domingo, 20 de agosto de 2017

GORDAS NÃO PODEM TER VOZ, DECRETAM MICRÓBIOS

"Gordas não devem falar, mas nós sim temos algo a dizer", gritam vermes

Sexta à noite dei uma palestra sobre educação e gênero na semana de boas vindas de Letras da UFC. Correu tudo ótimo. 
E ontem minha fantástica colega Andreia escreveu um tuíte com uma das fotos que tirou (nem reparei que ela havia tirado fotos!). Eu dei RT. Isso foi suficiente pros reacinhas de sempre atacarem. 
Até aí, normal. Super acostumada. Mas o que me chamou a atenção foi o tuíte deste cara, que eu nem lembro de já ter ouvido falar mas já tava bloqueado:
A tese do sujeito é que, se uma mulher é gorda (homem tudo bem), ela não pode falar. Deve ficar em silêncio eterno. Não adianta nada fazer doutorado, pesquisar certos temas e palestrar sobre eles, porque ela já está desqualificada. Por ser gorda, ou feia. Afinal, a única missão de uma mulher na vida é ser linda
(e ser mãe. Ontem o Ines Bolso, que na realidade se chama Fabiano e não é um moleque, mas um rapaz de quase 27 anos, escreveu vários tuítes afirmando que sou infeliz e frustrada não por não ser mãe, mas por não ser avó! Essa sim foi uma novidade! Na imaginação limitada do troll, uma mulher de 50 anos deve estar cozinhando bolo de cenoura pros netos, não ficar no Twitter. A noção que eles têm de como deve ser o comportamento das avós realmente estacionou na década de 50). 
Isso de gorda não ter valor não é lá um pensamento muito original. Meninas gordas provavelmente ouvem isso na 4a ou 5a série. E é o que se vê todos os dias nas redes sociais -- se você é gorda, não merece existir. Mas o incrível é que isso é repetido por gente que jura que gordofobia não existe. Ué? Desqualificar ou tentar silenciar uma gorda não é gordofobia? É o quê, então? Piada?
O organizador da marcha nazista
de Charlottesville disse que a
ativista Heather Heyer mereceu
ser morta porque era uma
comunista gorda. Diante das
reações, alegou que foi hackeado
ou que estava sob medicamentos
quando escreveu isso
Aí mascus leram o tuíte e acharam que eu fiquei revoltada (gente: miséria e guerras me revoltam. Saber que 8 bilionários têm o mesmo patrimônio que a metade das pessoas mais pobres do mundo me revolta. Vocês só me fazem rir) porque o cara me chamou de gorda. Como se ser chamada de gorda me ofendesse ou como se eu não fosse chamada de gorda trezentas vezes por dia. Não, gênios. O que me fez erguer a sobrancelha foi a segunda parte do tuíte -- que ser gorda significa que você não pode falar.
Bom, se não são milhares de ameaças de morte que me calam, certamente não vai ser a opinião de reacinhas que não devem ter espelho em casa que vai me silenciar. Porque, sei lá, só o privilégio masculino pra fazer com que caras que não são nada bonitos se coloquem num pedestal e se sintam aptos a julgar a aparência de toda e qualquer mulher.
Mas eu sei que essas falas fascistas afetam meninas. 
Recebo emails de garotas de 12 anos que sofrem bullying na escola (e nas redes sociais) por sua aparência estar fora do padrão. E isso acaba com a autoestima delas. Eu vejo nas palestras que dou um monte de moças que vem falar depois dizendo que não querem usar microfone, que detestam falar em público -- isso as corajosas que levantam a mão ou se inscrevem pra falar. Porque a maioria já incorporou que não têm direito de fala. 
Meninas, mulheres, saibam que esta é uma estratégia de silenciamento. A sociedade nos ensina desde que somos bebês que o que mais vale pra gente é a aparência, estar dentro de um padrão inatingível para a maior parte das mulheres. Também nos ensina que dependemos da aprovação masculina, que a opinião de um homem vale mais do que a de uma mulher, e que o afeto que receberemos ou deixaremos de receber está ligado a esta aprovação (se somos feministas, não somos dóceis ou submissas, então não somos merecedoras de afeto). Que nossa função é decorativa -- abrir a boca só atrapalha. À medida que crescemos, vamos entendendo que os tempos mudaram, que queremos e precisamos ter voz, que não nos inscrevemos num eterno concurso de miss universo, que dá pra se medir sucesso de muitas formas. 
Mas toda vez que vamos falar em público (o que inclui se manifestar nas redes sociais), principalmente se formos dizer o que eles não querem ouvir, virão pessoas que já ficaram pra trás, que já perderam, nos lembrar que não podemos ter voz porque não somos bonitas. E quem determina quem é ou não bonita são eles, lógico. E mesmo que você fosse modelo de beleza, pode ter certeza que eles encontrariam inúmeros defeitos na sua aparência porque no fundo eles não querem que você fale. 
Sugiro olhar pra esses caras que nos xingam -- com lupa ou microscópio, porque, apesar de serem muitos, eles são minúsculos, insignificantes -- e olhar pra gente. Nós somos lindas. Somos mulheres que lutamos, que não nos conformamos, que não nos deixamos silenciar. Quem realmente não deve ser escutado: uma gorda que palestra ou um covarde qualquer que acha que gorda não pode palestrar, porque é gorda? 
Uma opinião do tipo "Se não me causar uma ereção, ela não merece viver" é o que desqualifica qualquer cara. Nada do que um sujeito desses falar antes ou depois merece ser levado em consideração. E ele sabe disso. Por isso esperneia. 

29 comentários:

Anônimo disse...

Querida Lola, adoro tua força. Exatamente: devemos aprender a falar. Beijos e boa semana!

LivCat disse...

Obrigada por esse texto maravilhoso Lola.
Recentemente também foi julgada pela aparência no trabalho (onde há duas mulheres, eu e a filha do dono (uma moça muito bonita e preocupada com sua aparência). Todos estavam brincando com um dos meninos por ele ter feito um corte semelhante ao de um cantor e quando eu fui brincar ele disse que eu "não tinha moral" para falar do novo corte de cabelo dele. Detalhe: sempre ajudei a criatura em diversos problemas, como uma pessoa mais velha, sempre relevei e ensinei o melhor jeito de trabalhar pq queria ver a pessoa crescer, pq eu tenho mais experiência, inclusive fui procurada pelo mesmo para dar ajuda. Mas como meu cabelo é crespo, como eu sou mulher, como eu sou gorda, ele não pode rir quando eu falo, só ri dos outros, pq eu não tenho "moral". Achei que estava brincando com um amigo e descobri q na verdade eu não era nada mais do que tolerada por todos.
Seja como for, seu texto meu deixou feliz, passei a vida toda brigando com a balança, e só conseguia ser ouvida na internet onde não viam minha imagem.
Gostaria de ter mais força como vc é não me deixar abalar, mas ainda estou aprendendo a lidar e descobrindo em quem confiar, e principalmente a confiar em mim mesma.
Seu texto me inspira a ver as coisas por outro ângulo e com mais clareza.
Mais uma vez obrigada.

Anônimo disse...

Obesidade é uma doença que mata milhões de pessoas por ano, não devemos desqualificar pessoas,,agora algo diferente é glorificar um modo de vida não saudável

Anônimo disse...

(Viviane)
No meio virtual não precisamos nem expor a aparência. Basta comentar com um nome feminino para já ser alvo de xingamentos. Eu já fui chamada de "feia" (e olha que meus comentários em sites e blogs não têm foto) em uma discussão sobre política. Na Veja, no G1, no UOL? Que nada, no Tijolaço, um blog de esquerda... o que não isenta os homens de se acharem no direito de nos julgar pela aparência (que o tal sujeito nem sabia como era, bastou ver meu nome no comentário).

Anônimo disse...



a) Lola sou sua admiradora acredito que estes padrões de beleza um absurdo e nos mulheres devemos nos libertar.

b) Lola vc viu a Miss Brasil 2017 é negra tb merece um post

Anônimo disse...

Ninguém liga para "outras formas de sucesso". Para a sociedade, a única forma de sucesso que agrega valor a uma mulher é a beleza.

titia disse...

Mas e se os netos não gostarem de bolo de cenoura?

É incrível como a mascuzada me faz rir. É só passar as vistas pelos comentários deles e já estou gargalhando. Birra de machinho mimado que só agora começou a aprender que o mundo não gira ao redor do pau dele é hilário.

lauda disse...

E quem está fazendo isso? Interpretação mandoh um abraço. Até porque magreza sem atividade física e tão prejudicial como a obesidade mas ninguém pergunta para uma magra de pratica esporte. Só usa a desculpa de saude para criticar a aparência. Covardia, apenas.

Joana disse...

Entendi. E ninguém é você ou você é ninguém - na ordem que preferir.

Joana disse...

E a mascuzada ainda não descobriu que pessoas não tem o que falar porque tem gordura ou o puro osso. Pessoas tem o que falar quando tem um CÉREBRO e, sobretudo, o USAM.

Joana disse...

Ao menos sabemos do que gostam netos de mascus: bolo de rolo, oooooopppppssssss... de rola. Kkkkkkkkkkkkk.

Felipe Roberto Martins disse...

A Lola é a Dona do blog e escreve o que quiser. Simples assim. Parabéns Lola, Coragem, estamos do seu lado eu e vários brasileiros.

Anônimo disse...

Sou feminista mulher e socialista.

A doacao pro blog aceita VISA?

Anônimo disse...

"Anônimo Anônimo disse...
Obesidade é uma doença que mata milhões de pessoas por ano, não devemos desqualificar pessoas,,agora algo diferente é glorificar um modo de vida não saudável

20 de agosto de 2017 16:36"

O mais aparente preconceito gordofóbico: não 'podemos incentivar' as pessoas a serem gordas, respeitando-as como são. O post é sobre um comportamento babaca e infantil de desqualificar uma pessoa por conta da 'sua gordura' e o sujeito gasta o teclado para lembrar que a falta de educação e ignorância de homens fracassados machistas não é tão grave como ser gorda...E ainda acha que está 'defendendo a saúde'. Não imbecil, você está vomitando um preconceito e defendendo um monte de babaca.

Lola lindona, você é demais! Esse texto alimenta a alma e nos dá coragem. Precisamos ter voz pública, precisamos ter a coragem de ouvir nossa própria voz. Muito obrigada pela luta, você sabe o quanto significa para mim e muitas mulheres.

Um abraço e dois beijos carinhosos,
Marcia.

Anônimo disse...

Minha cunhada, quando tinha 16 anos, foi bastante perseguida por uma pessoa na internet, sendo que todo xingamento que ele usava tinha a ver com peso e ele chegou ao ponto de fazer umas montagens bem toscas, como se fosse no Paint, chamando-a de porca, baleia etc. Um dia a família dela acabou vendo e a partir daí "assumiu o caso", eventualmente conseguindo chegar por diversos meios a uma identificação positiva do bully, que eles imaginavam ser algum garoto da escola. Era um homem de 57 anos do interior do Paraná que, segundo consta, devia pesar uns 200kg.

Não me espantaria em nada se fosse exatamente a situação do carinha aí do tweet.

Bianca disse...

Lola, maravilhosa
O machismo está tão profundo em nossa sociedade que muitas feministas o reproduzem
Tenho duas pessoas muito próximas à mim, duas mulheres. bissexuais as duas, feministas as duas, uma de 40 e outra de 17 anos, que numa conversa disseram que um homem não precisa ser bonito para despertar o interesse sexual, mas mulher, tem que ser muito gata. Claro que "muito gata" está totalmente inserido nos padrões estéticos impostos. Muito louco isso

Anônimo disse...

Sexismo puro

Anônimo disse...

Muito, muito obrigada por este post. Eu não sabia o quanto eu precisava dele.

Anônimo disse...

Lindo comentário@

Anônimo disse...

Qualquer mulher que saia de qualquer padrão que seja, vai sofrer as consequências. Eu sou magra, bonita e mãe...solteira. E pobre. De repente é como se eu tivesse perdido quase todo o meu valor pra sociedade. As pessoas se acham no direito de dizer como eu devo criar meu filho, eu não posso reclamar de cansaço, não posso perder a paciência, eu não posso me divertir. As vezes eu sinto como se as pessoas não me enxergassem mais como ser humano, é como se eu tivesse obrigação de ser quase um robô, é como se eu tivesse que pagar pelo resto da vida pelo meu erro, que é simplesmente o erro de não ter um marido. Inclusive pessoas ao meu redor que sabem que me separei pq ele me traiu, não foi culpa minha. Mas não interessa, na cabeça deles é, eu que escolhi errado, a culpa sempre é da mulher. É assim que enxergo, a mulher quanto mais sai do padrão, é cada vez menos vista como ser humano. Ela vira uma "coisa" que precisa ser concertada. E é muito triste pq isso vem de todos os lados, inclusive de mulheres.

WILLIAM disse...

PARABÉNS PELO POST, LOLA!!! CONTINUE PODEROSA E EMPODERANDO AS MULHERES DO BRASIL. GRANDE ABRAÇO!

Marcelle Silva disse...

Vontade de te dar uma abraço, Lola! Obrigada pelo post! Obrigada por ser forte por vc e por todas nós! Um bj

Anônimo disse...

(Viviane)
Anon de 13h45, a questão das mães solteiras (eu também sou) daria um post à parte. Uma dica para você: você não tem de "pagar por erro" nenhum, esqueça isso! Eu passei muito tempo sofrendo por acreditar nisso, mas não vale a pena.

Anônimo disse...

A tentativa de silenciamento: até quando devemos passar por isso? Todos nós que fugimos desse padrão sufocante, que é o padrão "normal" (brasileiro). Eu, que sou negra, passo por isso, por tentativas de silenciamento, justamente, por ser mulher e negra.
Muitos se surpreendem, por exemplo, com o meu bom desempenho acadêmico, apenas porque acham que alguém como eu não tem a menor capacidade. Nós, negras, que devemos limpar o chão onde essas pessoas pisam, e que, para elas, nós não deveríamos estar no lugar de exercer uma fala, digamos, mais prestigiada, como a acadêmica. E, se não é o suficiente os olhares tortos e de desqualificação automática que sofro/sofremos, ainda têm os condescendentes, que me qualificam como "esforçada", mas jamais como inteligente. É como se todos os que chegam a lugares bons na academia fossem gênios. Como se todos não tivessem que se esforçar. Mas comigo, não, eu serei apenas a "esforçada". É como um estudioso sobre o racismo já disse, quanto mais um negro entra em espaços, até bem pouco tempo atrás, dirigidos apenas para a elite (majoritariamente, branca), mais o racismo se refina, mais sutil se torna e, por isso mesmo, mais cruel, porque, quando se é velado, torna-se mais difícil apontá-lo. Quanto mais para as mulheres negras, que constantemente são lembradas de que nunca serão tão belas quanto as brancas e, portanto, sua voz é duplamente desacreditada.
Um bom exemplo disso: a minha sogra, branca, de classe média alta, adorava me lembrar que namorar o filhinho dela não era o meu lugar, porque, afinal de contas, eu não me vestia adequadamente, eu não estava à altura de seus padrões de classe (e racial, é claro).
Eu disse: ela "adorava", no passado, de propósito. Porque, como tantas de nós, como você, Lola, nesse post, eu tive de mostrá-la que o meu lugar não deveria e nem vai ser reduzido ao que ELA acha que é o certo. Infelizmente, a inimizade patriarcal, somada ao racismo, existe, sim, nesse caso, mesmo sendo difícil de engolir. Claro, eu não quero comparar a tua situação, muito mais grave do que a minha, apenas queria, contando um pouco sobre mim, te parabenizar.

Lola, parabéns pela tua força, porque, eu, como tua leitora há mais de 6 anos, posso te dizer que é bastante reconfortante ler alguém como você. É um alento para quem tem que, constante, ter que se reafirmar, para quem sempre precisa dizer aos outros que a nossa vida não é brinquedo, que nós, mulheres (negras) não seremos reduzidas ao domínio de ninguém. Parabéns, Lola.

Anônimo disse...

Infelizmente isso é comum demais né? Uma colega de trabalho voltou da licença maternidade 25 quilos mais magra, sendo que engordou dez na gravidez. Teve n problemas de saúde, problemas no parto, teve que tomar remédios caríssimos, não conseguiu amamentar o bb. Mas todos elogiaram o corpo dela.
Eu, que engordei treze quilos, tive parto natural, amamentei meu bb até os dois anos, sou a mãe gorda que está dando um péssimo exemplo pra minha filha. Detalhe: dos 13 quilos, emagreci dez. Mas aos olhos das pessoas, pq meu manequim é 46 e não 36, sou, não apenas gorda, mas fracassada.

Anônimo disse...

esses dias na minha universidade um palestrante perguntou ao público algo e pediu para mostrar na figura a resposta. eu, mulher, respondi certo e ele logo perguntou outra coisa, dizendo bem rapidamente que eu havia acertado aquilo. A outra coisa eu não soube responder, e ele passou para um homem que acertou e então ele ofereceu uma bolsa de estudos em Portugal para ele. Eu havia acertado a primeiro pergunta, mas sou mulher, não recebi parabéns nem bolsa de estudos, fui logo atacada com outra pergunta que não tive tempo pra pensar e responder. nós nunca somos ouvidas, mesmo certas, não somos ninguém, não ganhamos parabéns nem bolsa de estudos, só ganhamos a indiferença.

Anônimo disse...

esses dias na minha universidade um palestrante perguntou ao público algo e pediu para mostrar na figura a resposta. eu, mulher, respondi certo e ele logo perguntou outra coisa, dizendo bem rapidamente que eu havia acertado aquilo. A outra coisa eu não soube responder, e ele passou para um homem que acertou e então ele ofereceu uma bolsa de estudos em Portugal para ele. Eu havia acertado a primeiro pergunta, mas sou mulher, não recebi parabéns nem bolsa de estudos, fui logo atacada com outra pergunta que não tive tempo pra pensar e responder. nós nunca somos ouvidas, mesmo certas, não somos ninguém, não ganhamos parabéns nem bolsa de estudos, só ganhamos a indiferença.

Jazz La Vie disse...

Seria otimo ganhar este livro

Anônimo disse...

Lola, por acaso vc já viu "Embrace"? É um documentário super legal que tem na netflix sobre aceitação do corpo, acho que vc iria gostar bastante.
Enfim, obrigada por escrever sobre esse assunto tão espinhoso com tanta transparência, mostrando quão toscas essas regras são, como não se sustentam e tal. Gosto de muitos tipos de posts seus, e que sejam variados e tudo. Mas vou te confessar que os com essa tag ainda são os meus favoritos.