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Tomara que “Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet” chegue a sua cidade e você possa desfrutar deste que é um dos grandes filmes de 2007. Mas tomara também que você vá preparado. O trailer é desonesto e não mostra o que “Sweeney” realmente é – um musical. Se você já não for sabendo que trata-se de um musical, pode se decepcionar, querer dar uns tapas no projecionista, e sair da sessão batendo os pés (li que numa das sessões um adolescente, desesperado, perguntava: “Por que os atores estão falando desse jeito?!”). Musical segue algumas convenções do gênero: as pessoas cantam em vários momentos ao invés de falar e a orquestra toca do nada. O que é tão realista quanto, vejamos, aqueles filmes de ação em que o herói derruba três helicópteros com um tiro, e nenhum cai em cima dele. Eu prefiro musicais.Há outras convenções importantes. Musicais em geral são “feel good movies”, filmes pra cima, que nos fazem sair cantarolando do cinema. Mesmo quando falam de temas hediondos, como guerras, terminam com alguma pontinha de esperança. Em “Hair” o personagem mais carismático morre, e a última cena é de um cemitério, mas os outros hippies se reúnem, juntos, e cantam “Deixe a luz do sol entrar”. “Cabaret” talvez tenha o fim mais pessimista de todos, com a Liza Minelli cantando que a vida é um cabaré, o que não é exatamente uma canção alegre, e em seguida vemos o recinto sutilmente tomado por nazistas. Esses são exemplos de musicais tristes, que são minoria. Já “Hairspray” trata de preconceitos, mas também da força da música para derrubá-los. E mesmo “A Pequena Loja dos Horrores”, que lida com plantas alienígenas que comem humanos e dentistas sádicos (existe outro tipo?), está cheio de humor. Bom, “Sweeney” não tem nada disso. É um filme sem nenhuma esperança ou fé na humanidade. É o mais cruel do Tim Burton (repleto de paralelos com “Edward Mãos-de-Tesoura”), e seu melhor resultado desde “O Estranho Mundo de Jack”, que, pensando bem, também é um musical. E só o Tim pra acabar um filme daquele jeito (não vou falar como). Qualquer outro diretor, tirando talvez o Polanski, incluiria alguma cena redentora.
Começa com sangue nos créditos e segue com um jovem chegando de navio à Londres do final do século 19, e já cantando uma canção de louvor ao que vê. Sweeney (Johnny Depp) o corrige rapidamente, diz que ele ainda vai aprender, e define a cidade como um poço sem fundo infestado por vermes. O filme não deixa dúvidas sobre quem tem razão. Nunca Londres foi pintada de um jeito tão horrível. Nem em “Do Inferno”, também com o Johnny, que mostrava prostitutas dormindo amarradas em bancos de igreja. Pra você ter uma idéia do clima sinistro de “Sweeney”, uma das personagens declara: “Não tenho sonhos, só pesadelos”. E ela é das mais otimistas!
O musical é tão escuro que praticamente lembra um filme em preto e branco. Todas as pessoas são pálidas, as ruas sombrias, com ratos e esgoto a céu aberto. Apenas os flashbacks são felizes. Primeiro eu pensei que só o passado do Sweeney fosse colorido, com ele, sua mulher e filhinha andando numa Londres cheia de flores. Mas o corte pro que acontece de terrível com a esposa no baile de máscaras também tem cores vibrantes. A fantasia da Helena Bonham-Carter na praia tem cores; e há o cabelo loiro da menina. Mas, de resto, é tudo fúnebre. O sangue abundante que respinga na câmera atrapalha o preto e branco, só que parece vermelho demais pra ser real. Os ângulos de câmera e a brilhante fotografia evitam o tom claustrofóbico. Imagino que boa parte do musical da Broadway (de 1979, do Stephen Sondheim) se passe dentro da barbearia e da loja de tortas.
Novamente, como em “Chicago”, um elenco de não-cantores se sai muito bem. Todos estão perfeitos. Em sua sexta colaboração com o Tim, Johnny, mesmo com parte do cabelão branco, a cara branca, olheiras e nenhum sorriso, nunca esteve tão sexy. A Helena, mulher do diretor, tem uma energia que segura o ritmo. Ela é a alma. Eu adoro o Alan Rickman, e ele poderia ter tido mais oportunidades. E tem o Sacha Cohen, o Borat, que surge em duas cenas (e uma delas meio que não combina com o clima), mas ainda assim está marcante. Todos seguram melodias difíceis. Eu nem sabia que “Pretty Women” pertencia a este musical. Lembra dela na voz da Barbra Streisand?
Depois de “Titus” e “Sweeney”, acho que você deve fazer como eu e evitar tortas de carne por um tempo - digamos assim, pelos próximos 50 anos. Mas não evite “Sweeney” de jeito nenhum. E pode me chamar de canibal, mas, se eu precisasse escolher entre tortas com recheio de carne humana e tortas com recheio de baratas, ahn, nem preciso continuar esta frase.
P.S.: Eu gosto de “Chicago”, se bem que “Sweeney” é mais inesquecível. Não dá pra compará-lo a musicais mais recentes, do tipo “Dreamgirls” (que é um subgênero dos musicais, o dos bio-pics).
P.S.2: É ótimo que 2007 tenha sido tão pródigo em matéria de musicais. Fora “Sweeney”, houve “Hairspray”, “Across the Universe”, e o independente “Once”. Todos filmes muito acima da média.
