domingo, 15 de setembro de 2013

GUEST POST: AS "CANTADAS" NA RUA E O NEGACIONISMO MACHISTA

Guilherme de Melo Costa é formado em Direito pela UFSC, gay, feminista e eterno “rebelde de todas as causas”, segundo sua definição.

Desde pequeno fui tachado pela sociedade como “defensor das mulheres”. E apesar de até hoje, de alguma forma, continuar me colocando nesta “posição”, sempre questionei PORQUE (ou de que) as mulheres teriam que ser defendidas Talvez tudo tenha começado quando minha mãe escolheu meu nome: GUILHERME, que significa “aquele que protege”. E, conscientemente (ou não), sempre me coloquei nesta posição. Soma-se a isso, ainda, a trajetória de vida que levou à formação da minha (homos)sexualidade e a minha simpatia aos ideais do movimento feminista. 
Em agosto de 2012, li uma reportagem a respeito do documentário “Femme de La Rue”, que levantou a discussão acerca das diversas formas de assédio e de violência sofridas pelas mulheres, diariamente, pelo simples ato de andar na rua em Bruxelas, Bélgica. Alguns meses depois, em decorrência do abalo causado pelo documentário (que apenas tornou público o que já era notório), o tema voltou a ser discutido quando a cidade passou a multar os agressores. 
Na quarta, a colunista Nádia Lapa, da Carta Capital, publicou “Cantada de rua: apenas parem”, baseando-se na pesquisa do Think OlgaCompartilhei a coluna. Tudo ia bem, até que alguém me chamou a atenção pros comentários dxs leitorxs da coluna. Dentre o pequeno grupo de comentários que li (aproximadamente 30), constatei que todas as mulheres concordavam com a coluna: que as abordagens na rua são agressivas, que as agressões são disfarçadas de elogios, que mulheres sentem medo em simples atos da vida cotidiana (que, como eu sempre soube, são assim simples apenas para os homens).
No entanto, a absoluta maioria dos homens comentava discordando do conteúdo da coluna, ou relativizando a agressão retratada nos dados apresentados. Neste meio, a reprodução de todo tipo de estereótipo machista: mulheres bonitas só casam com homens ricos; mulheres lançam falsos sinais para atrair os homens e depois “dão no pé”; mulheres no fundo gostam destes elogios (e, se não gostam, é porque são feias); e tantos outros.
E assim comecei a questionar: por que um tema que parece ser quase unanimidade entre as mulheres, tem tão pouca receptividade entre os homens? Por que homens, inclusive alguns ditos feministas, recusam-se a reconhecer que a abordagem nas ruas é agressiva e intolerável? E, afinal de contas, por que homens se sentem no direito de abordar desconhecidas e lançarem elogios que elas, majoritariamente, consideram desrespeitosos?
Não preciso, aqui, retratar os inúmeros relatos de mulheres que deixam de usar as roupas que gostariam, que deixam de frequentar certos ambientes, que não andam sozinhas, que renegam a própria sexualidade, que são tolhidas nas mais diversas situações da vida cotidiana. Estes fatos são de conhecimento geral, ainda que boa parte dos homens negue conhecê-los.
O que ocorre é que o machismo está enraizado no inconsciente de cada um daqueles que nasce e é criado na sociedade que os reproduz. É certo que a luta contra o machismo –- assim como contra o racismo, a homofobia, e outros –- é uma luta diária, que se trava, em primeiro lugar, através de constante auto-reflexão crítica a respeito das ideias que são exteriorizadas quase automaticamente.
E, ao que parece, ainda que alguns homens estejam começando a perceber como se estabelecem as correlações de dominação nas relações de gênero, há uma relutância gigantesca em subscrever a limitação da libido masculino-machista que leva a atos de violência extrema, como o estupro. 
Maior ainda é a relutância em admitir a necessidade de limitação desta mesma libido quando o assunto não é esta violência extrema, mas o assédio nas ruas.
Explico. Enquanto os movimentos feministas, dentre eles a Marcha das Vadias, tentam mostrar que o que sustenta a cultura do estupro não é o modo como as mulheres se vestem, mas sim as debilidades dos estupradores (que são reflexo da sociedade em que foram criados), parte da sociedade, ainda que conscientemente combata os atos de violência sexual, continua julgando e culpando a mulher quando vítima desta violência.
Perguntas como "o que vc estava vestindo?" apresentam a mesma natureza: questionam porque a mulher rejeita a libido masculino-machista, como se fosse obrigada a aceitá-la; como se, pelo simples fato de sair à rua, estivesse demonstrando interesse em todo e qualquer ato sexual, com todo e qualquer homem, a todo e qualquer momento; como se a demonstração de interesse sexual, em qualquer situação, fosse SEMPRE um lisonjeio.
Ocorre que como nem todas as mulheres têm dimensão da gravidade das correlações que envolvem um ato de violência sexual, muitas subscrevem ou mesmo praticam este tipo de julgamento e condenação da vítima. Em contraposto, como nem todos os homens estão inseridos na lógica destas correlações, alguns se opõem a este tipo de julgamento da vítima.
Da mesma forma ocorre com as “cantadas” de rua. Com os mesmo esteriótipos, grande parte dos homens reluta em reconhecer o simples fato de que as mulheres não estão interessadas em seus galanteios: como se qualquer demonstração de interesse, em qualquer situação, fosse SEMPRE um lisonjeio.
No entanto, como grande parte das mulheres sofre, diariamente, este tipo de agressão mais corriqueira das ruas, a imensa maioria se posiciona, questionando as “cantadas” de rua e condenando estas agressões. Os homens, todavia –- talvez porque boa parte pratica, diariamente, este tipo de agressão –- relutam em vê-las como o que realmente são: agressões.
Para justificar este tipo de negacionismo, surgem todo tipo de argumentos: que as mulheres só querem “bancar as difíceis”, que as mulheres não sabem receber elogios, que as mulheres provocam. Mas, agora, vejo surgir um novo argumento: que os movimentos feministas estão despolitizando as questões de gênero.
Ora, como exigir a politização desta questão? Como exigir propositividade quando se está lutando pelo simples direito de ser, de existir e de agir? Exigir propositividade dxs feministas NESTE PONTO é a mesma coisa que questionar um militante LGBT porque ele não vai lutar por coisas “mais importantes”, como a reforma tributária (acreditem, esta pergunta já me foi feita diversas vezes).
O que aqueles que insistem em defender as “cantadas” de rua precisam entender é que a falta de limites da libido masculino-machista é o principal fato que limita e que quase anula a liberdade de exercício da sexualidade de muitas mulheres.
O que eles precisam entender é que a grande maioria das mulheres vive o medo constante de ser vítima de alguma violência sexual. E que este medo NÃO É um devaneio -– ele é baseado na sociedade em que vivemos, onde mulheres são estupradas a todo momento.
O que eles precisam aprender é a exercer a sua libido sem as pré-concepções da nossa sociedade machista: de forma respeitosa. E, por que não, de forma verdadeiramente lisonjeira e galanteadora?
Por isso, SIM à campanha contra as “cantadas” de rua! Chega de "fiu-fiu"!

25 comentários:

aiaiai disse...

clap, clap, clap. Lindo! Obrigada, sem mais!

Ana Costa disse...

Bom post! Tenho mesmo notado, em todo lado, a unanimidade das mulheres em afirmar que não gostam, não se sentem elogiadas ou valorizadas e alguns (muitos) homens a defender o "direito" de cantar, mexer, etc. No meu caso, nunca gostei mas nunca relacionei isso com qualquer possível ato de violência. A coisa em si é desconfortável, desagradável, é humilhante. Lembro-me, inclusive, a sensação tão boa que era, nos tempos de universidade, poder passar tranquila no meio de um grupo qualquer de rapazes reunidos e ter certeza de que não ia ouvir nenhuma gracinha, nenhum assobio, estivesse eu vestida como fosse, até mesmo em traje de banho, indo para a piscina. Foi uma época rara, onde, ao mesmo tempo, florescia a liberdade sexual feminina, floresciam as discussões feministas, assim como floresciam discussões políticas gerais. Não haviam inventado ainda o "politicamente correto", havia sim, no ambiente universitário, mais discussões, mais reflexões sobre valores, moral, política. Por que os rapazes não mexiam com a gente? Não sei. Talvez estivessem ainda atônitos, sem entender o que estava acontecendo com as mulheres, talvez temessem as reações delas... Talvez respeitassem mais as colegas. Sei que isso não era geral, era uma característica local, pois bastava ir à outra universidade que havia na cidade (um campus da USP) para receber as mesmas gracinhas da rua. Só sei que era muito, muito, mas muito bom mesmo, poder passar à vontade por grupos masculinos, sabendo que nenhum deles se sentiria no direito de invadir meus ouvidos e minha privacidade. Por fim, se os homens não podem deixar de olhar para uma mulher que consideram atraente/bonita, se não podem evitar fantasias sexuais com desconhecidas que simplesmente veem na rua, ótimo, está no direito e na natureza deles. Mas também é um direito meu não querer saber que um completo estranho, que pode, inclusive, não ser atraente para mim, nem fisicamente, admirou ou desejou sexualmente meu corpo. Poupem-nos de conhecer esse fato. É só isso.

Alice disse...

Mais pura verdade. Até mesmo um "linda" dito assim, sem a menor razão lógica ofende. Não é só ouvir gostosa que incomoda, incomoda ouvir qualquer coisa.

Li esse post aqui http://olixarcsociety.wordpress.com/2013/09/15/feminismo-e-coisa-de-esquerda/

e achei bacana. Divido

Anônimo disse...

Gostei. Mas que tal inaugurar um dia de temas leves e aleatórios por semana? Tipo filmes ou chocolates? Bjs

Patty Kirsche disse...

Fico muito feliz com essa discussão agora. Essa é uma questão que me incomoda desde os 10 anos, e quase nunca recebi um acolhimento ao falar sobre isso. Minhas terapeutas sempre trataram do assunto como se fosse besteira, dizendo que "brasileiro gosta de dar opinião" e coisas assim. Felizmente eu consegui não perder meus valores apesar de tanta pressão contrária.

Eu acho que nós não podemos nos calar e deixar pra lá. O Shopping Center Norte (São Paulo) costumava ter funcionários nas cancelas dos estacionamentos, que eram responsáveis por entregar e receber o cartão de controle. Houve um período em que TODAS as vezes que eu entrava ou saía do shopping, os funcionários inclinavam os olhos na direção de minhas pernas dentro de meu carro ao entregar ou receber o cartão. Um dia eu fiquei de saco cheio e mandei uma mensagem para o SAC do shopping. Recebi um telefonema muito educado de uma funcionária pedindo os horários e as cancelas, dizendo que os funcionários seriam reorientados.

Eu conto essa história pra levantar a questão do quanto a dominação de gênero sobre gênero está acima da dominação econômica. Esses funcionários do estacionamento sabiam que eu era cliente do shopping. Mas havia uma fantasia tão forte de que eu existia para o entretenimento e julgamento deles, que eles esquadrinhavam meu corpo na minha cara sem nenhuma preocupação com o emprego deles. Tudo isso pelo mero fato de eu ser uma mulher de saia. Mas essa história deve final feliz. Um deles, o mais desagradável, foi até demitido. Por isso eu insisto que nós façamos queixas. Porque se os caras não se tocam que devem respeitar a gente porque somos seres humanos, eles podem pelo menos fazer isso para não perder o emprego. Já é um começo.

Anônimo disse...

Se uma imensa maioria de mulheres diz que cantada na rua é desagradável (pra não dizer constrangedora ou ameaçadora) por que os homens simplesmente não acreditam? As nossas opiniões são assim tão insignificantes? Depois ainda perguntam por que precisa de feminismo!

Anônimo disse...

Gente, vocês vão me desculpar, mas a maneira como estamos pensando sobre o nosso feminismo poderia ser mais crítica em relação a nós mesmos. Coisas como "desde pequeno", "desde o nome", "desde sempre", dão uma ideia de um tipo de sentimento aristocrático e distintivo, que mereceria mais cuidado de nossa parte.

Wellington Fernando disse...

O estranho é que enquanto quase 100% das mulheres detesta assédio nas ruas, quase 100% dos homens não consegue entender o porquê dessa repulsa feminina ao assédio. Pensei sobre o assunto e acho que descobri a resposta. Creio eu (posso estar enganado) que isso ocorra pelo fato da Ética da Reciprocidade não funcionar neste caso. A Ética da Reciprocidade, ou Regra de Ouro, é aquela do "não faça com os outros o que você não quer que seja feito com você" e é feita instintivamente pela maioria das pessoas. Quando um homem se coloca no lugar da mulher neste caso, ele se vê como homem - e não como mulher. Os homens não consideram, por exemplo, a cultura do estupro, o contexto social de repressão às mulheres e nem entendem que vivemos numa sociedade ainda fortemente machista. Fora que muitos homens acham que pelo fato das mulheres gostarem de homens (a maioria ser hétero), elas têm de aturar e gostar das grosserias pelo fato delas virem do 'sexo que as atrai'. O quadrinho do post passado ilustra bem quando o homem diz para a mulher que "ganharia o dia se recebesse uma cantada" (link do quadrinho em português aqui). Pois bem, sem existir este contexto na Ética da Reciprocidade, a empatia não funciona e os homens continuam achando que o assédio é um mero "elogio", mas não é. Se esse gesto causa sofrimento para as mulheres, deve parar imediatamente! Nem é preciso empatia, basta ter respeito, pois o que é bom para mim nem sempre é bom para os outros.
Portanto, eu não vejo escolha neste caso a não ser radicalizar e propor multa e prisão para quem desrespeitar uma mulher nas ruas. Todos têm o direito de andar com a roupa que quiser e ir para onde quiser sem medo e sem constrangimento. Eu acho que o assunto precisa ser mais debatido e levado à grande mídia para que possa atingir o maior número de pessoas possível.

Com relação aos homossexuais que cantam pessoas do mesmo sexo (como comentei no post anterior), acho que a regra é a mesma. Todo mundo tem que se respeitar independente de orientação sexual. O que precisa ter fim é a homofobia e o machismo.

E meus parabéns a todas as mulheres (e homens) que resolveram protestar contra esses absurdos, pois é preciso coragem para dizer NÃO àquilo que todos insistem em dizer que é "normal".

Mariane disse...

http://globotv.globo.com/globonews/globonews-em-pauta/v/pesquisa-revela-que-mulheres-no-brasil-repudiam-assedio-na-rua/2823696/

Vale a pena assistir até o final para perceber como até em criaturas consideradas cultas o machismo está presente. Gostei do comentário da jornalista, ao final.

Anônimo disse...

Além da clara falta de empatia está bem claro pra mim que pra esses caras a opinião das mulheres é irrelevante.
E considero que homem que pensa assim em relação a cantadas pensa em relação a qualquer coisa. E homens que não aceita não de mulher.

Homem que distorce o que vc diz ("elas dizem que não gostam mas gostam sim!"), é o mesmo que vai forçar sexo, ou seja estuprar, se a mulher falar que não quer ("ela disse que não queria mas queria sim!). Essa relação está bem clara pra mim, pena que poucas mulheres enxerguem isso.

Adorei este trecho, me fez pensar.
"O que aqueles que insistem em defender as “cantadas” de rua precisam entender é que a falta de limites da libido masculino-machista é o principal fato que limita e que quase anula a liberdade de exercício da sexualidade de muitas mulheres."

Sonado Alaikor disse...

Por falta de tempo ao longo da semana não fiz comentários sobre o assunto para alem do twitter.
Fiquei feliz em ter lido este post, mesmo agora, as beiras de ir para a cama para mais uma semana de trabalho.

Tenho a impressão de que muitos de nós homens apenas não tem conversado com suas parceiras (avá que nem um namoro a sério em seus 20 anos meu jovem?) ou não tem as levado a sério, porque conversando com elas fica evidente isso. 10 min de proza e você descobre um mundo de medos que fogem de sua realidade como homem e outros 10 min pensando a sério no porque disso fica evidente que cantadas intimidam.

Me deixa pasmo ver tantos homens não compreenderem isso. Talvez seja eu em minha crena utópica esperando que as pessoas sejam mais ou pura inocência, mas achava seriamente que ao haverem dados sobre o tema muitos de nós, homens héteros cis iriamos nos lembrar o que nossas parceiras, casinhos, amigas, mães, irmãs e afins já nos disseram sobre o assunto. Devo dizer que esta semana tem sido bem decepcionante neste ponto. Quase me deixei levar pelo pensamento fatalista de um amigo alegando que "dou importância ao gado ruminante" mas sei que mesmo decepcionado preciso acreditar que as pessoas ainda vão por a mão na consciência, ter um pouco de empatia e ver o problema de forma séria.

Valéria Fernandes disse...

Deixei e seguir uma famosa jornalista de esquerda no Twitter, que já havia escrito um texto diferenciando (*como se fosse possível*) os machões (*tipo de homem ideal*) dos machistas, porque ela estava fazendo discurso dizendo que as feministas - todas e ela se excluía do grupo - queriam acabar com as saudáveis relações entre homens d mulheres, que não somos nórdicos e frios. mais de 8 mil mulheres respondendo uma pesquisa e ela desprezando os resultados... Enfim, é péssimo quando mulheres que tem voz na mídia e redes sociais pensem assim.

Anônimo disse...

Acho que a grande questão é: Se ofende, envergonha, mostra desrespeito, PQ FUNCIONA?
Conheço muitos caras que já "pegaram"/"cataram" muitas mulheres com essas cantadas. Com elogios, uma piadinha.
É claro, é óbvio e cristalino que NINGUÉM vai gostar de um comentário do tipo: "Eita, que essa eu lambia toda"! ou "Assim vc mata o papai, mainha!"
Mas um elogio, uma paquera, com respeito, com carinho.
É patente que a mulher (não importando a roupa que ela saia) não está a disposição da libido masculina. Mas vai que cola. Vai que ela dá mole. Vai que ela está afim.
É claro que o peão deve saber o limite dessa abordagem, ter "se mancol" e não passar a ser inconveniente.

E outra, me digam uma coisa meninas, uma moça (hipotética) saí de casa parecendo uma princesa, LINDA, perfumada, TODA GATA!
Nós homens devemos simplesmente ignorar? Mesmo? Até um olhar é proibido? Um elogio é proibido?

Paula disse...

ao anonimo das 8:00

a resposta eh facil: se a mocoila em questao fosse sua namorada, irma, mae ou filha... vc gostaria que falassem assim com elas?

vc tem que ajir como vc gostaria que os caras ajissem com a sua filha!

tentar puxar uma conversa com intencoes claras eh uma coisa, chamar de princesa simplesmente por chamar eh ameacador.

uma olhadinha discreta nao mata ninguem, mas tb nao precisa despir a guria com os olhos, ne?

Daniel disse...

Concordo com tudo que o texto falou. Cantadas de baixo nível são rematadamente idiotas, deveriam ser banidas para o reino das ideias estúpidas. Quando era solteiro, costumava simplesmente puxar um papo. Quando dava certo, ótimo. Quando a menina não gostava eu desistia no ato, simples assim. Difícil entender porque esse exercício básico de educação e cortesia é tão difícil para tantos homens.

Só que tem uma coisa: no meio de todo esse debate surgiu a questão dos caras que agarram as mulheres na balada, puxam os cabelos, etc. Algo que é muito mais violento e ofensivo do que uma cantada tosca (por favor, as mulheres me corrijam se estiver errado).

Pois bem: nos tempos em que frequentava baladas percebi que esses sujeitos raramente terminam a noite sozinhos. Ou seja "a abordagem-troglodita" funcionava muito bem.

Essa experiência me faz questionar muito esse dado de que "a unanimidade das mulheres detesta cantadas". Pelo menos nas baladas um bom número gosta, não sei se são maioria mas são o suficiente para que os beócios de sempre considerem essa abordagem eficaz quando se trata de arrumar companhia.

Triste isso. Valores antigos e consagrados como educação, cortesia e elegância ao que parece andam desprezados. Por homens e mulheres.



Gabriela Barbosa disse...

Não tem nada mais desagradável do que ficar ouvindo: "Gostosa!", "Te chupava toda!" e afins o tempo todo nas ruas do Rio! Desde bem nova,ouço essas cantadas,pois peguei corpo cedo (com 11 anos,eu era bem alta e já tinha peito). Às vezes,deixo de usar certos tipos de roupas porque fico me sentindo um pedaço de carne no açougue,com tantos homens me olhando como se quisesse,literalmente,me comer! É horrível!

Rê_Ayla disse...

Dizer “a linha que separa assédio de paquera é tênue” é uma excelente desculpa para quem quer continuar exercendo seu direito de assediar, né?

Sabe o que acho? Os homens sabem SIM a diferença entre um assédio e uma paquera – mas acham mais fácil dizer que não e continuar assediando.

Texto sobre isso: http://dozeeum.blogspot.com.br/2013/09/proibir-cantadas.html

Anônimo disse...

Desculpe a pergunta, mas tenho curiosidade em saber:

Como vai convencer esses homens a não mais praticar essa violência se eles são obrigados pelo sistema patriarcal a provar o tempo todo que é um macho viril?

Ana Lídia de Andrade disse...

Muito bom o texto. Os homens sabem que esse tipo de comportamento é abusivo, tanto que a maioria consegue controlar "seus impulsos sexuais incontroláveis" quando a mulher está acompanhada de outros homens.Se eles se calam quando a mulher está acompanhada de outro homem é porque também consideram esses "elogios" uma falta de respeito, mas consideram apenas a figura masculina como realmente respeitável, já que esquecem o desrespeito quando a mulher está sozinha ou com outras mulheres. O fato de negarem que isso seja ofensivo, mesmo com as reclamações das mulheres, já demonstra que a opinião da mulher não conta nada pra eles.

Ana Lídia de Andrade disse...

O Daniel comentou sobre o comportamento de alguns homens e algumas mulheres na balada. Então, eu já vi algumas mulheres serem receptivas a esse tipo de comportamento. Na minha opinião, algumas mulheres (porque 100% não existe) acreditam que o homem está se comportando dessa maneira porque ela é irresistível,porque ela é especial etc, outras acabam aceitando porque acham que homem é assim mesmo, que isso faz parte da masculinidade...
Essas mulheres não percebem que o cara que age assim, age assim com todas. Elas ainda não perceberam que ele não está louco de desejo por ela, ele apenas não está acostumado a respeitar mulheres.Essas mulheres depois ficam frustradas, porque muitas vezes veem o interesse do cara desaparecer na manhã seguinte.Essas mulheres são as mesmas que ficam por aí dizendo que "homem não presta" , "homem é tudo igual" etc.
Eu acho que tudo isso tem a ver com a educação machista que a gente recebe, muitas mulheres supervalorizam o desejo masculino e competem entre si, mostrando para outras mulheres "o quanto ela é desejada" na balada, por exemplo.Dessa forma, elas acabam escolhendo parceiros babacas (que são esses caras mais espalhafatosos e desrespeitosos que puxam cabelo, braço ...). Elas (pasmem!) se sentem valorizadas perante outras mulheres! Sei lá, é isso que eu percebi observando algumas amigas minhas.Acredito que com a maturidade e depois de um pouco de conscientização isso muda.
Eu não sou baladeira,já não gosto desse tipo de ambiente justamente por causa desse tipo de comportamento.É muito chato sair e ter de andar se defendendo, não poder dançar em paz, ter de aguentar homem bêbado tentando te abraçar, tentando te beijar o tempo todo...o pior é que muitos reagem mal quando rejeitados.Acredito que apesar de muitas mulheres acabarem a noite com caras babacas e mal educados, a maioria prefere uma abordagem respeitosa (pelo menos uns 95%).

Anônimo disse...

Um rapaz falou que se o cara fosse bonito,nós mulheres aceitaríamos a ''cantada''. O que vocês acham disso?

Anônimo disse...

Sou homem e heterossexual, mas sempre me senti incomodado com as "cantadas" e "abordagens" que via outros homens (inclusive amigos meus) fazendo às mulheres. Sempre achei algo terrivelmente inconveniente e desrespeitoso. Sem querer "ser mais realista que o rei", e depois de muito observar essas situações lamentáveis se repetindo, hoje sou a favor de algumas soluções "radicais" para essa conduta deplorável de muitos homens: estabelecimento de multas pesadas e, a depender da gravidade, prisão para o "engraçadinho"; separação de vagões masculinos e femininos em trens e metrôs, bem como criação de alas ou setores exclusivos para mulheres nos bares. É lógico que, ao lado de medidas repressivas, devemos discutir exaustivamente essa temática na mídia e nas escolas, numa tentativa de mudar, mesmo que a duras penas, a mentalidade prevalecente hoje em nossa sociedade sobre esse tema.

Anônimo disse...

Também sou homem e concordo com o comentário anterior. Deveríamos ter uma legislação mais dura contra esse tipo de situação. Sou a favor de, além da separação dos vagões nos trens e metrôs, a criação de entradas e setores exclusivamente femininos em bares, boates, shows, cinemas, blocos carnavalescos, estádios de futebol, etc. Para famílias, poder-se-ia pensar em setores mistos, porém, nos demais espaços públicos (estatais e não-estatais) penso que deveríamos adotar o sistema de setores e entradas diferenciados para mulheres e homens.

Anônimo disse...

De nada adianta termos uma legislação severa se ela não for aplicada na prática. Concordo com todas as medidas sugeridas acima, mas, infelizmente, no nosso país, existem leis "que pegam" e leis "que não pegam". Só a partir do momento em que as pessoas virem os "engraçadinhos", os "cantadores", os "galanteadores de rua" pegarem prisão pesada, mofarem anos na cadeia, é que a sociedade passará a dar credibilidade e a respeitar essas medidas severas, bem como os possíveis "engraçadinhos", "cantadores", "assediadores", seja lá que nome queiramos dar a eles, serão dissuadidos de de realizar suas investidas. E tenho dito.

Paulo César

Anônimo disse...

Ambientes, setores, lugares separados sim, mas com leis que FUNCIONEM, sem direito a pagamento de fianças, prisões temporárias e toda uma gama de brechas que a nossa frouxa legislação permite a esses sujeitos. Os caras precisam ter certeza que vão passar longos anos na cadeia se violarem o espaço do outro.

A minha vida profissional me permitiu conhecer vários lugares fora do nosso país e pude perceber que, nos poucos onde existem lugares reservados para as mulheres, os caras passam a "quilômetros" de distância, pois sabem as consequências de violar a lei. Na verdade, pude perceber que a prática já havia se incorporado ao "modus vivendi" das pessoas e penso que deveríamos aplicar essa experiência aqui em nosso país.

Thiago S.