sexta-feira, 5 de outubro de 2018

FAÇA UMA LIMONADA

 Eu, Axé me beijando, e Camila

Anteontem publiquei um direito de resposta aqui no blog. Por orientação das minhas advogadas, não escrevi nada no post, nem aceitei comentários (que foram bem pouquinhos; parece que ninguém ligou muito, o que eu acho compreensível, em tempos de eleições).
Como sempre mantenho a transparência com vocês, gostaria de explicar. Falei pouco sobre isso no Twitter, e nada aqui no blog.
Dia 26 de setembro, ou seja, na penúltima quarta, tive que ir para Cuiabá para uma audiência de conciliação. Ano passado, um mascu abriu uma ação contra mim porque, num post de maio de 2017, eu comemorei o fechamento (por pouco tempo) de um chan de ódio que pertencia a Marcelo, que foi preso um ano depois (e continua preso, já com quatro habeas corpus negados, aleluia). No post, eu disse que gostaria que toda a quadrilha fosse presa, e incluí o primeiro nome -- não o nome completo, não fotos, não links -- de alguns que eu achava que fossem integrantes. O sujeito em questão achou que eu ter publicado seu primeiro nome e apelido lhe causou danos, e pediu 20 mil reais de indenização no Juizado Especial.
Este mesmo mascu havia publicado um post sobre mim dois anos antes, em maio de 2015. No seu blog ele me chamou de retardada mental, m*rda, feia pra c*ralho, gorda fedida, corna, ser repugnante. Atribuiu a mim a autoria de uma frase que eu nunca proferi ("todo homem é um estuprador em potencial") e disse que eu implorava que algum estuprador me "comesse".
Foi a primeira vez que eu soube da existência do rapaz. Como eu soube daquele post? Ele me mandou o link.
Esse post não só continha meu nome completo, como uma foto minha, usada sem autorização. Depois disso ele fez vários outros posts e vídeos com meu nome e fotos, me xingando de vaca, vagabunda escrota, gorda escrota, escória etc. Num dos vídeos, de novembro de 2015, ele me desafiava a ir a Cuiabá dar uma palestra: “Não iria fazer nada contra você, não iria te bater, não iria te matar, só iria rir da sua cara, e olhar bem nos seus olhos para ver se você teria coragem para me chamar do que me chama na internet, de mascu. (…) Vamos se encontrar. Vamos ver se você é macho. Eu sou homem, pra falar tudo que eu falo de você na internet, mas tenho certeza que você é uma covardona de merda”.
Além disso, ele fez montagens com fotos minhas (numa delas, na pior das injúrias, ele me colocou como eleitora de Bolsonaro), deixou vários comentários aqui no blog me xingando, e, só em 2015, me mandou doze emails me xingando.
Eu fiz um boletim de ocorrência contra ele em outubro de 2015 e, um pouco mais tarde, seguindo a sugestão de uma delegada, redigi uma queixa-crime, me baseando na ação de uma deputada estadual contra ele. Mas não cheguei a apresentar a queixa-crime. Em novembro de 2016, consultei o advogado da deputada que o processou (ela ganhou a ação; ele foi condenado a pagar-lhe R$ 35 mil) para ver se valia a pena eu também processá-lo. Decidi que não porque vi que a deputada nunca iria ver a cor do dinheiro, já que mascus não costumam ter nada no nome deles. 
Mas então, voltando ao final de setembro de 2018. Minha formidável advogada me avisou na quinta à noite (20/9) que eu teria que estar presente em Cuiabá para a audiência no dia 26/9, e que teria que encontrar um advogado para me acompanhar. Fiquei preocupada naquela noite e recebi carinho do maridão.
Eu, chateada, pra ele: Eu sei que se vc pudesse vc me daria seu fígado.
Ele: Hmmm....
Eu: Ou alguma coisa que vc tenha dois.
Ele: Meu braço?
Eu: Alguma coisa interna. Seu pulmão, ou seu neurônio.
Ele: Pra que você quer três?
Mas sério, e aí? Não só eu não conhecia advogadx em Cuiabá, como eu não conhecia uma só alma em todo o Mato Grosso. Foi aí que escrevi um post pedindo a ajuda de vocês. Foi a melhor coisa que fiz.
Recebi muito apoio, principalmente financeiro. Agradeço de coração a Damares, Virginia, Bruno, Sergio, Rodrigo, Antonio, Carlos, Emerson, Marcia, Fernando, Luciana, Rosane, Ana, Diego, Livia, Regina, Rosana, Flavio, Sandro, Juçara, Hugo, Claudio, Luiz, Humberto, José, Fernanda, Joana, Paulo, Tatiane, Alan, Juliana, Sandra, Nelson, Elis, Iuri, Martha, Nicholas, Edson, Romildo, Carina, Rosane, Ieda, Alessandra, Cassia, Rogerio, Flavia, Bernardo, Alex, Emile, Neide, e outras pessoas cujo nome nem aparece. Graças a vocês, não gastei nada do meu bolso tendo que me deslocar até lá.
Além disso, uma professora aposentada da UFMT se ofereceu para me hospedar em sua casa e me passou o contato de uma defensora pública. Falei com ela e agora tenho um importante contato feminista pra vida (já estamos planejando atividades em conjunto). E duas advogadas de Cuiabá, pessoas incríveis, se ofereceram para me representar. Pro-bono (infelizmente, não posso dizer o nome delas porque mascus já atacaram e ameaçaram advogados meus, e principalmente advogadas -- misóginos têm mais disposição para atacar mulheres). 
Na manhã do dia 26 desembarquei em Cuiabá, e a maravilhosa Camila foi me buscar no aeroporto. Fiquei na casa dela preparando aulas. O marido dela, uma simpatia também, me levou para almoçar. No meio do almoço, um homem de cabelo grisalho, bonitão, vem até a minha mesa, e se declara meu fã. De madrugada, no aeroporto de Fortaleza, uma mulher me pegou pelo braço e me apresentou ao seu parceiro como "esta é a Lola, uma guerreira". Primeira vez que fui reconhecida duas vezes no mesmo dia. E em dois Estados diferentes!
O marido da Camila é policial e, por causa das ameaças que eu havia recebido referentes a minha ida à Cuiabá, pediu que, se eu visse qualquer coisa suspeita, era para que eu ligasse pro celular dele imediatamente, que ele iria até lá. Fiquei comovida com tanta atenção.
À tarde, a advogada veio me buscar e fomos até o local da audiência. Já tínhamos combinado que, como era conciliação, a gente se ofereceria para remover o nome do cara (lembrando: só o primeiro nome e apelido apareciam) do meu post. A gente tinha certeza que ele não iria aceitar, porque os outros dois mascus que me processaram só queriam incomodar (tanto que abandonaram os processos sem uma única audiência). Mas a gente também tinha decidido que, se ele não aceitasse, iríamos transferir o processo pro fórum comum e então eu poderia processá-lo. 
A gente estava bem segura que ele não tinha muita chance de ganhar o processo, pois o juiz havia negado uma liminar para me forçar a tirar o post do ar. Sinal de que o juiz não pensou que aquilo que eu havia publicado era tão ofensivo. 
Tivemos de esperar um tempo, porque havia outras audiências. Não vou dizer que foi minha primeira audiência porque, 25 anos atrás, eu acionei uma ex-inquilina no Juizado Especial em Joinville. Eu havia comprado a casa e deixei que a moça (que eu não conhecia) continuasse morando lá por 3 meses, sem pagar aluguel, até que eu me mudasse. Aí, quando chego lá, à noite, vejo que ela havia levado todas as lâmpadas. Pouco depois, vi que ela não pagava as contas de luz e água da casa há 3 meses. Descobri porque cortaram a energia da minha casa. Achei aquilo uma sacanagem tão grande da parte dela que abri a ação. Na conciliação, ela se comprometeu a pagar o que devia.
Portanto, esta de setembro foi a segunda audiência de conciliação da minha vida. É bem chato ter que ficar frente a frente com um cara que te xingou tantas vezes, mas, sinceramente, deu pena. Esses mascus realmente levam uma vida miserável. Ele não olhou pra mim uma vez sequer. Olhava pro chão.
Basicamente, quem fala nessas audiências são os advogados. A escrivã (moderadora?) perguntou se havia alguma tentativa de conciliação. Minha advogada ofereceu tirar o nome dele do post. O advogado dele perguntou se havia mais alguma coisa. Minha advogada respondeu que eu publicaria um direito de resposta, desde que não tivesse ofensas. O cliente e seu advogado aceitaram.
Demorou mais porque a moderadora tem que redigir um auto pra todos assinarmos. Eu estava brava, mas calma (sou uma pessoa calma). Meu sangue só subiu um pouco quando o advogado dele pediu que a moderadora incluísse nos autos o meu email (já que o mascu mandaria o email do direito de resposta pra mim). Eu disse que ele sabia muito bem qual era meu email, já que ele já havia me enviado vários emails com ofensas. E que, aliás, eu gostaria muito nunca mais receber qualquer email dele. Ele se comprometeu a não mandar mais nada, balbuciou que este seria o último. 
Eu acho que eu comecei a falar mais alguma coisa, mas naquele momento minha querida advogada apertou o meu joelho, e eu entendi que era melhor ficar quieta. 
E foi isso. Não teve aperto de mão nem nada. Com o direito de resposta publicado, extingue-se o processo. Ele ganha o direito de resposta, e mais nada. Sua "honra" é "restabelecida". 
Melhor assim. Se não houvesse conciliação, o processo poderia se arrastar por bastante tempo, eu provavelmente teria que voltar à Cuiabá (gostei muito da cidade, mas a passagem não é barata, e além do mais, eu trabalho), e haveria o risco (pequeno) de eu ter que pagar alguma indenização se pegasse algum juiz machistão.
Agora espero que esse mascu me esqueça, re-avalie sua vida, e deixe de ser um mascu (que é diminutivo de masculinista, o que ele certamente é, ou era, pois se relaciona com mascus, usa o vocabulário deles -- ele se auto-intitulava "uma voz viril nesse mundo vaginante" --, e costuma xingar mulheres -- outro dia ele chamou mulheres que participaram do #EleNao de "cadelinhas do PT"; a Manu parece ser seu alvo-preferencial no momento). Afinal, ser mascu não traz felicidade ou sucesso a ninguém. Se alguma vez vocês virem um mascu de perto, saberão do que estou falando.
Pra mim não foi tão ruim. Lembram do que eu falei de não conhecer ninguém no Mato Grosso? Agora conheço várias pessoas fantásticas. Fiz novas amizades. Estabeleci novos contatos feministas que já compartilhei com outras advogadas feministas de todo o país. Conheci uma cidade nova, um Estado que não conhecia. 
Outro dia eu disse pro maridão, falando de todos os contatos importantes e do apoio gigantesco que recebi de tanta gente neste caso: "Sabe como é, se a vida te der limões, faça uma..." O maridão interrompeu: "Não chega perto dos meus limões!" (ele adora limonada sem açúcar ou adoçante e entrou em pânico desde que viu o limão por 8 reais o quilo num supermercado). 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

NÃO ACREDITE EM FAKE NEWS

Gente querida, eu falo sobre o direito de resposta de ontem amanhã. Agora não posso, estou viajando. 
Publico hoje o lindo texto da Annia Zzachi sobre o método preferencial de um certo candidato fascista: fake news.

Eu queria conversar sobre Fake News. Ou, no bom e velho português: boato, mentira, notícia falsa. 
Se tem uma coisa que todos já percebemos, é o amplo uso da mentira, principalmente pela direita, para difamar, caluniar, desviar a atenção e enganar na cara dura seus eleitores e as pessoas mais desavisadas. Vamos ser realistas, por favor. A tia da copa, o João da quitanda, o José do Uber [eu acrescentaria: a Lolinha da faculdade] não possuem conhecimento e tempo para realizar uma checagem, por mais que façamos propagandas simples e diretas. E mesmo que saibam, a maioria não se dá ao trabalho, porque a mentira que recebemos usualmente confirma pré-conceitos e discursos dos quais já concordamos. 
Ninguém está isento de cair em uma arapuca. Eu já caí, todos já caímos. Claro que existe a diferença entre uma fake news por afã de compartilhar algo logo, mas que estava equivocado (e que vem com retratação) e a fake news proposital, feita pra difamar e enganar.
Mas... por quê? Por que lançar mão de algo tão baixo, desonesto, mau-caráter?
Isso é uma técnica chamada firehosing of falsehood. "Fire hose" significa "mangueira de incêndio". A mangueira de incêndio é bem resistente e capaz de levar um volume grande de água, sob alta pressão e velocidade. A analogia é que a "água" seria a informação. Falsehood é mentira. Ou seja, você "leva mentiras em grande quantidade e com muita pressão para o público". O objetivo não é convencer ninguém que o que você diz é verdade, mas de questionar o conceito de "verdade". É uma técnica autoritária, suja e bem elaborada, com passos simples:
1 - A mentira é espalhafatosa e exagerada, em larga escala
2 - É transmitida de modo rápido, contínuo e repetitivo
3 - Não tem qualquer compromisso com a verdade material e objetiva
4 - Não tem qualquer compromisso em ser consistente. 
Quando o MBL, a família Bolsonaro, Putin, Trump, Le Pen, os pastores da bancada da bíblia, dizem uma mentira absurdamente descarada, não é porque são burros. Longe disso. Já repararam que eles fazem isso com uma frequência assustadora? E depois negam descaradamente que mentiram, mesmo com vídeo gravado da mentira? Eles sabem muito bem que estão mentindo. Eles nunca se retratam, nem se importam em serem desmentidos. O estrago já está feito. Usam intimidação, ataques em massa, bullying e humilhação se for necessário para calar as pessoas que os contradizem e expõem sua técnica. Lançam mão de seus minions, bots e o que for para que as mentiras e intimidações venham com tanta frequência, e com uma intensidade tão grande, que é impossível ignorar. 
Quando "todo mundo mente", "tudo é fake news", a realidade passa a ser aquilo que você pessoalmente acredita, e é esse o objetivo, tornar a realidade uma mera "opinião", um "ponto de vista" que você escolhe o seu e pronto. Já repararam quantos dizem coisas absurdamente preconceituosas e depois se justificam "ah, mas é minha opinião"? É por causa dessa realidade desconstruída. É um modo de dizer: "a realidade é o que EU digo que é, independente de ser verdade ou não". 
Não tem coisa mais humilhante que ter que provar que você está dizendo a verdade mesmo que ela seja óbvia. Isso é uma forma de obrigar as pessoas a gastarem energia e tempo para provarem que aquilo é mentira, ao invés de usarem esse tempo para conversar sobre outras ideias, até que você fique cansado demais e desista. O mesmo acontece em nível individual, quando falamos em "gaslighting": fazer com que a vítima duvide da própria realidade nada mais é que adquirir o poder de controlá-la aos seus caprichos. É por isso que agências de checagem não são eficientes contra firehosing, porque checar os fatos não é o ponto da questão. Fact checking (checagem de fatos) depende de um acordo comunitário sobre confiança e realidade, e esse acordo é defenestrado pelo firehosing de fake news. Isso significa poder, Lola, significa controle. Eles não estão preocupados em serem desmascarados porque a disputa não é pela verdade em si, é por QUEM domina a narrativa. 
Eu vou parafrasear Hitler aqui (sim, Hitler. Alguém melhor do que ele sobre chantagem, mentira e coerção?):
"Na Grande Mentira sempre reside uma certa aparência de credibilidade, porque as massas são sempre mais facilmente corrompidas pela sua natureza emocional do que conscientemente ou voluntariamente; por isso que em suas mentes simplórias eles são mais propensos a caírem na Grande Mentira do que em pequenas mentiras, uma vez que eles mesmos contam pequenas mentiras sobre trivialidades, mas se envergonhariam de armar uma farsa em grande escala. Nunca, em suas cabeças, fabricariam mentiras colossais, e eles não acreditariam que outros teriam a imprudência de distorcer a verdade de forma tão infame."
O que podemos fazer contra firehosing de Fake News, fascismo e toda essa propagação proposital de medo e instabilidade?
- Primeiramente, não devemos nos dirigir às pessoas respondendo e refutando as mentiras, mas já contando verdades de cara. 
Vou pegar o exemplo da entrevista do Haddad com o Bonner, da Rede Globo. (Não está exato, ok?)
Quando o Bonner diz "Quando é que o PT vai pedir desculpas por ser o partido mais corrupto da história?" (A pergunta deixa implícito que: 1- O PT é o partido mais corrupto da história e que 2- ele deve desculpas.)
Haddad não entra em pânico e diz "Mas o PT não é o partido mais corrupto, olha aqui esses dados, esses outros aqui são mais sujos, blablabla", esquece. Eles vão colocar as provas em cheque, vão continuar insinuando de modo implícito a mentira deles, vão tentar o máximo provocar uma contradição. 
O que Haddad respondeu: "O PT foi o partido que mais deu poder e independência à polícia para agir, inclusive para investigar os próprios membros do PT. Se o PT fosse aparelhar as agências de investigação como outros partidos já fizeram, ele não seria investigado, não é mesmo?" (Isso deixa implícito que o PT foi honesto e jogou limpo, deixou que a polícia pegasse inclusive os seus próprios membros. Ou seja: ele não negou que houve corrupção no PT, como a Globo queria que ele fizesse).
Pronto. Você expôs a falácia lógica, explicou o que aconteceu, não caiu na arapuca retórica e mostrou qual é o assunto que realmente importa. Ponha um ponto final na discussão. Deixe claro que você já disse a verdade, você tem as provas disponíveis, e que não precisa repetir ou debatê-la. A fonte está lá para consulta, quem quiser que se dê o trabalho, você já forneceu a prova do seu argumento. Lembre que o propósito deles é fazê-lo questionar o que é real ou não, custe o que custar. 
- Segundo, temos que deixar claro que nós entendemos o que eles estão fazendo, e abertamente explicar, sempre que pudermos, a tática deles. Só atacar as mentiras não nos dará credibilidade. Uma vez que fica óbvio a tática, todo o resto desmorona. 
- Terceiro, eles pregam um mundo em preto e branco, vencedores e perdedores, e eles não querem ser os perdedores. Na cabeça deles, não existe a possibilidade de todo mundo ganhar, se uma outra pessoa ganhar, automaticamente significa que ele perdeu. Quebrem essa mentalidade. Expliquem que para que um ganhe, outro não tem que perder. 
- Quarto, o pensamento simplista "bem X mal" é muito humano, nos ajudou a sobreviver por 300 mil anos. Você não vai conseguir falar de coisas complexas com quem não entende ou não quer entender isso. Quem vota no Bozo vota nele pelo que ele promete ser, e não pelo que ele é. A narrativa de Pai, Segurança, União pela Força, Homogenia e Moral de Bem já foi vendida, nada vai fazer com quem já comprou isso veja outra coisa.  A única coisa que você pode fazer para um convertido desses é tentar vender uma narrativa melhor, mais esperançosa, mais apelativa e que toque o lado mais sensível dele: a sensação de segurança e aceitação, recompensa justa pelo trabalho honesto. 
 - Quinto: de novo, estão misturando todos os bolsonaristas no mesmo balaio e não entendem porque não funciona. O bolsonarista dono de empresa não é o mesmo bolsonarista policial pobre. É como tentar vender um produto para o nicho errado. Você não vai conseguir vender um skate para uma velhinha com osteoporose para ela andar de skate. Mas e se você vender o skate para ela com a narrativa de que o neto dela vai gosta? 
- Sexto: aproveite a narrativa deles. Eles falam de Deus? Fale de Jesus e amor. Eles falam de Justiça? Fale de redenção, educação e perdão. Eles falam de moral e bons costumes? Fale de aceitação, amor ao próximo, "não julgarás como quiseres ser julgado". Segurança? Apoio e união da comunidade, oportunidades e dignidade para todos. Por aí vai. Sempre desmembre o que a pessoa realmente quer com um discurso extremo. 
Ela realmente quer combate à corrupção? Por quê? O que ela sente que está perdendo com outra pessoa sendo corrupta? É dinheiro para a saúde, para a educação? Use a retórica e a narrativa deles. FALE A LÍNGUA DELES. Pergunte a eles, descaradamente: "o que você quer para que tal coisa seja realidade?"
- Sétimo: os discursos homofóbicos, racistas, classistas e machistas têm um objetivo muito claro: homogenizar o eleitorado. A diversidade fortalece a ciência, as artes, a economia, a saúde, mas é péssima para governar. Quando se tem uma pluralidade alta de pautas, ainda mais em um país continental como o Brasil, é muito difícil seguir uma agenda. O fascismo é um modo eficaz de homogenização à força da população, apoiado em preconceitos já pré-existentes como patriarcado e racismo escravista. Por que vocês acham que o mercado adora estados totalitários? Porque é mais fácil investir em um governo estável, que atenda às demandas do mercado para lucro - especialmente quando vem acompanhado de promessas de redução de impostos e de flexibilização de direitos trabalhistas (ou seja, trabalho escravo). Logo, exalte como é bom a diversidade, o quanto ganhamos com isso, quantas boas ideias únicas nós temos por vivermos de tantas formas diferentes. Quantos nichos bons de mercado a gente pode criar com tanta gente diferente, quantas artes únicas, quantos cientistas com ideias bem boladas que descobriram algo por causa da cultura deles.
 - O fact checking não pode ser deixado de lado, mas não podemos depender dele. A gente usa fatos com quem está indeciso ou para quem é de fora, não para os convertidos. 
Bem, resumindo pois ficou bem mais longo do que eu esperava:
 - Exponha a tática óbvia deles, mostre que você está mais do que ciente do golpe sujo.
 - Não perca tempo com refutação, fale sobre os fatos e a sua narrativa.
 - Não caia na provocação nem no confronto direto.
 - Não caia na falácia de "bem" e "mal", "nós" e "eles". 
 - Desmonte a exploração (suja e perversa!) da insegurança do povo.
 - Seja socrático. Pergunte mais do que responda para entender a motivação das pessoas. 
 - Mostre que você é bem mais feliz vivendo de amor e aceitação do que de raiva e medo infundado. 
 - Exalte a natureza humana de ser generoso, comunitário ao invés de reforçar o egoísmo e o individualismo.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

CENÁRIO ELEITORAL PREOCUPANTE, MAS NÃO DESESPERADOR

Claro que é decepcionante a mais recente pesquisa Ibope, divulgada ontem à noite. Bolso subiu 4 pontos porcentuais e agora tem 31%. 
E, pior: seu índice de rejeição não subiu, continua em 44%. Eu esperava muito que a rejeição aumentasse com os lindos atos #EleNao. Mas a pesquisa foi feita nos dias 29 e 30, pode não ter captado os efeitos.
Haddad continua com 21%. Cadê a maldita transferência de votos do Lula? Tudo bem, 21% não é ruim, mas minha expectativa era que Haddad chegasse ao segundo turno um pouco na frente de Bolso. 
Ontem saiu pesquisa Record também, dando 29% para Bolso, 24% para Haddad, ou seja, destoando do Ibope. A última do Datafolha era parecida à da Record: Bolso 28%, Haddad 22%, Ciro 11%, Alckmin 10%, Marina 5%. Mas foi realizada antes do dia 27. A nova deve sair hoje à noite.
O atentado acabou sendo ótimo pra Bozo porque assim ele não precisa participar de debates ou entrevistas. Como ele também proibiu seu vice e seu ministro mais importante de falar, quem vota nele não precisa sequer ouvir suas propostas (que não existem) ou seu poder de argumentação (idem).
Nessa última pesquisa Ibope, Ciro está com 11%, Alckmin com 8%, e Marina agora tem 4%. Pelo jeito, os votos de Marina estão indo pra Bolso. É sério! Quem é o eleitor da Marina que migra pra Bolso sem corar? (é o evangélico. Mas só esse?).
Contando apenas os votos válidos, Haddad tem 25%, e Bolso, 38%. Ainda distante dos 50% que ele precisaria para ganhar no primeiro turno. Mas há riscos sim. Sem sombra de dúvida, de todos os candidatos, quem mais tem "eleitor envergonhado" é ele. Eleitor envergonhado não responde pesquisa, mas chega na urna e vota em candidato do ódio. Quantos que ainda dizem que votarão nulo ou em branco votarão em Bolso? E o PT, tem eleitor envergonhado?
Outro risco é a migração do voto útil de última hora. Isso também pode beneficiar Haddad, lógico, mas quem tem chance de levar no primeiro turno é Bolso, não Haddad. Imagine que os eleitores de Alckmin, Amoedo, Álvaro e Meirelles, e aqueles que sobrarem da Marina, migrem para Bolso no domingo, querendo liquidar a fatura logo, com medo do PT ganhar no segundo turno?
Outro risco é aquele golpezinho do STF de proibir cerca de 3 milhões de eleitores, metade deles no Nordeste (a região que vota em peso no PT), de poderem votar porque não fizeram cadastramento biométrico. Isso é muito voto! 
Junte a isso o golpe do Moro em tirar o sigilo das delações premiadas do Palocci 
(faltando uma semana pra eleição -- em que país sério um juiz poderia fazer isso tão próximo às eleições?) e o ministro Toffoli do STF dizendo que prefere chamar a ditadura militar de "movimento de 64" (isso a poucos dias da eleição, numa democracia frágil como a nossa, em que sempre se ouve que, se o PT ganhar, o exército não deixará assumir -- eu ouço isso desde 1989 e nunca foi tão atemorizante como agora!). Sem falar o que deve estar guardado pra aparecer contra o PT na sexta ou sábado. 
Portanto, o cenário é sim preocupante. Mas continuo otimista. Nem o Lula que é o Lula (o  político brasileiro mais carismático de todos os tempos, tido por muitos como o melhor presidente que o país já teve) conseguiu ganhar no primeiro turno. Não vai ser um bronco como o Bolso que vai conseguir. 
Dois radicais extremistas
Chegando no segundo turno, Haddad ganha. Mas não vai ser fácil como eu pensava que seria há um ou dois meses. Ainda mais com essa narrativa fajuta de que tanto Haddad quanto Bolso são extremistas e radicais. O que o Haddad ou o PT tem de radical? Desde quando o PT virou extrema esquerda?! O que eleitores do PT como eu mais reclamam é que o PT é moderado demais! Antes fosse de extrema esquerda e não de centro-esquerda!
Nada de pânico. Vamos continuar fazendo a nossa parte, que é conscientizando as pessoas sobre os milicos que elas querem eleger.
Sinceramente, é como eu perguntei ontem no Twitter. Suponha que você conhece um cara que tem como ídolo um sujeito que enfiava ratos vivos na vagina das mulheres para torturá-las. Você seria amigx desse cara? Namoraria com ele?
Votaria nele pra presidente?

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

FASCISTAS NÃO GOSTAM DE MULHER, E NÓS NÃO GOSTAMOS DELES

Foi tão lindo o ato contra o Coiso aqui em Fortaleza no sábado. Nesses quase nove anos vivendo aqui, eu nunca havia ido a uma manifestação tão cheia.
Eu, Andreia, Tereza em Fortaleza
O ato estava tão cheio que não devo ter encontrado nem quinze pessoas conhecidas por lá. Encontrei a Andreia e a Tereza, alunas queridas da pós, porque fomos juntas. Elas passaram em casa para pegar o maridão e eu.
Não houve qualquer incidente. Nenhuma provocação. Se bolsominions realmente existem no Nordeste, eles não tiveram a coragem de aparecer. 
Só o que se viu foi alegria e orgulho por estarmos lutando pela nossa democracia, e revolta contra um tio do pavê que lidera as pesquisas, mesmo tendo ofendido todo tipo de minorias nos seus últimos 27 anos de vida pública.
Tinha gente de todo tipo. Mais mulheres, e mais jovens, mas realmente tinha de tudo. Gente sem bandeira ou adesivo, gente com bandeira pró-Haddad, pró-Ciro, pró-Marina. Todas contra Bolsonaro. Cantamos palavras de ordem como "Ei Bolsonaro, vai se fuder, o Brasil não precisa de você", e "Boi, boi, boi, boi da cara preta, pega o Bolsonaro que tem medo de buceta", e "Eu já falei, vou repetir: nessa eleição o Bozonaro vai cair!", "Sou feminista, não abro mão / de derrotar o fascista na eleição", e minha preferida, "Nem fraquejada, e nem do lar! A mulherada tá na rua pra lutar!"
No resto do país e do mundo foi igual: uma mulherada valente marchando na rua, acompanhada de irmãs, amigos, maridos, namorados, filhos, pais. 
Enquanto as manifestações do #EleNaoDay encheram as ruas de pessoas alegres protestando contra o fascismo, os atos pró-Coiso foram um fracasso retumbante. Tão retumbante que os bolsominions tiveram que apelar para imagens de 2015 (quando reaças ainda lotavam praças) para tentar disfarçar que o apoio ao fascistoide não está em queda livre. O maior vexame parece ter sido em Copacabana, num ato convocado pela anti-feminista Sara Inverno.  
Ontem a situação melhorou um tiquinho, mas não muito. Eles precisam fazer carreatas e doar botas para fingir que têm volume. Mas a maior movimentação é feita nas redes sociais por um exército de robôs que espalham todo tipo de fake news (como dizer que uma das imagens do #EleNao no sábado era de outro ano, criar hashtags trocando os números dos candidatos, inventar que a candidata à vice-presidenta Manu estaria envolvida com o esfaqueador de Bolso, e por aí vai. Está insuportável, é um jogo sujo, e não é possível que as redes não tenham ferramentas para conter os bolsobots e sua campanha criminosa). 
Mulheres com Bolsonaro reúne menos mulheres que o Partido da Mulher Brasileira
As mulheres definitivamente não estão com eles. Por que estariam? Não é apenas o Coiso que demonstra não ter qualquer respeito por nós. 
São seus eleitores, seus seguidores, aqueles que o chamam de mito. Façam um levantamento nas redes sociais do que eles falam sobre feministas, por exemplo. Vejam o que falam de mulheres que nem são feministas, mas não partilham do entusiasmo pelo candidato deles. Vejam o que dizem para mulheres que são tão reaças quanto eles, só que não vão votar no mico. É pura coincidência que os piores homens da internet vibrem por um tio do pavê que diariamente exibe sua misoginia, seu racismo, sua homofobia?
Eles cutucaram a onça com vara curta, e se deram muito mal. A página Mulheres Unidas contra Bolsonaro cresceu depois que eles tentaram derrubá-la. Se eles não nos atacassem tanto, será que teríamos a energia para organizar de um movimento tão gigantesco?

Sim, os atos #EleNao foram as maiores manifestações dessas eleições. As maiores desde aquelas que eles fizeram apoiando o impeachment. E talvez as maiores já promovidas por mulheres no Brasil. E não apenas por mulheres, óbvio -- mulheres feministas. Foi um marco do feminismo no Brasil (e no mundo).
Um belo relato sobre o que acontece
quando mulheres se reúnem
Os fascistas sentiram o golpe. Já no sábado à noite os bolsobots colocaram nos Trending Topics do Twitter uma tag chamando as mulheres de submissas ao PT. Mais um sinal evidente que eles só tem homens na campanha, e homens provavelmente tão inteligentes como o Coiso e seu vice, proibido de abrir a boca. Foi a mesma coisa semana passada em Recife. Todos sabem que Bolso (e a extrema direita em geral; não só aqui, mas em todo o mundo) tem um problema com as mulheres. Mulheres, por ganharem menos e serem responsáveis pelos cuidados dos filhos, dependem mais de serviços públicos do que homens. E, ao contrário dos cabeças de bagre da campanha bolsonazi, mulheres são inteligentes. Elas percebem que a direita não dá a mínima pra saúde, educação ou segurança pública. A direita governa pro deus-mercado. Um mundinho masculino governando pra outro mundinho masculino.  

Mas e aí, a campanha bolsonazi, precisando conquistar o voto feminino (seria mais fácil proibi-lo, né? Ouvi isso de vários reaças. Um deles escrevem sobre um ato #EleNao: "elas todas merecem sofrer o que a Maria do Rosário não mereceu"), o que faz? Toca musiquinha em marcha da família chamando feministas de cadelas. Faz hashtag sugerindo que mulheres são incapazes de opinião e organização próprias, pois devem ser "submissas" a alguém. Um dos filhos do Coisa Ruim discursou ontem em palanque que as mulheres de direita são mais bonitas e higiênicas que as de esquerda.
Desse jeito vão convencer muitas mulheres de que eles não nos odeiam!
Meu otimismo referente ao próximo domingo (e, mais ainda, ao dia 28 de outubro, pois tudo indica que teremos um segundo turno acirrado entre Haddad e Coiso) oscila. Mas quero acreditar que no último sábado ganhamos a eleição. Não tem como uma multidão de gente em todo canto não jogar o índice de rejeição do fascista, que já era alto, pra estratosfera. 
Mas não podemos parar. Ainda tem muito trabalho pela frente. E vamos por favor aumentar o número de mulheres de esquerda no Senado, na Câmara de Deputados, nas Assembleias Legislativas. Vamos mostrar de uma vez por todas como somos fortes. E como somos mais fortes ainda unidas.