distúrbios também).

Fernanda: Há algum tempo, vi no Tumblr esta lista de alternativas para quem se automutila e decidi traduzi-la. Automutilação (mais conhecida como self-harm ou cutting) é um distúrbio de comportamento que faz com que a pessoa agrida o próprio corpo ao sentir profunda tristeza, raiva, nervosismo ou viver um trauma. Quem sofre desse hábito relata estar tentando expor a dor que sente dentro de si, como se fosse possível trocar a dor emocional por uma dor física, uma dor mais fácil de tratar. Uma das coisas que impede quem passa por isso de buscar ajuda é a discriminação vinda de quem não conhece o assunto. 
Eu não entendo como alguém pode julgar como frescura outra pessoa querer expressar seus sentimentos e não conseguir. Todos nós sabemos como é difícil viver, amadurecer, encontrar seu lugar no mundo, então me parece lógico que quando alguém recorre a uma medida extrema para lidar com isso, as pessoas ao redor tentem ajudar. Mas, para muitos, parece ser mais fácil apontar o dedo e se distanciar do problema. Para saber mais a respeito, este documentário tocante (trigger warning) mostra relatos de pessoas que se automutilam e o parecer de alguns profissionais. A quem pratica a automutilação, eu desejo muita força. Você não está sozinhx.


Alternativas pra quando você está se sentindo irritado ou impaciente: 
- Rasgue jornais, fotos ou revistas;
- Vá para a academia, exercite-se, dance;
- Transforme em desenho o que está te fazendo irritado;
- Bata num ursinho de pelúcia, quebre galhos ou corte frutas; 
- Escreva seus sentimentos em uma folha e depois rasgue;
- Atire cubos de gelo em uma pia, árvore, etc;
- Grite com o que você está quebrando e diga por que você está irritado, triste ou ansioso.

Alternativas que dão sensações (diferentes de dor) sem machucar a si mesmo:
- Segure cubos de gelo;
- Coloque suas mãos debaixo de água gelada, beba água gelada ou molhe seu rosto com ela; 
- Passe cola líquida nas mãos e depois descame-a;

- Massageie o lugar que você quer machucar;
- Tome um banho quente;
- Escreva ou pinte no seu corpo;
- Jogue queda de braço com alguém;
- Morda uma pimenta ou mastigue gengibre;
- Esfregue essência debaixo do seu nariz;
- Passe Bálsamo do Tigre (ou Vick Vaporub) no lugar que você quer machucar (Bálsamo do Tigre é um creme relaxante muscular que dá uma sensação de quente e frio ao mesmo tempo);
- Pule para sentir a pressão nos pés;
- Escreva em seu corpo com caneta vermelha;

- Pegue um tubo de tinta vermelha e passe onde você quer machucar;
- “Corte” sua pele com esmalte, é gelado e difícil de tirar;  

Alternativas que vão te distrair ou ocupar seu tempo:
- Diga “Eu vou me machucar daqui a 15 minutos se eu ainda quiser” e continue por períodos de 15 min até a vontade passar; 
- Conte até dez cada vez mais alto até gritar;
- Termine algo que você tinha deixado para depois;
- Adquira um novo hobby;
- Conte de 500 a 1000;
- Conte luzes ou casas em volta de você;
- Arrume seu guarda-roupa de acordo com tons de cores;
- Ligue para um velho amigx;
- Carregue coisas que não sejam afiadas em seus bolsos;
- Organize seus CDs/DVDs em ordem alfabética;
- Cozinhe;
- Experimente looks de roupa diferentes; 
- Crie uma história em quadrinhos;
- Compre uma planta e cuide dela;

- Memorize um poema que você gosta;
- Aprenda a dizer palavrões em outra língua;
- Vá para fora e observe as nuvens, as pessoas passando;
- Planeje uma atividade para a hora do dia que é mais difícil para você;
- Saia para passear sozinho;
- Faça uma lista de pessoas para quem você pode ligar para te ajudar. Permita-se usar essa lista;
- Preste atenção nos movimentos rítmicos do seu corpo (respiração, batimentos cardíacos, passos);
- Escolha um objeto aleatório e liste 30 diferentes usos para ele;
- Faça uma corrente de papel colorido onde cada elo represente um dia/hora que você ficou sem se machucar, quando não conseguir, acrescente um elo de papel branco. Assim você poderá ver a corrente crescer e as vezes que você não se machucou e como você foi capaz de evitá-las.  

Alternativas para quando você estiver se sentindo triste, culpadx ou solitário:
- Parabenize-se a cada minuto que você conseguir não se machucar;
- Ao invés de xingar a si mesmo por ter se machucado, xingue quando você não se machucar;
- Ligue para um amigo e peça companhia;
- Lembre de um momento feliz e reviva-o na sua mente;
- Elogie alguém;
- Permita-se chorar, essa é uma maneira saudável de liberar emoções;
- Faça ou receba uma massagem;
- Imagine-se vivendo em um lugar perfeito e descreva esse lugar na sua mente;
- Carregue símbolos que lembram coisas/pessoas que você gosta;
- Escreva os pensamentos negativos e depois reescreva-os transformando em mensagens positivas.

Alternativas para quando você estiver em pânico ou assustadx:
- “Veja, escute e sinta” 5 coisas ao seu redor, e depois quatro e três até um. Isso irá te acalmar;
- Medite ou pratique ioga;
- Faça uma “lista do momento”, descrevendo tudo sobre onde você está agora;
- Deite-se, feche os olhos, e inspire durante 4s, segure a respiração por 2s, expire por 4s e segure por 2s. Coloque sua mão sobre o pulmão e faça movimentos circulares com os dedos. Concentre seus pensamentos para esse exercício;
    
Alternativas que, esperançosamente, te farão pensar duas vezes antes de se automutilar:
- Trate-se de maneira gentil;
- Conscientize-se de que a automutilação é um comportamento nocivo. Diga “Eu quero me machucar” ao invés de “Eu quero me cortar”;
- Repita pra si mesmo “Eu não mereço ser machucadx” mesmo que você não acredite nisso;
- Lembre-se que a vontade de se machucar é impulsiva, você só sente vontade por curtos períodos de tempo;
- Coloque um band-aid onde você quer se machucar;
- Beije onde você quer se automutilar ou suas feridas que estão cicatrizando, isso é um lembrete de que você se gosta e não quer fazer isso;
- Preste atenção e tente evitar padrões antigos de pensamentos. Escolha o que você quer pensar;
- Desenhe uma borboleta onde você quer machucar e se a borboleta desaparecer sem você ter se automutilado, significa que ela sobreviveu e voou pra longe, isso dará uma sensação de realização. Se você se machucar com a borboleta lá, você terá que lavá-la e poderá começar novamente desenhando-a. Você pode nomeá-la com o nome de alguém amado;
- Escreva o nome de alguém que você ama e se importa com você no lugar onde você quer machucar, lembre-se de como você é querido por essa pessoa;
- Pense no que você diria para um amigx que estivesse passando pelo mesmo que você e tente ser um bom amigo para você mesmo.

Alternativas para lidar com seus sentimentos:
- Faça uma colagem/montagem de como você se sente;
- Negocie com você mesmo;
- Identifique o que dói tanto que te faz querer agir dessa forma;
- Escreva seus sentimentos em um diário;
- Escreva livremente o que você quiser, não precisa fazer sentido;
- Escreva uma carta para alguém dizendo como você se sente (mas você não precisa enviá-la se não quiser);
- Comece um jornal onde todo dia você escreve três: coisas boas que aconteceram/coisas que você concluiu/coisas que te fizeram sorrir/coisas pelas quais você é gratx. E quando você se sentir triste leia as anotações.