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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O LOBO DA MISOGINIA: O QUE SOBRA PRAS MULHERES?

A primeira esposa aplaude o mestre do universo

Como eu disse, adorei O Lobo de Wall Street, que pra mim é o filme do ano. E é um filme incrível pra discutir gênero. 
Mas, antes de entrar nesse tema, e como não sei onde mais posso escrever sobre isso, só queria lembrar de uma das grandes responsáveis pelo mérito de Lobo ser tão frenético. É de espantar que a consagrada editora Thelma Schoonmaker, colaboradora de Martin Scorsese nos últimos quarenta anos (desde Touro Indomável; quando perguntaram pra ela como uma senhora tão gentil podia editar os violentos filmes de gangster de Scorsese, ela respondeu: "Ah, mas eles não são violentos até que eu os edito"), não tenha entrado nas indicações do Oscar de melhor montagem.
Tudo bem, Thelma já foi indicada sete vezes e já ganhou três, mas a edição de Lobo é impecável. Li algumas pessoas reclamando de cortes abruptos e pouco convencionais, como se houvesse problemas de continuidade, mas é tudo de propósito: quando os personagens estão sob o efeito de drogas, os cortes são estranhos (não que eu tenha notado). Como o pessoal tá toda hora drogado...
Mas não é todo mundo que se droga a toda hora -– são os homens do filme. A lição que Jordan (Leonardo DiCaprio) recebe de seu mentor é que precisa fazer duas coisas para sobreviver em Wall Street: masturbar-se várias vezes por dia e usar drogas. Quando o jovem Jordan ouve essa lição, ele já é casado, com uma cabeleireira. 
Sua (primeira) esposa lhe dá lições valiosíssimas: o demove de desistir da carreira de corretor da bolsa e aponta o emprego num escri de subúrbio, o acalma depois que uma revista o chama de Robin Hood que rouba dos ricos para dar dinheiro a si mesmo ("não existe publicidade ruim"), e o motiva a levar uma empresa para um nível mais alto -- afinal, por que roubar apenas dos pé-rapados? Vamos roubar dos ricos também (com outras palavras, porque ela nem parece saber que o marido está roubando). 
Eu não achei Lobo misógino. Porém, Lobo certamente reflete um ambiente misógino, que continua até hoje. Afinal, festas com strippers e prostitutas são comuns no mundo corporativo. Levar os executivos para strip clubs é a coisa mais banal que existe. Mas o que acontece se você tem um bom cargo numa empresa e não é UM executivo, e sim UMA executiva? É raro (só 3% das 450 maiores empresas no Brasil, por exemplo, são dirigidas por mulheres), mas pode acontecer.
E aí, você é uma executiva num mundo masculino. Seus contatos, colegas e clientes são homens. 
Como você vai desenvolver uma certa proximidade com eles, proximidade esta que pode ser essencial para fechar negócios? Sair sozinha com seu chefe ou seu cliente, nem pensar -- todo mundo achará que você está transando com eles (muita gente já acha que você só chegou onde chegou através do sexo, como se ser mulher fosse uma vantagem no mundo corporativo!). 
Como você vai jogar golfe com seus clientes? Como você vai fechar negócios se não está interessada numa lap dance? O fato do mundo de negócios ser masculino, regado a testosterona, fica muito evidente quando se vê Lobo. Isso se chama sexismo institucionalizado.
Pra alguns que sonham em ter o estilo de vida de Jordan e seus amigos, Lobo quase serve como guia. Pense comigo: se o sonho do jovem rapaz no capitalismo é ser rico pra gastar tudo com prostitutas e brinquedos, como jatinhos, iates e carrões, o que resta pras mulheres sonharem? Ser stripper? Ser a esposa-troféu de um desses mestres do universo?
O que você pode fazer, como mulher, se o mundo mede sucesso pela quantidade de brinquedos que um homem tem no seu playground? Se você não tem interesse em superar o próximo, baseado numa eterna competição pra ver quem tem o maior pênis ou quem mija mais longe? Se você não quer marcar território com urina?
Esse é um dos motivos pelos quais é complicado ser uma feminista de direita. Porque só fazer que mulheres cheguem a presidentes de empresas não resolve. Devemos querer é derrubar o sistema. Querer um sistema em que "sucesso" seja avaliado por feitos e valores que não incluam quem você derrotou hoje. Porque cheirar cocaína em cima da bunda de uma prostituta de repente pode até significar sucesso pro executivo que tá cheirando, mas olha o "sucesso" máximo que essa mesma prostituta pode atingir.
Não por acaso, a vasta maioria das mulheres que vemos no escritório da Stratton Oakmont (criada por Jordan como base para extorquir dinheiro) são prostitutas. 
Há uma secretária, que aceita ter seu cabelo raspado na frente dos colegas em troca de US$ 10 mil (e chora, o que me lembrou aquela panicat no Pânico); há outra, mais forte e segura, que diz a seu chefe “Vá f*der sua prima” (e ele realmente é casado com a prima). E há uma corretora, uma só, que Jordan destaca num de seus discursos. Assim que ela chegou à empresa, pediu a ele um adiantamento de US$ 5 mil dólares. E Jordan, tão altruísta, lhe deu um cheque de 25 mil. 
Mas o interessante é que sabemos pouco da vida dos outros corretores. Temos Jordan e o parceiro como base, e os vemos torrar tudo em drogas, prostitutas, e carros. Não sabemos nada da corretora (ela praticamente só aparece nessa cena do discurso), apenas que ela é mãe solteira e que pediu aqueles 5 mil adiantados não para dar a entrada num novo carro, e sim para pagar a educação de seu filho. Essa é uma das dicas, a meu ver, que Lobo não é misógino, embora lide com protagonistas misóginos.
Tem uma cena de estupro em Lobo, se bem que ela é um pouco ambígua. Um texto do Jezebel pergunta por que ninguém está falando dessa cena. Na realidade, tem muita gente falando. Quem for ao fórum de discussão do IMDB verá vários tópicos sobre a cena (e a maioria concorda que sim, é estupro). O motivo, um tanto óbvio, para que nenhum crítico esteja falando da cena é que ela acontece nos quinze minutos finais de Lobo
E, sabe, comentar algo no fim de um filme é visto como super spoiler. Isso me deixa numa posição difícil, como crítica feminista. Porque, se eu não falar da cena, vão inventar mil e uma teorias da conspiração sobre porque estou ignorando a cena. E, se eu falar (mesmo que eu fale dela dez anos depois da estreia do filme), vão me acusar de spoilers. Então eu vou falar, mas aviso logo: tá cheio de spoilers.
Quando esta cena acontece (não tenho fotos dela), Jordan está em apuros. Ele precisará entregar seus amigos/comparsas para conseguir uma pena menor. 
É isso que ele está falando pra sua esposa, que responde com monossílabos. Qualquer pessoa que já esteve num relacionamento percebe que sua segundo esposa, Naomi (Margot Robbie), está de saco cheio e que o casamento está no fim, mas não Jordan. 
Ele se aproxima dela e pede pra transar. Ela responde que não está a fim. Ele insiste, ela nega. Ele a coloca na cama e tenta fazer sexo, não com ela, mas nela. Ela diz “não” e “pare”. E aí ela diz, com muito ódio, “Eu te odeio”. Ele insiste para transar e diz que a ama. Ela responde: “Eu quero que você goze pela última vez”, e se mexe embaixo dele (isso não representa exatamente consentimento. Querer que uma violência acabe rápido não é consentir). Ele ejacula, ela anuncia que aquela foi a última vez que eles fizeram sexo, e que quer o divórcio. 
Em seguida vem uma sequência ainda pior. Ela diz que ficará com as crianças, eles discutem, ela lhe dá um tapa no rosto. Ele responde com um soco. Ele rasga um sofá para encontrar um pacote de cocaína que havia escondido, e se droga. Naomi aparece, discutindo, e Jordan lhe dá um soco (segundo relatos de gente que viu Lobo no cinema, é neste momento que o público fica visivelmente indignado). 
Jordan pega a filhinha no quarto e a leva pro carro. Naomi, desesperada, tenta impedi-lo. Ele põe a menina no banco dianteiro, põe o cinto de segurança nela, e bate o carro violentamente na saída da garagem. Por um milagre, nada ocorre com a menina. Naomi a resgata e a leva pra dentro da casa. Se não me engano, esta é a última vez que vemos Naomi no filme.
Toda essa sequência –- o estupro, a violência doméstica, arriscar a vida da filha –- é um ponto de não retorno de Lobo. É quando a plateia de maneira geral deixa de ver Jordan como “um idiota que ganhava dinheiro ilegalmente” para “esse crápula não presta mesmo”. Mas é só bem no fim mesmo. É importante observar que, num filme que muita gente considera misógino, é o tratamento que Jordan dá a sua esposa que fará com que a gente o deteste.
A maior parte de nós, claro. As reações sempre vão variar, e algumas são imprevisíveis. 
Pense no grande Nascido para Matar, filme do Kubrick sobre a Guerra do Vietnã. Até podemos discutir se Apocalipse é ambíguo na sua condenação à guerra, mas não resta dúvida sobre Nascido para Matar. O treinamento dos fuzileiros navais na primeira metade do filme é brutal e desumanizador. 
E não é que o filme virou o favorito dos fuzileiros navais da vida real? Eles vibram com todas as humilhações que o sargento impõe ao recruta gordo. E urram quando o recruta, ensandecido, mata o sargento e se mata em seguida. Pra esses fuzileiros, o filme não é uma crítica. É uma celebração.
Ou pense em O Poderoso Chefão, que não só mostra um universo 100% patriarcal, como também o recomenda (é uma escolha encerrar o filme -– que eu amo, só pra deixar claro –- literalmente fechando a porta na cara da Diane Keaton). Tá cheio de rapazes que veem o Chefão como um modelo de vida, um ABC sobre a honra. Cara, deixa eu te contar um segredo: é sobre a máfia. Não tem nada de digno na máfia. 
Só pra terminar.
O verdadeiro Jordan de Lobo hoje ganha 30 mil dólares por hora de palestra. Depois de passar alguns meses na prisão, onde escreveu suas memórias, vendeu seu livro por um milhão de dólares, e ganhou outro milhão pelos direitos de adaptação para as telas. Diz ele: “Vá ao cinema e veja DiCaprio me representar como eu era e lembre-se do homem que me tornei”.
Até agora, ele pagou apenas US$ 11.6 mi dos 110 mi que precisa devolver. 
Seu parceiro, Danny Pourish (interpretado por Jonah Hill), atualmente vive numa casa de 7,5 mi com sua nova esposa. Sério, alguma dúvida que o crime compensa? Compare a vida de Danny com a de sua ex, Nancy.
As 85 pessoas mais ricas no mundo têm tanta riqueza quanto a metade mais pobre da população mundial, ou seja, que 3,5 bilhões de pessoas. A vasta maioria dessas 85 pessoas mais ricas do mundo são homens (a lista da Forbes dos bilionários de 2013 inclui 1,426 pessoas. Dessas, apenas 138 são mulheres). 
E 70% das pessoas mais pobres do mundo são mulheres. Portanto, faça os cálculos. Se tirar proveito do capitalismo já é uma tarefa hercúlea, ser mulher no capitalismo parece uma missão ainda mais fadada ao fracasso.
O Lobo de Wall Street é uma prova muito bem ilustrada que vivemos num sistema que só nos desfavorece. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

CRÍTICA: O LOBO DE WALL STREET / Melhor filme da safra

Vou falar com todas as letras: O Lobo de Wall Street (veja um trailer) é o melhor filme da safra do Oscar 2014, e talvez o melhor filme de 2013, ponto. 
Ok, quem sou eu pra falar? Não vi quase nada até agora, mas vi 12 Anos de Escravidão, Trapaça, Gravidade, Blue Jasmine, Álbum de Família, Clube de Compras Dallas, Walt nos Bastidores de Mary Poppins, Frozen, e Capitão Philips, e posso dizer: nenhum chega perto de Lobo
As memórias de Jordan Belfont já tinham inspirado um filme antes, em 2000, O Primeiro Milhão (trailer), mas aquele era um drama. Lobo é comédia. Jordan, interpretado magistralmente por Leonardo DiCaprio, foi mais um corretor de ações que ficou rico fazendo algo ilegal. Ele se vangloria de ter ganhado 49 milhões de dólares aos 26 anos de idade.
Jordan constantemente fala conosco ao narrar, e seu tom é sempre cínico. A ironia está presente tanto na narração, deixando claro que ele tem o controle (ele pausa a cena, muda a cor do seu carro, essas coisas), quanto na edição. Por exemplo, Jordan fala pra gente, sobre sua primeira vez com sua linda segunda esposa (a australiana Margot Robbie, agora uma estrela): "Comi ela pra c*ralho...por onze segundos". 
Ou quando Jordan insiste em ir com seu iate pra Mônaco, apesar do capitão alertar pra uma tempestade. Relutante, o pobre capitão, um empregado do ricaço, diz que a tempestade poderia causar a quebra de alguns pratos. E Jordan: "Pratos! O que são pratos?!" Corta pro maior maremoto já visto desde Mar em Fúria.
Uma das cenas mais memoráveis é o encontro no iate entre Jordan e o agente do FBI que quer pegá-lo. A cena, brilhantemente atuada por Leo e um tal de Kyle Chandler lindão, é um tentando enganar o outro, ao mesmo tempo que faz algumas perguntas sinceras (tipo: o agente não se arrepende de ser classe média e andar de metrô ao invés de ser um corretor de ações com um iate pra chamar de seu? Resposta, de acordo com minha interpretação: não. O agente é o único personagem de Lobo com alguma moral. E ele aparece pouco). Esse encontro é um dos muitos diálogos incríveis do roteiro.
Leo está espetacular na sua quinta colaboração com o consagrado Martin Scorsese. 
Leo é um grande ator, não há o que dizer. Ele é o filme, e não consigo imaginar outro em seu lugar. Não que algumas pessoas não tenham tentado: ficam imaginando o Christian Bale. Por quê? Sei lá, deve ser porque Bale interpretou (maravilhosamente) um outro filme importante sobre yuppies (ninguém mais usa esse termo, né? Significa young urban professionals), drogas, e anos 80 -- Psicopata Americano
Olha como o mundo é pequeno. Bret Easton Ellis, autor do romance Psicopata Americano, cara que manja tudo dos anos 80, disse num tweet que Lobo é o melhor filme de 2013 (somos dois). E Bale está em Trapaça, filme divertido (pero no tanto) que muitos dizem parecer com uma obra do Scorsese (só que Trapaça tem dois excelentes papéis para mulheres, coisa que Lobo não tem. E Trapaça não tem drogas! E é sobre os anos 70). 
Bale e DiCaprio vão se enfrentar agora na corrida do Oscar pra melhor ator, se bem que a única concorrência pro Leo é McConaughey. Não sei se alguém lembra, mas, originalmente, sabem que foi contratado para interpretar o lendário Patrick Bateman nas telas? Ele mesmo, DiCaprio. Foi a diretora Mary Harron que insistiu em ter Bale.
Por incrível que pareça, não há tantos filmes sobre esse período de excessos, sobre os anos Reagan/Thatcher, a chamada década perdida. Há Wall Street, Cobiça e Poder, que adota um tom moralista que Lobo obviamente não tem. Comparado a Jordan, Gordon Gekko parecia um homem com escrúpulos. E tem À Procura da Felicidade, que transforma todos os milionários em gente de bem. Poderia se chamar O Capitalismo é Lindo.
Lobo oferece vários papéis minúsculos que o pessoal chama de cameo: Matthew McConaughey, ainda magérrimo, como o mentor de Jordan em Wall Street (e principal concorrente do Leo no Oscar; McConaughey está tão marcante nos cinco minutos que aparece que ele quase foi indicado a ator coadjuvante por esse tempinho; aliás, a música que você vê neste trailer foi ele que inventou), e é o diretor Spike Jonze (cujo filme Ela concorre ao Oscar) que faz o chefe de Leo -- aquele que lhe promete sexo oral se ele vender dez mil dólares em ações.
E há uma série de participações formidáveis: 
Rob Reiner (diretor de Harry e Sally) como o pai de Jordan, o sexy Jean Dujardin (alguém se lembra que ele abocanhou um Oscar há dois anos por O Artista?) como o banqueiro suíço (um dos poucos personagens fora o do Jordan que nos possibilita conhecer alguns de seus pensamentos), Jon Bernthal (o policial Shane em Walking Dead) como o fisiculturista e traficante durão que mora com a mãe, e tantos outros.
E, lógico, tem o Jonah Hill, merecidamente indicado ao Oscar de coadjuvante. Jonah faz o melhor amigo de Jordan, e é tão desprezível quanto ele, senão mais, já que ele não tem muito carisma. 
O filme é longo demais (três horas!), sem dúvida, mas as primeiras duas horas passam voando. Eu não saberia o que cortar. Bom, talvez toda a sequência do mordomo gay, se bem que ela é engraçada. Talvez o joguinho entre Jonah Hill e Bernthal, que leva à prisão do cara? Não tenho certeza. 
Uma das sequências mais hilárias de Lobo, instantaneamente clássica, acontece quando Jordan e seu melhor amigo tomam algumas pílulas vencidas. É de rolar de rir. Certo, a cena de Jordan com paralisia cerebral se arrasta, quase literalmente, mas reduzi-la seria reduzir as risadas. É um grande momento da comédia. Certo, é bem sádico da nossa parte. Estamos rindo de alguém que tá quase morrendo. Mas ele que se dane.
Não diria nem que Lobo é o filme mais amoral dos últimos tempos. É imoral mesmo. A mensagem é que o sistema todo funciona pra que essa galera (homem, rico, hétero, branco -- acho que, entre dezenas de personagens, contei dois negros com falas no filme todo, ambos serviçais) leve vantagem. Pra que esse 1% possa explorar e extorquir os 99% restantes com completa impunidade.
A grande ironia de Lobo (e do capitalismo como um todo) é que, na vida real, Jordan passou uns meses numa penitenciária de luxo, jogando golfe, e saiu dela pra publicar um livro contando suas anedotas (livro transformado em dois filmes) e pra dar palestras motivacionais de vendas. E sabe quem são os maiores clientes de suas palestras? Os carinhas que ele roubou. Pelo menos o "homem médio", os carteiros e encanadores que ele roubava no começo, antes de pescar peixes maiores. Até parece que os espectadores das palestras condenam Jordan! Eles querem é ser como ele! 
O filme faz sim apologia às drogas (pense na energia maníaca de Trainspotting, mas sem bebês mortos ou amigos morrendo de Aids, ou seja, sem o lado ruim) e prova que o crime compensa. 
Pra quem, como eu, pensa que todos os corretores de Wall Street são vigaristas, que o capitalismo é uma fraude, bom, Jordan nunca seria um modelo de vida pra mim. Mas pra outras pessoas... É como o monólogo do Alec Baldwin em O Sucesso a Qualquer Preço: pode ser visto como inspiração para alguns e como exploração para outros (adivinhe de que lado eu estou? Mas não nego a força da interpretação do Alec).
Eu só não me revoltei com Lobo porque estava me divertindo demais pra isso, e porque adoro Scorsese, adoro Leo, adorei o ritmo frenético. Mas depois que o filme acabou, fiquei indignada, num nível menos macro e mais micro, mais pessoal. Pô, não existe justiça mesmo! Nem divina, nem terrestre! Os personagens de Lobo vivem bêbados, transam sem camisinha, contraem mil e uma DSTs, cheiram mais cocaína que o Scarface, misturam drogas, mal dormem... e não morrem! Nenhuma overdosezinha sequer!
Enquanto isso, euzinha, que definitivamente não levo uma vida de excessos -- meus únicos excessos são o vício em chocolate e o fato de passar horas diante de um computador -- tenho problemas no fígado. Justiça, cadê você?
Depois de ver Lobo eu consumi 300 gramas de chocolate de uma só vez. Só de revoltada.

Como esta crônica ficou gigantesca, aqui está a outra parte, mais relacionada a questões de gênero.