domingo, 30 de novembro de 2003

LIBBY NÃO EXISTE

Fora a Pauline Kael, minha crítica favorita tem nome e sobrenome: Libby Gelman-Waxner. Desde 87 ela assina uma coluna absolutamente hilária na "Premiere", que é, lógico, o único bom motivo para se ler a revista americana. Só tem um problema: ela não existe. Parece que é o pseudônimo de Paul Rudnick, roteirista de "Será que ele é?". Bom, isso nunca me incomodou. Passei anos desconfiando que a Libby não poderia ser uma pessoa real, e ainda assim saboreando cada uma de suas palavras. Ela é minha inspiração. Ela entende que, numa época em que os filmes se tornaram superficiais, não tem sentido analisá-los como se fossem obras de arte. A maior parte dos críticos, por não ter mais o que analisar, contentou-se em resumir histórias. E dá-lhe texto sisudo e sem um pingo de criatividade dissecando, sei lá, a carreira do Eddie Murphy. Pra Libby, qualquer coisa com ar condicionado já é uma obra-prima.

E o que faz a Libby tão especial? Acima de tudo, o senso de humor e a recusa em se levar a sério. Ao contrário dos outros críticos, ela não tenta impressionar seus leitores com um conhecimento ilimitado sobre cinema. Ela sabe que é fútil, egocêntrica, maldosa – e irresistível. E ela tampouco incorre em outro defeito dos resenhistas, que é subestimar a inteligência alheia e explicar tintim por tintim. Ou o leitor entende as referências e o típico humor gay/judaico de Libby, ou dança. É por isso que ela tem tantos admiradores quanto detratores. Pelo menos uma vez por ano, ela reserva uma coluna pra comentar as cartas que recebe. Diz que fica comovida que tantos leitores se dêem ao trabalho de lhe mandar uma mensagem no meio de suas sessões de eletrochoque. Um leitor escreve que seu cachorrinho estava engasgado, mas ele lhe mostrou um artigo da Libby e o cão vomitou na hora. O comentário da Libby: "e eu não recebo nem um obrigado por salvar uma vida?". Uma moça chamada Jennifer a manda ler intelectuais franceses, "Cahiers du Cinéma", para aprender a criticar. Libby responde: "E tudo isso vindo de uma Jennifer". Claro que também jorram mensagens apaixonadas e prêmios.


Nos artigos, Libby quase sempre fala do marido, um ortodontista de meia-idade, e de seus filhos. Em várias ocasiões, ela pede pra sua mãe redigir a coluna, ou sua psiquiatra, ou sua melhor amiga... Por exemplo, para falar de como o cinema trata as mães, a mãe de Libby pretende escrever um livro com o título "Hollywood, Vá já para o seu quarto!". Vejamos o que Libby tem a dizer sobre alguns assuntos. Desculpe a tradução meio capenga, que é minha.


Sobre Michelle Pfeiffer: Meu marido me disse que, se ele tivesse que escolher entre eu e a Michelle, ele me daria um divórcio generoso e me deixaria ficar com o apartamento.


Sobre cinema: Cinema é sobre o quanto Dennis Quaid e Daniel Day-Lewis me desejam intimamente, mas como sou casada, eles só podem expressar seu tesão tirando a roupa nas telas e rezando para que, em algum lugar, eu esteja vendo.


Sobre Daniel Day-Lewis: Daniel é como o Laurence Olivier com genitais.


Sobre Sharon Stone: Em "Invasão de Privacidade", Sharon não quer ir à academia porque ficaria envergonhada com todos aqueles espelhos; isso vem de uma mulher que já teve câmeras nos lugares em que a maior parte de nós mal teve maridos.


Sobre Jim Belushi: Minha filha me pediu pra explicar a carreira do Jim Belushi. Falei que Jim tinha um irmão muito famoso chamado John que morreu e que o governo paga as empresas que fazem filmes pra contratar o Jim, como uma espécie de memorial.

Sobre fortuna: Noto que, depois que um diretor ganha seus primeiros 50 milhões de dólares, ele geralmente faz um filme sobre como é difícil ser uma alma sensível.


Sobre Elisabeth Shue em “Despedida em Las Vegas”: Elisabeth é muito talentosa, mas ela é a imagem que meu marido faz de uma prostituta, ou seja, uma loira maravilhosa que te ouve atentamente, te traz lanchinhos, te idolatra, te beija na testa e te põe pra dormir.


Sobre "Pescador de Ilusões": "Pescador de Ilusões" é para o público que achou "Campo dos Sonhos" sarcástico demais. No filme, Jeff Brigdes e Robin Wiliams tiram toda a roupa à meia-noite no Central Park, deitam-se no chão e olham as estrelas. O filme faz disso um ato de liberação mágica, mas os atores ficam se contorcendo para evitar nudez frontal, o que tira um pouco da magia. (...) Queria que passassem uma lei federal com estatutos sobre o que o Robin Williams deveria ser proibido de fazer na tela: 1) sorrir enquanto chora; 2) Abraçar um outro homem, que fingirá estar envergonhado; 3) tirar suas roupas como ato de liberdade.


Ainda sobre o pobre Robin Williams: Robin está ficando tão carinhoso que logo os únicos papéis disponíveis pra ele serão de Papai Noel ou Coelhinho da Páscoa.


Sobre sexo selvagem nos filmes: Se um carinha quisesse fazer sexo selvagem comigo, eu lhe diria a mesma coisa que digo a minha filha de sete anos quando ela insiste em ganhar um brinquedo ultramoderno: querida, se você ainda quiser isso daqui a um ano, aí veremos.


Sobre filmes de época: Já notou como Inglaterra e Estados Unidos são bons em coisas diferentes? Por exemplo, os ingleses são bons em fazer filmes de época densos e inteligentes, e os americanos são bons em boicotar esses filmes.


Sobre Lassie: O roteirista deve escrever como se todos os astros fossem a Lassie. Lassie não podia falar, atuar, ou agir de qualquer forma humana – ela é o modelo para os maiores astros de hoje. Imagina se ela tivesse chegado pro seu agente e falado, Ó, no meu próximo filme, quero fazer um réptil.


Sobre o merchandising abusivo da FedEx em "Náufrago": Esse tipo de posicionamento de produto é irritante. Fiquei imaginando o que aconteceria se o Tom Hanks trabalhasse pra O.B.


Ainda sobre "Náufrago": O filme nunca mostra o que o Tom Hanks faz relativo a sexo na ilha, e fiquei esperando que ele começasse a encarar aquela bola de vôlei de modo estranho e talvez lhe pagasse uma bebida.


Sobre "Babe, O Porquinho Atrapalhado": Depois de um tempo de “Babe”, senti como se uma nuvem de fofura radioativa houvesse coberto a Terra.


Sobre "Formiguinhaz": "Formiguinhaz" é como "O Triunfo da Vontade" passado no esgoto. ["O Triunfo da Vontade", para quem não sabe, é tido como propaganda nazista].


Sobre reviravoltas no roteiro: Adoro histórias com reviravoltas, tal qual "Édipo Rei", onde o herói acaba descobrindo que matou seu pai e casou-se com a mãe – ouvi dizer que a Disney está preparando uma refilmagem em forma de musical que se chamará "Ooops!".


Sobre "Proposta Indecente": Woody Harrelson dá uma palestra mostrando que até um tijolo pode aspirar ser mais que um tijolo – o que, imagino, explica o que Woody está fazendo como astro de um filme. (...) Demi Moore volta de manhã, após dormir com o Robert Redford por um milhão, e você espera o Woody gritar Yupi! A gente tá rica!, e a Demi perguntar, a gente?!


Sobre filmes populares: "Ghost" e "Uma Linda Mulher" representam típicas fantasias femininas – uma hora ou outra, toda mulher sonha em ser uma prostituta casada com um milionário, ou ser uma mulher cujo marido morreu.


Bem, agora que meus leitores conhecem um pouquinho da Libby, tomara que me entendam melhor. A diferença entre eu e ela, fora o talento, é que eu sou de carne e osso (muito mais carne do que osso, e tenho dúvidas se ainda tenho osso, mas...).

EU FUI AO FESTIVAL. E VOCÊ?

O 2o Catarina Festival de Documentário, que aconteceu entre 13 e 18 de agosto, foi maravilhoso. Tudo bem, esta é a opinião de alguém que foi convidada pra participar de dois júris (foi a glória!), então é claro que é subjetiva. Como, aliás, toda opinião. Mas se você perdeu o festival, você não sabe o que perdeu. Foram vários dias de intensa exibição de curtas brasileiros em Balneário Camboriú. A escola foi ao cinema, visando a formação do público que a gente tanto precisa; houve debates, homenagens, entrevistas, balcões de negócios – um evento de grande porte mesmo, super bem organizado pela Araucária Produções. E tudo praticamente de graça pro espectador. Digo “praticamente” porque todo dia, às 21 horas, havia uma mostra oficial que passava todos aqueles filmes de dar água na boca que o circuitão de SC insiste em não passar. Teve “Edifício Master”, “Ônibus 174”, “Uma Onda no Ar”, “Durval Discos”, “Desmundo” e “Cidade de Deus”. O preço da entrada? Três reais, e a renda ia pra projetos sociais.

Infelizmente, não deu pra ficar lá a semana inteira, e só pude ver um décimo do que o Festival oferecia. Vou falar do que vi, deste décimo. Mil perdões por não tratar da mostra de vídeos, mas não tive tempo de vê-los. Então, a mostra dos filmes documentários: foram doze curtas, e eu só não gostei de dois. Os outros realmente eram de ótima qualidade. O que eu mais gostei foi “Rua da Escadinha 162”, de Márcio Câmara, do Ceará. É sobre um colecionador de discos que discorre sobre tudo e contra todos – sobra pro Cinema Novo, MPB, museus, críticos... Por exemplo, uma das dezenas de provocações que ele faz é dizer que a classe média sempre foi preconceituosa (isso a gente já sabia, né?) e que, na década de 30, ela chamava o povo de Zé Povinho. Hoje ela usa o famoso “povão” pra designar a plebe ignara. A gente pode não concordar com o colecionador, mas ele não deixa de ser um personagem fascinante. Cinematograficamente falando, lógico, o filme não apresenta inovações, e por isso só levou o prêmio de melhor som. Tudo que o cineasta precisou fazer foi encontrar uma figura incrível e ligar a câmera. Mas, pensando bem, quantas figuras incríveis você conhece?

Os filmes que conquistaram o júri foram dois: “À Margem da Imagem” e “Visionários”. O primeiro, de Evaldo Mocarzel, de SP, levou melhor filme, roteiro e montagem, e é quase um metadocumentário sobre pessoas que vivem na rua e que são filmadas e fotografadas constantemente, a maior parte das vezes sem sua permissão. A cena em que esses moradores se olham no espelho, através da lente da câmera, é comovente. Sabe olhar-se no espelho, essa coisa que você e eu fazemos várias vezes ao dia sem reparar? Pra quem não tem casa isso é uma raridade. Este documentário também foi o vencedor do prêmio do público. O segundo filme, que recebeu o prêmio da crítica e também melhor direção e fotografia por parte do júri, é “Visionários”, de Fernando Severo, do Paraná, e mostra santuários construídos por dois sujeitos, já falecidos, para se protegerem do apocalipse. Um deles montou estátuas que, pra mim, lembram os Guerreiros de Xi’an. Tá tudo lá, no norte do PR, sendo destruído pelo tempo e pelo homem, só pra variar.

Outro documentário muito legal, que a gente não premiou por pouco, foi “Vaidade”, de Fabiano Maciel, RJ. Este exibe a venda de produtos da Avon no meio do garimpo paraense, e como isso interfere na auto-estima do pessoal. Uma das entrevistadas faz coro à maioria das menininhas dos shoppings: ela diz que preferiria estar morta a ser feia e passar desapercebida. Outro documentário, pra qual o júri deu um prêmio especial, foi “O Chiclete e a Rosa”, de Dácia Ibiapina, do DF, sobre crianças em Brasília vendendo doces e flores à noite. É um olhar bem otimista e, por isso, original.

E agora pausa pra pergunta crucial: como fazer com que esses belos filmes cheguem até você? Esse foi um dos temas do Encontro dos Críticos, que contou com vários jornalistas importantes de SP e RJ, euzinha aqui, e a contribuição valiosíssima de produtores e diretores. O debate começou morno, já que o público preferiu curtir o sol da manhã de domingo a prestigiar o bate-papo, mas acabou com uma platéia de umas 25 pessoas interessadas e interessantes. Foi muito, muito bom. Voltando à pergunta crucial: não seria lindo se os nossos cinemas, aqueles que não cumprem de jeito nenhum a exigência de passar 28 longas brasileiros por ano (e, quando finalmente se dão ao luxo de exibir um filme nacional, ele fica em cartaz uma semana, caso de “O Homem que Copiava” em Joinville), adquirissem esses e outros curtas e os exibissem antes das explosões e os rachas hollywoodianos da sessão principal? Melhor que isso, só se o circuitão se mexesse agora e tomasse essa atitude antes que alguma legislação o obrigue. E as TVs pagas e abertas, por que não passam os nossos filmes? Ué, elas não são concessões públicas que, além de entreter, deveriam promover a integração nacional e, paradoxalmente, o regionalismo?

Uma das observações mais pertinentes foi feita pela Cloris Ferreira, diretora geral do Festival. Ela quis saber onde estava o público. Mesmo com ampla cobertura da mídia, principalmente deste caderno aqui, o espectador não compareceu como deveria. De fato, onde estavam os universitários? Sabe, o pessoal que estuda jornalismo e cinema? Quando os filmes que eles fizerem forem exibidos em festivais (a Univali tem graduação em cinema, e agora a UFSC também), aposto como eles vão querer que alguém assista. Acho que já passou da hora do público pensar que filme brasileiro é sinônimo de pornochanchada e de miséria, ou que documentário é chato. Quem pensa assim provavelmente não vê um filme nacional faz tempo. Chega de preconceitos. Espero que ano que vem aconteça outro Festival, e que você, que deu o azar de faltar neste, possa ir. Insista, Cloris!

CLÁSSICOS: BLADE RUNNER / Vinte anos do futurista noir

Tal qual o Tarantino, meu primeiro emprego foi numa locadora de vídeo. Naquela época (1986), o mercado de vídeo estava engatinhando, e quase todo o acervo era pirata. Pois bem, adivinhe qual era o filme mais requisitado e comentado pela minha seleta clientela? Era "Blade Runner, O Caçador de Andróides". Quatro anos depois do seu lançamento, ele já havia se transformado em grande cult. A gente podia ficar aqui falando horas sobre como mudou o gosto do público consumidor (temo em pensar qual o blockbuster mais popular nas locadoras de hoje), mas não, vamos nos concentrar em "Blade Runner", que agora está completando duas décadas de vida.

Por incrível que pareça, "BR" foi mal recebido por vários críticos americanos, e ainda hoje há quem torça o nariz pra ele. Aqui no Brasil, é difícil encontrar quem não o considere uma obra-prima. Pra mim, não dá pra fazer uma lista dos melhores filmes de ficção científica sem incluir "BR". Claro que podemos discutir se este clássico recente é ficção mesmo ou se chega mais perto das histórias de detetive da década de 40. Digamos que seja um futurista noir, como nunca se fez outro.

A trama se passa numa Los Angeles chuvosa, feia, poluída, sem o menor resquício de natureza, num futuro não tão distante: 2019. Daqui a quantos anos mesmo? Nesses tempos, teremos carros voadores e colônias terrestres em outros planetas. Construiremos andróides pra trabalhar nas colônias feito escravos, e nossa vasta tecnologia criará diversos tipos de replicantes. Mas daremos uma efêmera existência de quatro anos a esses andróides e embutiremos neles falsas memórias de uma infância que nunca tiveram. Tudo isso pra impedir que comecem a fazer aquelas perguntinhas básicas: de onde vim? Para onde vou? Por quanto tempo? Qual minha finalidade nesse mundo? Alguns andróides se rebelam e voltam pra Terra. Querem conhecer seu criador e ter a resposta pra essas questões. Cabe a um ex-policial desiludido, interpretado pelo Harrison Ford, localizar e eliminar esses replicantes implicantes.


O filme é baseado num livro do Philip K. Dick, "Do Androids Dream of Electric Sheep?", algo como "Andróides Sonham com Carneirinhos Elétricos?". O romance mostra uma civilização desoladora, em que só milionários terão animais de verdade, tão raros que são caríssimos. O resto da população terá de se contentar com bichos sintéticos. Na mesma linha pessimista, vem também de Dick a fonte pros ótimos "Minority Report – A Nova Lei" e "O Vingador do Futuro". O homem tá com tudo. Pena que tenha morrido poucos meses antes do lançamento de "BR" e não pôde usufruir da sua fama cada vez mais crescente. Não me lembro se nos livros dele transparece essa fixação por olhos que existe nos filmes. É impressionante como tem olho focalizado em "BR". Tem olho congelado, olho de coruja, olho que salta das órbitas...

Quando o diretor Ridley Scott (que vinha de "Alien") acabou de montar "BR", o estúdio não gostou. Então os senhores de terno forçaram o Harrison Ford a gravar uma narração e mudaram o final – a derradeira seqüência vem de sobras de "O Iluminado" e, de fato, não tem nada a ver com o clima. Ridley lançou sua versão do diretor em 93 e ela é bem legal, cheia de nuances (talvez o detetive seja um andróide também), mas espero não ser linchada ao afirmar que prefiro o filme de 82. Pessoalmente, adoro a narração do Ford. Ela é tão displicente, tão abertamente descontente, que dá um ar ainda mais vagabundo a "BR", jogando-o definitivamente no noir. E o personagem do Ford é tudo menos heróico. Apanha de todos, é meio covarde, só funciona empunhando uma arma, e está constantemente assustado. Ou seja, é mais humano que os super-heróis a que estamos acostumados. Ford está perfeito. Ele era meu velho conhecido: eu já havia me apaixonado por ele em "Caçadores da Arca Perdida". Mas conhecer o holandês Rutger Hauer (o líder dos andróides) abalou meu coração fiel. Só eles já são dois motivos mais que filosóficos pra ver ou rever o bárbaro "BR".

CLÁSSICOS: OS PÁSSAROS / 40 anos de asas ameaçadoras

Os Pássaros”, meu Hitchcock preferido, está completando quarenta anos de idade. Todo mundo tem, ou deveria ter, um filme entre os mais de cinqüenta que ele dirigiu de que gosta mais. Pra alguns é “Psicose”, pra outros é “Um Corpo que Cai”, ou “Janela Indiscreta”, ou “Intriga Internacional”. São tantas obras-primas que é difícil colocar uma só no pedestal. Pois, pra mim, este lugar está reservado para “Os Pássaros”. Não sei dizer objetivamente o porquê. Posso talvez medir pelo quociente de cenas clássicas. Por exemplo, recentemente revi “O Homem que Sabia Demais” e constatei que o quociente de cenas que se tornaram clássicas é zero. Por coincidência, este é um dos Hitchcocks mais fraquinhos. Agora, pense nos piu-pius. Lembrou dos corvos se acumulando no playground? Os passarinhos invadindo a casa pela lareira? O ataque ao posto de gasolina? Nossa heroína enclausurada numa cabine telefônica? São tantas emoções...
Este terror de 1963 jamais seria feito hoje. Por vários motivos: a primeira agressão dos pássaros (de um só, pra ser mais exata) só acontece bem depois do início. A segunda agressão, então, leva mais um tempão. Imagina, o público atual não tem paciência pra esperar que o suspense se amontoe. Sem falar que os vilões alados hostilizam criancinhas (pecado!). E cadê a explicação bem mastigadinha dizendo por que os pássaros atacam? Ué, e que pouca-vergonha é essa de não ter fim?! E, ousadia das ousadias: onde já se viu um filme de horror sem música?! Então, se mudassem tudo e adaptassem “Os Pássaros” pros dias de hoje, a gente veria o Schwarzza empunhando uma bandeira americana numa mão e uma metralhadora na outra. Penas voando pelos ares. O mundo salvo. Trilha sonora de redenção. Mas, por favor, cuidado com a picaretagem. Se você for à locadora, o atendente pode te perguntar se você quer “Os Pássaros” 1 ou 2. De fato, há uma seqüência tenebrosa de 94 feita pra TV. Ignore-a. E não acredite se o atendente jurar que ambas foram dirigidas pelo Hitchcock, já que o velhinho morreu em 1980. Só se for psicografada.

“Os Pássaros” se baseia num conto de Daphne du Maurier que também é instigante, embora não tenha nada a ver com o filme. O conto é mais rural; o herói é um fazendeiro. Fora isso, Daphne inventa que a fúria alada está acontecendo no resto do planeta, e arrisca um palpite: as marés altas mexem com os bicudos. Pro protagonista da história, segurança e conforto são representados por xícaras na cozinha. É muito legal o que Hitch faz com essas xícaras no filme (elas aparecem completamente bicadas). O diretor, que sempre contribuía nos roteiros, apesar de nunca assiná-los, não dava a mínima pra fidelidade à fonte. Ele lia o livro ou o conto uma vez e nunca mais. Mas digamos que o cerne do conto – o pavor pelo que está bem próximo da gente – encontra-se no filme. Afinal, fazer com que dinossauros soem assustadores parece fácil. Eles são grandões. Baratas são asquerosas, tubarões têm mandíbulas. Agora, como temer inocentes pardais e outras cabecinhas de minhoca?Não sei se o filme assusta os adolescentes de hoje, mais acostumados a uma violência de videogame. Acho que eles se preocupam demais com o realismo dos efeitos especiais. A galera vê “Os Pássaros” e pensa: “Eca! Que mal-feito! Isso não é real!”. Dããã, é óbvio que não é real. Passarinhos não agridem humanos. Desculpe revelar um incrível segredo, mas nada no cinema é real. Como diz o menininho em “Matrix”, não há colher, lembra? E tampouco há porta. Entre a tonelada de material interessante presente no documentário do DVD, a mais-mais é a que mostra que, bem no fim de “Os Pássaros”, quando Rod Taylor abre a porta, com ele e a Jessica Tandy (a velhinha de “Conduzindo Miss Daisy”) segurando uma sangrenta Tippi Hedren (mãe da Melanie Griffith), não há porta. O Rod faz um gesto com a mão como se abrisse uma porta, e a porta simplesmente inexiste. É impossível notar. Sabe como todo mundo que vê “Cães de Aluguel” acha que o bandido realmente corta a orelha do policial? É a ilusão do cinema.

Pra mim, a prova definitiva de que “Os Pássaros” funciona é que quem vê o filme não consegue nunca mais encarar nossos amigos de asas do mesmo jeito. Assim como a gente lembra do tubarão antes de nadar no mar ou de “Psicose” antes de tomar uma ducha, “Os Pássaros” entrou no nosso inconsciente coletivo – há quarenta anos. E foi bom, não foi?
Veja também: O Cineasta que Sabia Demais, sobre o centenário de nascimento de Hitchcock, e a homenagem da Vanity Fair ao diretor.

É HOJE!

É hoje o Oscar, e a única vantagem da Guerra no Iraque é que a cerimônia será mais curta. Já é alguma coisa. Vamos ver se eles cumprem a promessa de dar todos os tapinhas nas costas em duas horas. O Oscar, como se sabe, é uma festa de auto-congratulação. É o jeito de Hollywood olhar pro seu próprio umbigo e dizer: cinemão, você está indo bem, hein?

Dos cinco indicados a melhor filme, o melhor, melhor mesmo, na minha modesta opinião, é “O Pianista”. Mas vai ganhar “Chicago”, que tem mais a cara da indústria. Com o favoritismo do musical, Rob Marshall, o diretor, começa a ameaçar Scorcese, que concorre por “Gangues de Nova York”. Scorcese pode levar a estatueta não porque “Gangues” seja um filmaço (não é), mas simplesmente porque ele é um dos Cineastas Importantes, com letras maiúsculas, que nunca ganhou. Polanski também não, mas até parece que a Academia vai premiar um cara proibido de entrar nos EUA. Se a vida fosse justa, Almodóvar receberia o troféu pelo deslumbrante “Fale com Ela”, faria um mini-discurso contra a guerra e teria o som do microfone cortado. Seria o momento polêmico da noite. Como ele tem chances na categoria de roteiro original, vamos torcer pra que nosso espanhol preferido tenha coragem.

Pra ator, o favoritismo do Jack Nicholson vem crescendo a cada dia. Contra ele, só o fato que parece que foi ontem que ele ganhou por “Melhor é Impossível”. Mas foi em 97. Se não for ele o vencedor, será o Daniel Day-Lewis, a principal razão de se ver “Gangues”. Adrien Brody está perfeito em “O Pianista”, mas o narigudo não tem cacife pra concorrer com quatro pesos pesados.

Já pra atriz, não vai ter pra ninguém. Desta vez a Nicole Kidman enfeita seu banheiro com uma estatueta. Julianne Moore é sempre muito elogiada e um dia a hora dela chega. Ela tem chances pra atriz coadjuvante, se bem que não se fala em outra coisa além da Catherine Zeta-Jones. Sabe quando você sente o clima de favoritismo no dia da entrega? Não dá pra explicar, não é algo tangível. Acho que a Academia está babando pra prestigiar uma beldade tipo Catherine.

De resto, minha previsão é que “Chicago” receberá mais de cinco Oscars, “As Horas” ficará com três ou quatro, “Gangues” com uns dois, “Senhor dos Anéis” idem, mas só em categorias menos relevantes, e “O Pianista”, coitado, sairá com as mãos abanando. Tomara que eu esteja errada, pois seria mais uma daquelas injustiças. Mas, numa época em que um país forte invade um fraquinho sem o aval de ninguém, falar de injustiça é piada.