quinta-feira, 24 de agosto de 2017

UMA EM CADA TRÊS NORDESTINAS SOFRE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA. E ISSO AFETA TAMBÉM O TRABALHO

Hoje de manhã compareci a uma coletiva de imprensa para divulgação dos dados de uma grande pesquisa. 
Coordenada pelo prof. José Raimundo Carvalho, do Programa de Pós-Graduação em Economia da UFC, em parceria com o Instituto Maria da Penha, a Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher entrevistou dez mil nordestinas nas suas nove capitais.  
Treinamento das entrevistadoras em
Fortaleza
Toda a pesquisa foi feita digitalmente, sem papel. Cada entrevistadora (só mulheres foram contratadas, entre 25 e 35 para cada estado) recebeu 40 horas de treinamento e um tablet conectado a uma nuvem de dados. Cada entrevista levou cerca de uma hora e meia. 
O resultado é perturbador: quase 3 em cada 10 nordestinas entre 15 e 49 anos já foram vítimas de violência doméstica ao longo da vida. 
Uma em cada 10 nordestinas sofreu pelo menos um episódio de violência doméstica nos últimos 12 meses (leia o relatório aqui). E isso que a pesquisa foi realizada apenas nas capitais nordestinas. Acredita-se que a violência no interior dos estados seja três a cinco vezes maior. 
Consideram-se cinco tipos de violência doméstica: psicológica, moral, física, sexual e patrimonial. A pesquisa considerou três: emocional, física e sexual. Só pra exemplificar: em Fortaleza, 27% das entrevistadas já sofreram violência emocional, 19% já sofreram violência física, e 7% já sofreram violência sexual. 
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Uma das perguntas, para medir a percepção social da violência contra a mulher (ou seja, desmistificando que este é um assunto apenas do casal), foi: "Até onde você saiba, nos últimos 12 meses, alguma mulher da sua vizinhança ou do seu círculo social foi morta pelo marido/ parceiro/ namorado ou ex?" 6% responderam que sim. 
Àquelas que responderam sim, foi perguntado se essa mulher morta deixou algum filho ou filha órfão. Mais de 71% responderam que sim. Como o prof. Carvalho disse na palestra, uma das preocupações de Maria da Penha (que também estava lá) é com os órfãos da violência, pois pouco se fala ou sabe deles. A mãe é assassinada, e esses filhos (dois, em média) ficam com quem? Na grande maioria dos casos, ficam com a família do homicida. 
O relatório que foi apresentado hoje é o segundo, e concentra-se na violência doméstica e seu impacto no mercado de trabalho e na produtividade das mulheres (leia aqui). Eu já sabia, através de uma pesquisa nacional da Fundação Perseu Abramo realizada com 5 mil brasileiras em 2010, que um em cada cinco dias que uma mulher falta ao trabalho é por causa da violência doméstica. Mas o prof. Carvalho revelou outros dados, de acordo com sua pesquisa. Uma mulher que sofre violência doméstica falta, em média, 18 dias por ano ao trabalho. Além dos prejuízos físicos e emocionais que essas mulheres têm, o prejuízo financeiro é de todo o país, de toda a sociedade. Calcula-se que, nos EUA, o custo mínimo da violência doméstica seja de 2 bilhões de dólares por ano (mínimo porque essa estatística não inclui gastos médicos nem investigações policiais). No Brasil, o custo é de um bilhão de reais por ano. 
A mulher nordestina que sofre violência doméstica fica 22% menos tempo num emprego do que a mulher que não é vítima de violência. E quem sofre ganha em média 8 reais a hora, contra quem não sofre, cuja média salarial é de 9 reais a hora. Ou seja: a nordestina vítima da violência doméstica ganha 10% menos de salário, fica menos num emprego, e fica menos tempo trabalhando (já que precisa procurar emprego). 
Fortaleza tem a maior disparidade do nordeste entre o salário que recebe uma mulher que é vítima da violência e uma que não é vítima: 34% de diferença. Uma trabalhadora de Fortaleza que sofre violência recebe apenas R$ 6 a hora, em média.
A pesquisa também fez um recorte racial, e constatou que a mulher nordestina negra que sofre violência tem o pior salário. E, como é típico do nosso racismo, uma branca que sofre violência ganha mais que uma negra que não sofre violência. A nordestina negra que é vítima de violência tem o pior salário de todas.
O prof. Carvalho reforçou que a violência doméstica acontece em todas as camadas sociais e é um problema universal. Porém, a prevalência maior é entre a população mais pobre. 
Um dado interessante foi sobre a ocupação com maior prevalência de violência doméstica: trabalhadoras nos serviços de embelezamento (cabeleireiras, por exemplo) e cuidados pessoais. 26% das trabalhadoras nesta ocupação sofrem violência doméstica. Entre as empregadas domésticas, o número cai para 16%. 
É muito bom termos dados da nossa região. Para combater um problema, é preciso saber que ele existe e com que frequência acontece.
Este mês comemoramos onze anos da Lei Maria da Penha,
uma lei conhecida e aprovada por 98% das mulheres brasileiras. Mas sabemos que só uma lei não resolve a praga da violência doméstica. É preciso mudar a cultura. 

18 comentários:

Anônimo disse...

paraiba é foda

Felipe Roberto Martins disse...

Não devemos aceitar. Chega de violência contra a mulher, em qualquer lugar!

yuri disse...

Nordeste e muito complicado.feminicidio e homofobia correm soltos nessa regiao.eles sofrem xenofobia e devolvem com lgbfobia e feminicidio.Lamentavel e grave isso.

Anônimo disse...

Achei engraçado o quadro que fala: Ligue 180

90% do que é descrito ali não está tipificado no Código Penal (logo, não é crime).

Por exemplo, colocar a mulher para baixo. O que eles vão fazer no 180 ? Ligar para o cara e dizer "não faça isso não, fulano" ?

Anônimo disse...

Abaixo o preconceito contra nordestinos!

Anônimo disse...

Atirar ovo em uma mulher pode? Por que em um homem o mulheril não se alardeia. Aí não é violência moral, né?

Anônimo disse...

Se o norte e o nordeste são regiões da desgraça, sinceramente se o Brasil é um país de merda essas duas partes são 1000X piores. Não sei se tenho pena deles ou ódio porque a mentalidade é totalmente atrasada, uma tia minha foi visitar santarém no Pará e disse que praticamente todas as mulheres são machistas e apoiam isso porque preferem viver as custas do marido do que trabalhar, se qualificar ou empreender, difícil.

Anônimo disse...

Tem um certo deputado em Goiás que já defendeu colocar anticoncepcional nas estações de água das cidades que mais receberam imigrantes nordestinos. Assim, não apoio ele de modo algum até porque ele está sendo procurado pela lava-jato e por ser um ruralista ferrenho, mas nenhum país pode se desenvolver se as piores pessoas continuam tendo uma pancada de filhos sem responsabilidade nenhuma. Essa seria uma boa forma de planejamento familiar, que infelizmente falta no país.

Anônimo disse...

Existe um tipo de violência que é bem pouco falado, que é a violência doméstica dos pais e mães que espancam os filhos e filhas.

Se um adulto me der um tapa na cara, isso já constitui agressão física e eu posso ir à delegacia, registrar ocorrência e dar início a processo.

Se uma criança apanha, ela está sendo "educada" e é "um ato de amor" para "seu próprio bem".

Uma criança não tem como se defender. O adulto, sim.

Então ainda que exista lei em sentido contrário, assim como a agressão entre adultos, o fato é que isso ainda acontece muito, com a tolerância de toda a sociedade e é sabido que isso tem determinadas consequências na vida futura da pessoa.

Inúmeros estudos já demonstraram que pessoas que apanharam na infância têm rendimento escolar pior, maior propensão a abusar de álcool e outras drogas, a desenvolver distúrbios de personalidade e são pessoas que consomem mais medicamentos na vida adulta justamente para controlar os efeitos das agressões passadas e sucessivas (medicamentos para depressão, ansiedade, síndrome do pânico, antipsicóticos, para dormir, para acordar, para comer, para parar de comer etc).

E ainda existe o agravante de você estar ensinando para seu filho ou filha que agressividade, violência e amor andam juntos, na mesma estrada. Há quem diga que apanhou e nada aconteceu, bem, pelo menos uma coisa aconteceu: a pessoa achar aceitável agredir fisicamente pessoas indefesas.

"Ah mas vai educar como?"
"Como eu vou controlar a criança?"
"Então eu deixo ele(a) fazer o que bem entender?"

Quem pensa assim e admite que não sabe educar sem recorrer à violência física deveria ou aprender a fazer diferente, como tantas pessoas fizeram e criaram filhos perfeitamente encaixados e produtivos que jamais apanharam dos pais (é um erro achar que todo mundo apanhou na vida, só quem apanhou em casa que acha isso) ou então adiar o quanto possível (quiçá de forma permanente) a decisão de gerar descendentes, para o bem de toda a sociedade.

Porque tudo isso é fatal, especialmente para as pessoas do sexo feminino. Porque tanto ela quanto seu namorado, marido ou irmão aprenderam que é ok bater para educar e é ok apanhar para ser educado.

Então quando o marido "corrige" a roupa que você veste, controla suas amizades, o que você faz na internet, o que faz e fala, não são raras as muheres que levam um tempo enorme para notarem que nada disso aí é amor de fato e sim uma repercussão da violência que você começou a sofrer desde a infância na mão de pessoas que diziam amar muito esse alguém.

Nenhum relacionamento afetivo que terminou com um homem inconformado com o fim do relacionamento matando a companheira começou com um soco na cara, há toda uma progressão. O agressor dá dezenas, centenas de sinais antes dessa progressão chegar às vias de fato. E no tempo em que a mulher poderia perceber e encerrar aquilo ela não o faz por conta da sua percepção distorcida do que é um relacionamento afetivo, os limites e tudo mais que ela não aprendeu em casa na época certa. E, não raro, ela bate nos filhos também, perpetuando assim o ciclo da violência por mais uma geração.

Violência doméstica está longe de ser um assunto privado e é preciso começar a chamar pais e mães para uma boa conversa nesse sentido, se quisermos uma sociedade realmente melhor.

donadio disse...

"nenhum país pode se desenvolver se as piores pessoas continuam tendo uma pancada de filhos sem responsabilidade nenhuma."

É claro que pode. A Inglaterra, por exemplo, se desenvolveu com as "piores pessoas" tendo uma pancada de filhos sem responsabilidade nenhuma.

Anônimo disse...

"mas nenhum país pode se desenvolver se as piores pessoas continuam tendo uma pancada de filhos sem responsabilidade nenhuma. Essa seria uma boa forma de planejamento familiar, que infelizmente falta no país."

Não funciona colocar "anticoncepcional na água". Imaginando que funcionasse, afetaria homens e crianças também - e aí haveria uma grande revolta social, é claro.

Por outro lado, não seria de todo horrível condicionar o recebimento de certos benefícios sociais a uma esterilização temporária, como implantes de longa duração, coisa que já é feita com usuárias de drogas em programas sociais, por convencimento. Não faz sentido deixar uma pessoa na mais extrema vulnerabilidade, que sequer tem condições de dominar e cuidar de si, ter 5 filhos dentro de uma Cracolândia da vida. Há que se lamentar, porém, que essas soluções temporárias só existem para mulheres.

Viviane disse...

Então, anon de 8h01, se as usuárias de drogas são convencidas e têm acesso a esse tipo de anticoncepcional, por que não estender esse serviço ao SUS? O que mais tem por aí são mulheres pobres que querem se esterilizar, mas não conseguem por falta de acesso ou conhecimento. Por que o governo não estende esse serviço?

Joana disse...

A consciência humana anda tão cauterizada que a sociedade não enxerga que algo nomeado "violência doméstica" deveria ser contrassenso. São duas palavras que jamais deveriam se juntar, principalmente na prática.

Joana disse...

Pessoa... O que você vai ganhar se atirar ovo em uma mulher? O troféu "Loser do Post", você já conseguiu. Deseja algo mais? Foi pouco?

Lygia Sena disse...

Por isso precisamos de uma educação melhor no nosso país. Não podemos cobrar das pessoas o que elas nunca tiveram oportunidade de aprender!
Estamos ficando como o governo quer, com uma educação cada vez mais pior, isso resulta a pessoas cada vez mais ignorantes.

Mais educação por favor!

Lygia Sena disse...

Por isso precisamos de mais educação.
Vou repetir: Não se pode cobrar de alguém algo que a pessoa nunca teve capacidade de aprender, não compare a sua realidade com a do outro.

A educação salva!

Anônimo disse...

Anon 25 de agosto 18:23

Que deputado louco é esse? Colocar anticoncepcional na água significa que HOMENS e CRIANÇAS vão tomar daquela água tb. Ele tem noção do que uma explosão de hormônios femininos pode causar na saúde desses dois grupos?

E é uma medida caríssima, simplesmente inviável. Toda mulher sabe o preço absurdo de uma única cartelinha de anticoncepcional. E nem toda mulher se dá com o mesmo tipo de anticoncepcional - se uns dão certo para umas, esses mesmos podem causar trocentos efeitos colaterais em outras.

E as grávidas? E as mulheres amamentando? Elas já estão com os hormônios em situação extremamente delicada para tomarem mais estrogênio e progesterona.

Isso não foi uma proposta para fazer com que "nordestinos tivessem menos filhos", foi uma proposta para matar boa parte dos que estavam lá mesmo.

Tomara que a gafe tenha sido por ignorância, apesar de isso não isenta a irresponsabilidade de ele querer botar substâncias que ele nem sabe como funcionam na água dos outros.

Anônimo disse...

Comentário muito importante, inferência real da pessoa que o escreveu, escrita de maneira agradável, embora trate de assunto desagradável, mas não faz uso de sarcasmo ou dispositivos narcísicos de humilhação da alteridade. Pensamento assentado em afetos saudáveis, como toda racionalidade verdadeira, diferentemente das racionalizações, cujo objetivo é disfarçar incômodos internos sob uma capa racional. A construção da afetividade distorcida e perversa começa na infância, e desde lá já tem também um viés misógino. A misoginia é a base da perversidade mesma, a violência originária.

Na idade adulta, as pessoas passam não só a replicar esses modos de viver violentos e enfraquecedores, como também a defendê-los como se defendessem suas próprias vidas - pois tais modos de ser estão tão embutidos na estrutura das pessoas, que a ameaça a eles faz-se sentir como ameaça a existência mesma.

A solução para quebrar esse círculo vicioso geracional é focar nas afecções humanas das crianças e das mulheres que as geram e criam. Não é por meio de discursos - muito menos de por meio de discursos prontos e jargões de nicho. São ações, são vivências. Não é difícil. É assim que vivemos. Nossas vidas são ações, nossos afetos as dirigem e estão embutidas nelas. Saiam do atoleiro das intermináveis e inférteis discussões racionalizantes com trolls e cheguem nos corações das crianças e das mulheres. Em massa.