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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

MUITO MAIS SOBRE A POLÍTICA DO FILHO ÚNICO

O post sobre a política do filho único na China gerou comentários incríveis, que levaram o debate para outro nível. Destaco alguns:

"Lola, só para complementar. Em várias dessas sociedades agrárias do extremo oriente, o casamento é patrilocal (a noiva vai para a casa do marido) e é responsabilidade do filho mais velho cuidar dos pais idosos. Por causa disso é que foi aberta exceção para as famílias camponesas. Tentar de novo e, no caso da China, há uma pensão para o casal idoso camponês sem filhos homens. Há vários ditos chineses, indianos e de outros povos da região fazendo alusão ao fato de quem tem uma menina engorda o gado do vizinho, afinal, quando ela estiver na sua fase mais produtiva, irá embora, a família formaria mão de obra para outrem.
Pior ainda, no caso indiano, é a prevalência do dote. Ter uma filha é prejuízo, econômico e mesmo espiritual, pois certos rituais fúnebres só podem ser feitos pelo filho homem. Enfim, a situação é muito dramática:
'Na China, em Taiwan, na Coréia do Sul, a ausência de herdeiro do sexo masculino significa a extinção da linhagem da família e do culto aos ancestrais. Na religião hinduísta, ela condena os pais à errância eterna, pois é o filho que, tradicionalmente, encarrega-se dos ritos funerários de seus pais. Na Índia e na China, uma menina está com seus pais apenas de passagem. Quando se casa, ela parte para se devotar à família de seu marido e, a partir de então, não deve mais nada a seus próprios pais. Os camponeses chineses sabem que é preciso 'ter um filho para prepara-se para a velhice'. 'Ter uma menina', diz um ditado chinês, é 'cultivar o campo de outros'; para os indianos, é 'cuidar do jardim do vizinho'.' 
Aborto seletivo gera escassez de 96 milhões de meninas na Ásia.
Índia, onde meninas nem sempre são bem-vindas.
Pais pagam cirurgia para transformar filhas em filhos na Índia.
Procuram-se mulheres: Num mundo com 7 bilhões de habitantes faltam mulheres em alguns países." (Valéria)

"Oi, Lola! Estou adorando os posts sobre a China e aprendendo muitas coisas interessantes. Gostaria que comentasse um pouco mais sobre a atuação das chinesas no mercado de trabalho, pois, nesse ponto, a China parece estar a passos largos do Japão.
Morei no Japão e fiquei estarrecida com a situação das mulheres, já que a maioria deixa o trabalho logo após o casamento. As leis de trabalho japonesas desestimulam a participação feminina no mercado de trabalho a partir de ações como licença-maternidade muita curta/ sem remuneração adequada ou dedução de impostos para famílias em que apenas um dos membros trabalhe (geralmente são os homens que trabalham)." (Anônima) [Compare com os EUA, anon].

"A princípio, planejamento familiar tem tudo a ver com feminismo.
Eu não consigo vislumbrar algo mais eficiente e mais definitivo para manter uma mulher no seu 'devido lugar' do que a maternidade (por isso acho comédia esse negócio de fim do capitalismo = fim da miséria feminina; ha, tolinhos). Mas até mesmo dentro do feminismo esse fato é ignorado.
Eu sou 100% a favor, e também não consigo imaginar um caminho diferente sem ferir os direitos humanos básicos, da conscientização das pessoas sobre as responsabilidades de se ter filhos. E antes que me queimem na fogueira -- nem estou falando aqui sobre condições financeiras -- mas sim sobre o impacto pessoal, social e ambiental que isso traz.
Porém sou 100% contra a interferência estatal direta, como foi feito na China. Vejam, a política do filho único foi uma medida brutal pela falta de vontade de resolver um problema antes que chegasse ao ponto que chegou.
Se houvesse conscientização, educação, oportunidades igualitárias e acesso ilimitado à contracepção, esterilização voluntária e aborto, muito raramente a situação escalaria e sairia do controle." (Jane Doe)

"Achei na net e é interessante:
Em uma entrevista Bill Moyers perguntou a Isaac Asimov: O que acontecerá à ideia de dignidade da espécie humana se o crescimento populacional continuar na sua atual proporção?
Asimov respondeu: Ela será completamente destruída. Eu gosto de usar o que eu chamo minha 'metáfora do banheiro': se duas pessoas vivem em um apartamento e existem dois banheiros, eles podem ambos ter a liberdade do banheiro. Você pode ir ao banheiro quando quiser e ficar lá quanto tempo você preferir ficar. E todos acreditam na liberdade do banheiro; ela deveria estar na constituição.
Mas se você tem vinte pessoas no apartamento e dois banheiros, não importa o quanto cada pessoa acredita na liberdade do banheiro, porque isto não mais existe. Você tem de definir horários para cada pessoa, você tem de bater na porta, 'Você ainda não acabou?' e por aí vai.
Asimov concluiu com a profunda observação: Da mesma forma, democracia não pode sobreviver à superpopulação. Dignidade humana não pode sobreviver à superpopulação. Conveniência e decência não podem sobreviver. 
À medida que você coloca mais e mais pessoas no mundo, o valor da vida não apenas declina, mas desaparece. Não importa se alguém morre, quanto mais pessoas existirem, menos cada pessoa importa.
A China e a Índia mostram muito bem que esse último trecho é verdade. Intervenção estatal é ruim? Com certeza. Queremos isso? Não. Mas se a situação atingir um ponto crítico, é o que vai acontecer. Então só nos resta decidir se queremos fazer isso numa boa ou na marra. Se não puder ser numa boa agora, será na marra futuramente." (Mallagueta Pepper)

"Moro na China há dois anos e sou casada com um sul-africano de origem chinesa.
O que tenho a dizer sobre planejamento familiar por aqui é que tudo se dá sem que ninguém fale sobre sexo. A repressão do governo sobre qualquer coisa de cunho sexual (lembra quando você disse que pornografia era proibida por aqui?) impede que exista qualquer tipo de educação sexual nas escolas. 
Os alunos aprendem na aula de biologia, por exemplo, que o espermatozoide fecunda o óvulo, mas ninguém comenta sobre como ele foi parar lá. A maioria esmagadora das famílias ainda faz de conta que sexo não existe, e as pessoas chegam aos 20, 25 anos sem ter muita ideia de como sexo funciona.
Sou professora de inglês em uma faculdade na Mongólia Interior, região autônoma no norte da China, e quero primeiro deixar claro que o que vou dizer é baseado somente nas experiências e conversas que tive por aqui, e que talvez algumas coisas sejam diferentes em outras regiões.
Uma vez estava conversando com algumas alunas (tendo 27 anos, não sou muito mais velha do que elas), e perguntei, casualmente, como acontecia a contracepção por aqui. A princípio elas não entenderam, provavelmente devido ao inglês, mas quando eu traduzi a palavra 'camisinha' para o chinês, elas coraram e deram risadinhas. Uma delas arregalou os olhos e disse 'Não, não, não! Não usa iso, não!'. Perguntei, então, como mulheres casadas -- já que nenhuma delas iria admitir ter feito sexo -- faziam para evitar terem filhos antes da hora. Elas ficaram confusas e disseram que não faziam ideia.
Há a ideia disseminada de que casais não fazem sexo antes do casamento por aqui -- o que, obviamente, não passa da mais pura balela. Embora seja verdade que a maioria chegue virgem aos 20, 22 anos de idade, eles não se casam virgens. E fazem sexo sem saber como se prevenir contra uma gravidez. 
O resultado disso é que dentro das caixinhas de testes de farmácia é comum vir cartão de desconto para clínicas de aborto. Assim que você conquista a confiança de alguma moça chinesa, elas logo confessam que já fizeram ou conhecem alguém próximo que tenha feito um aborto.
Entenda que, embora eu apoie a possibilidade de uma mulher poder descontinuar uma gravidez indesejada, não acho -- e ninguém acha -- que abortos devam ser usados como método primário de contracepção.
Outra questão, agora sobre filhos, é que crianças nascidas de pais não casados não podem ser registradas. Isto é devido à própria política do filho único, já que se os pais não forem casados fica difícil monitorar se há mesmo apenas um filho por casal, mas a ideia de que alguém não tenha direito a uma certidão de nascimento -- e consequentemente não podem frequentar escolas, ter emprego formal, comprar casa, etc -- simplesmente porque seus pais não são casados não deixa de ser revoltante." (Tatiana)


"Tive a oportunidade de conhecer alguns chineses na França, onde estudei por um período. Quanto à política do filho único, achei que você deixou de abordar um aspecto interessante. Fiquei sabendo por intermédio de meus colegas que os chineses endinheirados costumam ter um segundo filho nos Estados Unidos. São os chamados American Born Chinese (ABC). 
Essa estratégia é comum na elite chinesa, que se orgulha de garantir a dupla nacionalidade às suas crianças (embora seja dito que o segundo passaporte fica escondido, pois esta prática, além de não ser bem vista pelo governo, é proibida na China). É isso. Neste planeta, dinheiro resolve tudo!" (CN)

Update no final de outubro: Após 30 anos, governo chinês permite que casais tenham 2 filhos.

domingo, 30 de agosto de 2015

BEIJING NO OMBRO

Lolinha em frente ao Cubo Aquático em Pequim (clique p/ampliar)

Como vocês sabem, entre os dias 4 e 25 de julho estive na China, numa viagem inesquecível patrocinada pelo Santander Universidades para 24 professores e 76 alunos de universidades brasileiras. 
Eu e alunxs queridos em lanchonete
próxima à Muralha da China
Este é um (outro) email que enviei pro maridão no dia 11 de julho, com esse título mesmo, que ele achou infame. O email é longo, mas vamos ver se eu consigo encontrar várias fotos que me mandaram pra ilustrá-lo.

Oi, minha paixão! Muitas saudades! Ontem não escrevi porque fiquei com preguiça. Nem acessei a internet.
Júlio (UFRPE), Heverson (Unifor) e eu
Anteontem tivemos uma excelente aula de um professor brasileiro, o Júlio, da UFRPE, sobre carnaval e manifestações artísticas do nordeste. Foi muito boa mesmo, ele misturou bem teoria e prática, incluiu vários vídeos curtinhos, chamou seus dois alunos (ele teve sorte do casal de alunos saber dançar) pra dançar forró na frente da turma, e esse casal por sua vez conseguiu chamar um casal de alunos chineses pra aprender a dançar, e todo mundo adorou.
Minha palestra na PKU
Eu fiquei na dúvida se também deveria incluir alguns vídeos na minha apresentação (que sera amanha), mas acho que não sei fazer isso, então... Ai, amor, e se minha aula for uma droga? [Não foi, foi super elogiada!]
Um dos campi da PKU
Anteontem teve a segunda aula de um professor chinês, também excelente. Foi sobre direito na China. Eles parecem ter poucos advogados por aqui, cerca de 300 mil. Prum país tão gigantesco e com 1,4 bi de pessoas, é bem pouquinho.
Também anteontem, depois das aulas, fomos ao show acrobático. Era longe... Mas valeu muitíssimo a pena. É incrível tudo que eles fazem. Coisas realmente perigosas, arriscadas, sem rede de proteção. Fico feliz que ninguém morreu, porque eu não me sentiria bem se alguém morresse pro meu entretenimento. E era uma equipe enorme. Sabe aquilo das motos correndo dentro de um globo? Então, acabaram entrando oito motos. Qualquer errinho e morre todo mundo lá dentro.
As dez moças que se equilibraram em cima de uma bicicleta em movimento também iriam se machucar bastante se caíssem, mas sobreviveriam. O carinha que subia e descia degraus altíssimos com uma só mão não teria a mesma sorte, acho eu.
Só sei que fiquei a apresentação inteira de boca aberta, aplaudindo e gritando, implorando: “Não! Não! Por favor, não façam isso!”.
Depois do show uma turma decidiu ir pra não sei onde. Só sei que ficava muito longe, mais de 4 quilômetros, e o pessoal queria ir andando. Andamos 1,5 km e aí finalmente imperou a voz da razão e pegamos o metrô. Foi minha primeira viagem de metrô na China. É muito bom. Lotado, é claro, mas tudo bem sinalizado e bilíngue. E limpo.
Eu e alguns professores no jantar
num barco
Ah, foi interessante porque dois chineses, Bella e V. (seus nomes ocidentais) nos acompanharam nesse passeio todo. Todo mundo quer sair com alunos chineses pra não se perder. E porque eles são super amáveis. E porque na hora de se comunicar (pedir comida, por exemplo), eles quebram um galhão. Bom, Bella e V. estiveram com a gente em Shanghai e, como eles constantemente andam juntos, todo mundo pensava que eram um casal de namorados. 
Eu tentando imitar (sem
sucesso) o gesto da está-
tua num museu
No começo da nossa longa caminhada Bella não estava junto, então perguntei pro V. porque sua namorada não veio. Ele respondeu que ele não tem namorada e que, na verdade, “he's kind of gay” [ele é meio gay]. Aí eu quis saber, como assim, “kind of”? E ele explicou que nunca tinha ficado com um cara, apesar de se sentir atraído por homens. Falamos um pouco sobre homossexualidade na China. Não existe nenhuma medida punitiva, mas é bastante tabu, segundo ele. Ele disse que muitos gays e lésbicas contam pros seus pais e são aceitos, mas há os que insistem em casamentos de aparência.
Eu e Pablo no Lama
Temple
Quando a gente estava perto do nosso destino final, senti uma poluição horrorosa. Comecei a tossir forte (estou com muita tosse esses dias, acho que foi a chuva que peguei em Shaghai, aliada à poluição), e coloquei a máscara que uma professora tinha me dado. Não sei se ajuda muito, mas fiquei com a máscara quase o tempo todo por lá. Eu me senti um ET. Ah, apareceu num telão a Dilma se reunindo com um monte de políticos chineses. A gente ficou com a impressão que ela estava na China. Depois falaram que ela estava na Rússia.
E chegamos ao grande mercado. É aquele lugar que turistas vão para experimentar comidas nojentas que eles consideram típicas mas que os chineses não comem de jeito nenhum, tipo espetinho de escorpião. Além de ser caro pra caramba (25 yuans cada espetinho, ou 13 reais), é cruel. Antes de ser grelhado, o espetinho fica exposto, com vários escorpiões vivos, empalados, se mexendo, tentando fugir. Um aluno brasileiro comeu, outros experimentaram uma ou outra patinha, e todos tiraram muitas fotos.
Tinha também churrasco grego, panquecas, algo parecido com pinhão, e espetinhos que parecem maçãs do amor, mas com frutinhas muito menores que eu não quis provar.
Eu e turminha amada
numa lanchonete na PKU
E um monte de tendinhas cheias de bugigangas. Acabei comprando mais um monte de coisinha que não preciso, tendo que negociar daquele jeito chinfrim. Os chineses gostam muito do meu dinheiro, amor.
O final da noite foi anticlimático, com um péssimo lanche no KFC [Kentucky Fried Chicken]. É que dois dos alunos brasileiros presentes nunca tinham estado fora do Brasil e portanto nunca tinham comido fast food de frango frito. Tadinho, um deles vai passar um ano estudando no Arizona assim que voltar da China e não sabe que vai se enjoar de KFC e afins por lá.
Comida chinesa é muito melhor!
No estádio olímpico de Pequim
Ontem de manhã teve um evento meio lúdico, meio de atividade física, num dos gramados da universidade (que não tem 2,7 hectares, como te falei; li em outro folheto que são 270 hectares, ou 2,7 mil quilômetros quadrados de campus). Foi divertido. Aprendemos noções básicas de Tai chi Chuan e tivemos que escrever alguns símbolos em chinês com uma caneta gigante. Eu fui a única professora que participei.
Fê, eu e Luã na cerimô-
nia de encerramento
Ontem à tarde, depois de almoçar numa das cantinas da universidade (almôndegas de porco com arroz, muito bom) e trocar mais cem dólares (acho que serão os últimos que trocarei, paixão, ou seja, gastarei uns 400 dólares no total; o consenso por aqui entre os brasileiros é que não compensa comprar eletroeletrônicos, que estão com um preço parecido com o do Brasil; os que estão mais baratos são falsificações), passei a tarde sem fazer nada. Teve um pessoalzinho que me chamou pra ir ao Summer Palace (ex-palácio do imperador), mas eu preferi não ir. Minhas pernas estão cansadas de tanto andar. Ontem meus pés doíam! 
Às 17:30 (aqui se almoça e se janta muito cedo, as cantinas da faculdade fecham às 18:30) nós professores nos reunimos em frente ao prédio 1 (estamos no 9, aqui anda-se muito pra ir a qualquer lugar) para sermos conduzidos a um restaurante no campus, longe pra caramba. E lá foi a Lolinha com seus pés exaustos andar mais um montão. 
Professores na embaixada do Brasil na
China
Foi um jantar de confraternização. Havia alguns (poucos) professores chineses (a maioria está de férias agora). Um deles, que atua na linha de Brazilian Studies, fala português muito bem, passou um ano e meio na UnB e trabalha com literatura comparada. Fiz pra ele a sua pergunta -– se os chineses sabem do poder e da importância que têm -– e ele respondeu sorrindo que sim. “É o nosso marketing,” disse ele.
Pablito e eu na Muralha da China
Ele também disse que a China continua sendo um país comunista, mas só politicamente. Na economia, como sabemos, é capitalista. No campo político, o Partido Comunista daqui tem 87 milhões de membros filiados. Mais que a população total de vários países.
Rindo ao ter que posar
com estátua na PKU
Também conversei com uma professora chinesa e comparamos a situação das mulheres em cada um dos BRICS. Chegamos à conclusão que é pior na Índia. A situação da Rússia também é bastante ruim, pelo que li, inclusive com perseguição política a grupos feministas. E a África do Sul detém o recorde mundial de estupros (com atenção especial ao estupro corretivo de lésbicas). E partes mais distantes da China ainda cometem abortos e infanticídios de meninas. Ou seja, EM COMPARAÇÃO, o Brasil parece não estar tão mal. Essa professora se declarou feminista e disse que estará na minha palestra amanhã. (E sabe que vergonha, amor? Eu não trouxe cartão de visita pra entregar! É verdade o que tinha ouvido: eles entregam o cartão com as duas mãos).
No Museu de Planejamento Urbano,
ainda em Shanghai
Uma executiva do Santander, uma chinesa que mora em Madrid mas visita a China cinco vezes por ano, disse ter a impressão que em países comunistas como a China havia menos desigualdade entre homens e mulheres, pelo menos no mercado de trabalho e no pagamento de salários. Eu disse que várias alunas chinesas contaram ter menos oportunidades de trabalho que seus colegas homens, e ela achou estranho, porque na filial do Santander em Pequim só tem mulheres, segundo ela: “they're all ladies”.
Com alunxs fofos na saída da Cidade
Proibida
Foi um jantar muito bom, naqueles restaurantes com mesa giratória e cheia de pratos. O pato estava excelente. Pato é gostoso, se a gente abstrair e não pensar no pobre bichinho.
Agora estou aqui, domingo de manhã (acordei às 6), escrevendo este email gigantesco pra você. Vou tirar a manhã pra responder emails, coisa que não faço há dias.
Melhor não comentar. Pablo me
força a fazer essas poses. Foi no
Lama Temple, e eu me senti no
Caçadores da Arca Perdida
Talvez fazer um post pro blog pra amanhã. Hoje depois do almoço vamos sair. Mas tenho que revisar minha palestra de amanhã.
O chocolate aqui não é bom, minha paixão.
Queria que você estivesse aqui comigo.  
Te amo, meu lindo!
Da sua Lolinha

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A POLÍTICA DO FILHO ÚNICO NA CHINA

Quero falar hoje da política do filho único da China. Baseio a maior parte do meu post nas anotações que fiz durante a aula de Yun Zhou, professora de Sociologia na Universidade de Peking. Ela deu a melhor aula de todas! 
Alunos brasileiros posam com crianças
chinesas no campus da PKU, Pequim
Como vocês sabem, passei 21 dias na China graças ao Programa Top China, patrocinado pelo Santander, que levou 76 alunos e 24 professores de universidades brasileiras a Pequim e Shanghai
A China tem hoje 1,4 bilhão de pessoas, a maior população do mundo. 
19% de todo o planeta é chinês. Só pra traduzir: uma em cada cinco pessoas da Terra é chinesa. Ou seja, é uma multidão de gente. Mas a Índia provavelmente ultrapassará a China como país mais populoso do mundo em 2025. 
Até agora, só aconteceram seis censos na história da China: em 1953, 64, 82, 90, 2000 e 2010.  Há também alguns levantamentos mais simples, com 1% da população, o último em 2005. Quem é contado nos censos são as pessoas com residência permanente. Em 1953, havia 600 milhões de chineses. Em 64, 823 milhões. Em 82, 1,030 bi.
A política do único filho foi implantada em 1979. Antes de passar a lei, o governo começou a tentar mudar o conceito de quantos filhos seria o certo. Um era considerado pouco; três, demais. Dois seria o ideal.
A política foi iniciada porque o governo estava preocupado com os efeitos da superpopulação no meio ambiente e nos serviços públicos, como saúde e educação. Hoje calcula-se que, sem a lei, a China (e, vale lembrar, o mundo) teria mais 400 milhões de pessoas, ou seja, dois Brasis a mais. 
(Só um adendo, para quem ainda acha que no Brasil os pobres têm muitos filhos. Não é mais assim. Em 1960 a brasileira tinha em média 6 filhos. Em 1980, já eram 4. Em 2000, 2. Hoje uma brasileira tem 1,9 filho, e a estimativa é que, até 2020, a média caia para 1,5, que é basicamente a taxa de reposição da população).
O problema de ter poucos filhos é o mesmo em todo lugar: a população vai envelhecendo, há menos força produtiva, e o sistema de previdência fica sobrecarregado. Hoje quase 9% da população chinesa tem mais de 65 anos (os homens se aposentam aos 60, e as mulheres, aos 55). A baixa taxa de fecundidade é na realidade um quadro geral em todo o leste asiático. 
Em 1984, o governo chinês permitiu 1,5 filho em áreas rurais: se a primeira criança fosse uma menina, o casal poderia ter uma segunda chance e tentar ter um menino. Eu ouço essas coisas e dá vontade de chorar. Mas as pessoas com quem falei sobre aborto, infanticídio e abandono de meninas na China se fizeram de egípcias, ou melhor, de chinesas. Todo mundo fala como se isso tivesse acontecido em regiões muito distantes, como algo do passado. Mas o fato é que há 30 milhões a mais de chineses que chinesas no país. 
Meu lindo amigo Vitor (seu nome ocidental) pontuou que ainda é forte o costume de que a família do noivo deve providenciar uma casa para o novo casal. À família da noiva, cabe entrar com a mobília e decoração da casa e talvez com um carro. Como o preço dos imóveis nas grandes cidades chinesas é proibitivo, muita gente está preferindo ter uma filha, segundo Vitor. 
O governo considera que planejamento familiar é uma política nacional básica. Todo cidadão tem o direito de se reproduzir, mas também a obrigação de controlar sua fertilidade. Quando um casal se casa, recebe instruções e um kit contraceptivo. Faz uma espécie de entrevista, em que responde quando planeja ter o filho. 
A professora contou que, no auge do controle governamental, a mulher poderia ser punida se tivesse mais de um filho. Se insistisse em ter o segundo filho, perderia o emprego, por exemplo. Perguntaram pra professora o que acontecia se a mulher grávida do segundo filho não trabalhasse -– como ela seria punida? A professora demorou pra entender a pergunta: “Todas trabalham”, ela respondeu. 
Hoje há incentivos financeiros, em vez de punições, para quem só tem um filho. Mas existe uma taxa de “compensação social” que deve ser paga por quem tem mais de um filho. Paga-se duas vezes a renda familiar anual naquela área. 
No final de 2013, o governo chinês relaxou a política do filho único. Se o primeiro filho tiver algum tipo de deficiência, o casal pode ter outro. Mineiros e pescadores podem ter um segundo filho. Casais em segundo casamento também podem ter um filho, mesmo que já tenham outro do casamento anterior. 
Minorias étnicas não têm restrições. Se marido ou mulher são filhos únicos, podem ter dois filhos. Na realidade, parece que há 22 exceções. E, como disse a professora, se o casal quiser mesmo um outro filho, sempre se dá um jeito. 
Com o relaxamento da lei, 11 milhões de casais podem agora ter o segundo filho. Porém, somente pouco mais de um milhão se inscreveu. A razão para as pessoas não terem mais de uma criança hoje é o custo. Calcula-se que o custo de criar um filho em Beijing é de 2,76 milhões de yuans (cerca de 1,4 milhão de reais do nascimento até a maioridade). Glupt.
No final da palestra, perguntei à professora sobre a “síndrome do pequeno imperador”: seria verdade que toda essa geração de filhos únicos fosse mais mimada, e tivesse mais dificuldade de trabalhar em equipe? Ela disse que não há estudos conclusivos sobre isso. 
Vitor mês passado na Grande Muralha
Falando com Vitor, ele filho único e super amável, vi que ele se sentiu solitário por não ter irmãos na infância. Eu quis saber o porquê, já que tantos de seus amigos também eram filhos únicos. Ele respondeu que eles não ficavam juntos o tempo todo. 
É verdade, mas pelo jeito ele passaria um tempão longe dos irmãos do mesmo jeito, se os tivesse. 
Até os dois ou três anos de idade, Vitor morou com os avós, não com os pais, já que os pais precisavam trabalhar e ele não tinha idade para entrar no maternal. Depois, já em idade escolar, passava o dia todo no colégio. Aos 15 anos, os melhores alunos das escolas de sua província receberam o convite para estudar numa escola de primeira linha. Vitor foi morar longe da família, dividindo dormitório com os colegas. 
Agora, aos 19, está numa das melhores universidades do país, e continua dividindo dormitório com três colegas (eles não podem escolher com quem dividir). A viagem de Beijing para sua casa no oeste da China leva 40 horas de trem (5 de avião). Ele está lá agora, durante as férias na faculdade, sendo mimado pela mãe, que havia prometido por telefone fazer todas as comidas que ele gosta. Mas Vitor me confidenciou que ela não é muito boa cozinheira. 
Mais sobre a política do filho único.
Update no final de outubro: Após 30 anos, governo chinês permite que casais tenham 2 filhos.