sexta-feira, 26 de setembro de 2014

GUEST POST: MULHER DE MUITA LUTA

Tive o prazer de conhecer Manuela D'Ávila em 2012, quando dividimos uma mesa no Direito da USP sobre violência de gênero. 
No meio dos homens
Na época, ela era candidata à prefeitura de Porto Alegre pela segunda vez. Mas era totalmente acessível, simpática, e uma grande oradora. 
Manuela começou sua vida política no movimento estudantil. Mais tarde, foi a vereadora mais jovem da história de Porto Alegre. Depois foi eleita deputada federal duas vezes, a mais votada da história gaúcha. 
E ela não é qualquer deputada -- é a líder de seu partido (PCdoB) na Câmara. Por isso, foi surpreendente pra mim (e pra todo mundo) quando ela anunciou que não concorreria à renovação do mandato no Congresso. Agora, ela é candidata à deputada estadual. Seria minha candidata, se eu votasse no RS.
Manuela não se deixa abater. Em março, quando foi assaltada, os comentários reaças foram os piores possíveis (afinal, uma comunista que defende direitos humanos tem mais é que ser assaltada mesmo!). Ela respondeu no FBNo final do ano passado, um deputado ruralista, líder da bancada do PSDB, foi machista e grosseiro com ela. Ela deu o troco num discurso memorável
No meio da correria da campanha, ela escreveu o texto abaixo especialmente pro blog:

No fim deste ano completo dez anos de mandato parlamentar e quinze anos de militância política. São anos de aprendizado intenso. Disputo minha sexta eleição aos 33 anos de idade e resolvi encerrar um ciclo do meu trabalho em Brasília.
Defendo a renovação da política e também renovação dos meus próprios desafios. Volto para o meu estado, sou candidata à deputada estadual por muitas razões. Tenho vontade de voltar para cá, ficar mais perto dos movimentos sociais, conversar mais com as pessoas. 
Brasília é extraordinária! As lutas nos desafiam todos os dias. Mas nos reconhecermos como não imprescindíveis também é exercício importante em um Brasil com tanta carência de uma política menos personalista.
Militar no movimento estudantil e ser deputada me fez conhecer bem mais o nosso país e a realidade de desigualdade econômica. Mas me fez, sobretudo, perceber a realidade de opressão de gênero em que vivemos. Confesso que na vida universitária e no movimento estudantil, ali saindo da década de 90, pensava pouco sobre as questões de gênero. Me dedicava muito mais às lutas gerais de transformação da sociedade. 
Porém, ao ocupar o meu primeiro espaço de poder institucional (a câmara de vereadores), a realidade da opressão bateu na minha cara. Tanto pelo que vivi individualmente quanto pela incapacidade do estado em garantir nossos direitos básicos na vida em cidade e nos impor, assim, uma vida com muito mais adversidades.
Afinal, quem sai da escola pela gravidez não planejada? Quem deixa de acessar o mundo do trabalho por falta de creche? Quem é assediada em transportes públicos super lotados? Quem sofre mais com a falta de segurança para andar nas ruas? Quem ocupa as filas dos hospitais na espera do atendimento de saúde para o familiar? Na nossa cultura machista, as mulheres são as mais atingidas pela incompetência do estado e a ausência de políticas públicas. Isso sem falar da violência doméstica e sexual, da educação sexista....
Da Câmara de Vereadores ao Congresso Nacional, meus olhos ficaram ainda mais abertos. Afinal, fui transformada pela grande mídia em apenas um rostinho bonito. Mesmo que eu fosse a única jovem no Parlamento eleita sem um sobrenome de peso, sem um pai político, o interesse maior da mídia, quase sempre, era em meu estado civil. Não nas leis que aprovei.
Presidi a comissão de direitos humanos e me esforcei para ter um mandato que dialogava com múltiplos setores da sociedade. Não nos resignarmos ao que o Congresso nos impõe é o desafio. Precisamos ocupar os espaços da política! Somos poucas e sem poder dentro do poder! Fui líder de meu partido enquanto nenhum outro partido era liderado por uma de nós. Ou seja, chegamos lá e não chegamos lá, no espaço real de decisões.
De Brasília trago algumas conclusões: não avançamos no combate às opressões (de gênero, de orientação sexual, racial) na mesma velocidade em que avançamos economicamente. Precisamos de pessoas com coragem para ter opinião e lutar e denunciar temas sensíveis como aborto e drogas, entre outros. 
Precisamos mudar a política, aproximá-la profundamente das pessoas para termos força para isso. Ou mudamos a política ou não avançaremos. Quero me dedicar a isso: à construção de consciência social.

3 comentários:

Gle disse...

Que pessoa linda essa! E gaúchxs geralmente são assim, né? Tem ORGULHO do seu Estado e não resistem ficar muito tempo longe. Se eu mudasse de estado hoje, eu iria para o RS.

Parabéns pela postura, pela plataforma de governo e simplicidade!

Kittsu disse...

Lola, exclui os comentários dessa anta passando virus.

Helen Pinho disse...

Sou gaúcha e admiro a Manuela, contudo em sua entrevista para a revista TPM, em 2012/13 não lembro bem, ela afirmou que acreditava que a questão do aborto deveria ser tratado por alguém de fora da política, como a questão das drogas está sendo tratada pelo FHC, por ser um assunto muito polêmico, não poderia discordar mais de um posicionamento. Vou pesquisar se ela mudou de opinião. Na página Vote em uma Feminista Manuela não está na lista do estado, pois não possui um programa claramente em prol das mulheres. Isso claro não a desqualifica como candidata, apenas mostra que pelo seu programa não está comprometida com lutas históricas feministas.