domingo, 9 de janeiro de 2000

1939 NÃO DEVERIA TER ACABADO

Ano foi um dos mais generosos para o cinema, com inúmeras salas, muitas produções de qualidade e vários clássicos.

Sessenta anos atrás, Hollywood andava a pleno vapor. A depressão ainda afetava o cotidiano, a Segunda Guerra estava prestes a começar, e o cinema funcionava como válvula de escape. Era um verdadeiro fenômeno. Em 1939, nos EUA, existiam mais salas de cinema do que bancos. A indústria do entretenimento era a décima primeira mais forte, maior, por exemplo, do que as cadeias de supermercados. Este número já diz tudo: 50 milhões de americanos iam ao cinema toda semana. Tanto que a soma de salas per capita era duas vezes superior à de hoje.
Antes de continuar, é importante observar que poucos lendo este artigo viveram este período. Mas isso não significa que a gente deva fechar os olhos a este que é considerado o ano dourado de Hollywood. Seis décadas se passaram, e o cinema nunca mais chegou perto de produzir tantas obras-primas em um só ano. É um contraste fascinante com a década de 90, eleita, por unanimidade, a pior da história da sétima arte. Aliás, atualmente, ninguém mais se refere ao cinema como uma arte sem esconder o sarcasmo no rosto. Porém, em 1939, esta indústria ainda era bem artística.
"Indústria" é a palavra certa pra se usar hoje, e nisto não era muito diferente 60 anos atrás. Era a época dos grandes estúdios, do cinema cujo autor era o produtor, dificilmente o diretor, dos contratos de ator que o obrigavam a interpretar vários papéis por temporada. Tal como hoje, em 1939 Hollywood também lançava 400 novos filmes por ano. A diferença é que então havia vários que valiam a pena.
Bette Davis, pra ficar em um só nome, estrelou quatro produções naquele ano. Vitória Amarga, em que interpreta uma socialite mimada cuja vida está no fim, foi apenas um deles. Foi em 1939 que "Garbo riu", mais especificamente em Ninotchka, uma comédia suprema sobre uma espiã comunista corrompida pelo luxo parisiense. Greta Garbo já era um mito antes desse filme, mas ele veio para consolidar a lenda.
Frank Capra também já era reconhecidamente consagrado. No entanto, ele dirigiu sua comédia mais famosa em 1939. A Mulher Faz o Homem, com seu ator predileto, James Stewart, mostra a decepção de um jovem idealista ao se deparar com a corrupção no senado americano.
Só John Ford rivalizava com Capra pela posição de diretor mais popular, e então Ford lançou um John Wayne novinho em No Tempo das Diligências. Este faroeste, um dos mais influentes de todos os tempos, retrata passageiros com personalidades diversas cruzando o Oeste dos EUA. Naturalmente, há um ataque de índios - lembre-se que os nativos são os vilões da história e os brancos, os mocinhos. Mesmo sendo uma obra fascista, permanece indiscutivelmente na galeria dos clássicos, assim como Nascimento de uma Nação, de Griffith. É um daqueles filmes que moldaram o inconsciente coletivo americano.
E o que dizer de O Mágico de Oz? Pois é, também é de 1939. Judy Garland, então com 17 aninhos, cantando "Over the Rainbow", serve como referência? A sueca Ingrid Bergman arrasou em Intermezzo, seu primeiro filme falado em inglês. A aparição mais notória de Joan Crawford nas telas daquele ano se deu em As Mulheres, sobre a competição entre (mui) "amigas" para conquistar os corações dos homens.
O monstro sagrado Laurence Olivier (considerado um dos grandes atores do século - só Marlon Brando pode roubar seu posto) foi a Hollywood pela segunda vez para ser transformado em galã na adaptação da obra de Emily Bronte, O Morro dos Ventos Uivantes, sobre um amor sem futuro na Inglaterra pré-Vitoriana. Este clássico fez tanto sucesso entre o público feminino que, nos meses seguintes, um terço das meninas nascidas em 39 receberiam o nome de Cathy, a heroína do filme.
Poucas estatuetas
Mas, acredite, nenhuma dessas produções teve muita sorte no Oscar. A estatueta de melhor ator foi para Robert Donat por Adeus, Mr. Chips. Além dele, 1939 foi o ano de Beau Geste, com Gary Cooper na Legião Estrangeira; de Marlene Dietritch em Atire a Primeira Pedra; de Howard Hawks dando um papel essencial a Rita Hayworth, ao lado de Cary Grant; de musicais de Busby Berkeley; do Gunga Din de George Stevens; de Katharine Hepburn afiando suas unhas no teatro; da adaptação definitiva do romance de Steinbeck para o cinema, em Carícia Fatal; de Hitchcock chegando a Hollywood; de Charles Laughton brilhando como o corcunda de Notre Dame....
Eram tempos ingênuos, quando patrões sem grande talento para a arte acertavam meio que sem querer. O chefão da MGM, Louis B. Mayer, recusou a entrada de Mickey Mouse em seu estúdio sob a alegação que "toda mulher tem medo de rato". Depois, o próprio, ao consultar seu subalterno Thalberg, rejeitou um certo drama sobre a Guerra da Secessão, já que esses "não rendiam um níquel sequer". Ahn, era E o Vento Levou.
Se este clássico dos clássicos tem um autor, ele é o produtor Selznick, genro de Mayer. Sua busca pela Scarlet O'Hara perfeita mobilizou a sociedade, testou todas as atrizes imprescindíveis da época e custou 100 mil dólares, mas atingiu uma repercussão incalculável. A lenda conta que o irmão do produtor conheceu Vivien Leigh, namorada de Laurence Olivier, e a levou para conhecer Selzick no dia em que queimavam Atlanta. A inglesa ganhou o papel e incendiou o imaginário do público, que via no casal o encontro ideal entre Scarlet e Heathcliff, o herói de O Morro dos Ventos Uivantes.
O impressionante mesmo é que E o Vento Levou foi apenas um dos clássicos feitos na Hollywood de 1939. Houve tantos outros que é fácil perder a conta. Agora analise comigo: quantas obras-primas você viu nesses últimos vinte anos? Certo, certo, sei que a comparação é injusta. Mas seria bom se 1939 não terminasse nunca, se fosse um ano constante a assombrar a produção cinematográfica atual, a lembrá-la de quando os americanos sabiam fazer cinema. Faz tempo, né? 60 anos...

quinta-feira, 30 de dezembro de 1999

LISTA ESCOLHE OS 100 MELHORES FILMES BRITÂNICOS

Relação do British Film Institute comete gafes, subestima Hitchcock e faz justiça a clássicos como O Terceiro Homem (foto)

Recentemente, o British Film Institute elegeu os 100 melhores filmes britânicos do século. Surpreso? Sim, parece que existem mais de cem filmes ingleses, mas o instituto tratou de escolher apenas 100. Listas são sempre estranhas, como se sabe. Dependem do juízo muito particular do júri, e fica aquela sensação de injustiça. É como se o pessoal, após ter votado nos 100, dissesse, "Ih! Esqueci! Onde que a gente coloca este?!". Neste final de século e milênio, pode ir preparando seu coração e mente para um bocado de listas. As listagens dos melhores álbuns do milênio unanimemente põe Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, no topo - o que é justíssimo, mas é esquisito esquecer Beethoven, Mozart, esses caras aí que também revolucionaram a música. Pessoalmente, eu adoro quando fazem listas dos 100 melhores filmes dos últimos cem anos, já que não existia cinema antes disso. Deve haver até lista das melhores listas, ó céus.

Bem, voltando ao BFI (não confundir com FBI). Esta lista veio coroar o que todos desconfiavam: que a década dourada do cinema inglês foi mesmo a de 60. Vinte e cinco selecionados, ou um quarto, vem daquele período inesquecível. Porém, desconfia-se desta escolha acertada ao ver o que o BFI pôs como "segundo período brilhante": as décadas de 80 e 90. Tsc, tsc, tsc... Se a produção britânica dos últimos 20 anos fosse assim tão maravilhosa, não estaria apanhando tanto de Hollywood, né? A lista dá-se ao luxo de incluir Shakespeare Apaixonado e Elizabeth (foto) entre os top 100. São bons filmes, mas melhores da história?! Essas inclusões automaticamente depõe contra a lista. É o tal "diga-me com quem andas e eu te direi quem és".

Na primeiríssima posição aparece O Terceiro Homem (1949), de Carol Reed. Com roteiro do escritor Graham Greene, fotografia fantástica em preto e branco e música de corda imitada até hoje, este policial (difícil classificar) conta uma história mirabolante de espionagem e contrabando na Viena pós-guerra. As atuações são tão boas que Orson Welles, o rei dos reis, faz só uma ponta. O filme está cheio de graça e charme e de diálogos incríveis, como este: "Durante os Borgia e seu reino de terror, o mundo foi presenteado com a Renascença, Michelângelo e Da Vinci. E o que 500 anos de democracia e paz suíça criaram? O relógio-cuco". Se O Terceiro Homem não é um clássico indiscutível, então eu não sei o que é.

Em segundo lugar vem outro super clássico: Desencanto (1945, no original Brief Encounter, o que significa "breve encontro"), de David Lean, certamente o maior diretor inglês de todos os tempos. A lista faz justiça a Lean, incluindo seis de seus filmes (e três deles entre os dez maiores). Por exemplo, Lawrence da Arábia (62) chega em terceiro, e Grandes Esperanças (46) em quinto. Lean é chegado a épicos (fez também A Ponte do Rio Kwai e Doutor Jivago, entre outros) e é por isso que Desencanto é seu filme mais peculiar. Impossível imaginar um drama mais intimista.

Desencanto é pura melancolia. Fala de duas pessoas, ambas casadas, que se encontram por acaso em uma estação de trem e perdidamente se apaixonam entre si. Se você já supunha não existir sexo entre os ingleses, Desencanto será sua confirmação. O adultério carnal jamais ocorre (e precisa?). Quer dizer, o que dói mais ao traído: que seu cônjuge tenha uma noite ardente com um desconhecido ou que ele não consiga parar de pensar em outro alguém?

Desencanto vai além do casamento sem paixão, metendo-se na nossa existência vazia. A fala-chave é deferida pelo protagonista, em tom que nem chega a ser irônico: "que vidas excitantes levamos, não é?". É um drama 100% honesto e enxuto, que não perde tempo com frivolidades. Tente assistir sem derramar muitas lágrimas.

Só por curiosidade: Billy Wilder, o grande, ficou tão encantado com Desencanto que não pôde tirá-lo da mente. Transportou um dos personagens secundários da trama (o amigo que empresta a chave de seu apê ao "adúltero") para sua comédia Se meu Apartamento Falasse, desta vez na condição de protagonista. Isso que é criatividade.

Um dos (poucos) belos filmes dos anos 90, Trainspotting (1996; foto) aparece na lista como o mais bem posicionado entre as produções atuais, em 10º lugar. Assim como Desencanto, também trata de vazio existencial, mas usa as drogas pesadas e um ótimo senso de humor para passar sua mensagem, que, imagino, deve ser algo como "viva e deixe viver".

Agora, às injustiças. Hitchcock mal é visto na lista. Será que deixou de ser inglês quando foi filmar nos Estados Unidos? Aliás, este é um dos problemas do BFI. Como decidir qual filme é britânico e qual é americano? Vamos ao caso de Laranja Mecânica (1971), que amarga a rídicula 81ª posição na lista (eis aí um típico exemplo do "ih! Esqueci!"). O americano Kubrick passou quase metade da sua vida em Londres. Por que só Laranja Mecânica é inglês? E 2001, Uma Odisséia no Espaço, e Doutor Fantástico, e O Iluminado, todos ausentes da lista? Muito estranho.

Outra: Quatro Casamentos e um Funeral é simpático (está na 23ª posição), mas nem com extrema boa vontade pode ser considerado superior a Um Peixe Chamado Wanda (em 39º lugar; foto). E, sinceramente, só para ficar entre os recentes, Ou Tudo ou Nada e Traídos pelo Desejo (25ª e 26ª posições, respectivamente) serão melhores que Segredos e Mentiras (40º lugar)? Não creio.

E atenção para a melhor notícia deste artigo: todos os filmes citados acima estão disponíveis em vídeo, inclusive em Joinville. Veja-os, não só para aumentar sua cultura cinematográfica, mas também para entender porque Hollywood continua aceitando de braços abertos os talentos britânicos (se bem que só depois de eles se renderem ao sistema). Se pensou em Ridley Scott, Alan Parker, Stephen Frears, Neil Jordan (Adrian Lyne não conta), acertou. Longa vida aos ingleses!

Os 50 mais

1- O Terceiro Homem

2- Desencanto

3- Lawrence da Arábia (foto)

4- Os 39 Degraus

5- Grandes Esperanças (foto)

6- As Oito Vítimas

7- Kes

8- Inverno de Sangue em Veneza

9- Sapatinhos Vermelhos

10- Trainspotting (foto)

11- A Ponte do Rio Kwai

12- Se (foto)

13- Quinteto da Morte

14- Tudo Começou no Sábado

15- Rincão das Tormentas

16- Carter, o Vingador

17- O Mistério da Torre

18- Henrique 5º

19- Carruagens de Fogo

20- Neste Mundo e no Outro

21- The Long Good Friday

22- O Criado (foto)

23- Quatro Casamentos e um Funeral

24- Alegrias a Granel

25- Ou Tudo ou Nada

26- Traídos pelo Desejo (foto)

27- Doutor Jivago

28- A Vida de Brian

29- Os Desajustados

30- Gregory's Girl

31- Zulu

32- Almas em Leilão

33- Como Conquistar as Mulheres (foto)

34- Gandhi (foto)

35- A Dama Oculta

36- Assalto à Milanesa

37- Momento Inesquecível

38- Os Commitments - Loucos pela Fama

39- Um Peixe Chamado Wanda

40- Segredos e Mentiras (foto)

41- 007 Contra o Satânico Dr. No

42- As Loucuras do Rei George

43- O Homem que Não Vendeu sua Alma

44- Narciso Negro

45- Coronel Blimp

46- Oliver Twist (foto)

47- Papai é Nudista

48- Performance

49- Shakespeare Apaixonado

50- Minha Bela Lavanderia (foto)

Veja a lista completa aqui.

domingo, 26 de dezembro de 1999

CLÁSSICOS: APOCALYPSE NOW / Vinte anos depois do Apocalypse

O melhor dos inumeráveis filmes sobre a Guerra do Vietnã já nasceu como obra-prima do cinema

Quando Apocalypse Now foi finalmente apresentado ao mundo, depois de quatro anos intermináveis de filmagens, a comoção não poderia ter sido maior. Este filme de duas décadas atrás foi imediatamente saudado como obra-prima, ainda que imperfeita, posto que ocupa até hoje. Com justiça, é considerado um dos melhores trabalhos sobre a Guerra do Vietnã, se não o melhor. Em geral, quando se fala desta guerra horrorosa, a primeira e única até agora perdida pelos americanos, mencionam Apocalypse, O Franco-Atirador e Platoon. Vai saber porque omitem Nascido para Matar, de Kubrick...

Foi por uma série de acasos que Apocalypse veio a se tornar o que é. Para início de conversa, quem havia sido escalado para dirigi-lo era ninguém menos que George Lucas, que abandonou o projeto para primeiro se dedicar a Loucuras de Verão e, depois, a Guerra nas Estrelas. O roteiro original, escrito em 1969, quando a intervenção dos EUA não era ainda vista como desastrosa, descrevia soldadinhos a la John Wayne, e levava a assinatura de John Milius, direitista de carteirinha. Se quiser ter uma noção do fascismo de Milius, basta assistir a Amanhecer Violento, sobre adolescentes mascadores de chiclete que defendem sua cidade de uma invasão comunista. Pode-se imaginar que Apocalypse teria sido um tanto diferente com Lucas e Milius.

No fundo, sem Francis Coppola, o filme nunca teria sido realizado. Só que Coppola alternava crises de depressão e megalomania e estava a um passo da loucura. É impossível falar de Apocalypse sem abrir um parênteses para o ego de Coppola na época. Em 1975, quando assumiu as rédeas do filme, Coppola era tido como um deus, e não para menos. Acabava de ver duas de suas obras (O Poderoso Chefão II e A Conversação) nomeadas ao Oscar de melhor filme no mesmo ano - fato único na história do prêmio -, e nadava em dinheiro. Ou seja, estava no céu. Por isso que a queda foi tão brusca.

Coppola teve enormes dificuldades para escalar seu ator principal. Robert Redford, Jack Nicholson, Gene Hackman, Al Pacino, Steve McQueen - todos foram sondados e recusaram, já que não queriam passar seis meses na selva. Finalmente, contratou Harvey Keitel, e o despediu logo depois, por razões mal explicadas. Chamou então Martin Sheen para o papel de sua carreira. Sheen se empenhou tanto que, no meio das filmagens, teve um ataque cardíaco. Quase morreu aos 37 anos, o que significaria o caixão também para Apocalypse.

Ah, a história! Um capitão americano no Vietnã é enviado, numa missão secreta, até o Camboja, para liquidar um oficial (de seu próprio exército) que havia enlouquecido e inaugurado uma seita. No caminho, ele presencia uma série de atrocidades.

A cena mais famosa é a que mostra Robert Duvall, no comando de uma tropa de helicópteros que bombardeia uma escola vietnamita, incentivando seus homens a aproveitarem as ondas e surfarem ao som da "Cavalgada das Valquírias", de Richard Wagner. A verdade é que Duvall rouba o filme como o demente que diz "adoro o cheiro de napalm pela manhã", e que nem sequer pisca durante o fogo cruzado. Sua imagem virou a marca registrada de Apocalypse.

O filme foi rodado nas Filipinas, entre tufões que derrubavam cenários e rebeliões armadas, além de muitas drogas. O documentário da esposa de Coppola, Hearts of Darkness - O Apocalipse de um Cineasta, também disponível em vídeo, expõe claramente como os atores e a equipe viviam dopados.

O final de Apocalypse traz Marlon Brando, e é a parte imperfeita deste clássico, por ser confusa e pretensiosa demais. Brando não criou nenhum problema, apesar da obesidade e de não ter lido o livro de Joseph Conrad, Coração das Trevas, no qual o filme é inspirado.

Apocalypse, orçado em US$ 12 milhões, terminou gastando uns 40 mi. Muito desse dinheiro era de Coppola, que ganhou de brinde um colapso nervoso. Se valeu a pena? Digamos apenas que foi a última obra-prima de Coppola - e uma das últimas do cinema.

sábado, 20 de novembro de 1999

QUANDO O ASSUNTO É CHACINA, A GENTE VALE QUANTO GANHA

Diagrama da Veja: a cobertura da mídia não é igual para crimes envolvendo ricos e pobres

Chacina no cinema? Horror no shopping? Carnaval da mídia? Tudo isso e mais um pouco neste acontecimento lamentável do estudante de medicina que atirou a esmo durante uma sessão de cinema em São Paulo. Ainda vamos ler ou ouvir muitos detalhes sórdidos. Dos noticiários de TV a gente espera qualquer coisa, que todo Jornal Nacional tem um pouco de Cidade Alerta, mas de repente toda a mídia escrita dita "séria" assume seu lado Notícias Populares ou O Dia. Páginas e mais páginas narrando a mesma coisa, chafurdando-se em sangue. Os jornais nos oferecem cadernos especiais, deslocam vários reportéres, não economizam nas fotos coloridas, derramam-se em análises.
Na mesma semana, na mesma cidade, só que um pouco mais longe do ar-condicionado, duas crianças foram baleadas na cabeça em frente à uma padaria da periferia. Depois, mais mortos num casamento evangélico. A diferença na cobertura é gritante. Poucas linhas sobre os pobres; mandam um estagiário qualquer para a reportagem e não se fala mais nisso. Afinal, chacinas em subúrbios são corriqueiras, acontecem (literalmente) diariamente e faz tempo que os jornais pararam de gastar tinta publicando nome de vítima que ninguém vai ler.
Porém, no caso do atentado no shopping, entrevistam até amigo de vítima. Sinceramente, há algo mais inútil do que perguntar pra alguém "o que você achava do falecido"? Sendo amigo, então, é saliva à toa. O adjetivo mais modesto usado para descrever a fotógrafa assassinada foi "brilhante". Precisamos mesmo saber algo sobre ela para sentirmos pena e indignação? Quando criança pobre recebe tiro, mal entrevistam a mãe.
Outras tantas páginas estão sendo gastas para descrever o sentimento dos freqüentadores de shopping. Uma senhora diz que assim não dá, que, francamente, ela ficará preocupada em deixar as filhas adolescentes no cinema enquanto vai fazer compras, que estão querendo estragar suas poucas opções de lazer. Ao balbuciar essas sábias palavras, nem ela nem o jornalista têm a mínima idéia sobre o apartheid social em que vivemos.
A mídia dá todo esse destaque à matança do shopping não só porque público que folheia jornal é de classe média, mas também porque jornalista - quem cria e redige - também pertence a esse estrato. Esse negócio que repórter corre atrás da notícia, esteja ela onde for, é pura balela. Deve ser incômodo empoeirar a roupa de griffe em uma visita às ruas esburacadas da favela. Cobrir notícia em centro de compras está mais dentro de seu habitat natural.
Por um lado, é bastante normal que nos interessemos mais pelos nossos semelhantes. Se ocorre algo no nosso prédio, ficamos mais atentos do que se fosse em outra rua. Gostamos daquela sensação mórbida de que "poderia ter acontecido conosco". E também nos identificamos, pelo menos esteticamente, com as vítimas e com o assassino que, na pior das hipóteses, assiste aos mesmos filmes que a gente.
Mas não precisamos exagerar. Lembro, de memória, de outros desastres envolvendo a classe média e da cobertura exacerbada da imprensa: as viúvas da TAM, a explosão do shopping de Osasco (shopping é shopping, nem que seja em cidade-satélite), a falência da Encol, a queda do Palace 2 (foto)... Na mesma época em que caiu o edifício do Sérgio Naya (quem?) havia acabado de ocorrer um desabamento de barracos, com muitos mais mortos. Mas quem pediu donativos foram os sem-teto da classe média, aqueles que ganhavam mais em uma semana do que os favelados em um ano. É difícil esquecer o apelo de uma das vítimas do Palace: "precisamos urgentemente de ticket-combustível".
No fundo, falamos do atentado no shopping com uma pontinha de orgulho, como se tivéssemos enfim importado o modelo americano. E o que é bom para os EUA é bom para o Brasil, certo? A classe média continua fazendo o que sempre fez: olhando para o próprio umbigo. O que eu realmente queria saber é quem decretou que a vida de um economista vale mais do que a de um faxineiro. A mídia e quem mais?

sexta-feira, 5 de novembro de 1999

CRÍTICA: SEXTO SENTIDO / Enfim, um terror que dá medo no cinema

O menininho que não quer ver dead people

"O Sexto Sentido" faz todo o sentido. Este suspense psicológico, em cartaz em SC, pelo jeito vai continuar nas salas por um bom tempo. Até agora, não conheci uma só alma que não tenha gostado do filme, se assustado com ele e adorado o final, a grande vedete. Pode ler isso sem susto que não tenho a mínima intenção de ser uma estraga-prazeres e entregar o desfecho.

A história envolve dois personagens principais. Um, o psicólogo infantil que, após levar um tiro de um ex-paciente, tenta recomeçar sua vida. Seu casamento está em frangalhos, já que a mulher não fala com ele. E seu arsenal de pacientes fica reduzido a um menininho que lhe lembra muito aquele que atirou nele.

Este garoto de uns oito anos tem uma peculiaridade: ele vê pessoas mortas. Nós, os espectadores, não vemos o que ele vê até mais ou menos metade do filme, o que ajuda a criar um clima. Como todo mundo está cansado de saber, o que não enxergamos é bem mais aterrorizante do que o que nos é mostrado em technicolor. Tal qual o menino, não entendemos o que os fantasmas querem com ele. Serão perigosos, podem machucá-lo, ou simplesmente querem se comunicar com ele?

É então que o diretor e roteirista Shyamalan exibe toda a sua perspicácia. Antes dos plufts aparecerem, ele usa um recurso hitchcockiano. Quem assistiu a "Os Pássaros" notou que, anteriormente ao ataque das aves, o mestre põe na tela a sua cena mais gráfica, uma vítima sem os olhos, para que saibamos que os passarinhos não estão pra brincadeira. Em "O Sexto Sentido" é parecido. Shyamalan tranca um garoto em pânico com um fantasma. Ouvimos seus gritos e depois checamos as marcas. Quando os mortos realmente começam a pipocar, ficamos com medo porque vimos como eles podem ser perigosos.

Meu fantasma favorito é o do pré-adolescente que entra no quarto do nosso pequeno herói e diz, "Vem cá que vou te mostrar onde papai guarda o revólver", e, ao se virar, exibe um belo rombo na cabeça. Outros cadáveres não são tão bem sucedidos e parecem mais saídos de filmes trash. É o caso da fantasma do trânsito e dos três enforcados na escola. Pode ser porque as cenas estão iluminadas demais, e aparição combina mais, até rima, com escuridão.

Sobre o tão aclamado final, tenho uma confissão a fazer. Não pensem que estou me gabando não, mas eu adivinhei o fim. Isso é incrível - eu, que até hoje não entendi como termina "De Olhos Bem Fechados"; eu, para quem meus alunos teens, ó suprema humilhação, tiveram de explicar o desfecho horripilante de "A Bruxa de Blair". O que quero dizer é que se até eu, uma negação para prever conclusões cinematográficas, pude decifrar o remate de "O Sexto Sentido", então talvez ele não seja tão surpreendente assim. Mas é super bom, do tipo que faz com que a gente relembre o suspense e queira vê-lo mais uma vez, só pra conferir.

Bruce Willis está bem no que deve ser seu melhor papel desde "Pulp Fiction", mas quem rouba o filme é o ator-mirim Haley Joel Osment, que certamente será indicado ao Oscar de coadjuvante, e já entra como favorito. Tomara que este menino tenha futuro e não desapareça como os talentos precoces Culkin, Linda Blair, Tatum O'Neal. A lista é infinita e só quem se salva mesmo é Jodie Foster. Primeira coisa que Osment deve fazer para assegurar seu lugar em Hollywood? Mudar de nome. Três nomes dificilmente pegam.

Shyamalan homenageia todos os clássicos certos, como "O Bebê de Rosemary" e "Repulsa ao Sexo", ambos de Polanski; Hitchcock, "O Exorcista", e, obviamente, "O Iluminado". Ganha um doce o primeiro diretor de terror desta década que não diga que sua maior influência seja Kubrick.

Eu não acredito em fantasmas, almas penadas ou duendes, certo? Mas devo confessar que fiquei petrificada durante a exibição do filme. Olhava para a poltrona vazia do lado e por alguns microsegundos da minha fértil imaginação imaginava uns cadáveres sentados. Depois de assistir a "O Sexto Sentido", você também vai ver pessoas mortas por um tempo.