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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

CRI-CRÍTICA DE TRAILER: Julie & Julia

Assista o trailer aqui, mas atenção! Há dois erros nas legendas: competitiva no lugar de repetitiva, e “Julia Child era Julia Child” ao invés do contrário que é dito, “Julia Child não foi sempre Julia Child”. E também, "I have thoughts" ficaria melhor traduzido como "eu tenho ideias", não "pensamentos".

Tá, e quem foi Julia Child, afinal? Se você não é americano, não tem como saber. Eu só ouvi falar nela agora, por ocasião do filme. Mas, em 1962, ela publicou um super livro de receitas, adaptando pratos franceses para os padrões americanos. E, durante mais de dez anos, teve um show muito popular na TV americana. Aí eu li uma matéria sobre ela na Vanity Fair, e vi alguns vídeos no YouTube, e fiquei bem encantada (Julia me ganhou de vez neste vídeo com o David Letterman. Já velhinha, ela teve que improvisar, porque nada no estúdio funcionava. David pergunta, “Você já fez algum prato que não deu certo?”, e Julia responde: “Claro, montes de vezes”. David então quer saber o que ela faz quando isso acontece, e ela responde, singelamente, com a maior inocência, “Eu dou pro meu marido”. Ha ha, me identifiquei!). Primeiro que Julia era uma negação na cozinha, até frequentar uma escola de gastronomia em Paris (o que proporciona esperança a mim e outras que não levam jeito pra coisa – ah, detalhe, tem que ter recebido uma herança da mãe pra poder pagar a tal escola). Depois que ela viveu uma linda história de amor com o maridão. Eles se conheceram durante a Segunda Guerra, quando ambos trabalhavam para o sistema de inteligência americano, precursor da CIA. Mais tarde, se casaram e foram transferidos pra Paris, onde Julia se apaixonou pelo que comia nos restaurantes, e tratou de aprender a fazer igual. Ela conta que passava a manhã na escola, e ia pra casa no almoço pra fazer amor com o marido. Pois é, não tem como negar: comer, apetite, saciar-se, causar água na boca, se aplicam tanto a comida quanto à sexo. Duas das melhores coisas da vida, e que a sociedade, em tantos sentidos, regula para as mulheres. Mulher não pode transar à vontade com quantos parceiros quiser, ou o pessoal tem um arsenal de nomes para xingá-la. E mulher só pode comer saladinha, porque todo o resto engorda. Seria ótimo nos livrarmos dessas amarras, e ter a liberdade que os homens têm, na cama e na mesa.
Julia viveu outra época, uma em que a sexualidade feminina era restrita mas, em compensação, não havia toda uma obsessão para ter a forma física de uma pré-adolescente. Já no final dos anos 60, com a Revolução Sexual e a emancipação feminina, é que o padrão de beleza tornou-se completamente irreal (Twiggy surgiu naquela época, pra quem acredita em coincidências). Mas é só folhear um livro culinário de 30 ou 40 anos atrás pra ver como vivíamos uma outra era: há receitas que pedem duas dúzias de ovos! Algo impensável hoje, quando medimos o valor calórico de cada colherzinha de manteiga. Naqueles tempos acho que as calorias (e a celulite) ainda nem haviam sido inventadas!
Mas o filme é também sobre um outro livro, e esse tem muito a ver com quem tem blog. É sobre Julie, uma moça com um emprego ingrato que decidiu escrever um blog onde, durante um ano, testou todas as receitas da bíblia da Julia Child. Deu tão certo que o blog virou livro, e o livro virou filme de Hollywood. Deve ser o primeiro roteiro na história baseado num blog.
Claro que vou ver Julie & Julia! Pra começar, vejo qualquer coisa da Meryl Streep. Pra quem, como ela, já fez tudo que é sotaque, imitar a Julia falando parece bico. Tá igualzinha. E Amy Adams (que já trabalhou muito bem com Meryl em Dúvida) tá uma gracinha. O filme soa como uma celebração dos prazeres da vida. Bom, ao menos dos prazeres gastronômicos. Pena que tiveram que incluir uma referência a protagonista jovenzinha reclamando de estar engordando. Dá pra cozinhar com liberdade se a gente se preocupa com a balança? Que eu lembre, ninguém em A Festa de Babette dizia “Estou engordando!” (se bem que eu não gosto de nada que Babette prepara). Compare com a Julia dos anos 50 falando pro marido que ela está crescendo a olhos vistos. Humor vs pavor, essa é a diferença.
Julie & Julia estreia no Brasil em meados de outubro. Nota 4 (em 5) pro trailer.