Eu, Axé me beijando, e Camila
Anteontem publiquei um direito de resposta aqui no blog. Por orientação das minhas advogadas, não escrevi nada no post, nem aceitei comentários (que foram bem pouquinhos; parece que ninguém ligou muito, o que eu acho compreensível, em tempos de eleições).
Como sempre mantenho a transparência com vocês, gostaria de explicar. Falei pouco sobre isso no Twitter, e nada aqui no blog.
Dia 26 de setembro, ou seja, na penúltima quarta, tive que ir para Cuiabá para uma audiência de conciliação. Ano passado, um mascu abriu uma ação contra mim porque, num post de maio de 2017, eu comemorei o fechamento (por pouco tempo) de um chan de ódio que pertencia a Marcelo, que foi preso um ano depois (e continua preso, já com quatro habeas corpus negados, aleluia). No post, eu disse que gostaria que toda a quadrilha fosse presa, e incluí o primeiro nome -- não o nome completo, não fotos, não links -- de alguns que eu achava que fossem integrantes. O sujeito em questão achou que eu ter publicado seu primeiro nome e apelido lhe causou danos, e pediu 20 mil reais de indenização no Juizado Especial.
Este mesmo mascu havia publicado um post sobre mim dois anos antes, em maio de 2015. No seu blog ele me chamou de retardada mental, m*rda, feia pra c*ralho, gorda fedida, corna, ser repugnante. Atribuiu a mim a autoria de uma frase que eu nunca proferi ("todo homem é um estuprador em potencial") e disse que eu implorava que algum estuprador me "comesse".
Foi a primeira vez que eu soube da existência do rapaz. Como eu soube daquele post? Ele me mandou o link.
Esse post não só continha meu nome completo, como uma foto minha, usada sem autorização. Depois disso ele fez vários outros posts e vídeos com meu nome e fotos, me xingando de vaca, vagabunda escrota, gorda escrota, escória etc. Num dos vídeos, de novembro de 2015, ele me desafiava a ir a Cuiabá dar uma palestra: “Não iria fazer nada contra você, não iria te bater, não iria te matar, só iria rir da sua cara, e olhar bem nos seus olhos para ver se você teria coragem para me chamar do que me chama na internet, de mascu. (…) Vamos se encontrar. Vamos ver se você é macho. Eu sou homem, pra falar tudo que eu falo de você na internet, mas tenho certeza que você é uma covardona de merda”.
Além disso, ele fez montagens com fotos minhas (numa delas, na pior das injúrias, ele me colocou como eleitora de Bolsonaro), deixou vários comentários aqui no blog me xingando, e, só em 2015, me mandou doze emails me xingando.
Eu fiz um boletim de ocorrência contra ele em outubro de 2015 e, um pouco mais tarde, seguindo a sugestão de uma delegada, redigi uma queixa-crime, me baseando na ação de uma deputada estadual contra ele. Mas não cheguei a apresentar a queixa-crime. Em novembro de 2016, consultei o advogado da deputada que o processou (ela ganhou a ação; ele foi condenado a pagar-lhe R$ 35 mil) para ver se valia a pena eu também processá-lo. Decidi que não porque vi que a deputada nunca iria ver a cor do dinheiro, já que mascus não costumam ter nada no nome deles.
Mas então, voltando ao final de setembro de 2018. Minha formidável advogada me avisou na quinta à noite (20/9) que eu teria que estar presente em Cuiabá para a audiência no dia 26/9, e que teria que encontrar um advogado para me acompanhar. Fiquei preocupada naquela noite e recebi carinho do maridão.
Eu, chateada, pra ele: Eu sei que se vc pudesse vc me daria seu fígado.
Ele: Hmmm....
Eu: Ou alguma coisa que vc tenha dois.
Ele: Meu braço?
Eu: Alguma coisa interna. Seu pulmão, ou seu neurônio.
Ele: Pra que você quer três?
Mas sério, e aí? Não só eu não conhecia advogadx em Cuiabá, como eu não conhecia uma só alma em todo o Mato Grosso. Foi aí que escrevi um post pedindo a ajuda de vocês. Foi a melhor coisa que fiz.
Recebi muito apoio, principalmente financeiro. Agradeço de coração a Damares, Virginia, Bruno, Sergio, Rodrigo, Antonio, Carlos, Emerson, Marcia, Fernando, Luciana, Rosane, Ana, Diego, Livia, Regina, Rosana, Flavio, Sandro, Juçara, Hugo, Claudio, Luiz, Humberto, José, Fernanda, Joana, Paulo, Tatiane, Alan, Juliana, Sandra, Nelson, Elis, Iuri, Martha, Nicholas, Edson, Romildo, Carina, Rosane, Ieda, Alessandra, Cassia, Rogerio, Flavia, Bernardo, Alex, Emile, Neide, e outras pessoas cujo nome nem aparece. Graças a vocês, não gastei nada do meu bolso tendo que me deslocar até lá.
Além disso, uma professora aposentada da UFMT se ofereceu para me hospedar em sua casa e me passou o contato de uma defensora pública. Falei com ela e agora tenho um importante contato feminista pra vida (já estamos planejando atividades em conjunto). E duas advogadas de Cuiabá, pessoas incríveis, se ofereceram para me representar. Pro-bono (infelizmente, não posso dizer o nome delas porque mascus já atacaram e ameaçaram advogados meus, e principalmente advogadas -- misóginos têm mais disposição para atacar mulheres).
Na manhã do dia 26 desembarquei em Cuiabá, e a maravilhosa Camila foi me buscar no aeroporto. Fiquei na casa dela preparando aulas. O marido dela, uma simpatia também, me levou para almoçar. No meio do almoço, um homem de cabelo grisalho, bonitão, vem até a minha mesa, e se declara meu fã. De madrugada, no aeroporto de Fortaleza, uma mulher me pegou pelo braço e me apresentou ao seu parceiro como "esta é a Lola, uma guerreira". Primeira vez que fui reconhecida duas vezes no mesmo dia. E em dois Estados diferentes!
O marido da Camila é policial e, por causa das ameaças que eu havia recebido referentes a minha ida à Cuiabá, pediu que, se eu visse qualquer coisa suspeita, era para que eu ligasse pro celular dele imediatamente, que ele iria até lá. Fiquei comovida com tanta atenção.
À tarde, a advogada veio me buscar e fomos até o local da audiência. Já tínhamos combinado que, como era conciliação, a gente se ofereceria para remover o nome do cara (lembrando: só o primeiro nome e apelido apareciam) do meu post. A gente tinha certeza que ele não iria aceitar, porque os outros dois mascus que me processaram só queriam incomodar (tanto que abandonaram os processos sem uma única audiência). Mas a gente também tinha decidido que, se ele não aceitasse, iríamos transferir o processo pro fórum comum e então eu poderia processá-lo.
A gente estava bem segura que ele não tinha muita chance de ganhar o processo, pois o juiz havia negado uma liminar para me forçar a tirar o post do ar. Sinal de que o juiz não pensou que aquilo que eu havia publicado era tão ofensivo.
Tivemos de esperar um tempo, porque havia outras audiências. Não vou dizer que foi minha primeira audiência porque, 25 anos atrás, eu acionei uma ex-inquilina no Juizado Especial em Joinville. Eu havia comprado a casa e deixei que a moça (que eu não conhecia) continuasse morando lá por 3 meses, sem pagar aluguel, até que eu me mudasse. Aí, quando chego lá, à noite, vejo que ela havia levado todas as lâmpadas. Pouco depois, vi que ela não pagava as contas de luz e água da casa há 3 meses. Descobri porque cortaram a energia da minha casa. Achei aquilo uma sacanagem tão grande da parte dela que abri a ação. Na conciliação, ela se comprometeu a pagar o que devia.
Portanto, esta de setembro foi a segunda audiência de conciliação da minha vida. É bem chato ter que ficar frente a frente com um cara que te xingou tantas vezes, mas, sinceramente, deu pena. Esses mascus realmente levam uma vida miserável. Ele não olhou pra mim uma vez sequer. Olhava pro chão.
Basicamente, quem fala nessas audiências são os advogados. A escrivã (moderadora?) perguntou se havia alguma tentativa de conciliação. Minha advogada ofereceu tirar o nome dele do post. O advogado dele perguntou se havia mais alguma coisa. Minha advogada respondeu que eu publicaria um direito de resposta, desde que não tivesse ofensas. O cliente e seu advogado aceitaram.
Demorou mais porque a moderadora tem que redigir um auto pra todos assinarmos. Eu estava brava, mas calma (sou uma pessoa calma). Meu sangue só subiu um pouco quando o advogado dele pediu que a moderadora incluísse nos autos o meu email (já que o mascu mandaria o email do direito de resposta pra mim). Eu disse que ele sabia muito bem qual era meu email, já que ele já havia me enviado vários emails com ofensas. E que, aliás, eu gostaria muito nunca mais receber qualquer email dele. Ele se comprometeu a não mandar mais nada, balbuciou que este seria o último.
Eu acho que eu comecei a falar mais alguma coisa, mas naquele momento minha querida advogada apertou o meu joelho, e eu entendi que era melhor ficar quieta.
E foi isso. Não teve aperto de mão nem nada. Com o direito de resposta publicado, extingue-se o processo. Ele ganha o direito de resposta, e mais nada. Sua "honra" é "restabelecida".
Melhor assim. Se não houvesse conciliação, o processo poderia se arrastar por bastante tempo, eu provavelmente teria que voltar à Cuiabá (gostei muito da cidade, mas a passagem não é barata, e além do mais, eu trabalho), e haveria o risco (pequeno) de eu ter que pagar alguma indenização se pegasse algum juiz machistão.
Agora espero que esse mascu me esqueça, re-avalie sua vida, e deixe de ser um mascu (que é diminutivo de masculinista, o que ele certamente é, ou era, pois se relaciona com mascus, usa o vocabulário deles -- ele se auto-intitulava "uma voz viril nesse mundo vaginante" --, e costuma xingar mulheres -- outro dia ele chamou mulheres que participaram do #EleNao de "cadelinhas do PT"; a Manu parece ser seu alvo-preferencial no momento). Afinal, ser mascu não traz felicidade ou sucesso a ninguém. Se alguma vez vocês virem um mascu de perto, saberão do que estou falando.
Pra mim não foi tão ruim. Lembram do que eu falei de não conhecer ninguém no Mato Grosso? Agora conheço várias pessoas fantásticas. Fiz novas amizades. Estabeleci novos contatos feministas que já compartilhei com outras advogadas feministas de todo o país. Conheci uma cidade nova, um Estado que não conhecia.
Outro dia eu disse pro maridão, falando de todos os contatos importantes e do apoio gigantesco que recebi de tanta gente neste caso: "Sabe como é, se a vida te der limões, faça uma..." O maridão interrompeu: "Não chega perto dos meus limões!" (ele adora limonada sem açúcar ou adoçante e entrou em pânico desde que viu o limão por 8 reais o quilo num supermercado).


















































