quarta-feira, 29 de novembro de 2006

CRÍTICA: SERPENTES A BORDO / Serviço de bordo completo

Por que Hollywood insiste em fazer filmes trash? Eles não sabem que trash são baratinhos? Um dos motivos que “Serpentes a Bordo” não funciona é que não é suficientemente trash. Qualquer um dos vídeos no YouTube sobre o filme dá de dez em “SAB”. Meu preferido é um chamado “Como Hollywood Trabalha”, que mostra um agente tendo uma idéia brilhante. Ele relê “O Diário de Anne Frank” e acha que dá um “Lista de Schindler encontra O Quarto do Pânico”. Mas a parte dela presa num porão é meio lenta, então pode ser num avião. E como nazistas não são vilões populares hoje em dia, que tal substituí-los por cobras? Ah, e ao invés de uma menina judia amedrontada, por que não um negão valentão? Voilá: “Serpentes a Bordo”.

Não vou resumir a história porque tudo que você precisa saber tá no título. A premissa é ridícula—se bem que mais inverossímil ainda seria “Tiranossauros Rex no Avião”—porque cobras são bichos rasteiros, e aviões são bichos voadores, e os dois geralmente não se cruzam. Mas quem fez esse troço deve ter pensando: “Que medo de avião, que nada! Isso é tão démodé... Vamos potencializar esse medo. O que a gente pode pôr lá nas alturas? Morcegos vampiros? Gente que se intoxica com a comida de bordo e vira zumbi devorador de carne humana? Ah, já sei: cobras de todos os tipos!”. Qualquer coisa num lugar fechado de onde não se pode escapar é horrível. Não acredita? Pense nas ameaças de um Karaoquê a Bordo. Pessoalmente, acho que eu teria mais medo de “Baratas Voadoras a Bordo”. Talvez cobras não me apavorem tanto porque, sendo uma pessoa estritamente urbana, posso contar nos dedos da mão quantas vi na vida, tirando as do Butantã. Se bem que eu nunca peguei o vôo de Honolulu pra Los Angeles...

“SAB” seria melhor se fosse mais irresponsável, menos nojentinho, e não tentasse ser terror. Nos créditos iniciais até pensei que isso pudesse acontecer, porque eles colocam a palavra “Serpentes” no título, dão uma pausinha, e só então põem “a bordo”, criando ironia. Mas, quando aparecem as cobras, e de um jeito super fálico, é de lascar. Uma pica o pênis de um cara que fala com seu bráulio. Acho que suas últimas palavras, antes de “Argh! Larga já isso, sua vadia!”, são: “Como é que vai, bonitão?”. Outra dá o bote no seio de uma loira (aliás, alguém me explique como dá pra transar em banheiro de avião. Mal cabe uma pessoa lá, quanto mais duas e mais uma cobra gigante). Mas a pior sobra pra quem? Ué, pra mulher gorda, claro, vítima preferencial de plantão. Pra gorda não basta um réptil peçonhento subir por entre suas pernas—ela tem que gostar! Sério, se você acha que eu tô invocando, pense só: a gorda não tem uma só fala. Ela entra muda e morre calada. Até um bebê de colo tem mais diálogos que ela, ele fala “Dá dá”. Mas quando surgem bebês e crianças eu bocejo, porque sei que, se tem alguém que não vai morrer naquele avião, são as inocentes criaturinhas de Deus (o cachorrinho corre perigo porque todo mundo odeia Chihuahuas mesmo). O contraste é óbvio: é só a gorda aparecer pra gente prever que seu fim será breve e terrível. Bom, pra falar a verdade, a gente também não imagina um destino próspero pra loira siliconada. Ainda por cima ela gosta de sexo, e sexo sempre acaba em pena de morte na moral torpe de filmes de terror.

Mas nem é pra ficar com pena da gorda. Coitado é o Samuel L. Jackson! Às vezes ele até parece estar se divertindo, como quando olha pro piloto ressuscitado caindo pelas tabelas e lhe pede, rápido, pra acionar o piloto automático. Ou no discurso dele de “Chega de cobras!”, visivelmente exagerado pra ser o mais trash possível. Mas boa parte do tempo ele deve estar pensando em como quase abocanhou o Oscar de coadjuvante por “Pulp Fiction” e onde a carreira dele foi parar. Até que um personagem diz pra ele: “Eu não queria estar no seu lugar!”. Daria pro cinema armar um coro de “Nós também não, Sam!”.

De repente ocorre uma confusão e surge uma anaconda, dessas maiores que o avião. E eu pensei, será que o avião já caiu, quero dizer, pousou? Essas anacondas não me botam medo porque elas comem um inglês, um inglês e uma azeitona no máximo, como aperitivo, e depois têm que fazer a digestão durante dias. E ninguém come agentes do FBI, que são os maiorais. Todos competentes e dedicadíssimos ao seu trabalho. E os homens negros também têm poder, mas só os homens. Mulher negra não entra no filme.

Minha fala favorita é “snakes on crack” (“cobras doidonas”), que, imagino, deve ter sido a segunda opção de título. Gosto também da pergunta típica de filmes-catástrofe. Você sabe, aquela em que uma aeromoça aparece e interroga os passageiros: “Alguém aí sabe pilotar um avião?” E adoro quando o piloto principal se mete em algum lugar esdrúxulo e morre, e o segundo piloto grita “Já vou!”. Pô, não daria pra um dos dois se preservar um pouquinho mais, pelo bem de todos no avião, incluindo as najas e cascáveis? E aí no final um cientista pergunta prum garoto se a cobra que ele viu era a mesma de Indiana Jones. Ahn, nessa hora o guri devia ter falado “Até parece que eu já ouvi falar de filme de 25 anos atrás, seu cientista on crack!”. Mas como “SAB” não é trash, ele faz que sim com a cabeça, o mentiroso.

Um comentário:

Liana disse...

"Uma pica o pênis de um cara que fala com seu bráulio." haushauh rolei de rir aqui, tive que parar e reler a frase duas vezes.

Não posso nem dizer que o meu tempo foi jogado fora porque ri muito vendo o filme. Se bem que já nem lembro direito de tão marcante que foi.

Baratas voadoras me provocariam pânico.

"Ela entra muda e morre calada." Essa vai para o rol das minhas preferidas e sei que ainda a usarei contra alguém. rsrs