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sábado, 18 de maio de 2013

GUEST POST: MÍSTICA E LUTA NO MOVIMENTO SEM TERRA


Conheci o Ramofly (sim, esse é o nome dele) ao dividirmos uma mesa-redonda na Universidade Federal Rural do RJ, em Seropédica, em abril. 
Sua fala e sua luta no MST são contagiantes. Pedi pra que ele escrevesse um guest post aqui pro blog, e taí. 
Melhor apresentá-lo direito: o historiador e pedagogo Ramofly Bicalho, professor da UFRRJ, trabalha com educação de jovens e adultos no campo. E ele é uma simpatia. 

Nessa conversa quero refletir sobre a importância que a mística possui nos acampamentos e assentamentos do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Com a mística percebemos a necessidade de valorizarmos as histórias de vida das pessoas, culturas, sonhos e gestos, contribuindo para renovarmos as esperanças de um mundo mais humano e pleno. Ademar Bogo, na poesia "Marchar e vencer", afirma que “a dor, a fome, a miséria e a opressão não são eternas; eternos são os sonhos, a beleza e a solidariedade, por estarem ao longo do caminho de quem anda, em busca da utopia nas asas da liberdade”. Ainda creio na possibilidade de sonharmos com um mundo de alegrias e de trabalho coletivo, que enfrente a dor e a miséria presente nos campos e nas cidades.
Na mística, defendemos com muita intensidade os seguintes valores: liberdade, utopia e solidariedade. Valorizamos a vida nas escolas do campo, nos acampamentos, assentamentos e na luta por Reforma Agrária. Combatemos o latifúndio, o agronegócio e o veneno em nossas mesas. Com muita coragem, emoção, cantorias, músicas e poesias, denunciamos o fechamento das escolas do campo, sem perder o brilho nos olhos. Ao construir o caminho numa escola de assentamento do MST, a mística é algo que nos alimenta, que fortalece nossa organização, que nos dá esperança de viver com dignidade, resgatando os valores de nosso cotidiano.
Seus significados estão mais atrelados aos gestos, aos símbolos e às emoções do que palavras soltas e sem significados. Segundo Caldart, mística quer dizer mistério, ou seja, se for completamente desvelada perderá a essência do seu sentido. Dependendo do grau de participação, gera alívio, tensão e respeito ao próximo, unindo pessoas em torno dos mesmos propósitos. Com a mística, combatemos a exclusão, a fome e os maus tratos. Enfrentamos a problemática urbana de violência física e simbólica, o desemprego, os transgênicos e os latifúndios improdutivos. Ela se faz presente na construção do barracão-escola, nas ocupações de terras e prédios públicos, no uso do boné e na bandeira do movimento.
Descrevemos a mística como uma enorme possibilidade histórica de trabalhar a organização de acampados e assentados em prol do coletivo. Sempre iniciamos as atividades com encenações, músicas, atos públicos e muitos abraços. O hino do movimento é entoado seguido de leituras e poesias que reafirmem a luta dos sem-terra em prol da reforma agrária e da educação do campo. Palavras de ordem são mencionadas, tais como: viva o socialismo; Che, Zumbi, Antonio Conselheiro, na luta por justiça somos todos companheiros. Comportamentos como esses geram atitudes, valores e gestos que não passam despercebidos.
Creio que na construção de uma sociedade mais justa, solidária e cidadã, que valorize os sonhos e as utopias dos trabalhadores/as do campo, seja necessário dialogarmos com a intensidade da mística nos acampamentos e assentamentos do MST. Ela alimenta a esperança dos militantes nas áreas de Reforma Agrária. Mobiliza homens e mulheres na luta pela identidade sem terra e no enfrentamento das adversidades. O entusiasmo para lidar com os fracassos e desajustes desta civilização concentradora de renda e de terra é revigorado com os sonhos e as poesias, na eterna busca de uma vida mais digna para todos os sujeitos dos campos e das cidades. 
Segundo Stédile: “no MST, a poesia é mais do que uma simples arte. É a forma de animar os passos na busca da terra que se distanciou dos corpos de quem precisa dela para marcar o tempo de sua existência. (...) esta pedagogia de dizer com versos está enraizada na existência de poetas e poetizas que nos antecederam e vivem em seus versos, emendados nos versos de nossos jovens e crianças que, sob as lonas pretas, não deixam de sonhar com a liberdade. A política sem poesia perde a consciência das mudanças que deve alcançar. Perdendo a consciência, perde os sentimentos. Sem sentimentos o homem vira pedra; elas não falam de si, apenas fazem a terra suportar seu peso”. 
Os sonhos, as lutas, o amor, o respeito e a esperança são valores que se aproximam dessa tal liberdade, autonomia e hegemonia defendida pelo MST, na estreita e necessária relação entre os trabalhadorxs do campo e da cidade. Vive-se a esperança, a dignidade e os valores do Movimento. Serve como renovação dos sonhos, das utopias, dos ideais e valores da dignidade humana. Reconhecer a realidade desses sujeitos, suas festas, confraternizações, piadas e enfrentamentos com autoridades policiais nos acampamentos, assentamentos e marchas são essenciais para fortalecer a luta por um Brasil sem latifúndio.
Nesse sentido, as memórias devem ser utilizadas como espaços de lembranças e possibilidades para rever antigos companheirxs. São fundamentais na renovação das forças e estímulo nos momentos de incertezas e dificuldades. Percebo que a participação efetiva das pessoas na organização e na vivência da mística provoca, em sua grande maioria, admiração. Inúmeras são as possibilidades de viver a mística atrelada às noções de cidadania, formação política, identidade sem terra e reforma agrária. 
A mística nessa conjuntura retoma o debate e engrandece a nossa luta por educação pública, gratuita e de qualidade para todos, fortalecendo as milhares de escolas do campo espalhadas por esse Brasil afora.

Mais sobre a mística no MST nesta apresentação do GEPPEC, nesta dissertação de mestrado de um aluno da UFGD e  neste artigo de Plinio de Arruda Sampaio. Vários outros links aqui.