domingo, 5 de março de 2017

AMOR A BUENOS AIRES

Como já falei muitas vezes, nasci em Buenos Aires, mas vim pro Brasil cedo, com menos de quatro anos de idade. 
Meu papi e eu, década de 70
Sou naturalizada brasileira, moro aqui há 45 anos, e não tenho mais laços familiares na Argentina há varias décadas. No entanto, sempre que visito aquela cidade magnífica eu me lembro do meu amado papi, portenho da gema (e que vivia falando mal dos argentinos).
Silvio na primeira vez que estivemos
em Buenos Aires juntos, no início da
década de 90
Eu e o maridão estivemos lá durante uma semana agora no final de janeiro, direto de Santiago, que conhecemos pela primeira vez. Não sei exatamente quantas vezes visitei a cidade depois que minha família se mudou pro Brasil, na década de 1970 -- umas seis ou sete vezes? Só sei de três fatos: estivemos lá dois anos atrás, em 2015, e as coisas andavam mais baratas; gostaria, se o dinheiro e o tempo permitissem, de ir a Buenos Aires (e a Jericoacoara) a cada dois anos; e me dei conta que nunca estive lá no inverno, e não sinto falta.
Lolinha descansando numa praça
Este post não é nem de longe um guia da capital argentina. Daniel, querido aluno meu que trabalha com turismo, já nos presenteou com um brilhante guest post sobre o assunto. Agora são só algumas impressões.
Desta vez ficamos, pela primeira vez, num apartamento alugado através do AirBnb. E foi incrível. Recomendo mesmo. 
Entrada do prédio em que ficamos,
em Callao
Pagamos apenas R$ 600 por uma kitinete linda, completa, super bem decorada, num prédio com piscina (que não usamos porque a água estava um tanto fria pro nosso gosto, mesmo no verão). E a localização era exatamente o que queríamos: Av. Callao, a três quarteirões da Av. Corrientes, que é nosso espaço de estimação na cidade (Callao eu amo ainda mais por estar nesta canção tão comovente e tão representativa de Buenos Aires). 
Parte do apê de 36 m2
A dona do apartamento, muito simpática (só não fale com ela sobre política, porque ela defende o Macri -- e o país está visivelmente mais pobre, com mais mendigos pelas ruas do que há dois anos), é uma advogada viajada que conhece bem o Brasil e que tem um escritório perto do apê. Isso é super conveniente, porque assim ela é capaz de entregar as chaves pessoalmente e de explicar tudo. 
Além do mais, ao chegarmos no aeroporto, já mais pro final da tarde, não trocamos dinheiro, porque estávamos com pressa (foi um erro. E, milagrosamente, a cotação no aeroporto estava melhor que na cidade). O tempo voou e as casas de câmbio fecharam. Mas Anahi, a dona do apê, nos emprestou 500 pesos (cerca de cem reais; a melhor cotação que conseguimos foi 5,30 pesos por real, na Cambio Platinum, na Lavalle 1590), que devolvemos no dia seguinte. Coisas que um hotel dificilmente faria pela gente.
E lembram que eu disse que fiquei espantada com o pouco que dava pra comprar com cem reais no Chile? (lá os primeiros cem reais deram pra seis empanadas, um suco, uma água, e dois sorvetes). Bom, em Buenos Aires nosso dinheiro rende beeem mais. Com esses 500 pesos (menos de cem reais) pudemos jantar 
(nada sofisticado, um buffet por quilo num restaurante/ mercado chinês perto de Callao), comprar dois sorvetes (sem dúvida o produto mais caro que consumimos na Argentina: costumamos comprar para cada um um potinho de um quarto de quilo, ou seja, 250 gramas, mas eles chamam de um quarto de quilo, e que custa entre 80 e 100 pesos, dependendo da sorveteria), garantir um maravilhoso café da manhã no dia seguinte, e ainda sobrou dinheiro.
Felicidade é: comer empanadas bara-
tinhas no apê (o vinho é do Silvio)
Depois descobrimos que, próximo de onde estávamos, havia um lugar que vende deliciosas empanadas por dez pesos cada. Tem uns dez sabores, inclusive com queijo roquefort, com massa integral, opções vegetarianas, e putz, dez pesos por empanada! É menos de dois reais (fica na Lavalle, quase esquina com Callao). Então posso dizer que comemos muitas empanadas, inclusive pro café da manhã. E alfajores. 
Outra coisa que me deixou fascinada foram as "picadas", bandejinhas com pedaços de queijo, presunto cozido, salame, mortadela. Cada bandejinha, encontrada facilmente nos mercados, custava em média 25 pesos, ou seja, menos de 5 reais. 
E mercados, há um em cada esquina. Praticamente do lado do nosso prédio havia dois, um Carrefour (não são supermercados, são mercados pequenos, mas muito úteis, e que praticam os mesmos preços dos supers), e outro de donos chineses. Nesses mercados de donos chineses há um setor de frutas, mantido por donos latino-americanos (peruanos, bolivianos, talvez alguns dominicanos). E você paga o que compra em caixas separados. Funcionou bem pra mim.
Pelo jeito este post será apenas sobre comida. Ah, mas você viaja pra quê, se não for pra comer?
Confesso que um dos principais motivos de ir pra Buenos Aires é pelos sorvetes, os melhores que já comi na vida, junto com os italianos (menção honrosa pra excelente sorveteria de Jeri, a Gelato Grano). Como eu disse, os sorvetes não são nada baratos (compare: o potinho de 250 gramas por 80 pesos equivale a 8 empanadas, ou a 3 bandejinhas de picadas), mas valem muito a pena. Os de doce de leite são famosos, se bem que eu não tenho olhos pra qualquer sabor que não seja o de chocolate amargo. Você identifica a qualidade de um sorvete pelo sorvete de chocolate. Quanto mais escuro, mais chocolate.
Lolinha na sua segunda casa, a Cadore
Minha sorveteria preferida é a Cadore, em Corrientes, perto do teatro San Martin. Não tem franquia. A lojinha é só lá, e os sorvetes são feitos lá mesmo, há muitas décadas (a loja foi inaugurada naquele mesmo endereço em 1957, ano em que nasceu o maridão). Os donos estão sempre lá, no caixa, e às vezes servindo também. Deve ser o único lugar na cidade que a gente faz questão de ir todo dia.
Antes de ir pra Argentina desta vez, pesquisei brevemente na internet sobre sorveterias. Gostei bastante deste post. Praticamente todo texto sobre Buenos Aires fala sobre as sorveterias, e praticamente todo texto sobre sorveterias recomenda aquelas "melhores que o Freddo, que é a mais famosa. Mas reconheço que o sorvete de chocolate amargo do Freddo realmente está entre os melhores.
Lolinha descabelada chegando a heladeria Jauja, após uma interminável caminhada
Outra sorveteria que abriu inúmeras lojas pela cidade foi a Volta. Eu, sinceramente, não gostei. Só posso falar pelo sorvete de chocolate amargo, claro. 
Uma surpresa, porque não costuma constar na lista das melhores sorveterias, mas eu achei o de chocolate amargo perfeito, é a Vanshelato, na Recoleta, perto do cemitério (Gal. Hera com Junin). Adorei mesmo. E fica uma dica, se alguém for a Buenos Aires em fevereiro: em homenagem ao dia dos namorados deles (San Valentin, 14/02), durante duas semanas, a Vanshelato vende tudo em dobro. Você paga 80 pesos por um potinho e ganha outro grátis. Há várias promoções também em hotéis por conta da data, a preços convidativos. Fique de olho.
Num domingo, tive uma ideia um tanto maluca: fazer um tour pelas melhores sorveterias (o quê, algumas pessoas visitam museus?!). Bolei um mapa no Google, mas a verdade é que não deu muito certo. Tirando a Cadore, que está em Corrientes, quase todas as outras estão localizadas em Palermo, que é o maior bairro da cidade. E a gente decidiu ir andando. Foi assim que descobri a Vanshelato no meio (começo?) do caminho.
Placa de sorveteria em Pipa
que Daniel mandou p/mim:
Vc não pode comprar feli-
cidade, mas pode comprar
sorvete, e é meio que a
mesma coisa  
Pelo menos na Jauja eu queria chegar. São sorvetes da Patagônia. E são ótimos (mas Cadore é melhor). Quando finalmente chegamos, fomos muito bem recebidos por um atendente que me deu uma colher enorme de sorvete de chocolate com laranja pra experimentar (pô, eu tenho cara de quem contamina chocolate com laranja?!). É óbvio que eu comprei o de chocolate amargo, que na Jauja se chama Chocolate Profundo. 
Pra voltar, conversamos com o atendente, que não quis acreditar que pretendíamos voltar andando também 
("és lejíssimo", disse uma mulher que ouviu nossa conversa). Na realidade, não foi exatamente ideia minha voltar andando. Eu pegaria de bom grado (em vez de caminhar a Av. Santa Fe e Independência inteiras) um táxi ou metrô, mas o maridão aparentemente é do tempo em que a roda ainda não havia sido inventada 
(três dias antes, ele me fez ir de Callao até Porto Madero andando, ida e volta; eu comentei que a cidade tinha alguns meios de transporte alternativos, digamos, tipo táxi, metrô e ônibus, mas ele insistiu que a gente devia andar mesmo. E você acha que ele comete essas loucuras por razões de saúde, pra praticar exercícios, sei lá? Nada, é porque ele é um pão duro miserável mesmo).
Ele é lindo, mas um pão duro miserável incorrigível
Eu sei que sou sovina também, mas perto do Silvinho, sou uma amadora. 
Só pra dar um exemplo. No nosso penúltimo dia em Buenos Aires, eu calculei (meio errado) que iriam "sobrar" 300 pesos, depois de tudo que a gente ainda iria gastar. Então disse ao maridão para que ele gastasse aquilo no que quisesse, no que precisasse. Ok, 300 pesos não é muito (uns 60 reais), mas dá pra comprar umas coisinhas, um mouse sem fio, uma loção pós-barba, sei lá. O maridão saiu sozinho e voltou duas horas depois com quase todo o dinheiro. Ele havia comprado uma pilha e uma revista antiga que continha a última entrevista com John Lennon. Ficou falando bastante tempo sobre como quase comprou uma lanterna.
Wilson, à esquerda
Só fomos comer em dois restaurantes mais chiques duas vezes. Um deles na Recoleta; outro, em Corrientes. Na Recoleta conhecemos um brasileiro, o Wilson, que junto com sua mulher começaram uma agência de turismo, a Magic Travel. Não fomos a nenhum lugar com ele porque estava em cima da hora, mas os preços que ele me passou pareceram muito bons. Tipo: para ir a um show de tango com jantar incluso, com bebidas (que é o que mais encarece as refeições na Argentina), e transporte, sai uns cem reais pro casal. Vou fazer propaganda do Wilson porque ele é uma simpatia. 
As minas do Mujeres Arriba
Ah, fomos ver um show de stand-up comedy! Creio que foi o primeiro de nossas vidas. Eu quis ir pra praticar meu espanhol, que depois de quase duas semanas estava tinindo (eu entendia tudo! Me comunicava com todo mundo! Parecia nativa!). Escolhi um show no Paseo La Plaza (que eu adoro: Corrientes 1660) chamado Mujeres Arriba. Foram quatro apresentações só de mulheres e eu ri bastante, apesar das piadas gordofóbicas de uma delas (logo da gordinha). Uma dica: não vá direto à bilheteria comprar os ingressos. Procure alguém que está fazendo divulgação do show na entrada (em Corrientes mesmo) e ela te leva até o local. Sai bem mais barato.
Comédia que não fui ver, em cartaz:
Casados, sem filhos (childfree)
Na volta pra cá, uma grande confusão que nos fez perder tempo e dinheiro: fomos pro aeroporto errado! Como não havia nada na nossa passagem indicando que o voo sairia logo do aeroporto na cidade, pertinho da gente, fomos de táxi ao aeroporto por onde tínhamos chegado do Chile. E não há transfer de um aeroporto pro outro, como deveria haver. E eu tinha aula marcada já pro dia seguinte. Se a gente perdesse aquele voo, sabe-se lá quando a gente conseguiria voltar. 
Não encontrei foto do Gonzalo
E eis que surge um jovem argentino, Gonzalo Boraglio, dizendo algo tipicamente portenho quanto a suas habilidades no volante ("Soy el mejor"), que conseguiu nos levar de um aeroporto pro outro em tempo recorde (infringindo várias leis de trânsito, tenho certeza). Graças a ele não perdemos o nosso voo. Portanto, farei propaganda dele também: +54 9 11 2159-2375, email arg.taxi.ok@gmail.com. Atenção, porque há cada vez mais voos internacionais saindo do aeroporto menor, central, de Buenos Aires (o que é ótimo, desde que você não erre de aeroporto). 
A gente em frente ao Louvre, em 2011
Acabamos gastando R$ 1.670 em Buenos Aires. Com os R$ 1.510 do Chile, e mais os R$ 300 no Rio, foram R$ 3.480. Todo o resto (aluguel dos apartamentos via AirBnb e passagens, que não pagamos, finalmente usamos as nossas milhas! Só pagamos o trecho entre Santiago e Buenos Aires, e as taxas dos aeroportos, que não são baratas), que deu R$ 3.060, já havia sido pago em 2016, vários meses atrás. Logo, nossa viagem de duas semanas custou no total R$ 6.540. 
Daniel em sorveteria em Pipa
Compare com os quase 15 mil que gastamos em 2011 por duas semanas na Europa. 
Ah, uma última dica. O melhor dia e horário pra checar promoções de passagens aéreas é de sexta pra sábado, a partir da meia noite, durante a madrugada. Sugestão do especialista chamado Daniel, que conseguiu voo de Fortaleza para Natal durante o carnaval por apenas R$ 59. And all I got was this lousy photo (tenho que explicar essa referência?).

quinta-feira, 2 de março de 2017

GUEST POST: LIGAÇÕES PERIGOSAS ENTRE FASCISMO E MISOGINIA

Hoje publico com orgulho o guest post de uma pessoa muito especial. 
Antonio Luiz M. C. Costa escreve na revista CartaCapital sobre temas de política internacional, cultura e economia. Formou-se em engenharia, filosofia e economia e foi analista de investimentos e assessor econômico-financeiro antes de encontrar sua vocação no jornalismo e na escrita, inclusive ficção científica e de fantasia.

Para a CartaCapital número 240, escrevi um artigo, “Aprendiz de Feiticeiro”, sobre Steve Bannon, cineasta, chefe do Breitbart News e agora estrategista-chefe do governo de Donald Trump, visto como principal ideólogo da chamada “Alt-Right”, a vertente estadunidense do neofascismo xenófobo em vias de avançar sobre alguns dos maiores países do mundo. Responsável pelas medidas contra viajantes muçulmanos, já comparou a si mesmo com Darth Vader e sugeriu ser Trump o seu fantoche: “Trump é para nós um instrumento grosseiro. Não sei se ele realmente compreende isso ou não”, disse Steve Bannon a Ken Stern, da revista Vanity Fair, em meados de 2016, antes mesmo de ser nomeado chefe da campanha. Transcrevo aqui uma parte da minha matéria:

O New York Times chamou a atenção para sua palestra de 2014 em uma conferência no Vaticano do Dignitatis Humanae Institute, ONG ligada ao cardeal conservador Raymond Burke e fundada por Benjamin Harnwell, amigo do cardeal e colaborador do Breitbart News. Bannon, ao lado de Harnwell, defendeu na ocasião uma “igreja militante” contra o jihadismo. De passagem, criticou Vladimir Putin como “representante de uma cleptocracia”, mas admirou seu lado nacionalista e conservador e o supõe inspirado por Aleksandr Dugin. “Ele tem um conselheiro que remete a Julius Evola e outros autores do início do século XX do chamado movimento tradicionalista, que eventualmente metastatizou no fascismo italiano”.
A afirmação de Bannon é incorreta. O tradicionalismo não teve nenhum papel na ascensão do fascismo em 1922, então pretensamente popular e futurista. Evola foi introduzido ao tradicionalismo pelo francês René Guénon em 1927 e nos anos seguintes, ao palpitar sobre política, foi ignorado pelo regime. Benito Mussolini chamou-o para conversar só em setembro de 1941, após o fracasso militar na Grécia reduzir a Itália a protetorado do III Reich e obrigá-la a se curvar às obsessões de Adolf Hitler, antes desdenhadas pelo Duce como “delírio racial”. 
Do complexo esoterismo de Evola, interessava-lhe adotar o “racismo do espírito” como um pensamento italiano original e não uma ordem do Führer. Evola criticara o materialismo do racismo nazista, focado em traços fisiológicos e anatômicos, como as famosas medições cranianas. Afirmava ser a superioridade racial de natureza espiritual, forjada por “disciplina estrita e tensão de altos ideais”. A longo prazo, a “raça espiritual” moldaria a alma (concebida como intermediária) e o corpo à sua imagem e semelhança.
Evola colaborou com Mussolini, mas após a guerra, desdenhou a acusação de ter feito propaganda fascista dizendo estar acima disso e ser um “superfascista”. Foi mais simpático ao nazismo e em especial à SS de Heinrich Himmler, com o qual compartilhava o interesse por ocultismo, paganismo e as imaginárias origens hiperbóreas da “raça ariana”. A admiração não era recíproca. Os nazistas, cuja propaganda se baseava na fraternidade entre os alemães “arianos” enquanto raça superior aos demais europeus, desconfiavam do elitismo supranacional de Evola, cujo sonho era uma “Civilização Solar” europeia organizada em castas. 
Quase irrelevante na II Guerra Mundial, a influência de Evola é muito maior nos neofascismos do pós-guerra, mais explicitamente no nacional-bolchevismo “eurasiano” de Dugin, no “hitlerismo esotérico” do chileno Miguel Serrano, nos partidos Jobbik (húngaro) e Aurora Dourada (grego) e no ucraniano Batalhão Azov. E na “Alt-Right” dos EUA? Com certeza. 
Um artigo de março de 2016, publicado com destaque no Breitbart News de Bannon e intitulado “Um guia à Alt-Right para os conservadores do establishment”, é explícito. “As origens da direita alternativa podem ser encontradas em pensadores tão diversos quanto Oswald Spengler, H. (L.)  Mencken, Julius Evola, Sam (T.) Francis, nas campanhas presidenciais de Pat Buchanan e na nova direita francesa”. É assinado por Allum Bokhari e Milo Yiannopoulos, este último o provocador racista e antifeminista impedido por manifestações estudantis de palestrar em Berkeley e apoiado por Trump, que ameaçou pelo Twitter negar verbas à Universidade da Califórnia se não o deixarem falar. (Dias depois de publicado o artigo, Milo foi marginalizado também pelos “conservadores do establishment” por defender a pedofilia numa entrevista e renunciou ao cargo de editor de tecnologia do Breitbart News). 
Os quatro autores citados não são tão diversos assim. Só Evola é organicamente ligado ao nazi-fascismo, mas todos revelaram interesse e admiração por Friedrich Nietzsche, o desprezo pelos ideais de igualdade e democracia e a crença em hierarquias naturais e na superioridade da força, da masculinidade, da raça branca e da civilização europeia. Todos foram fascinados por ciclos históricos e grandes narrativas de decadência e renovação. 
Todos também tiveram pouco ou nenhum apreço pelo cristianismo. O próprio Bannon é três vezes divorciado, embora se diga católico, defenda a “igreja militante” em uma organização católica tradicionalista e se alie ao cardeal Burke, cuja oposição ao papa Francisco tem como cavalo de batalha o combate à comunhão dos divorciados. Típico. Mussolini e Adolf Hitler se diziam católicos e foram cortejados pela Igreja, embora a desprezassem. O terrorista norueguês neonazista Anders Breivik se considera cristão e “cruzado” sem pisar numa igreja desde a puberdade. Dizer-se “cristão” tem nesses casos um sentido apenas instrumental.
Recordem-se as origens do ocultismo reacionário do qual Guénon e Evola foram expoentes e que Louis Pauwels e Jacques Bergier diluíram e popularizaram com O Despertar dos Mágicos. As igrejas cristãs, apesar de hierárquicas na prática, originam-se de uma mensagem de humildade, igualdade e fraternidade, como insistiram em recordar os anarquistas e socialistas do século XIX. A bem da coerência, pensadores do elitismo reimaginaram mitos pagãos, zoroastristas e hindus para substituir ou “corrigir” o cristianismo e justificar hierarquias sociais e raciais eternas. Nietzsche deu a essa mensagem sua forma mais respeitável. Arthur de Gobineau, Alexandre Saint-Yves d'Alveydre, Guénon e Papus foram mais típicos. 
Outros, como Francis Galton, Ernst Haeckel, Houston Stewart Chamberlain e Madison Grant, optaram por racionalizar suas ideologias e preconceitos “cientificamente”, com darwinismo social e eugenia. O nazismo bebeu das duas fontes, mas apesar de o partido nascer da esotérica Sociedade de Thule, a segunda predominou fora da SS de Himmler, apesar de idealizar um biótipo “nórdico” no qual muitos judeus se enquadram melhor que a maioria dos alemães e dos hierarcas nazistas, a começar pelo Führer.
Muitas vezes no Breitbart News:
"Você prefere que sua criança tenha
feminismo ou câncer?"
Entretanto, os avanços da genética no pós-guerra tornaram precários os pretextos biológicos para o racismo. Poucos cientistas insistem no conceito de “raça” além do biólogo Razib Khan, outro herói do Breitbart News. A busca de justificativas respeitáveis para o racismo, a homofobia e o machismo se funda agora em noções de “cultura” e “identidade” concebidas como entidades orgânicas e essenciais destinadas a enfrentar-se na “guerra das civilizações”.

Não foi o foco do artigo, centrado na questão da xenofobia e das relações internacionais, mas os quatro autores citados como principais fontes da Alt-Right são também caracterizados pelo antifeminismo, quando não pela misoginia declarada. Nietzsche, mestre de todos eles, foi autor de aforismos como “Ao sair para o encontro com uma mulher, não se esqueça de levar o chicote”, “se uma mulher tem inclinações eruditas é porque há algo de errado na sua sexualidade” e “nada é mais estranho, repugnante e hostil à mulher do que a verdade -- sua grande arte é a mentira, sua maior preocupação é a mera aparência e beleza”. 
Evola foi ainda mais longe: um de seus primeiros textos, de 1925, se intitula “A mulher como coisa”. Nele defende, a sério, que do ponto de vista espiritual a mulher é mera coisa. 
“Sua natureza típica e essencial, ao contrário da vontade positiva do homem, é o desejo de dar-se, de ser dominada, de servir e adorar (...) Os bosquímanos, ao tratarem as mulheres como coisas, são nesse aspecto mais avançados que várias sociedades ‘civilizadíssimas’, notadamente  a inglesa e a americana, na qual se lhes dá supersticiosamente o caráter de pessoa, ou melhor, nas quais o homem, fazendo isso, reconhece nela um semelhante. A  ‘espiritualidade’ da mulher está na razão direta da degeneração ideal de uma raça”. 
Para Evola, o homem é de espírito, alma e corpo, enquanto a mulher é só alma (desejo, afeto) e corpo. Se pretender ser mais que isso rebaixa-se à mera macaca, pois apenas imita o homem. Na sua segunda obra mais popular, A Metafísica do Sexo, Evola advoga o estupro e a tortura de mulheres para produzir um clima psíquico adequado à “abertura da consciência individual (masculina, é claro) sobre o suprassensível”. Transcrevo uma passagem:
“Entende-se, aqui, por iniciação a transmissão, por parte do homem, de uma influência espiritual (...) com os efeitos que poderão ser descritos pelas palavras utilizadas por Görres na sua definição de experiência ultrassensível: ‘Ver e conhecer por meio de uma luz superior, agir e fazer através de uma liberdade superior, estão condicionados, tal como o saber e o fazer habituais, pela luz do espírito e pela liberdade pessoal, próprias a cada homem.’ A situação traumática de defloração tal como a descrevemos reúne, evidentemente, as melhores condições para este procedimento. Compreende-se que, noutros casos, a flagelação da mulher tenha sido empregada como equivalente para produzir o mesmo clima psíquico liminal.” 
A ultradireita não é apenas racismo, islamofobia e xenofobia, é o domínio do (supostamente) forte sobre o fraco em todos os aspectos. O rico sobre o pobre, o homem sobre a mulher, o “normal” sobre o “desviante”. Não pode tolerar o companheirismo, a empatia ou a compaixão. Essa mentalidade se expressa com mais desenvoltura em textos ocultistas como esse, não limitados pelo rigor e coerência de uma filosofia séria, mesmo que conservadora, pela necessidade de evidências cobrada da ciência, mesmo a mais enviesada, ou pela fidelidade ao dogma, à fé e à moral exigidas pela teologia, mesmo a mais reacionária.
O mito de origem consiste na ideia de uma região polar chamada “Hiperbórea” (também chamada “Thule” ou “Arctogeia” em autores análogos) da qual teriam nascido a civilização e a raça branca “arianas”, originalmente comprometidas com a pureza racial e os ideais impiedosos de Evola. Uma mudança climática teria forçado os hiperbóreos a migrar para a Ásia Central, de onde depois teriam se espalhado para a Europa, Irã e Índia. As demais raças seriam incapazes de civilizarem-se por si mesmas. Nelas, qualquer sinal de civilização seria mera imitação, aprendida dos brancos arianos (daí tanta ansiedade por “provar” que as civilizações pré-colombianas como a inca, a asteca e a marajoara foram fundadas por vikings ou outros brancos barbudos). 
Civilizações de “arianos impuros”, transformadas pelo contato com poderes “demoníacos” do Sul e raças “escuras”, seriam a origem de todo o mal e do confronto maniqueísta de duas culturas, uma heroica e celestial, condicionada pelo clima duro e frio, a outra, terrestre, naturalista e panteísta, de culto promíscuo da fertilidade animal e vegetal em climas amenos. O afastamento da tradição e o contato e mistura com outras raças teriam levado a uma degeneração progressiva da “raça superior”, que os neofascistas pretendem reverter com o expurgo das misturas e a restauração das hierarquias “naturais”.
Evola, cuja obra mais popular, Revolta contra o Mundo Moderno, está sendo relançada como propaganda neonazista no Brasil, talvez seja o caso mais característico, mas não é único. Seu precursor Aleister Crowley não ficava muito atrás. Sim, o mesmo Crowley que inspirou boa parte da contracultura dos anos 1960 e 1970, inclusive Jimmy Page, Timothy Leary, Raul Seixas e Paulo Coelho, era fascista, racista e misógino. Seu lema “faze o que tu queres, há de ser tudo da lei”, dirigia-se apenas ao homem branco superior. Um trecho do seu O Livro da Lei:
“O sexo vitorioso diz à mulher: ‘Faça-se digna de mim. Absorva, através do conhecimento do Sujeito, o pensamento que é completamente humano e universal. Sob minha orientação você alcançará a dimensão do Sujeito’. De tal maneira, o homem não apenas justifica o controle que exerce sobre a personalidade da mulher -- o que deve ser para o bem dela, cada pequeno erro pode ser fatal -- mas se torna o árbitro de sua consciência e, finalmente, o reservatório da inferioridade dela: prometendo sua redenção de sua mente, em obediência. De fato, quem obedece não merece ser conhecido porque a obediência é inconciliável com a autonomia e é a autonomia que cria no homem o estímulo para o conhecimento. Assim, o homem não conhece a mulher, ele conhece a si mesmo, e ela só na medida em que ela serve a ele”.
Além de Crowley, convém mencionar outro precursor de Evola: Jörg Lanz von Liebenfels, ex-monge cisterciense banido da ordem em 1899 por não controlar seus “desejos mundanos e carnais”. Afirmava que os “arianos” haviam se originado de divindades interestelares, enquanto as “raças inferiores” eram o resultado do cruzamento com “homens-animais” hoje extintos. De sua obra deriva, conscientemente ou não, o mito dos “deuses astronautas” que tanto fascina o History Channel como explicação alternativa para o “mistério” de povos não brancos terem sido capazes de criar civilizações brilhantes e construir grandes monumentos. 
Von Liebenfels chamou de “ariosofia” a sua tese, que levava ao extremo as tendências racistas da teosofia e na antroposofia e cunhou (em alemão) o termo hoje traduzido como “masculinista” ao fundar em 1905 a revista de seu movimento, intitulada Ostara, Briefbücherei der Blonden und Mannesrechtler (“Ostara, a revista dos loiros e masculinistas”), embora as feministas britânicas e estadunidenses tenham sido as primeiras a usá-lo em inglês, alguns anos depois. Também foi o primeiro, ao fundar a “Ordem dos Novos Templários” em 1907, a usar a suástica como símbolo da “raça ariana”, bem antes de ser adotada pelos nazistas.
(Nem todo ocultismo, bem entendido, é misógino ou fascista. Da Renascença ao Iluminismo, o esoterismo fascinou muitos pensadores progressistas e liberais em busca de uma ética e de uma narrativa das origens da humanidade alternativa à judaica-cristã, tais como Cornelius Agrippa, Giordano Bruno, Tomaso Campanella e alguns maçons. Há vertentes esotéricas acolhedoras para os oprimidos, como algumas correntes das religiões afro-brasileiras e, ironicamente, também a Wicca, da qual Crowley, ao lado de Gerald Gardner, foi um dos ideólogos originais. Doreen Valiente, escolhida por Gardner como suma sacerdotisa, expurgou as contribuições de Crowley e deu à sua corrente um caráter mais ou menos feminista, embora retivesse uma mentalidade essencialista em relação às questões de gênero.)
Quem já lidou com fascistas e “mascus” na internet ou no mundo real provavelmente se deparou com alguns desses temas. Talvez tenha encontrado quem cite explicitamente Evola e afins e de fato os leu, ou ouviu falar por meio de terceiros. Isso obviamente não significa que o contato com esses autores seja necessário para criar essa mentalidade. Misoginia, xenofobia e racismo surgem espontaneamente de uma cultura de ressentimento. Homens brancos incapazes de cumprir as expectativas de sucesso econômico e sexual criadas pelo capitalismo inicialmente se culpam pelo fracasso, depois rejeitam cinicamente todos os valores da sociedade (“não valemos nada, mas nada tem valor algum, portanto somos iguais a qualquer um”), mas acabam por culpar o fato de mulheres, negros e estrangeiros “roubarem” lugares seus por direito natural. 
Daí a descobrir os teóricos do fascismo e enxergar uma conspiração de “elites” (às vezes ainda identificadas com “os judeus” em geral ou George Soros em particular) para impor uma sociedade “antinatural”, humilhá-los e promover o “genocídio branco”, ou seja, a mestiçagem, é só um passo. Mas não um passo irrelevante, pois leva à articulação e radicalização dos ódios de raça, classe, gênero e cultura em um discurso político mais uniforme, extremo e abrangente e sua mobilização em movimentos perigosos.
O escritor e artista Dale Beran escreveu um interessante artigo no medium.com, chamado "4chan: a chave-mestra da ascensão de Trump", no qual descreve o anonimato do 4chan como o caldo do qual surgiu essa cultura. Talvez exagere sua importância, mas tem um fundo de verdade. Se não são a maioria dos eleitores de Trump ou da militância virtual da ultradireita, esses jovens subempregados e solitários, com demasiado tempo livre para ver pornografia violenta, trollar as redes sociais e divulgar notícias falsas de dentro de porões e quartos dos fundos das casas dos pais, ao menos são os criadores de memes que se tornaram símbolo da Alt-Right e de conexões e notícias falsas muito úteis para a sua propaganda.
O símbolo mais conhecido da Alt-Right é Pepe the Frog, o sapo verde cuja origem e evolução outro artigo do medium.com, "A História de Pepe", de Jaime Bravo, descreve em mais detalhes. Originalmente uma autocaricatura de desleixo, feiura e fracasso, gradualmente se tornou um símbolo de orgulho fascista, passa a usar suástica e se identificar com o movimento de Trump, o qual gostou da ideia a ponto de retuitar uma caricatura sua como sapo. 
Mas há outros símbolos, dos quais acho particularmente interessante a Smug Loli (“Lolita Convencida”), que Bravo apenas menciona. Se Pepe foi originalmente o ego depreciado do channer, penso ser Loli a sua anima (Jung que me perdoe) e musa inacessível, a menina bonitinha, virginal e “feminina” à qual ele julga que tem direito e que seria sua se o sistema não o fraudasse e fosse bem-sucedido no mercado, já que para essa mentalidade, qualquer uma se entrega a quem possui o suficiente. A figura obviamente vem dos animes e mangás shonen (para rapazes) nos quais não passa sombra de feminismo ou talvez dos hentai (pornôs) nos quais elas frequentemente são estupradas da forma mais brutal e nojenta que o autor conseguir imaginar, às vezes por criaturas parecidas com Pepe (talvez acrescido de tentáculos). O importante é ela corresponder às ideias e fantasias do channer e veicular suas opiniões como uma imaginária namorada submissa. 
Nem todos que usam esses símbolos, ressalve-se, abraçam inteiramente essa cultura e suas derivas neofascistas. Muitos os adotam ingenuamente, sem conhecer seu contexto. Muitas pessoas cuja orientação geral é liberal e às vezes até gostariam de ser tidos por progressistas, adotam memes da Alt-Right para reclamar de “exageros” do feminismo e do combate ao racismo. Um exemplo é o uso pejorativo da sigla SJW (“Social Justice Warrior”, guerreiros da justiça social) como se julgassem ridícula ou desonrosa em si a luta pela justiça social. 
Caricatura racista e nazista que
mascus americanos fizeram de
Anita Sarkeesian, que sequer é
judia
Outros repetem lemas e memes sem notar sua origem e a presença do que nos EUA se chama de dog whistle, “apito de cachorro” (inaudível para humanos), senhas neonazistas com as quais os neonazistas piscam o olho uns para os outros. Um exemplo foi o uso, no contexto da GamerGate, de uma caricatura de Anita Sarkeesian obviamente decalcada em uma conhecida caricatura nazista de judeu. Ao contrário do que pensavam alguns, Anita não é judia, mas os nazistas assumidos a põem no mesmo balaio por igualmente considerá-la parte da mesma conspiração contra a virilidade e a raça branca. Adolescentes e liberais sem noção reproduziram a caricatura simplesmente por não gostarem de críticas a seus games favoritos ou a culparem pela “invasão” de jogadoras no seu Clube do Bolinha e pela inserção nos novos jogos de temas tão desagradáveis quanto a igualdade de gêneros e a diversidade racial em prejuízo da violência misógina e da nudez feminina gratuita.
Talvez entender como surge essa mentalidade e com se articula com as tradições fascistas ajude a pensar em maneiras mais eficazes de combatê-la. O fato de haver um número crescente de jovens brancos “fracassados” é, pelo lado objetivo, uma consequência da atual fase do capitalismo globalizado contra o qual nada se pode fazer individualmente, mas pelo lado subjetivo depende do jovem aceitar os critérios neoliberais de “sucesso”. Mesmo com pouco dinheiro, jovens igualmente subempregados ou desempregados encontram autonomia, dignidade e companhia afetiva e sexual ao abraçar ideais alternativos, abandonar as expectativas de gênero tradicionais e viver como lhes agrada em meios multiculturais e multirraciais. 
Mas como fazer os rapazes do 4chan entender -- mais ainda, sentir -- a possibilidade de realização fora dos valores patriarcais e capitalistas, ainda mais se os pais, a escola, a mídia e até alguns biólogos continuam a lhes garantir que esses valores são naturais, inscritos na ordem das coisas, nas leis divinas ou nos próprios genes?