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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

CRÍTICA: TOWELHEAD / Descoberta da sexualidade num mundo hostil

Uma menina descobre o que quer num mundo que quer dela coisas conflitantes (e ela não quer o Aaron Eckhart).

Towelhead é um drama de 2007 que um leitor querido viu, gravou e mandou pra mim, junto com outros filmes (veja o trailer aqui, sem legendas). Eu o vi faz alguns meses, fiquei balançada, e decidi revê-lo agora, pra poder escrever sobre ele. É uma história chocante (baseada no romance de Alicia Erian que agora estou louca pra ler), e o diretor, produtor e roteirista Alan Ball (roteirista vencedor do Oscar por Beleza Americana e criador da minha série de TV favorita, A Sete Palmos) sabe muito bem disso. Já começa de forma gritante, com um adulto preparando-se para depilar a virilha de Jasira (Summer Bishil), uma tímida menina de treze anos. Sua mãe (Maria Bello, de Marcas da Violência) descobre (o rapaz é namorado dela), diz pra garota que a culpa é dela, por andar com os peitos empinados, e a manda pra casa do pai, no Texas. O pai (o excelente Peter Macdissi, que seria bonito se não fosse o bigode) é um engenheiro da Nasa, um libanês (cristão) naturalizado americano ultra machista e racista. A vida de Jasira é um inferno na Terra: o pai, além de não lhe demonstrar nenhum afeto, ainda bate nela; os coleguinhas riem dela na escola e a xingam de vários epítetos racistas, como “cabeça de turbante” (o título do filme), “jóquei de camelo”, e “crioulo de areia”.
No entanto, a trama é especialmente polêmica porque mostra o despertar sexual de uma adolescente. Geralmente o cinema só dedica esse tema aos adolescentes do sexo masculino, e quase sempre como comédia. E em Towelhead vemos que uma garota se masturba (inclusive olhando pra fotos de mulher pelada), e que ela tem um misto de curiosidade e repulsa diante de um vizinho adulto (e deslumbrante, já que é interpretado pelo Aaron Eckhart, de Obrigado por Fumar e Cavaleiro das Trevas) que a fita com um olhar suspeito. O vizinho a estupra com o dedo (na realidade quando não há penetração vaginal pelo pênis o caso é considerado abuso sexual, não estupro, o que é ridículo, se bem que a lei brasileira mudou em agosto deste ano), mas ela não sabe que é estupro. Ela se envolve com um garoto de sua idade, mas, por ele ser negro, o pai não permite que eles sejam amigos.
Um dos diálogos já diz tudo. É entre Jasira e seu vizinho, que a leva pra jantar fora. A garota, meio bêbada, diz:
- Quando crescer, quero estar nas suas revistas [eróticas; foi ele que deu uma revista pra ela].
- Não, não quer! Você é uma vagabunda? Não é! Se bem que, se você continuar se encontrando com aquele menino negro, vai virar uma.
- Ele é melhor que você.
- Ah é?
- Ele só me toca quando eu digo pra ele que pode me tocar.
Essa rápida conversa, que Jasira fecha com chave de ouro, ainda assim a deixa confusa: ué, se o vizinho (e outros) gosta dessas revistas a ponto de comprá-las, por que chama as mulheres que posam nuas de vagabundas? Mais tarde, Jasira vai tirar fotos num shopping, e ela e o fotógrafo se empolgam. Através da montagem, vemos que Jasira está imitando as poses sensuais das moças nas revistas, o que é intercalado com várias outras cenas que são perturbadoras pra ela. Ela está se comportando como a sociedade a ensinou a se comportar (“seduzindo” os homens e estando sempre acessível) mas, ao mesmo tempo, a sociedade também lhe diz que essa não é a forma de mulheres “de respeito” agirem. Quase todas as mulheres, independente da idade, lidam com essas mensagens cruzadas, essa dicotomia entre puta vs. santa. O fotógrafo se aproveita da confusão de Jasira, e cabe a ela, num momento de lucidez, encerrar a sessão dizendo “Eu só tenho 13 anos!”.
Mas o filme é cheio de nuances. Nem o pai é totalmente ruim, e nem o vizinho, que mais tarde diz pra Jasira aquela frase tipicamente machista: “Eu não sou um cara ruim. Nunca teria feito aquilo com você se soubesse que você era virgem”. Nem o namoradinho é um sujeito completamente bom, se bem que ele é muito melhor que os outros homens do filme. Quando ele fica sabendo que Jasira foi abusada sexualmente, decreta que ela e ele não devem mais transar. E a adolescente, que a essa altura já está cem anos mais madura e segura que no início do filme, fala pra ele: “Eu gosto de fazer amor com você, e quero continuar. Não quero que o que [o vizinho] fez comigo tire isso de mim”.
As únicas pessoas que parecem 100% corretas, a meu ver, são um casal de vizinhos sem filhos, principalmente a mulher, grávida (Toni Collette, a mãe de Sexto Sentido e Pequena Miss Sunshine). Quando ela vê o vizinho chegar muito perto de Jasira, a avisa: “Qualquer homem dessa idade que quiser ser seu amigo é um porco”. Mais adiante, ela a protege da fúria do pai, além de lhe dar um livro sobre sexualidade. Ela faz tudo certo, e não se importa em ser metida demais. Se você visse um vizinho adulto se engraçando pro lado de uma menina de 13 anos (que não fosse sua filha), faria alguma coisa? Tá na hora da gente começar a fazer.
Embora Towelhead se passe durante a Guerra do Golfo e seja crítico aos americanos―afinal, Alan Ball é um expert em não deixar pedra sobre pedra nos subúrbios dos EUA―, o filme serve como um ótimo (e perturbador) incentivo pra se pensar sobre o início da sexualidade feminina, e este é um tema universal. Tenho toda a impressão que quando eu tinha treze anos eu ainda estava longe de pensar em sexo, mas isso não quer dizer que a situação seja igual pra todas as meninas. Aconselho muito que você veja Towelhead, que mostra uma garota não totalmente desinteressada num mundo cheio de predadores sexuais.