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sexta-feira, 17 de julho de 2009

CLÁSSICOS DUVIDOSOS: IRRESISTÍVEL PAIXÃO / Levanta a mão quem quer ser a Karen

George e Jennifer no melhor momento de suas carreiras.

Já falei que amo Irresistível Paixão (Out of Sight, 1998), mas não acabei de dizer o que queria sobre ele. Uma das coisas que eu gosto é como o filme é codificado por cores. Quando ele se passa em Miami, tudo no cenário, incluindo as roupas, é brilhante e colorido. Na prisão, o tom predominante é amarelo. Quando a ação chega em Detroit, os tons são todos azuis (sem falar que eu conheci aqueles lugares). Azul metálico, cor de carro!
Quanto à história, é interessante que Karen (Jennifer Lopez) seja uma personagem forte. Quando vemos a cena de Jack (George Clooney, meus sais) tomando banho de banheira, e Karen espiando e entrand
o devagar no banheiro, demoramos uns segundos pra sacar que trata-se de uma fantasia erótica. E, quando descobrimos, a primeira impressão é que é Jack quem está fantasiando. No sonho, ele a vê, pega a arma dela, diz “Oi” (“Hey”), e ela entra na banheira, de roupa e tudo. Mas a fantasia erótica é dela. Daí vemos que ela está no hospital, e é seu pai quem a acorda, dizendo: “Você estava falando enquanto dormia”. E ela quer saber: “O que eu disse?”. E o pai responde: “''Oi digo eu' ('hey yourself')”. Na única sequência de sexo que Karen e Jack têm pra valer, é ela quem toma a iniciativa. E é totalmente feminista o jeito que ela se desvencilha das cantadas dos rapazes no bar (como quando ela diz pra um dos carinhas, cortando-o: “Andy, francamente... Quem dá a mínima?”).
Mas, assim como em Jackie Brown, em I.P. também há um perigo constante rondando no ar contra as mulheres. Jack faz questão de declarar, no porta-malas, que nunca “forçou” nenhuma moça. No entanto, um de seus colegas de prisão (o sempre ótimo Luiz Gusman), pra se vingar de Jack, procura sua ex (Catherine Keener, de Sinédoque), uma assistente de mágico. Ainda bem que Karen está por lá pra ajudá-la, porque o criminoso não tem boas intenções. Mas a ameaça maior é de Ken (Isaiah Washington, que na vida real foi despedido de Grey's Anatomy após fazer um comentário homofóbico), que faz um estuprador. Ao tentar algo contra Karen, ele recebe o troco, e tudo que a gente pode pensar é bem-feito. Só que até ela fica com um pouco de medo dele. É detestável quando ele fala pra Karen da cachorrinha que ele tinha: “Ela era uma boa cadela, e eu dei a ela o que todas as boas cadelas querem - um osso”. Ken é um serial rapist. Sua única vontade ao invadir a casa do milionário explorador (um Albert Brooks irreconhecível) é estuprar a empregada (Nancy Allen, a vilã de Carrie, lembram?). Não há dúvida que ele é o verdadeiro vilão do filme. Felizmente, Ken acaba mal (e quem faz a irmã dele numa breve cena é Viola Davis. Como assim, quem? A que quase contracenou de igual pra igual com a Meryl Streep em Dúvida!).
Ah, e sabem como o pessoal critica o Tarantino por nos fazer rir do assassinato acidental de um rapaz negro em Pulp Fiction? Aqui acontece algo parecido, só que com um branco: White Boy, ao subir as escadas, tropeça e atira em si mesmo. A reação do público é rir muito, com razão, já que trata-se de uma cena ridícula.
I.P. é também o melhor filme do talentoso Steven Soderbergh, de Onze Homens e um Segredo, Solaris, Traffic, Erin Brokovich, e Sexo, Mentiras e Videotape. O elenco todo está fabuloso. Ainda não falei do Don Cheadle (Hotel Ruanda), o antagonista de Jack, ou de Ving Rhames (que é estuprado em Pulp Fiction), que interpreta o melhor amigo do protagonista. Nos extras do dvd, Ving diz que sabe que Elmore Leonard havia escrito o personagem pra um ator branco, mas que agora esse papel pertence a ele. E como pertence! Ving tem uma dinâmica toda especial com George. Ele é a parte sábia da dupla, que não consegue crer que seu amigo se apaixonou logo por uma policial (ao mesmo tempo, ele conversa todo dia com sua irmã evangélica, que já o dedurou uma vez). Outro que rouba as cenas é Steve Zahn (de O Sonho Não Acabou), como um ladrão medroso e tagarela. Opa! Tem também o Michael Keaton numa pontinha, fazendo o mesmo papel(ão) que em Jackie Brown.
Bom, que espectadora não adoraria ser a Karen? Ela prende e bate (em legítima defesa) nos caras, tem um pai gozador mas compreensivo, um emprego em que se realiza, e um sujeito como o George Clooney correndo atrás dela. Eu não precisaria de mais nada.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

CLÁSSICOS DUVIDOSOS: IRRESISTÍVEL PAIXÃO / Não resisto a este quase clássico

Filme mais sexy de todos os tempos? Olha, pode até ser.

Sabem um filme que eu amo de paixão? Um de 1998 chamado Irresistível Paixão (em inglês, Out of Sight). Na época em que foi lançado, vários críticos o colocaram no topo da lista dos melhores do ano. Mas nunca foi um estouro de bilheteria e geralmente é subestimado. Hoje virou meio cult. A Entertainment Weekly organizou uma péssima relação dos cinquenta filmes mais sexy de todos os tempos (péssima porque eles incluíram 300 em 50o. O que tem de sexy nesses homens de toga? Concordo com a presença de Insustentável Leveza do Ser, Sexo, Mentira e Videotape, Instinto Selvagem, e Corpos Ardentes, mas O Pecado Mora ao Lado em 16o? Apenas uma Vez em 11o? Sorte no Amor em 5o? Sr. e Sra. Smith em 3o? Jejum de Amor em 2o? Cadê Gilda? Cadê Férias de Amor?), e adivinha quem ficou em primeirão? Este mesmo, Irresistível Paixão. Eu sempre o achei hiper erótico.
Ah, você pode dizer, qualquer fime com o George Clooney é erótico. Mas não é. Primeiro que o George de dez anos atrás não era o mesmo bonitão maravilhoso de hoje. Quer dizer, ele era lindo, mas não tanto (tem gente, como o Paul Newman, que fica mais belo com a idade). Ele tinha apenas 37 anos, o rosto mais magro, cabelos não-grisalhos. Já era um astro, lógico, mas sem comparação com agora. Ele havia sido crucificado por seu Batman (o dos mamilos), testado - e falhado - o seu poder de bilheteria como protagonista em O Pacificador, e dividido a tela com outros em Um Drink no Inferno. Mais nada. O resto era TV, que não era pouco, certo. Já a Jennifer Lopez vinha de “sucessos” como Anaconda. Irresistível Paixão é seu melhor filme. Disparado. Fácil, fácil.
Ela faz Karen, uma policial com um certo histórico de se envolver com os caras errados. E George é Jack, um ladrão de bancos que passou metade da sua vida na cadeia. Inclusive, ele acaba de fugir de uma, e é desse jeito que conhece Karen - ambos são colocados dentro do porta-malas do carro em fuga. Numa loooonga cena, os dois conversam sobre cinema e a vida em geral. Pra Jack, é amor à primeira vista. E não é só porque Jack é interpretado pelo George que ele é charmoso. Ele rouba bancos pacificamente, sem armas (“Esta é a sua primeira vez sendo roubada?”, pergunta ele pra caixa do banco. “Você está indo muito bem”). Sabe que se voltar pra cadeia só vai sair de lá velhinho, e prefere morrer a ter esse destino. Ao mesmo tempo, ele sonha em ser capturado por Karen.
A história tem algumas semelhanças com Jackie Brown porque ambos os livros foram escritos por Elmore Leonard (também autor de O Nome do Jogo e Os Indomáveis). Eu li o livro uns anos atrás e lamento informar que não me lembro de nada, apenas de que este é um exemplo clássico de uma adaptação que é muito superior a sua fonte original. Mas sei que o final cheio de esperança e irônico do filme não está no livro. (SPOILERS, pra quemo viu/leu e pretende ver/ler I.P.:) O romance acaba com o pai de Karen (Dennis Farina) recomendando que ela leve Jack pra cadeia na Flórida, mas pare no caminho pra se divertir um pouco com seu prisioneiro. Ela responde que ninguém forçou Jack a assaltar bancos, e o pai diz: “Minha filha, a garota durona”. Fim. Esse diálogo está no filme, só que ele continua. A gente vê Karen se preparando pra levar Jack pra penitenciária, uma longa viagem de Detroit pra Miami, mas ela decide levar junto um outro detento, Henry Hijirah (uma pontinha não-creditada feita pelo Samuel L. Jackson), perito em fugir de xilindrós. Eu adoro a troca entre eles (minha tradução):

Jack: Que tipo de nome é Hijirah?
Hijirah: É islâmico.
Jack: O que significa?
Hijirah: A “Hijirah” foi a fuga de Maomé de Meca em 622.
Jack: Fuga?
Hijirah: Os irmãos da penitenciária de Leavenworth me deram esse nome.
Jack: Então você esteve em Leavenworth?
Hijirah: Quatro vezes.
Jack: Como assim?
Hijirah: A hora chegava, e eu partia.
Jack: Você fugia.
Hijirah: Eu prefiro chamar de êxodo de um lugar indesejável.
Jack: Quanto tempo levou pra eles te pegarem?
Hijirah: Aquela vez?
Jack: Houve outras?
Hijirah: É, essa foi a nona.
Jack: A nona?!
Hijirah: Bom, a décima, se contar a prisão do hospital em Ohio, de onde saí andando.
Jack: Você tem andado bastante, Henry.
Hijirah: Hijirah.
Jack: Hijirah. E agora estamos indo pra [prisão de] Glades.
Hijirah: É, parece que sim. Eu devia ter sido levado ontem pela agente penitenciária, mas por algum motivo, ela quis esperar.
Jack: Ela quis, é?
Hijirah: Acho que é mais barato levar dois numa van.
Jack: Pode ser. Ou talvez ela pensou que temos muito que conversar.
Hijirah: É mesmo? Como o quê?
Jack: Não sei. É um longo caminho até a Flórida.

E vemos a cara de Karen, esboçando um sorriso ao mesmo tempo tímido e sacana de quem está escutando a conversa. Continuo semana que vem.