quarta-feira, 13 de novembro de 2013

"COMO COMBATER PRECONCEITOS SEM ME ESTRESSAR?"

"Me chamo V. e sou da região norte. Atualmente curso Artes Visuais numa federal. Sempre leio seus posts e gostaria que você me ajudasse em algo.
Bem, desde o colégio, que fiz sempre no ensino particular, tinha problemas com meus colegas, que eu rotulava de 'burros': seja quando o professor de História passava um vídeo sobre os indígenas do Xingu e as pessoas da minha sala falavam que índio é tudo preguiçoso, seja quando o mesmo professor passava um vídeo mostrando os cultos afro-religiosos ou da seca no no nordeste, e aí aparecia uma senhora sem dentes e todo mundo caía na risada, eu sempre me indignei e arranjava sérias brigas por isso. Eu era a revoltada, a estressada. 
Lembro-me do dia em que, no convênio, um professor de Física comentou na frente de toda a sala que o apelido de um menino do colégio era macaco do Aladim (óbvio que o menino que recebeu o apelido era negro) e eu retruquei e falei que era um absurdo, e todos na sala falaram que era apenas uma brincadeira, que eu não deveria levar tudo tão a sério. 
O fato é que eu resolvi fazer Ciências Sociais no vestibular, mais por adorar meu professor de Sociologia do ensino médio do que por me identificar com a profissão de cientista social, e achei que tudo seria diferente na minha turma; achei que quem escolhia ciências sociais eram pessoas super esclarecidas e que eu ia ter discussões maravilhosas sobre a realidade brasileira, e que todos os meus colegas de turma iam ser revolucionários, e que nós íamos mudar o mundo.
Qual não foi a minha surpresa ao perceber, ao longo das aulas, que os futuros cientistas sociais eram tão conservadores quanto os meus colegas do ensino médio! A sala se dividia entre adolescentes sem opinião, conservadores e algumas poucas pessoas mais esquerdistas como eu. Só para citar alguns exemplos: havia meninas que achavam Marcha pelo Orgulho Heterossexual a mesmíssima coisa que Marcha do Orgulho Gay, que achavam que usar uma camisa com a frase 100% negro é tão racista quanto usar uma com 100% branco.
Havia até um estudante homossexual assumido que ao responder a pergunta do professor marxista de Sociologia sobre quem pensava a realidade social da melhor forma, a esquerda ou a direita, respondeu: a direita. Justificativa? 'Eu sou consumista, eu sou capitalista e é isso mesmo.' COMO ASSIM? E dessa forma fui aprendendo, no alto dos meus 17 anos, que estilo de música, estilo de roupa etc não define caráter. Ou seja: Não adianta se vestir de All Star e ouvir Pink Floyd se o teu discurso contribui pra ordem estabelecida (coisas de adolescência, talvez você lembre de quando viveu isso e me entenda). 
O fato é que eu me frustrei tanto com essa realidade, e com o próprio curso, que resolvi mudar para Artes Visuais. Imaginei que os futuros 'artistas' seriam mais cabeça aberta, mais libertários, mais anárquicos. Qual não foi a minha surpresa, NOVAMENTE, ao descobrir que estava errada. Pra teres uma ideia, o cara mais popular da minha sala, e que é o mais cotado nas eleições para representante de turma, é um completo conservador, que acha que pichador tem que ser pichado da cabeça aos pés pra aprender a não fazer mais isso, e que diz em tom de brincadeira, ao ser abordado pela professora para expressar como se define, que é machista. 
O problema, Lola, é que eu não sou uma pessoa de temperamento fácil. Falo alto, grito, xingo, falo palavrão, e isso me castra no caminho de defender meus argumentos e tentar barrar esse discurso opressor no meu ambiente de convívio, ou seja, na minha sala de aula. Na verdade isso acontece em todos os lugares em que eu me meto em uma discussão. Aconteceu recentemente, de eu participar de um fórum de pesquisa em arte, e ao acontecer uma mesa sobre mito e xamanismo no alto Rio Negro, com a presença de autoridades indígenas, e quando elas comentavam sobre como é importante a valorização da sua cultura, eu, num momento de profunda revolta com tudo, gritei 'PARE BELO MONTE!' Claro, algumas pessoas riram, e o resto ficou calado. Depois um colega de turma me transformou num meme no facebook. 
Enfim, o papo é que eu queria a tua ajuda. Como posso me expressar melhor e combater de uma maneira clara, concisa e não violenta esses discursos que me dão tanta dor de cabeça? Como não me violentar me estressando tanto com essas pessoas, e ao mesmo tempo conseguir combatê-las dentro do meu ambiente de vivência? Como tu fazes isso no dia-a-dia? Como tu consegues arranjar paciência? Por que eu costumo sempre explodir ao encontrar esses seres humanos com tão pouca idade e tanta besteira na cabeça. Me ajuda, por favor!"

Minha resposta: Olha, não é fácil mesmo, mas isso você já percebeu. Você pergunta como que eu faço. Na realidade, eu tenho a sorte de não ter que conviver com tantos babacas quanto você tem. De modo geral, meus alunos ou são muito gente boa ou não falam de política. Quando um ou outro preconceito escapa da boca de algum, os próprios alunos corrigem. Só bem de vez em quando eu tenho que me intrometer, e aí faço de modo tranquilo, sem me exaltar. Mas, claro, como professora, estou numa posição de autoridade. Procuro não abusar dela, e até agora não tive problemas.
Agora, tenho amigos de infância, amigos que foram conservadores a vida toda e vão morrer reaças, e esses são mais difíceis de cortar. Portanto, a gente evita falar de temas polêmicos, e, quando fala, é com muita ironia de ambas as partes. É pra tirar sarro mesmo. Eles me acham ridícula por eu ainda ser de esquerda, depois de todos esses anos, e eu os acho ridículos por eles sempre terem sido de direita. Mas a gente se dá bem.
Na internet é diferente. Obviamente recebo inúmeros comentários de trolls -- idiotas por definição --, e rio deles. É o melhor que posso fazer. E eu me divirto, porque o que eles dizem é totalmente sem noção. O Twitter tem o botão de block que é uma das maiores invenções da humanidade. Você recebe uma mensagem reaça, dá block no perfil, e pronto: você nunca mais tem que voltar a saber da existência desse ser que você nem sabia que existia até poucos segundos atrás.
Acho que você precisa levar as coisas com mais leveza e humor. Não dá pra se zangar e querer responder todas as asneiras que você ouve. Tente selecionar. E, se vc acha que não dá mesmo pra deixar de responder, então responda. A essa altura, você já é conhecidíssima na faculdade como a cri-cri, a chata, a mal amada, a feminista radical, a esquerdopata e sei lá mais o quê. Imagino que as pessoas já esperam que vc as repreenda. De repente, surpreenda-as. Deixe passar algumas bobagens. Veja se mais alguém tem coragem de chamar a atenção do reaça.
Quando a gente fala alto e xinga, muitas vezes perde a discussão, independente do que tem a dizer. Ainda mais sendo mulher. Como a gente sabe tão bem, os homens têm o monopólio da razão. Eles estão sempre certos, e eles têm certeza absoluta que sempre são lógicos e racionais. E a gente, bom, a gente é histérica, tem TPM, é volúvel. Só por ser mulher. Portanto, mesmo que você diga exatamente a mesma coisa que um rapaz disser, no mesmo tom de voz, ele será considerado comedido e sensato, e você, descontrolada. Him Tarzan, you Jane. Não tem muito como fugir disso. A sociedade está estruturada pra fazer com que as mulheres não tenham voz.
Mas não se cale. Só escolha melhor as suas lutas, pra não se desgastar tanto. E mantenha a calma ao discordar. Não aceite provocações. Porque tem muita coisa que os reaças vão falar meramente pra provocar.
Entendo como deve ser frustrante estar no meio de tantos conservadores numa universidade pública, em cursos tidos como mais prafrentex. Mas, acredite, também deve haver gente como você nesses cursos. Tente se aproximar mais dessas pessoas.
Acho que não consegui te ajudar muito, né? Tenha paciência. A gente está mudando o mundo de pouquinho em pouquinho, mas vai demorar muito pra mudar tudo que queremos. Não acho que estarei viva pra ver essa total transformação. Mas posso sonhar com ela.

36 comentários:

Anônimo disse...

Essa tirinha do "orgulho hétero" me lembrou esse post:

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=539567779466730&set=a.387676521322524.91192.387661251324051&type=1&theater

Anônimo disse...

Viver em sociedade é conviver com quem não pensa como nós. É difícil mesmo, e como as pessoas não são blocos inteiros, monolíticos, podemos ser amigos de pessoas que tem ideias absurdas para nós, porque além das ideias absurdas elas podem ter outras características adoráveis.

Ajuda também tentar sair do pedestal e achar que quem não pensa como nós é babaca, reaça, etc. As pessoas são múltiplas e não somos donos da verdade, embora quase sempre queiramos ser.

Tolerância é muito fácil de exigir, mas muito difícil de ter.

Larissa Petra disse...

Olha na época da escola eu era como vc, tinha uns amigos que pensavam como eu e eu andava com eles, mas quando os babacas soltavam seus moralismos e conservadorismos, ah eu gritava, esperneava, e sempre saia como a louca histérica que n respeita ninguém, foi quando eu notei que estava sendo como eles. Olha eu sei que é tenso, mas tenha calma e paciência, explique de maneira sensata quase paternalista, assim vc consegue convencer muito mais que berrando, olha dá certo! Eu mesma tenho amigos mega reaças, mas a gente se dá bem e tenho muitos amigos, principalmente amigas, que quando eu adotei essa postura mais calma, convenci muita gente sobre cotas, machismo na sociedade, direitos humanos, enfim...mas não dá para mudar a cabeça de uma pessoa totalmente, hoje comemoro cada pequena vitória. Assim tenho uma amiga que sempre foi mega reaça, antes a gente discutia eu gritava e ela revirava os olhos, depois comecei a falar de boa mostrar blogs (inclusive o seu Lolinha) e hoje ela repensou muita coisa, já até se considera feminista, porém, ainda tem coisa que ela n muda, ela ainda é contra cotas (mesmo sabendo a situação do negro), contra o aborto, mas olha, hoje ela não faz piadas preconceituosas, consegue ver a cultura do estupro, não pratica mais slut shaming, ou seja, ela mudou, e continua mudando, tenho amigos que mudaram totalmente sua maneira de pensar, como tenho uns que nasceram e morrerão reaças, e na boa se quiser continuar amiga deles a gente tem que aceitar, claro que a gente discute e expõe pontos de vista, mas depois a gente conversa sobre qualquer outra coisa e se dá bem, entretanto, se vc tiver tanta dificuldade de conviver com os reaças, procure conhecer gente que vc se identifique mais, o negócio é não se deixar estressar pois isso será pior para vc e sua saúde.
Bejos querida e boa sorte ! <3

Anônimo disse...

Quando cheguei na universidade também era assim, com o tempo a gente ganha maturidade. No meu primeiro dia de aula a professora disse na aula que as cotas raciais acabaria com a universidade pública, quando falou pela terceira vez não aguentei e gritei: não é bem assim não quase acabei com a aula. Depois desse dia continuei minha luta, eu me tornei a intolerante e arrogante, como morava em alojamento a luta era o dia todo. As coisas só melhoraram quando comecei a me colocar no lugar dos outros, comei a pensar nem todxs tiveram o espaço que tenho para refletir (educação popular). Eu estudei pedagogia em uma Universidade pública, mas a maioria das pessoas desse curso estudaram em escola pública, normalistas, professoras que quando chegam só querem o diploma e morram próxima a universidade município de Seropédica que se não fosse a UFRuralRJ ninguém nem saberia que existia, município que tem a pior escola estadual do Brasil. Foi assim que consegui que as pessoas refletissem o que falava e meu último dia de aula ouvi de uma colega: não gostava de você hoje entendo, não mude. Procure a se colocar no ligar dos outrxs algumas pessoas são imbecis e não vai conseguir nada, mas podemos ganhar outrxs, pensei nas suas histórias de vida.

Camila Malheiros disse...

Não tem que respeitar reaça não, tem que cair matando mesmo.

Anônimo disse...

Tô na mesma situação, curso Letras e me assusto com a mente fechada da maioria dos alunos... até pensei em cursar Ciências Sociais depois, mas pelo que vc falou o pessoal não é tão diferente. Frustrante saber disso.

Anônimo disse...

o resto do mundo esta errado e a revolucionária marxista anarquista e sei la mais o que ai ta certa.

Ta bom viu.

E como todo esquerdista, acredita que fala em nome da sociedade, mas quando descobre que a a mioria da sociedade não concorda com suas causas ( marxismo,anarquia aborto etc.) fica com raivinha de todo mundo e quer tocar o terror revolucionário.

Logica da esquerda, se a sociedade não se adaptar a sua forma de pensamento, então vc tem que transformar a sociedade em pó

Ms.Minna disse...

Como a lola disse, se vc explode vc perde a discussão, varias vezes nesse blog e em outros emiti uma opinião e ao invés de tentarem me fazer ver o outro lado com boas palavras fui insultada, entao lógico que a reação normal da pessoa é se aferrar ainda mais nas suas ideias e preconceitos sem ver o outro lado.
Respira fundo, conta ate 200. E argumente so com pessoas que vc acha que vale a pena,
Eu como vc voltei a faculdade, tenho 35 anos mas estou fazendo uma terceira graduação. Ouço muita mas muita merda dos professores, piadas misóginas mesmo, mas eu nao discuto, preciso do diploma e na minha idade sei que nao vou mudar o mundo, entao sento lá atras, como é obrigatório ir pra aula no Brasil. Mas pego um livro e o ignoro totalmente na cara dele.

Quanto as cotas que estão falando aqui, olha no Sul tem muito loiro bem pobre e sem oportunidades, acho que o mais justo aqui ao menos seria cota por classe social e nao cor.

HC_Neto disse...

Quando entrei na faculdade, na mesma época que comecei a ler o blog da Lola, comecei a perceber que eu sabia distinguir certos comportamentos preconceituosos que os outros não conseguiam, justamente pq estavam convencidos de que o fato de levar a coisa como uma simples piada não ofende ou machuca... Eu já era um gay assumido, mas esperei me conhecerem melhor na faculdade pra começar a me assumir.

Era o único gay numa sala predominantemente de homens (e mesmo assim eu costumo ficar no grupinho dos meninos mesmo). Haviam apenas 5 mulheres no primeiro ano, e depois passou pra 3. Todos os homens da sala eram machistas pelas costas das unicas meninas, mas td bem...

Certo ano comecei a me mostrar como uma pessoa que gostava de discutir e debater sobre essas polêmicas, muita gente começou a me classificar como o chato tbm, mas só nessas horas.

Meus amigos usavam muito o termo."vadia" pra se referir a mulheres (até as que ele nem conheciam ou tinham algum rancor) mas isso eu sempre deixei passar pq eram justamente esses que não sabiam conversar. Eles queriam mesmo a liberdade de usar o termo "vadia" desnecessariamente (e quando é necessário?).

Tenho a sorte de ser uma pessoa bastante calma, até pq meu primeiro estágio foi pra dar aula de informática pra pessoas carentes de todas as idades, então eu desenvolvi um jeito carismático de explicar as coisas, inclusive explicar pq eu acredito que tal comportamento é errado ou antiético, mas a pessoa tem que estar disposta a ouvir e pensar. E quem não estava, eu só sentia pena (o que não é algo agradável de se falar rs) mas é isso... O jeito é levar tudo numa boa e aceitar aqueles que não se deixam ser convencidos. As vezes são nossos argumentos que não estão no nível intelectual da pessoa, mas nada que um exemplo de humor, uma tirinha, uma analogia boba não comece a fazer com que as pessoas pensem sem esforço.

Tbm sou do norte rs.

Anônimo disse...

Entendo perfeitamente como é difícil tentar se controlar quando pessoas relevantes (ou não) à sua volta agem tão estupidamente preconceituosas e mentalmente atrasadas. Tenho sorte de estudar numa turma de pessoas muito mente aberta, onde quem é conservador/reaça é espécie em extinção, apesar de existir, sim. (Curso Design).

Mas o que eu queria mesmo pontuar é que reparei que você está se deixando afetar demais pelo pensamento dos outros pra fazer suas escolhas profissionais. Claro, escolher uma profissão aos 17 anos e acertar em cheio não é fácil, sabemos muito bem. Mas você escolheu Ciências Sociais por adorar o professor, depois desistiu porque a turma não ajudava, depois entrou em outro curso e já não tá muito satisfeita por causa da atitude desprezível dos demais..

Bom, não sou grande coisa pra dar conselhos, mas eu tentaria abstrair mais, me conhecer mais (e quem quero à minha volta) e me importar menos com quem não quero à minha volta. Talvez assim, até fazendo Engenharia (área notavelmente farta de típico-burguês-conservador, e que fique claro que não desmereço a classe, muito menos generalizo), você vai seguir seus estudos sem se irritar com as pessoas ao redor.

E um beijo pra Lola :3 :*

Helen Pinho disse...

Olha acho que todas mulheres e feminista já passaram ou passam por isso, estamos contestando o "natural",todas aguentam porque nós não conseguimos? É isso que se pergunta, e não porque todas tem que aguentar?

Então é difícil muito difícil se posicionar, defender nossas causas.

Tento ter um termômetro, se a pessoa diz algo totalmente bizarro, ela não está afim de conversar, de debater, de nada, essa pessoa não deve ser respondida, ela não merece ser respondida. É só energia jogada fora, então use a teoria Madagascar "sorria e acene". Tento usar a mesma medida na internet, além de me afastar (as vezes) da área dos comentários.

Rahyssa Marques disse...

Colega, vc já tentou procurar o centro academico do seu curso? Faço medicina, um dos cursos com mais conservsdores por metro quadrado e as amizades que fiz no centro acadêmico me fizeram perceber que tem gente que pensa como eu. Inclusive, conheci meu namorado lá.

Fernanda disse...

Eu vivo isso dentro da minha familia. As coisas que sou obrigada a ouvir... creimdeuspai. É dureza...

Evidentemente que a primeira coisa que fiz é reduzir a convivência. E honestamente, funciona demais. (Eu não acho que familia deva ficar grudada, de toda forma, então acho que uma convivência moderada é a solução pra muita coisa).

Seguno... bicho, você pode achar que é brincadeira, mas não é. YOGA. Juro por Deus. Tem mudado a minha vida essa yoga. Porque me ajuda justamente nisso ai que você disse: a não me machucar, não me ferir em discussões inférteis. E não ferir o outro também, claro. Sou uma pessoa muito mais tolerante hoje. Quem tiver a oportunidade, realmente aconselho demais. Sobretudo a kundalini yoga.

Elaine Pinto disse...

"até pensei em cursar Ciências Sociais depois, mas pelo que vc falou o pessoal não é tão diferente."

Querida/o anônima/o e querida guest post, é isso mesmo, não tem para onde correr: nunca vi juventude mais reaça do que esta que viceja no Brasil na segunda década deste século XXI. O jeito é aprender a conviver; mas, calar-se, jamais.

Anônimo disse...

Todo mundo está pensando diferente de mim. Estão todos errados e eu estou certa.

Vitória disse...

Se engana quem pensa que nas universidades públicas o ambiente é mais progressista. Por ser altamente elitista a maioria dessas instituições (com uma exceção aqui e acolá) é muito comum topar com esse tipo de gente, mesmo em cursos de humanas, artes, etc.

Vcs não viram a história do professor de Santa Catarina que foi peitado por um aluno pq decidiu passar um trabalho sobre Karl Marx? E aí ao invés de fazer o trabalho o aluno decidiu escrever uma cartinha reclamando da escolha do texto, e mais um monte de merda sobre marxismo cultural e essas coisas que olavetes aprendem nos vídeos?

Pior é que esse estudante passou a ser idolatrado por uma pá de colunistas da Veja, como se a escolha de um simples texto para um trabalho fosse doutrinação ideológica.

Meu marido diz que a minha geração é muito mais reacionária que a geração dele e da Lola. E sinceramente eu acredito. Não sei explicar pq isso está acontecendo, mas é algo que consigo observar.

Lígia Paiva disse...

Me vi nesta reclamação.
Sempre fui a chata que argumentava tudo. Perdia a compostura, gritava, me indignava, não dormia diante de alguns absurdos que ouvi por aí.
Me via cercada de idiotas no colégio e acreditava que na faculdade as pessoas seriam pensantes. Na faculdade as pessoas eram mil vezes mais burras e infantis que no colégio. Achei que no mercado de trabalho me depararia com grandes mentes: foram raras. Hoje tenho 25 anos, e concluo que sim, o mundo inteiro é populado com 99% de idiotas e que as pessoas que conseguem pensar além da idiotice são raras. Mas elas existem. Essa é a maior ajuda que posso dar: elas existem. Quando achar uma, agarre-a. Fique amiga. Converse. Sinta-se entendida! É incrível. Guarde esses amigos com carinho. E como disse Lola, SELECIONE sua indignação. Não vale a pena brigar por tudo. A maioria das pessoas não querem ouvir, aprender e evoluir. Querem gritar mais alto que você que elas estão certas. Então deixe elas. As pessoas que você vai conseguir influenciar na vida são aquelas com quem você não precisará gritar. Porque elas vão ouvir, considerar e argumentar com bom senso. E tem mais: seu exemplo influi mais que sua voz. Outra dica: tente expressar sua indignação com algo artístico: escrita, pintura, dança... ajuda muito e vc pode descobrir que tem talento!

maria disse...

estão falando que as pessoas são ignorantes por falta de estudo,por estudar em colégio público ,isso n é verdade.
estudei em colegio público e isso n me impediu de refletir sobre machismo,racismo,homofobia.
todos tem cérebro,só que uns usam e outros não.
quantas pessoas que tiveram ótimas condições de vida e estudo e são um poço de ignorância.

Anônimo disse...

Eu também observo um recrudescimento de um certo pensamento conservador e mais à direita no espectro político nas novas gerações.
Em 1984 eu estava em SP, nós estávamos fazendo campanha pelas diretas, inclusive com a gigantesca manifestação no Anhangabaú (que a mídia não noticiou como sendo pelas Diretas Já) e a gurizada do curso de segundo grau da escola, entre 15 e 17 anos, era muito politizada e mesmo entre aqueles com opiniões divergentes, havia um debate muito saudável entre as diferentes formas de pensamento. Era o oposto do que eu via no Rio de Janeiro, onde morava então, e isso me chamou muito a atenção.
Não sei era porque ainda estávamos vivendo sob os extertores finais da ditadura militar - que estava extremamente presente em nossas vidas -, mas respirava-se um ar de mudanças, de lutas por um país mais Político (com P maiusculo) e consciente.
É difícil entender em que ponto da história esse trem da mudança descarrilou e nós ficamos a catar os cacos das transformações sociais com que sonhávamos...
Enfim,parece que estamos cada vez mais retrocedendo e a truculência política (essa com p minúsculo) grassa em todos os espectros político-partidários. É uma pena.

Flávio Moreira

Loup~garou disse...

V.

Uma coisa.

Você falou que fez faculdade disso, faculdade daquilo, mas você curte estudar? Curte estudar mesmo?

O militante de esquerda e o coxinha de direita costumam ter uma coisa em comum: o obscurantismo. Defendem ideias sem estudar a respeito, não possuem entendimento aprofundado sobre quase nenhum assunto.

Gritar "PARE BELO MONTE!" no meio de uma palestra é sinal disso. Você compensa a falta de domínio sobre os assuntos com a "impulsividade". Concluir uma dissertação e tese sobre a importância dos reservatórios de água em uma economia nacional é difícil, demorado. Gritar é fácil.

Outra coisa.

Não entendo a bajulação com as federais. A maioria dos alunos aprovados são da classe média pra cima, não existe chance de ser um berço de esquerda relevante e ativa, ou seja, que precisa ser de esquerda.

Anônimo disse...

V, eu entendo.
Vou te falar o que eu faço:
quando estou lá tentando combater preconceitos e o sangue ferve, tento me lembrar que não nasci feminista esquerdista e que tive e ainda tenho muito o que aprender.
Pensar desta forma aumenta minha cota de paciência, digamos assim, e ajuda a colocar meus argumentos de forma mais clara, didática e acessível. Me sinto prestando um serviço de utilidade pública, quase.

Se eu não consigo fazer isso eu me estresso mesmo e estamos aí na atividade. No mínimo eu incomodo algum reaça e já estamos todos no lucro.

Nathalia disse...

Autora, você me pareceu uma pessoa extremamente inflexível, e eu digo isso porque sou tão inflexível quanto, a ponto de ter que fazer terapia. Tente encarar as coisas com mais leveza, tente ao máximo não se estressar com as opiniões alheias. Eu sei que é difícil, mas vai te fazer bem se importar um pouco menos.
Você não pode se calar nunca, mas pondere qual discussão vai valer a pena e qual não vai. Eu sei que é revoltante ouvir certas coisas, e que devemos sempre defender nossos pontos de vista, mas por que insistir em um debate que não vai levar em nada? Só vai te deixar brava.
Acho que o melhor mesmo é selecionar o que vale a pena ou não debater, e com quem. Nós podemos mudar as coisas com as palavras, mas não podemos nos afundar nesse looping infinito, de se estressar, tentar se impor, não conseguir, ouvir coisas das quais você discorda e se estressar mais.
Você é muito jovem, e ainda vai encontrar muita gente que vai te tirar do sério, então o melhor a se fazer é ter convicção dos seus ideias, sem imediatamente julgar outra pessoa pelos dela. Devemos tentar levar tudo com mais leveza, ou vamos ficar loucos.
Ah, e foca no seu curso, no que você quer fazer, porque se for levar em conta só a sua turma, você nunca vai terminar curso nenhum.

ma1w disse...

Kundalini yoga é tudo de bom! Também acho que algum tipo de meditação ajudaria bastante. Principalmente a aprender a não levar as coisas tão para o lado pessoal. Por mais que você se identifique com o seu ponto de vista, é importante entender que opiniões contrárias sempre vão existir. Tenha em mente que por mais preconceituosas que sejam, elas não são mais que ideias. Você não precisa se doer por elas. Você não é o seu ponto de vista. A meditação ajudaria a trabalhar isso.

Laurinha (Mulher modernex) disse...

Acho que a Lola disse tudo. No meio desse mar de gente, podemos fazer amizade e nos aproximar mais daqueles que são mais parecidos conosco. O bom humor, a ironia, também nos salvam de muita saia justa com aqueles que discordam.
Se te transformaram em meme, seja a primeira a tirar sarro da situação. No mínimo, isso tira a arma de quem estava pensando em te agredir.
Acho que também é importante pensar, que quando surge uma discussão, a maioria das pessoas está mais preocupada em vencer a discussão, do que em trocar informações.
Então, se você xinga seu colega, ele imediatamente vai antipatizar com você, querer provar que está certo, não vai ouvir nada que você fala. Se por outro lado, você faz uma intervenção mais calma, mais bem-humorada, não fica parecendo uma disputa e pode até levar as outras pessoas a refletirem sobre o que você falou.
E se a gente vê que a pessoa não tem remédio, vai morrer reaça, deixar pra lá.

Abçs.

Anônimo disse...

Sawl

Apesar de ser um "clube da luluzinha"(na minha opinião, não é perfeito porque deveria ser um acampamento misto, mas, o principal que é o rock, é ótima idéia!) um acampamento reúne meninas entre 7 a 17 anos para o aprendizado do Rock N' Roll! A intenção é uma maior inserção de meninas e mulheres no ambiente roqueiro que ainda é um ambiente bem masculino, sendo a maioria das estrelas deste gênero, homens.
Bem melhor que a fútil, retrógrada, inútil e desnecessária "escola de princesas", não acham?

http://virgula.uol.com.br/musica/rock/acampamento-reune-meninas-de-7-17-anos-para-escola-do-rock


Abraço


Sawl

Bruna disse...

Lola, meio fora do assunto do post, mas só um parêntese:

http://www.averdadecruaenua.com.br/index.php/diversos/item/198-policia-federal-site-homens-de-bem-ja-tem-31-214-denuncias

André disse...

Vitória,

Não subestime o poder da mídia conservadora. Depois de anos martelando ideias reacionárias algum efeito haveria de se notar na juventude.

Anônimo disse...

Boa parte dos reaças fanáticos que conheci frequentaram faculdades públicas!

Além disso, não vale a pena manter uma amizade nociva. Afaste-se das pessoas que se divertem as tuas custas, te provocando pelas coisas que tu acredita, e procure amizades novas com pessoas de mente aberta.

Anônimo disse...

Eu também me assustei com a quantidade de conservadores dos brabos no curso de artes aqui no rio de janeiro =/. É decepcionante pq artes é um meio de liberdade, e no entanto ela é mais usada no estilo piada de mal gosto ou individualismo cego.

Anna disse...

Creio que a leitora sofre de paviocurtismo agudo, associado a arrogantite. A doença costuma ser benigna, é comum em pessoas muito jovens e tende a desaparecer sozinha. Mas, os casos graves, convém tratar pois pode danificar os dentes da frente.

Anônimo disse...

Tenho 20 anos, estudo Engenharia e, olha, não é fácil. Não só o machismo, mas também o racismo e o elitismo são presentes no dia-a-dia da minha sala. E muito se engana quem pensa que nas federais a situação é diferente... No começo também me irritava, e levava esse incômodo pra mim, de forma que me machucava com essa sensação. Agora não: com o tempo, fui aprendendo a contornar. Uma vez conversei com a minha avó sobre isso e ela me disse para aprender a "selecionar batalhas". E é isso que eu te digo: não é toda discussão que é proveitosa, e na maioria delas nós nos ferimos mais do que ferimos ao outro. Outra coisa: use do argumento, sabe? Conte até 10, respire fundo e argumente. Nada vence um argumento inteligente. Mesmo que a pessoa não concorde com você, ela vai pensar no que você disse.

Boa sorte, sucesso!

Daniel disse...

Uma universidade só de alunos conservadores? Onde fica isso? No País das Maravilhas?

Barney D. disse...

Eu tô rindo demais do vegan kkkkkkkkkkkkkkk
Como pode alguém ser tão mal informado?

Anônimo disse...

Olha, eu não vou dizer pra vc ficar calma e não levar as coisas tão a sério porque se vc conseguisse fazer isso não tava escrevendo esta carta. Então eu vou falar o que me ajuda a me acalmar.

Eu recomendo ler Paulo Freire (pedagogia do oprimido e pedagogia da autonomia). Ele fala uma coisa muito importante, que as pessoas conseguem aprender e assimilar aquilo que tem relação com o dia a dia delas. E isso, eu descobri, não serve só pro oprimido. Muitas vezes, a pessoas são cretinas por problemas de umbigo. No mundo delas, funciona exatamente assim como eles tão te dizendo. Ou não, mas na cabeça delas funciona. E as vezes com paciência e sem confronto elas conseguem ser levadas à ver outros pontos de vista. Porém às vezes elas realmente imbecis e sem caráter, nesse caso, vc tem duas opções: 1. caso de discussão individual, desista, sorria e acene. Afaste-se lentamente. 2. Caso de discussão coletiva: procure apontar as falhas no argumento do cidadão. Procurando sempre fazer isso de forma calma e lógica. Se não sentir que pode fazer isso, fique lá sem falar nada. Espere outra oportunidade pra se manifestar. Uma colocação muito intensa no momento errado coloca todo mundo imediatamente na defensiva e não é o que vc quer pq não é uma guerra (normalmente) e sim uma diferença de valores e posições.

Agora, é bom se indignar. É bom sentir raiva. Você sabe que tem algo muito errado. As vezes você não vai saber o quê e vai querer só externalisar essa sensação. Aí é que mora o problema, porque ninguém vai entender. Procure saber o porque e procure saber explicar o porque em uma lingugagem que as pessoas que estão argumentando com vc vão entender. Dependendo da vivência delas, vc pode até mudar algumas opiniões. Mas tem algumas que não vão mudar mesmo e com essas pessoas, a gente dá aquela respiradinha terapêutica e vem lê o blog da lola pra lembrar que existe gente lúcida no mundo e que a humanidade não está completamente perdida.

donadio disse...

"Uma universidade só de alunos conservadores? Onde fica isso? No País das Maravilhas?"

Acho que você está confundindo as coisas. A grande maioria das pessoas - e isso inclui estudantes universitários - é conservadora. Muito conservadora, até. Mas existe uma diferença entre "conservador" e "troglodita"; a grande maioria das pessoas é conservadora mas não é troglodita: acha talvez que lugar de mulher é na cozinha, mas não acredita que seja interessante acorrentá-las lá. Não gosta de e não entende Marx, mas não acredita em "marxismo cultural" e na conspiração gramsciana. Nem gosta mais de Olavo de Carvalho do que de Trotsky; considera a ambos apenas tipos diferentes de maluco, e não os leva a sério.

Por outro lado, não sei o que leva as pessoas a acharem que as universidades são ou poderiam ser ilhas de pensamento progressista no mundo. São instituições extremamente conservadoras, criadas para manter e preservar a ordem existente. Ou alguém acha que haveria cursos universitários de sociologia se o estudo da sociologia não interessasse diretamente os donos do poder?

E quanto à arte, basta olhar para os artistas: pouquíssimos foram revolucionários (pelo menos fora do domínio muito bem delimitado da arte, da sua arte); muitos foram conservadores, uns poucos foram abertamente reacionários, a maioria dos que não foram ou são conservadores é apolítica, ou no máximo se apega a um liberalismo ou humanismo aguado.

Para cada Maiakovski, há dez Dostoievskis soltos por aí.

Anônimo disse...

Pois é fia, escolha suas brigas, mas não se cale. Eu passo o mesmo que você. E brigo, e me arrependo de ter brigado.

E também diminua a convivencia, mas não se cale mesmmooooooo. Minha amiga no casamento dela o padre solta 'e a esposa deve ser obediente ao seu marido'. Ela não deixou passar. E falou, com muita delicadeza que não concorda. Imagine, se ela não tivesse falado nada, ia ficar com isso entalado pro resto da vida. nesses casos, é melhor falar mesmo.

Lilith