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quarta-feira, 30 de novembro de 2005

CRÍTICA: SR E SRA SMITH / Violência doméstica S. A.

Fico assim um tanto incrédula que vários críticos esqueçam de mencionar que “Sr. e Sra. Smith” é uma mistura de “A Honra do Poderoso Prizzi” e “A Guerra dos Rose”, com uma pitada de “Butch Cassidy” no final. Passam a falsa impressão de que seja algo original. “Smith” é tão novo quanto Hollywood colocar corpos bonitos nas telas pra gente imaginar como é a vida sexual deles. Pessoalmente, acho que é meio doentio fantasiar como devem ser o Brad Pitt e a Angelina Jolie juntos na cama. Quer dizer, não tem muito segredo, tem? Se não me falha a memória, o esporte é o mesmo, apenas envolvendo participantes com menos pneuzinhos rolando em cima de lençóis bem mais caros. E no entanto, todo o marketing do filme foi feito pensando no romance dos lindões fora das telas. Não será que tudo isso foi só pra divulgar um produto? Algo me diz que os pombinhos não estarão juntos daqui a cinco ou seis... ahn, meses?

Em “Smith”, Angie e Brad explodem muitas coisas, carregam bazucas, e quebram objetos, o que faz muito sentido: de que outro jeito um casal entediado pode se divertir? Ambos são matadores de aluguel, os bambambans no seu ramo, logo, não erram nunca. A menos que um esteja atirando contra o outro. E todos os extras que os perseguem provavelmente não são assassinos profissionais, porque estes erram sempre. Não valem a roupa ninja que usam. São absolutamente incapazes de acertar a cabeça de um dos protagonistas. O máximo que acontece com Angie e Brad é ficar com um arranhãozinho sexy no rosto. Aliás, não entendi como uma super mega baita ultra atiradora como a Angelina tem metade do rosto coberto por cabelo. Ela é a Veronica Lake das matadoras de aluguel. Não atrapalha nadinha na hora de acertar o alvo? Só gostei das poucas seqüências em que o casal busca ajuda de um conselheiro matrimonial, porque sugere que a chama da paixão também se apaga pros glamurosos. Claro que pra eles o apagamento é mais rápido, uns dez minutos, talvez.

Mas a violência doméstica nunca foi tão sexy. Antes do filme se tornar interminável e eu começar a torcer pra que os dois se matassem de vez, teve uma cena em que o Brad descarrega uma metralhadora na Angie e ela se esconde atrás da porta da geladeira, que bloqueia todas as balas. Nessa hora, virei pro maridão e falei: “Viu? Não disse que a gente precisa de uma geladeira inox?”. Mas, tirando esse momento de identificação, constatei que os ricos realmente levam uma vida diferente da minha. Por exemplo, sabe quando às vezes a gente prende um dedo numa janela e dói durante horas? Aqui acontecem coisas bem piores com outros membros dos ricaços e ninguém solta nem um “Ai”. A propósito, li uma estatística ontem dizendo que 0,02% da população mundial é milionária, ou seja, tem mais de um milhão de dólares (no Brasil, esse número é de 98 mil pessoas, todos clientes da Dasloser, imagino). Aí me veio à mente uma dúvida terrível: será que 0,02% da população é astro de cinema?!

Pois é, eu já usei a palavra “sexy” duas vezes neste texto, mas a verdade é que não existe cena de sexo em “Smith”, porque, a gente sabe, o público-alvo pra esse tipo de aventura é o pré-adolescente. No sistema de censura americano, não há problema algum em explodir ou mutilar um órgão genital (o do Brad é chutado), mas basta a ameaça de alguém acariciá-lo pro filme ser proibido pra menores de 18 anos. É uma questão cultural, e a gente deve sempre respeitar a cultura alheia, mas você não acha os americanos doentes? O pênis do Brad Pitt deveria ser tratado com muito mais respeito! Vou começar uma campanha e já volto.