segunda-feira, 9 de novembro de 2015

NUNCA FALE DA SUA VIDA SEXUAL PASSADA COM OUTRO HOMEM

Alguns comentários que valem a pena no post da moça que ficou muito mal depois que o namorado francês terminou com ela pois, antes dele, ela tinha tido parceiros sexuais demais (oito aos 30 anos -- sim, sério!).

"A primeira coisa que pensei: ainda bem que é ex!
Nossa, passou álcool gel no computador depois disso? Rodou um antivírus? Vai que misoginia pode infectar virtualmente. Melhor se precaver.
Agora, fica a lição: por favor, não faça mais coisas para agradar homem nenhum, ever, jamais. 
Não transe para agradar, não se comporte para agradar, não se vista para agradar, não gaste seu dinheiro para agradar. Você tem que viver PARA VOCÊ. Não importa se o cara é legal ou não, você não tem obrigação de se sacrificar POR NINGUÉM.
Compre as lingeries porque você gostou, porque sobrou um dinheirinho, faça uma viagem porque você quer conhecer o lugar e vai valer a pena. Esqueça essa história de 'agradar homem'. 
As suas motivações na vida não devem servir para agradar outra pessoa (e aí já estendo a questão, não adianta viver para atender as expectativas dos outros, não somente as dos homens). Por favor, pense a respeito. comece a pensar melhor no que te motiva a fazer as coisas, se vc faria mesmo que a pessoa X não existisse.
Sei que é difícil a gente entender que a opinião que os outros têm de nós não significa nada. O que os outros vão pensar de vc está fora do seu controle, mas a maneira com a qual vc lida com isso está ao seu alcance. Vc não precisa absorver todo esse veneno. Você não MERECE isso. Você é adulta, vive a sua vida e não deve prestar contas a NINGUÉM, muito menos a um misógino transatlântico.
Tô te mandando um abraço bem aconchegante, espero que vc entenda que não tem problema nenhum em transar com quantas pessoas for (inclusive se for zero). Respeite o seu tempo de lidar com essa traição de confiança, mas saiba que vc não fez absolutamente nada de errado. Será que é justo você se sentir tão mal por ter tido a ousadia de viver a sua vida?
Pense pelo lado bom: você descobriu que o francês é um bosta sem precisar se abalar até a França para isso. Economizou grana, tempo, esforço. Esse bostinha provavelmente manda muito mal na cama, não deve nem saber desenhar um clitóris...
Vc pode ter tomado um baque, mas se livrou de um machistinha. Espero que, a partir de agora, vc se coloque no centro das suas decisões (não de forma 100% egoísta, mas sim, um pouquinho egoísta, sim).
Tudo de melhor para você!" (Mirella)

"Pois já me aconteceu algo parecido, bem menos intenso, mais igualmente estarrecedor. Eu já tinha 40 anos, era divorciada, e, bem, aproveitei bem meus anos de solteirice. Um namorado novo, aparentemente muito aberto, bom de cama (muito bom!) insistia e insistia em saber do meu passado sexual. Quando eu contei, a reação foi horrível, ele ficou afastado de mim algo tipo uma semana, e, quando voltou, o tema virou o preferido para ser motivo de discussão. Um porre.
Quando contei o ocorrido ao meu psiquiatra, um homem de uns 40 anos também, de mente aberta (aparentemente), que tinha me ajudado muito em várias questões, ele me perguntou quando eu ia me decidir a entrar para o mundo adulto. Eu disse na hora: 'Se o mundo adulto significa hipocrisia, nunca.' Mas olha, com o passar do tempo, e a repetição da história, cheguei à conclusão: NUNCA FALE DE SUA VIDA SEXUAL PASSADA COM OUTRO HOMEM. 
Pai, você está vivendo no passado!
Este é o século 14!
Por mais aberto que ele pareça. Não precisa mentir, apenas diga que é uma questão privada, e PONTO. Sério, meninas, os caras são inseguros, o feminismo precisa avançar muito ainda e ensinar aos homens a serem mais seguros nessa área. Por enquanto, o tema é espinhoso e só nos traz desvantagens. 
Se eu estiver sendo machista, desculpem, me corrijam, e, sobretudo, vocês que são mais jovens, corrijam o mundo. Quero muito um mundo melhor para a minha filha." (Anônima)

"Olá Lola, eu me chamo Luis e gostaria apenas de te dizer uma coisa: Obrigado por tudo que tens feito por mim sem sequer o saberes. Graças a ti eu mudei meu jeito de pensar e a cada dia tenho esperanças de que um dia o mundo será igual para todos. 
Pela minha falta de sorte nasci no continente mais machista do mundo, onde mulheres e homens todos são machistas. Fico triste com esta situação. As mulheres daqui (vivo na Guiné Bissau) desde crianças são educadas a servir os maridos a saberem fazer todo o tipo de trabalho. Já os rapazes daqui nem sequer podem chegar perto da cozinha que são chamados de viados. 
Eu mesmo um dia quase briguei com a minha prima porque ela disse que uma menina não pode levar o namorado para transar em casa e que só um menino é que pode fazer isso porque ele é homem e os homens é que mandam, porque nenhum pai vai aceitar para a filha dele ser (me desculpa pela expressão) 'fodida' em casa mas caso seja um menino o pai terá orgulho. 
Eu refutei e disse para que ela pare de usar essa expressão ser 'fodida', pois no sexo vocês se fodem um ao outro, e que esse pensamento dela é muito machista. Logo ela ficou furiosa a dizer que machismo não existe e que a mulher nasceu para isso (servir o marido) pois os homens são fortes e eles é que mandam. Fiquei desapontado com o que ela falou e ela começou a me chamar de viado só por defender as mulheres e os seus direitos. 
Infelizmente o machismo está longe de acabar na África por causa da religião muçulmana e cristã principalmente. Não sei se pelo facto de eu ser gay (embora não sou assumido e estou longe de me assumir por medo de morrer) e nunca ter me identificado com a realidade de cám mas hoje em dia tenho orgulho de ser um homem feminista. Continua assim, Lola, o teu blog está mudando vidas." (Luis)

domingo, 8 de novembro de 2015

DEPOIS DO TERREMOTO

Olá, pessoas queridas. Gostaria de dar um retorno a vocês sobre tudo que aconteceu nesses últimos dias (venho falando disso incessantemente no meu Twitter, mas são meios diferentes). 
Terça, dia 3, eu realmente fiquei pra baixo com a repercussão adquirida pelo site de ódio que Marcelo Mello criou em meu nome. E me senti sozinha, isolada, desamparada. Mas eu sou forte e, graças ao apoio de vocês, fiquei mais forte ainda. Recebi milhares de tuítes de apoio (vários com a tag #ForçaLola), dezenas de emails, e mais de 430 comentários, quase todos muito carinhosos (deixei algumas ameaças lá pra vocês verem). SUPER OBRIGADA, gente!
Só um exemplo entre os inúmeros comentários lindos deixados aqui
Os coletivos feministas certamente demoraram para se posicionar, mas o apoio veio também. Como não estou no Facebook, dependi de pessoas me enviarem links e prints do que rolou por lá. E sei que o #ForçaLola (com cedilha, por favor!) por lá foi enorme também.
Depois que a Ouvidoria da UFC (cumprindo seu papel, eu sei) recebeu denúncias por causa do site falso e me pediu explicações -- que eu dei, inclusive enviando o boletim de ocorrência que eu havia feito em 8/11, logo após o site de ódio ser lançado --, o Centro de Humanidades da UFC divulgou nota de apoio a mim.
Clique para ampliar.
Na última vez que estive na UFC, na tarde de quinta (passei o dia inteiro de sexta indo e voltando de BH, para uma palestra que já estava marcada), recebi vários abraços queridos de alunxs e professorxs. Eu me senti bem acolhida. 
Sexta na UFMG
O reitor também está indignado e iremos nos encontrar esta semana para tomar providências.
Sim, estou em contato com ativistas e advogadas e vamos colocar o Ministério Público para nos ajudar. Vou até o fim. Vou processar vários desses seres que articulam ataques orquestrados a feministas.
Obrigada a minha querida colega e amiga Andréia!
Muitos veículos da grande mídia me chamaram (e continuam chamando) para dar entrevistas. Agradeço a todos. Destaco alguns (tem entrevistas que dou e que nunca fico sabendo onde ou se saíram, porque o pessoal não me dá retorno):
“Site que prega discurso de ódio é criado em nome de Lola Aronovich”. Revista Fórum, 3/11.
Publicado hoje na Folha,
seção "O que elas disseram"
“Site que oferecia abortivo em nome de professora da UFC é falso”. O Povo. Fortaleza, 4/11.
"Uma mulher tem sofrido ameaças por causa de um site fake e ninguém faz nada. O que está acontecendo com a gente?" Por Carol Patrocínio, 4/11.
“Blogueira feminista denuncia campanha de difamação na internet”. UOL Notícias. RJ, 4/11.
“Jout Jout Prazer e outras páginas feministas são retiradas do ar ou parodiadas na web.” Marie Claire, 4/11.
“Recebo ameaças de estupro, tortura e morte”, conta blogueira feminista”. Rádio CBN Noite Total com Tania Morales, 5/11.
"#Agoraéquesãoelas. Querem nos fazer chafurdar na lama do machismo". Coluna de Zélia Duncan no Globo em 6/11.
"De onde vem o câncer da internet brasileira: estupro, racismo, pedofilia, homofobia, ameaças de assassinato e difamação". Gazeta do Povo, Curitiba, 6/11.
“Calar-me não é uma opção.” Entrevista comigo na coluna de Monica Bergamo. Folha de SP, 6/11.
“'O feminismo é para todo mundo, tem que ser uma luta contra todas as opressões', diz Lola Aronovich”. Jornal O Povo. Entrevista de Amanda Araújo comigo. 7/11.
"Meu nome é Lola. E estou ameaçada de morte por ser feminista". No #Agoraéquesãoelas, no Blog do Sakamoto. UOL, 8/11.
Acho que o artigo da Gazeta foi tirado do ar, porque Marcelo e seu chan (se quiser vê-lo, você deve copiar o endereço https:// dogolachan.org/ b/ index.html, tudo junto, porque eles redirecionam para outros lugares) deram pra ameaçar o jornalista que publicou o texto. Isso é o que eles fazem -- ameaçar jornalistas e professoras.

Mascus que o digam
Ah, fui chamada para falar no Congresso Nacional, em Brasília, mês que vem, sobre violência contra a mulher e mídias sociais. E tudo isso é só uma parte.
Infelizmente, as ameaças continuam e o site de ódio no meu nome ainda está no ar. Primeiro Marcelo o removeu, não sem antes me ameaçar no meu blog de verdade:

E foi ele que o tirou, não eu, não a polícia, não a justiça. É o autor de um site de ódio hospedado na Malásia e feito para me difamar que decide se quer continuar difamando e ameaçando.
Depois Marcelo mudou de ideia e voltou com o site falso, desta vez colocando meu endereço e telefone residenciais em letra grande em todas as postagens.

Uma hora depois de publicarem isso no
chan, já estava no site falso
A última dos mascus foi inventar que o grupo Anonymous hackeou o site falso em meu nome para me ajudar, mas, no processo, descobriu que o site está codificado no nome do meu marido, "alguém com grande habilidade em redes de computadores" (ha ha, ele sabe um pouco mais do que eu, que não sei nem baixar série de TV no Torrent -- Silvinho sabe!). Ou seja, "o site é uma mentira vitimista para angariar simpatia, seguidores em redes sociais e repercussão em jornais tanto para seu proveito pessoal quanto para levar para frente sua agenda abortista".
Plano infalível do Marcelo Cebolinha Chola Mais no. 5,475
Fala pro Roger e pro Olavão que eles acreditam!
O Anonymous Brasil já desmentiu a farsa (obrigada, pessoal):
Com mais este golpe, é provável que o blog falso em meu nome volte com as postagens com meu endereço
Como acompanho o chan do Marcelo há meses, não me choco quando vejo a distorção da realidade que ele e sua meia dúzia de seguidores fazem. Em certos momentos foi até divertido vê-los narrando os acontecimentos:
"Lola não é ninguém, ninguém liga pra ela, é uma completa desconhecida, não tem onde cair morta, foi abandonada pelas feministas"
"A revista Fórum publicou um texto apoiando ela, mas a revista Fórum não é nada, só uma revista esquerdista, ninguém lê!"
Muito apoio das pessoas lindas
"Lola deu entrevista na CBN, mas essa rádio ninguém conhece, ninguém ouve! E a jornalista ri dela durante a entrevista!"
"Lola saiu na Folha. Ninguém dá uma foda pra ela!"
E, óbvio, aparece sempre a vontade insuperável de Marcelo se declarar vencedor diante de seu séquito de meia dúzia de misóginos, mesmo quando ele foi fragorosamente derrotado:

Sua intenção expressa era acabar com minha reputação através do site falso em meu nome e, se possível, fazer com que eu fosse (literalmente) linchada na rua. Não conseguiram. Eu só saí mais forte.
 

Só gente muito ignorante ou sem escrúpulos pra acreditar num Marcelo ou um chanzinho da vida. Os reaças mais famosos que os divulgam não têm coragem de se atrelar a figuras tão criminosas quanto Marcelo, que ninguém entende o que está fazendo fora da cadeia.
Homenagem do Canal das Bee
Vocês, pessoas queridas, falaram: Machistas, não passarão! E não passaram. Pelo menos por enquanto. Mas precisamos sempre continuar lutando. E lutando juntas, de preferência. Sei que é um clichê, mas é verdade: juntas somos mais fortes.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

AS COMPARAÇÕES ESDRÚXULAS QUE ELES FAZEM

Não sei nem de onde veio este festival de besteiras e mentiras. Mas é incrível como eles nunca param de comparar. 
Eu sou uma das campeãs das comparações. Esta abaixo, por exemplo, é antiga e já circula na net há anos:
Quer dizer, colocar "feminista" como oposto de "feminina" (no clichê "Não sou feminista, sou feminina") equivale a carimbar como "ignorante" quem diz isso. 
É como o carinha que usa o termo "feminazi". Usou, provou que é uma besta preconceituosa que não sabe nada de nada.
Quando a galera faz essas comparações esdrúxulas, cheias de generalizações, está simplesmente atestando que não é muito inteligente. Porque, sei lá, rapidinho, só respondendo à primeira imagem (a comparação entre mulher feminista e mulher conservadora):
- Ahn, um monte de feminista tem marido. Começando por mim, casada há 25 anos. E um monte de mulher conservadora não tem marido, por mil e um motivos. Ter ou não ter marido não é indicativo de nada.
- No segundo item, os energúmenos provavelmente estão falando da Marcha das Vadias, protestos em que milhares de mulheres participam em todo o mundo -- e a maioria não mostra peito e bunda. A menos que os caras considerem "mostrar" peito e bunda... ter peito e bunda?
- Ai ai, grande parte das feministas se depila, logo, não tem pelos nas axilas. Mas e se tivesse? Ter pelo nas axilas quer dizer que a mulher não pode ser bem cuidada e cheirosa? Isso vale também pros homens que têm pelos nas axilas?
- "Agindo como homem"... O que é "agir como homem"? Amiguinho, senta aqui pra gente conversar: juro que o que as mulheres feministas menos querem é ser homem ou agir como eles (quais?). Eu quero mais é derrubar o modelo tóxico da masculinidade!
- Sim, precisar de homem (ou de mulher), ninguém precisa! Mas é bom e eu gosto. E quem generaliza são vocês -- que acham que toda feminista faz isso ou aquilo, ou que toda mulher conservadora pensa assim ou assado, ou que mulheres têm "funções diferentes" às dos homens.
- Ah, e o que acontece com a mulher conservadora que é feminista? Porque elas existem!
Eu queria ter respondido de um jeito bem humorado e infelizmente não consegui. Talvez vocês consigam isso nos comentários?
Mas, só pra terminar, uma imagem do protesto contra o PL 5069, que quer proibir o atendimento a vítimas de estupro.

O protesto exigindo a saída de Eduardo Cunha reuniu milhares de mulheres no Rio na penúltima quarta-feira. Entre elas, jovens mães feministas. Porque é totalmente possível ser feminista, mãe, e ser a favor da legalização do aborto. E, pasmem, algumas dessas lindas devem até ter marido!

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

GUEST POST: O FEMINISMO TEM SIDO MINHA FORÇA E O BLOG, MEU REFÚGIO

A S. me mandou este relato já faz um tempinho:

Eu acompanho seu blog já faz alguns anos. Com 17 anos comecei a acompanhar com mais frequência e depois com 19  a ler praticamente todos os textos e assim faço até hoje, já com 21 anos. Te admiro. Pelas iniciativas, conquistas, pela luta, por tudo que me serviu de inspiração e base pra hoje eu poder dizer que sou feminista sem medo e sem dúvidas como um dia eu já tive. 
Já achei que ser feminista era odiar homens, hoje eu sei que isso é misandria. Já achei que ser feminista era tantas coisas que tenho até vergonha de dizer que pensei, mas apesar disso dentro de mim sempre fui uma feminista só esperando a base e hoje não vejo motivos pra não ser.
Eu já fui abusada de diversas maneiras, assim como tantas mulheres que acompanho no seu blog. E me dói por essa dor ser tão comum entre nós. Eu tinha um primo que me enforcava quando eu tinha uns 4 anos e dizia que eu não poderia contar a ninguém (eu até contei mas não resolveu muita coisa). Lembro das vezes que minha mãe dizia pra fechar as pernas, pois afinal os homens são pervertidos. Eu bloqueio lembranças, porém fico remoendo muitas delas o tempo inteiro. 
Sofri bullying na escola. Com 9 anos eu já tinha pelo no corpo, axilas, partes íntimas e os da perna estavam engrossando e já não eram mais loiros e ralinhos. Meus seios cresceram rápido. Minhas amigas falavam: enquanto a gente tem metade de um limão, a S. já tem um limão inteiro. Os garotos mais velhos se interessavam, buzinavam na rua e eu pensava "Que legal, eles me acham bonita". Sim, eu já pensei assim.
Depois veio a explosão de hormônios. Eu tinha tanta raiva dentro de mim. Me odiava. Chorava todos os dias. 
Quando estava na primeira série me apaixonei pelo garoto da minha sala que era filho da professora da segunda série. Quando fui pra segunda série entrei em pânico. Quase não queria ir pra aula. Eu tinha feito cartinhas com desenhos, e todos me disseram que a mãe dele ia me expulsar da escola. Eu acreditei. A mãe dele, minha então professora, colocava chapéu de burro em mim e mandava cheirar parede até "aprender a responder em voz alta". Depois ela me mandou ir pra psicóloga pela timidez, e por tudo mais. 
Ainda na escola, lembro quando os garotos passavam as mãos em mim, por dentro da minha saia, isso até a sexta série. Lembro quando um tentou me agarrar depois de uma apresentação no auditório da escola e se encoxou em mim, queria me forçar a beijá-lo. Lembro do meu primeiro beijo lá pelos 11, 12 anos. 
Uma garota que me odiava começou a selecionar garotos na escola, segundo ela alguém ia querer ficar comigo. Quando um garoto quis, eles me trancaram na sala de aula assim que o professor saiu, colocaram o garoto pra dentro da sala e só me deixariam sair se eu beijasse ele. Eu beijei. Mesmo com todas aquelas pessoas me olhando e fazendo pressão, dessa vez eu não consegui correr. Então pensei: agora vão parar de cantar 'maria sapatão, sapatão, sapatão, de dia é maria e de noite é joão' enquanto eu ia pra casa -- e isso porque eu não tinha beijado ainda. Mas sabe, não pararam. 
Eu fiquei com uma garota pela primeira vez com 16 anos. Foi na escola. Fiquei sabendo que ela era bissexual então não tive medo de pedir. Fiz até uma música pra ela e apresentei em uma audição de violão. Nessa época eu já era mais despojada, comunicativa, comecei a colorir o meu cabelo de variadas cores com mais frequência e isso permaneceria até uns 2 anos atrás.
Eu decidi fazer tentar o vestibular, sem estudar, só pra ver. Acabei passando. Só que no segundo ano da faculdade comecei a me sentir inútil. Trabalhei pra pagar a faculdade -- não consegui bolsa 100%. Acabei trancando a faculdade e me arrependo.
Quando tranquei a faculdade, estava à beira da minha crise depressiva mais forte de todas. Eu estava ficando com uma garota na época. Simplesmente me afastei de todos. Deletei redes sociais que permanecem deletadas até hoje. Fiquei seis meses na cama. Engordei 50kg. Larguei o cigarro e os remédios de supetão. Passei por crises de abstinência horríveis. 
No começo de 2013 decidi ir trabalhar. Comecei ganhando $600 pra andar o dia inteiro no sol, levando dinheiro pra cima e pra baixo, era cansativo. Mas conseguir interagir de novo foi um passo largo pra mim. 
Como no escritório eram maioria mulheres e um garoto, todos que chegavam diziam: "Coitado, ter que aguentar tanta mulher o dia todo". E adivinha, elas achavam graça, concordavam, afinal é insuportável conviver com mulheres, né? Antes de sair daquele emprego, eu tirei um mês de férias, estava muito, muito estressada. E não era porque eram mulheres, mas pelas coisas que eu ouvia todo dia, pelo garoto que trabalhava lá achar legal violência com as próprias mãos, andar armado. Por acharem que mulher tem que se dar valor. 
No tempo que eu fiquei reclusa, eu via pela cidade o movimento feminista tomando conta. Toda vez que eu passava por algum texto feminista colado em alguma parede, alguma frase grafitada, qualquer coisa, eu queria correr e achar o grupo que estava fazendo isso e pedir pra participar pois só consentir não era o bastante. Ainda espero encontrar essas pessoas.
E querem saber de uma coisa? Sim, eu sou virgem. Já tive chance de transar com mulher e com homem, mas eu não cheguei ao ponto da penetração, nunca consegui chegar a esse ponto. Tenho que trabalhar nisso também, e parar de mentir pra mim mesma que eu já perdi a virgindade. Até contava casos prx amigxs histórias que nunca aconteceram, ou que aconteceram, mas não chegaram ao final de contas.
Escrevendo isso eu vejo como todas nós mulheres temos muito em comum, todas temos uma luta eterna.
Eu luto com a minha mente o tempo todo pra seguir em frente, e o feminismo tem sido minha força, e o blog, meu refúgio.