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quarta-feira, 18 de julho de 2012

GUEST POST: COSMÉTICOS, FUTILIDADES, JULGAMENTOS

Ísis, uma universitária e professora de inglês em Brasília, quis comentar um artigo publicado num jornal inglês sobre uma mulher, viciada em maquiagem e demais produtos de beleza, que ficou um mês sem se maquiar ou fazer as unhas. 
Quando eu leio essas coisas, eu penso: um mês?! Grande coisa. Que tal uma vida inteira? Certo, não sou padrão de comportamento feminino, nem mesmo de comportamento feminista (conheço muito mais feministas que usam maquiagem do que feministas, digamos, como eu. E, como não me canso de repetir, não me considero inferior ou superior a quem age diferente). 
Tem bastante coisa que discordo do guest post da Ísis. Mas eu a compreendo, porque já pensei parecido. Quando eu era jovem, ficava agoniada em sair com amig@s ou ir a suas casas e constatar que rapidamente dois grupos se formavam, homens e mulheres. E as conversas nos grupos de homens pareciam mais atraentes pra mim que falar de cabelo, blush, moda, dietas e bebês. Mas acho que resolvi isso escolhendo melhor os amig@s e evitando divisões. Nunca mais participei de papos "masculinos" ou "femininos". 
Mas uma coisa que concordo demais com a Ísis é que precisamos parar de ser tão duras com a nossa própria aparência e com a das outras. Pra quê ficar julgando mulheres? A mídia e nossas famílias já não fazem isso por nós? Por que participar do jogo do patriarcado, e competir entre nós como se o que mais importasse fosse a aparência física?
Eis o guest post da Ísis.

Achei interessante ler esse texto em que a mulher se submete a um mês sem nenhum cosmético que não seja relacionado à higiene, porque eu, como qualquer mulher, sofro de uma constante pressão social implícita para estar constantemente bem em relação a como aparento. Em algum momento entre a infância e adolescência, fui apresentada ao "maravilhoso" mundo dos cosméticos, e isso foi algo decisivo na minha vida, talvez pela minha ânsia de ser aceita, ou talvez pela curiosidade que eu tinha com esses produtos que todas as mulheres usavam e minhas amigas, logo cedo, também. Quando comecei a estudar mais o feminismo, uma coisa que me deixava um pouco atrás era sempre a questão da beleza, dos cosméticos e das maquiagens, porque acabei tendo pra mim a concepção disso como meio de expressão, e modo de me sentir melhor comigo mesma, porque nunca vi tais artifícios como maneiras de agradar ninguém que não fosse eu.
Mas acabo percebendo que na vontade de me sentir melhor em relação a mim mesma, entro também na tênue linha do que é a visão de nós mesmos através dos olhos do outro. A percepção alheia de quem somos acaba sendo fundamental na experiência de como nos vemos, e não estritamente aquilo que julgamos ser. No fundo no fundo, parece que estamos sempre numa correria para aparentarmos estar bem, mas quando chegamos em casa não ficamos maquiadas, com salto e bem arrumadas, perfumadas, porque parece que essa visão nossa através dos olhos admiradores alheios é o que importa, e claro que nos faz sentir bem, mas não deveria ser o único fator de aceitação e tampouco a única maneira de ser vista de forma positiva. 
Por que não incentivar os debates, as discussões e a troca de ideias como forma de aceitação e empatia com o outro, ao invés de a aparência em primeiro lugar? Digo isso porque sempre fui uma aluna participativa, e sempre gostei de saber mais e perguntar para os professores e os colegas os pontos de vista, o que achavam, tirar dúvidas, e não via isso da maioria das outras meninas da minha classe. Recentemente tenho debatido várias questões com amigas, a maioria via internet, e muitas vezes recebo comentários do tipo "não estou querendo brigar com você", ou "não sei tanto sobre o assunto" e sempre esquivas, porque parece que não somos estimuladas a esse tipo de coisa, como se fosse algo ruim e fora do universo delas, enquanto que em debates do mesmo tipo com homens, é sempre algo a ser acrescentado, analisado, e tudo levado numa boa, uma coisa natural e uma troca de ideias.
A maioria das mulheres que tenho como exemplo nem se atrevem a dar a opinião mais bem embasada e aprofundada em relação às coisas, é tudo superficialmente estudado, só para troca rápida de ideias, porque parece que o mais importante é debater a roupa que a outra está vestindo, o cara bonitão, o paquera da vez, criticar a maquiagem da fulana, as técnicas de alisamento da moda, ou a maquiagem da estação. Mas isso tudo cansa muito, Lola. Eu não queria ter que admitir pra mim mesma que a maioria das mulheres é muito chata pra se conversar, porque parecem que só sabem falar de assuntos como esses, e claro que são gostosos às vezes, mas isso cansa demais, parece que só temos isso a acrescentar pro mundo. 
Queria muito poder dizer que a maioria das mulheres se interessa em aprender e debater mais, e estimula seu intelecto com coisas além do universo a que estão acostumadas. O que mais me chocou no relato da mulher do texto, foi ela dizer que não se sentia mais ela mesma, que a falta de maquiagem não era libertadora, que ela sonhava com seus cosméticos, e que o pior era encarar o julgamento dos outros. Passo a me questionar em que, de fato, reside o núcleo do que somos: nos cosméticos ou no nosso cérebro? Nunca vi um homem que temesse não ser ele mesmo se não fizesse sua barba, ou não usasse um terno, sei lá.
Achei interessante que no final a autora do texto falou: "Com nossos julgamentos constantes entre nós, nós mulheres somos nossas piores inimigas. A busca da beleza é tanto uma felicidade como uma maldição. É uma expressão da sexualidade feminina e do gosto pessoal. E no entanto ela nos torna competitivas, fazendo com que gastemos nosso tempo e dinheiro. Ela é, de várias maneiras, um vício -- um a que entusiasticamente voltarei no momento que esta experiência terminar".
Não concordo que a busca da beleza seja uma expressão de nossa feminilidade e sexualidade, porque acho que ser mulher é muito mais que isso, e que para ser mulher não é necessário ser feminina, e não estamos presas a nossa sexualidade (ou ao menos não deveríamos estar), mas acho que é primordial que passemos a buscar maneiras de incentivarmos umas às outras coisas maiores que somente nossa aprência, e principalmente pararmos de julgar umas às outras baseadas nela, e isso desde pequenas, como fala-se nesse texto ("How to talk to little girls"). 
Uma pena que a autora da experiência tenha achado melhor voltar a como estava, entusiasticamente, do que criticar os motivos para se encontrar em tal posição frente a sociedade, ou de procurar saber por que muitas mulheres preferem nem pensar muito em relação a isso. Afinal, de que mais poderíamos ser constituídas senão do fantástico pó de arroz que habita nossa necessaire de maquiagem?

quinta-feira, 29 de julho de 2010

GUEST POST: TINHA VERGONHA DO MEU CABELO

Num post (do ano passado!) em que respondi a perguntas sobre a minha (falta de) vaidade, uma leitora, a Márcia, deixou um comentário muito instigante. Perguntei pra ela se poderia transformá-lo em guest post, ela deixou... e eu coloquei o troço em algum lugar do meu computador e esqueci dele pra toda a eternidade. Mas agora o encontrei entre alguns arquivos antigos, e taí. Uma bonita história de auto-aceitação.

Minha mãe tem cabelos lisos, não um liso lambido, mas lisos. Meu pai não, mas os dele sempre foram bem curtinhos. Tenho 3 irmãos, dos quais duas meninas, e só eu nasci com cabelos crespos, a la Vanessa da Mata, herança genética da mãe de minha avó paterna...
Agora veja a bronca. Meu pai não deixava de comentar a beleza de uma mulher com cabelos extremamente lisos (lembranças de uma paixão frustrada na adolescência, dizem), e minha mãe reclamava muito quando desembaraçava minhas madeixas. Na minha cabecinha de menina, meu cabelo era um senhor problema.
Vivia numa cidade do interior do nordeste. Pobres, estudamos os filhos num colégio de freiras, nos primeiros anos, bolsistas, claro. O fato é que, até começar a me destacar na escola como “uma aluna inteligente” (uma grande merd... esses rótulos...), minha marca primeira eram cabelos crespos, era o que era pontuado em mim, no universo que me cercou nesses primeiros anos de vida, e nem precisava dizer que a marca era negativa, muito negativa. Sem falar nessa coisa complicada de identificação com familiares e a gente ser tão diferente fisicamente, sem ter um reforço positivo pra essa diferença.
O meu reforço positivo era estudar e não ser bonita, porque na minha pequena cuca eu era feia e ponto, mas fazia coisas bonitas, desenhos, pinturas, e demais lições escolares, e isso era suficiente para ter as pessoas ao meu redor. Não preciso dizer que vaidade com a aparência eu não tinha (porque vaidade não existe apenas em função da aparência, convenhamos).
Na adolescência, eu não tinha grana nem muita paciência pra salões de beleza, mas meu cabelo precisava ter uma forma (pra não chamar tanta atenção), assim relaxava pra baixar o volume, usando-os encaracolados.
Aí, aconteceu de me mudar para Recife. Mundo estranho. Eu estava fora do meu ninho, mas cercada dos mesmos amigos, que buscavam, como eu, um curso superior. Fora da minha turma de amigos era muito difícil não me sentir um peixe fora d’água. Aos poucos, a mudança veio, principalmente quando saí da universidade. Nós, os amigos do interior, fomos nos dispersando aos poucos, seguindo profissões diferentes e consequentemente frequentando diferentes ambientes e pessoas. Perdi mesmo um pouco a referência no meio dessas outras pessoas. Eu não era a Marcinha da turma. Fora desta eu era absurdamente tímida, por motivos que não convém por ora. Entrei na noia de cabelos lisos, maquiagem, pra ser vista em outros núcleos. Mas eu não estava em mim, entende? O-ou, algo errado no ar...
Alguns anos de terapia (por motivos fora de questão) e as coisas começaram a mudar... Sabe aquela praia evitada por eu não resistir ao banho de mar, poderoso, maravilhoso mar, por causa da química nos cabelos? Sabe aquela natação evitada por cabelos cobertos até o talo de tanta química não resistir ao cloro? Ah, a tesoura do desejo! Vou usá-la. Preciso eliminar os fios compridos cobertos de química que irão se estragar... Adoro água! Meu deus, como conseguir evitá-la por tanto tempo? Que absurdo! E não é que descobri que sou bela e maravilhosa? Olho os meus cachos da adolescência e me vejo tão bonita!
Agora, maquiagem, a-d-o-r-e-i, acho que faz parte do processo de me sentir bonita, não por ela em si, mas funciona como uma brincadeira, uma forma de demonstrar que dá pra ser diferente a cada dia se eu quiser, até mesmo quando não tô a fim de usar, sei lá, me sinto numa mudança tão constante, maquiagem e moda são recursos mesmo pra externar isso... e dá pra não abrir mão do conforto que faço questão. “Quanta mudança alcança nosso ser, posso ser assim, daqui a pouco não....” diz uma música. Pois é, é muito difícil sair de um modelo introjetado. Não quer dizer que a gente não perceba esse modelo. Acredito até que a gente consegue fugir de alguns, mas de todos? Não acredito. Melhor não encucar...