terça-feira, 28 de novembro de 2006

CRÍTICA: INFILTRADOS / Infiltrado no Oscar, desde já

Fazia tempo que eu e o maridão não discordávamos tanto de um filme. Eu gostei muito de “Os Infiltrados”, ele detestou muito. Mas isso demonstra que ele não me compreende. Eu tava lá tensa, nervosa, estrangulando a mão dele, e ele pensando que eu tava odiando?! Obviamente a minha opinião é mais inteligente que a dele, e a prova é que os críticos americanos põem “Infiltrados” lá em cima. Digo mais: esta nova aventura do Martin Scorsese deve concorrer a vários Oscars.

É mais ou menos sobre a máfia irlandesa. Sai New York, New York, cenário tradicional dos filmes do Marty, entra Boston. Há dois policiais, o Matt Damon e o Leonardo DiCaprio, e um ultra-vilão, o Jack Nicholson, lembrando um Vinicius de Moraes versão malvada. No começo até me preocupei, porque confundi o Matt e o Leo. Ambos são loiros e lindinhos. Mas essa confusão é proposital: os dois precisam ser iguais e opostos ao mesmo tempo. Tem também o Mark Wahlberg (“Planeta dos Macacos”), que eu nem reconheci. Todo o elenco tá ótimo, inclusive uma atriz desconhecida (Vera Farmiga) e nada bonita que se envolve com os loirinhos. Acho que até o fato d’ela ser toda torta dá esperança às espectadoras: um dia, o Leo e o Matt podem ser nossos.

Então, o personagem do Jack é um poço de maldades, e tem as falas mais espirituosas. Ele é um ator maravilhoso e a gente só espera que ele seja sempre assim. Claro que ele está à vontade, faz suas gracinhas, como quando imita um rato. Indicá-lo pro Oscar será super óbvio. Quero ver é indicarem o Leo, que carrega a trama. Pra mim, é mostra da inteligência do Scorsese escolher o Leo pra ser seu novo De Niro. É o terceiro filme consecutivo com ele, e o Leo melhora a cada vez. Chega uma hora em que ele conta como é fazer companhia a um psicopata: seu coração bate a mil por hora, morrendo de medo, mas suas mãos nunca tremem. Porque, se tremerem, verão que está mentindo, que seu papel é pura ficção. Acho que o Leo transmite isso perfeitamente. E mesmo quando ele tem que mentir, e mente mal, ele está arrasador. Ok, o Jack tá bárbaro, o Mark idem, mas um é mau, o outro nervosinho, respectivamente, o tempo todo. Os papéis do Leo e do Matt são muito mais complexos.

Tem várias coisas instigantes no filme, a começar pelo roteiro de William Monahan, de “Cruzada” (acredite se quiser, trata-se de uma refilmagem de “Conflitos Internos”, produção chinesa de 2002). “Infiltrados” enfoca os nossos vários papéis do dia a dia. Pra cada grupinho interpretamos um personagem. Atuamos de uma maneira pro chefe, outra pro nosso amor, outra pro cachorrinho. Até aí tudo bem, quero ver é fingir ser um criminoso pra se infiltrar na máfia. Talvez por isso a primeira metade seja superior à segunda. O fim é meio frouxo e a cena final não tem sutileza alguma, mas o ritmo é excelente. Tem gente que acha “Taxi Driver” e “Touro Indomável” chatos, por exemplo. Aqui não há tempo perdido. A única cena que eu tiraria seria a de sexo. Não que “Os Infiltrados” vire “Os Infiltarados”, mas a cena pára o filme. Tudo bem, dá pra entender por que ela tá lá: pra fazer um contraponto ao outro sujeito, que é impotente. É até bom que mostrem a moça transando com só um dos carinhas, porque a omissão fala um monte sobre a sexualidade de cada um. Mas corta o ritmo. E uma das minhas cenas preferidas é quando um liga pro outro, e nenhum tem coragem de sequer dizer “Alô?”. Só não entendi quando um cidadão é seguido. Se alguém sabe com quem ele tá se encontrando, é caixão pra eles. Aí ele diz o nome do outro pelo celular?! Isso é serviço de inteligência?

Este é o melhor momento do Martin Scorsese desde, vejamos, “Cassino”. Acho melhor que “Os Bons Companheiros”, mas não sou a maior fã deste filme. Pelo jeito tem dois riscos pro Marty não receber seu merecido e atrasadérrimo Oscar: a) o Clint Eastwood ganhar dele de novo; e b) algumas cenas de “Infiltrados” serem parecidas demais com o original, dizem. Se for verdade, por que dar a estatueta dourada ao Marty, e não ao diretor chinês que ninguém no mundo fora a mãe dele conhece? Opa, a formulação da minha pergunta já fornece a resposta. Foi sem querer.

CRÍTICA: INSTINTO SELVAGEM 2 / Nem cruzando os dedos

Fui ver “Instinto Selvagem 2” cruzando os dedos, mas com boa vontade. Afinal, o trailer não era tão hediondo, e, principalmente, sou bem fã do primeiro “Instinto”, o de 92. Tudo bem, o filme de 14 anos atrás é trash, é machista, homofóbico, ridículo em várias partes, mas foi também a última vez que o Paul Verhoeven mostrou que tinha algum talento. Mesmo que metade dos espectadores não tenha compreendido o final confuso (o picador de gelo pertencia à Sharon Stone), era uma historinha bem contada, um thriller sexy, cheio de toquinhos inteligentes, como a decisão de não mostrar o que o Michael Douglas considerou “a transa do século”, porque nenhuma cena, claro, iria corresponder às expectativas. E a cruzada de pernas da Sharon virou ícone, sem dúvida. Até hoje lembro do pôster genial de uma comédia qualquer que parodiava “Instinto”. Mostrava as pernas cruzadas de uma mulher e a chamada, no colo, “Opening Soon”. Não dá pra traduzir o trocadilho, que não se refere apenas a abrir as pernas, mas também à estréia em breve. No entanto, apesar de todo o estardalhaço, ninguém, tirando talvez o empresário da Sharon, estava ansioso por uma seqüência. Mas eis que ela veio sem ninguém pedir. E andam espalhando que a parte três vem aí, poupe-me, ó Senhor.

Não é que “Instinto 2” seja ruim. Não, ruim não. É péssimo. Nesta ocasião a escritora interpretada pela Sharon mais ou menos repete o esquema do primeiro (sedução, manipulação, assassinatos múltiplos), mas o coitado da vez deixa de ser um detetive e passa a ser um psiquiatra. Já começa com a Sharon tendo um orgasmo, digamos, explosivo, usando um dedo de um cara que mais parece um cadáver. Devo admitir que nunca tive um orgasmo assim, dirigindo um carro luxuoso a 160 km por hora e culminando num mergulho no Tâmisa. Aliás, não dá pra entender por que tantos paspalhos insistem em se envolver com uma mulher que é a maior chave de cadeia, ou chave de cemitério, ou chave de manicômio, no mínimo. Perguntei pro maridão se ele cairia por ela, se ela por acaso o escolhesse pra protagonizar um de seus romances e quisesse ter aulas de xadrez. A resposta dele: “Pagando, fazemos qualquer negócio”.

Mas como todo mundo vai ver “Instinto 2” só pra observar a Sharon, vou falar sobre ela. Sempre gostei da Sharon. Ela esteve ótima tanto como canastrona em “O Vingador do Futuro” quanto em papéis sérios como “Cassino”. Mas é muito triste que uma boa atriz beirando os 50 só possa ser isca de bilheteria se continuar aparentando 30. E como a natureza não perdoa, dá-lhe botox e cirurgia plástica. Pelo que sei, o objetivo desses troços é suavizar as linhas de expressão. Mas repare no nome: linhas de expressão. Se já é grotesco prum mortal ficar inexpressivo, com o rosto todo esticado, prum ator é pior ainda. A Sharon atualmente não consegue fazer mais que levantar um cantinho da boca ou uma sobrancelha (nunca os dois ao mesmo tempo). Ela acaba parecendo uma boneca de cera, tadinha. Daí que a Charlotte Rampling (de “O Porteiro da Noite”) tá mais bonita que ela. Enquanto eu perdoei a Charlotte até quando ela exclama “Oh, que lacaniano!”, a Sharon já é candidata imbatível à Framboesa de Ouro do ano que vem, que premia os piores.

Pensando bem, “Instinto 2” não merece o dois no título. A personagem da Sharon parece não ter passado, os outros personagens são todos novos, e agora a cidade é Londres, não São Francisco. A única coisa igual é a Sharon. Quer dizer... Hum, pensando melhor ainda, o único motivo pra ver este desastre tedioso (eu dormi) é pra conferir como uma pessoa auto-confiante se comporta. Cruza as pernas sem usar calcinha, fuma onde não pode, por aí vai. Você acompanhou um estudo divulgado a algumas semanas sobre se ser bonito ajuda no trabalho? Dizem que ajuda, porque os belos são mais auto-confiantes. Então o segredo não é ser bonito, mas ser auto-confiante. Portanto, mesmo que a gente não consiga ser uma Sharon Stone de 14 anos atrás, só tem que passar auto-confiança. Ou seja: pra que botox, pelamordedeus?

CRÍTICA: O GRITO 2 / A mulher que arrota e o menino que mia

Ou “O Grito”. Dois. Minha mãe até quis saber: “O primeiro Grito era tão bom assim pra justificar uma seqüência?”. Nessa hora notei que só lembro do “Grito 1” porque adicionaram um 2 ao segundo. O primeirão até que não era ruim. Mas este é um lixo total, sem salvação. De todos os terrores com inspiração japonesa que chegaram a Hollywood, este é sem dúvida o pior. Não assusta, não tem história, não faz sentido. São só esquetezinhos separados, sem relação, tentando meter medo, querendo nosso dinheirinho sem oferecer nada em troca. Se pelo menos o clima fosse de um horror envolvente, mas não. Há vários momentos mortos. Por exemplo, uma guria contando que havia brigado com a irmã. Quem dá a mínima? Eu geralmente sou muito solidária, mas na ocasião só pensei: a gente nem te conhece, tem uns monstrinhos à solta na parada, e você vem nos contar suas frustrações? Morra!

No começo era uma casa assombrada. Agora houve uma globalização do medo, uma epidemia do Japão para o mundo. Se eu entendi direito, o troço fugiu de controle. A parte três (que desde já aviso que não vou assistir), marcada pro ano que vem, será um filme de zumbis, imagino. Neste 2 tem um momento em que alguém diz: “O que começou não pode ter fim!”, e, mesmo que essa alma maligna morra em seguida, se a profecia dela estiver se referindo a essa franquia, Deus tenha piedade de nós. Depois outra alma penada diz: “Isso tem que acabar!”. Acho que ela se referia ao filme, não à franquia. Quando terminou, juro que houve um princípio de vaia. Uma moça atrás de mim falou pro namorado: “Que sem graça!”.

Uma cena que cativou o público (digamos, a única que gerou alguma reação) foi a de uma colegial que vê um fantasma e faz xixi de tanto medo. Não entendi o porquê, mas o público se mijou de rir. Se bem que acho que o xixi tem uma ligação emocional com o primeiro filme. Lá alguém não banha uma idosa com urina? Ou era assim que “Todo Mundo em Pânico 4” parodiava o um? Mas os espectadores perderam a maior atração, logo no início, quando uma mocinha entra num armário de uma casa mal-assombrada. Permita-me repetir: há uma casa mal-assombrada. Há um armário na casa. Há uma débil mental que sente que sua vida só será completa se ela entrar nesse armário. Uma pessoa assim merece morrer. Mas o grande mistério é que ela entra no armário e seus lábios ficam automaticamente vermelhos. Ela não tinha batom antes de entrar, agora tem. É um armário auto-maquiador. Pensando bem, várias mulheres topariam enfrentar fantasminhas que imitam barulhos de arroto e miado pra saírem de lá ultra-maquiadas.

Por falar em vaidade, tem uma cena que deve ser o pesadelo das patricinhas: montes de cabelo caindo durante o banho. A personagem em questão leva alguns minutos pra notar que os fios no ralo são negros e lembrar-se que ela é loira. Mas isso é pouco se comparado a um outro modelo de inteligência superior. Uma líder de torcida vai ver a vizinha. Esta olha feio pra ela, não fala nada, e bebe uma garrafa de leite num só gole. Essa já seria uma boa indicação que a pessoa não anda nada bem, mas em seguida ela vomita todo o leite na mesma garrafa. E a líder de torcida vai embora e depende do irmãozinho pentelho pra lhe informar que a vizinha tá com problemas?! Ela virou líder de torcida porque não a deixaram entrar pro clube de xadrez, né?

É incoerência após incoerência, desta vez com a participação da Jennifer Beals, de “Flashdance”, fazendo um papel mais perdido que monstrinho em armário japonês, e a volta da Sarah Michelle Gellar, de “Buffy”, caindo pelas tabelas. Literalmente. Continua aquela irritante panacéia de filme de terror. Alguém morre num recinto. A próxima vítima decide perguntar “Nate? Nate? Trish? Trish? Pai? Pai?” e entrar no mesmo lugar. Só que nem isso assusta, porque a gente sabe que até uma produção chinfrim precisa ter um pouco de criatividade, então esse infeliz não vai morrer no mesmo local. Se não daria um filme mais monotemático que a campanha do Alckmin: sujeito A entra em quarto de revelar foto. Morre. Sujeito B, procurando sujeito A, entra em quarto de revelar foto. Morre. Sujeito C... E assim por diante. Parece uma daquelas pirâmides milionárias dos anos 80. Só me resta implorar: mulheres cabeludas, menininhos traumatizados, aposentem-se, por favor.

CRÍTICA: HAPPY FEET - O PINGUIM / Pra quem nunca ouviu falar em Fred Astaire

Pra quem gosta de cinema pra criança, estreou “Happy Feet: O Pingüim”, mais conhecido como “o do pingüim”. Pelo jeito, humanos são fascinados por pingüins. Isso explica por que têm pingüim em cima da geladeira. Quer dizer, eu não tenho. Também não tenho anões no jardim. Mas a mãe de um dos vizinhos pagodeiros tem, o que explica muita coisa. Enfim, ano passado “A Marcha dos Pingüins” fez enorme sucesso. Eu não vi, primeiro porque não passou aqui, segundo porque sigo rígidas ordens médicas. Um documentário desses pode causar morte por afogamento lacrimal.

Agora chega “Pés Alegres”, do George Miller, diretor do excelente “Mad Max” e roteirista e produtor do meu recordista em dilúvios no cinema, “Babe, O Porquinho Atrapalhado”, que me fez chorar dos créditos iniciais aos créditos finais, sem parar, e mexeu tanto comigo que fiquei sem comer presunto por uma semana. Neste do pingüim eu também esfreguei bastante os olhos, porque o filme tava me dando um soninho... Quase duas horas de pingüins imperadores cantando. Só que as músicas são ruins e sem unidade. Descontando uma do Queen e “Boogie Wonderland”, o repertório é bem fraquinho. Pra quem tá acostumado com musicais de Fred Astaire e Gene Kelly, pingüins sapateadores não parecem ter muito jeito pro ofício.

Sem falar que é a maior propaganda enganosa. A gente viu centenas de trailers deste filme e nenhum falava do personagem principal. Por quê? Porque ele é chatinho. Acho que não preciso falar mais nada se disser que suas feições foram inspiradas no rosto do Frodo Elijah Wood. Quem rouba todas as cenas e arranca as únicas reações do público além do tradicional “que gracinha!” é o Ramón, o pingüim latino que fala portunhol. Claro que existe um recado à tolerância. O protagonista é discriminado por não ser igual aos seus pares, mas sem profundidade.

Depois de uma parte estranha em que o filme vira “Footloose”, com anciãos condenando o caos social trazido pela dança, vem uma mensagem ecológica. Até aí, banal. Todo desenho animado desde “Bambi” tem mensagem ecológica, tirando, talvez, “O Bicho Vai Pegar”, que não condena a caça, apenas um caçador. Acho que o recado dos pingüins é: humanos, vocês são malvados porque comem peixe. Eu, que não como nada que venha do mar, fiquei tentada a escrever cartazes dizendo “Salvem as baleias pros pingüins” e promover uma manifestação onde todos balançariam os cartazes enquanto sapateássemos. Aí lembrei que o musical custou 85 milhões de dólares. Com essa fortuna, dava pra alimentar um bocado de pingüins.

Até achei interessante que os animais nos vejam como alienígenas. E se eles nos acham maldosos pela caça predatória, esperem até que derrubemos óleo no habitat deles. No fundo o filme do pingüim só serve pra gente voltar a fazer campanha defendendo a abolição do trema. Ou é da trema? Viu como é complicado?

CRÍTICA: GARFIELD 2 / Nem criança merece

Eu queria chorar. Já não havia estreado nada no final de semana passado, e agora a única estréia foi “Garfield”. Dois. Dublado. O trailer vale como advertência pra não enfrentar essa comédia que dura uma hora e quinze, mas deu a impressão de terem sido as três horas mais longas da minha vida desde “Senhor dos Anéis”. Mas, como disse um crítico americano, “As crianças deveriam ver ‘Garfield 2’ porque pode prepará-las para a vida de entretenimento medíocre que as aguarda”.

Por onde começo? Declaro orgulhosamente que escapei de “Garfield 1”. Até gosto do Garfield das tirinhas, ou melhor, gostava no início, quando ele era mais felino, menos humano. Mas quem ainda é apaixonado pelo personagem dos quadrinhos pode conferir que várias características foram mantidas. Inclusive porque esse tipo de filme é feito com uma listinha do lado pra demonstrar fidelidade ao original. Assim, os produtores checam cada item: Garfield gostar de lasanha? Presente. Garfield odiar segundas-feiras? Presente. Garfield tratar mal o Odie? Presente. Pausa pra eu bocejar. Acrescenta-se um vilão que só está lá pra ter a parte nobre de sua anatomia mordida por vários bichos, e temos um programa construtivo e educacional pras crianças. Problema número um: quem falou que Garfield é pra criança?

No filme o Garfield mal parece um gato. Ele é grande demais. E não é que ele seja necessariamente gordo, é que ele é desproporcional pro resto das criaturas. Gatos gordos não têm o dobro do tamanho da cabeça. Mas deve ser necessário pra que aqueles imensos olhos redondos caibam no rosto. E desde quando gatinhos são tão ativos assim? Esses gerados por computador não dormem 16 horas por dia nem a pau. Aliás, em nenhum momento aparecem tirando uma soneca. E essa é justamente a marca dos gatos, dormir dois terços da vida. Agora mesmo os meus dois estão no estágio alfa (quando viram de barriga pra cima) na cama enquanto eu tô aqui escrevendo sobre essa meleca.

Na tentativa desesperadamente fútil de adicionar algo a um filme estúpido, permita-me discorrer sobre as diferenças entre gatos e homens. Outro dia vi uma palestra onde uma mulher perguntou qual a essência do ser humano. Ela respondeu que são duas coisas: o desejo de se agregar e a linguagem usada pra fazer isso. Hmm... Não sei não. Muitos outros animais (gatos inclusos) também gostam de socializar, e a gente perde feio pras abelhas e formigas nesse quesito. E quanto às linguagens, bom, só porque a gente não entende a língua dos outros bichanos, não quer dizer que eles não falem. Tá provado que golfinhos se comunicam. E parece que toupeiras (meus desafetos devem estar clamando que dessas eu entendo) têm até um som diferente pra cada indivíduo. Então, acho que o que realmente nos distingue é o nosso polegar opositor. Aprendi isso com o magnífico curta gaúcho “Ilha das Flores”, que deveria passar em todas as escolas. Tente ficar com o polegar inutilizado pra perceber como sem ele a gente não é nada. É graças ao dedão que a gente consegue desde estalar os dedos (ok, isso é difícil pra mim) até manusear instrumentos pra abrir latas, por exemplo (outra impossibilidade no meu caso). O próprio Garfield menciona o polegar, esse herói da humanidade, ao declarar algo do tipo “Só porque não temos polegar não quer dizer que não gostamos de jogar fliperama”. Mas, sinto muito, Garfield, quer dizer sim.

E o que isso tem a ver com o filme? É só pra indicar que soa estranho que todos os bichos fofinhos de produtos infantis sejam tão humanizados. Falam como a gente, pensam como a gente, cozinham como a gente, tudo como se estivessem gritando “Olha mãe, sem o polegar opositor!”. Eu até engulo que um monte de animais prepare uma lasanha, mas quem corta a lasanha, hein? Ela já vem prontinha no prato de cada bicho, porque a dura realidade é que lhes falta o polegar que permita segurar um aparato pra cortar trecos. Não que isso nos faça superiores. Eu olho pra mim acordada a essa hora e pros meus gatinhos dormindo até dizer chega na cama e penso, “Quem é o animal irracional?”. Mas Garfield seria melhor se fosse mais gato.

Eu também podia falar das mensagens dessa baboseira. A trama elogia o fato de alguém ter montes de bens materiais – mesmo sendo um gato, mesmo sem precisar de 99,9% desses luxos. Há um outro elogio aqui ao poder, à realeza, à distinção entre reis e súditos. “Garfield 2” declara várias vezes que súditos precisam de reis. Daí eu converso com uma amiga minha e descubro que ela tem grande admiração pela rainha da Inglaterra. No mesmo discurso essa amiga emenda que a Inglaterra é um país mais bem sucedido que o nosso por ter reis, e que o Brasil deveria desenterrar os Orleans e Braganças e instalar uma monarquia. Só me resta concluir: viu como esses filmes são perigosos?