sábado, 28 de setembro de 2013

GUEST POST: AS VEZES QUE MINHA CONFIANÇA FOI ROMPIDA

A A. me enviou este relato.

Leio seu blog desde o final de 2010. Às vezes concordo com seu ponto, às vezes discordo, mas sempre reflito -- e isso é o principal, acho. E pode ter certeza que foi por ter te descoberto que o feminismo e ativismo que andavam adormecidos em mim (você conta que quando criança já se declarava feminista; eu, aos cinco, quando minha mãe me contava histórias bíblicas, pedia para parar porque "eram machistas"). Mas hoje quero contribuir com mais um relato das histórias de horror que todas nós temos para contar.
O post da S. mexeu demais comigo em relação a isso. 
Quando era criança, tinha uns sete ou oito anos e brincava na rua, um adulto estava sentado próximo e se masturbando, com o pênis pra fora. Na época nem pus maldade, pensei num "sujeito estranho" olhando as brincadeiras de um bando de meninas de oito anos, mas uma amiguinha, mais velha, gritou, saiu correndo para a casa de uma vizinha (nos levando junto) e ligou para seu pai para tirar o sujeito dali. Como não aconteceu nada, de fato, fisicamente, ficou marcada só a estranheza.
Depois, lá pelos onze anos, havia aquela mania da puberdade dos meninos tentarem pegar nos peitos das meninas. O engraçadinho que tentou isso comigo no colégio foi moído na porrada -- e a diretora, ao chamar meus pais para conversar, disse que na verdade ele bem que estava merecendo isso mesmo e eu não teria punição nenhuma.
Até aí, tudo lidado sem traumas, mas já são abusos que muitas sofrem. Agora é que as coisas começam a ficar sérias...
Aos 15, fui estudar numa escola de ensino médio reconhecida como uma das melhores do Brasil, dessas que tem vestibulinho para ingresso e fama nacional. Chegando lá eu era a gordinha, otaku, tinha acabado de me mudar para a cidade e tinha notas muito acima da média -- ou seja, um ímã de bullying. E ele veio de todos os jeitos e todas as direções, Lola. Foi o ano mais difícil da minha vida -- e tive de enfrentar sozinha, pois não tinha amigos.
A escola (omissa de tudo no bullying -- que não era, lógico, uma exclusividade minha) resolveu organizar algumas atividades para comemorar a semana do meio ambiente, nas quais os alunos precisavam obrigatoriamente se inscrever. Uma delas era uma caminhada até uma clareira próxima. Todas as pessoas com quem tinha alguma conversa amigável não foram, sobrando para mim umas poucas pessoas da minha sala (que me evitavam, misturar-se com os losers pra quê) e eles, os bullies. Que não me davam um minuto de sossego. 
Entre as pessoas que iam, comecei a conversar com um menino de outra classe, que ainda não conhecia, e que também era um dos alvos de bullying -- no caso dele, porque os meninos acreditavam que ele era gay. Imagina duas vítimas de bullying juntas, rodeadas pelos bullies. Imagine o inferno de passar horas ouvindo, além dos desaforos de sempre, "ah, tão namorando!", "ah, que casal lindo!" sem nenhuma voz dissonante, ninguém para nos proteger.
E fomos tão perseguidos e hostilizados que os bullies conseguiram: para deleite deles (que tiraram até fotos), o sujeito se irritou de verdade e me beijou. Não o culpo por isso -- ele era tão vítima quanto eu. Só que eu nunca tinha sido beijada antes, foi meu primeiro beijo -- e ter minha intimidade jogada na cara do colégio todo não foi divertido.
E as próximas duas semanas foram bullying em cima de bullying em relação àquilo. Por sorte, vieram as férias, mas em agosto não tinham arranjado nenhum assunto novo para me deixar em paz. E tinha foto, e tinha isso, e tinha aquilo. Se não fosse uma greve, não sei se teria sobrevivido àquele ano. Sim, foi a fase da vida onde pensei mais a sério em suicídio. Porque era insuportável, realmente insuportável viver daquela forma. 
A coisa foi tão violenta que meus pais me colocaram em tratamento. E, no ano seguinte, fiquei com meu crush numa festinha, o que fez um bem danado à minha autoestima. E fui procurando entre os outros excluídos as amizades, respondendo os bullies à altura, ficando mais cínica e violenta do que gostaria. E com um medo irracional de me destacar no que quer que fosse, o que trouxe consequências nefastas para minha vida adulta.
A outra história aconteceu quando já era adulta e formada.
Fui fazer um concurso no RJ e uma amiga muito querida de anos me ofereceu para ficar na casa dela. Aceitei (eu a adoro, apesar de que nosso relacionamento foi estragado para sempre pelo que vem a seguir). Fui, fiz as provas e depois fomos com amigos para um bar (dentre eles, um ex-caso dela pelo qual ela ainda não tinha se desapaixonado de todo). E o sujeito começou a dar em cima de mim efusivamente, e ela não gostou nada, e eu cortava (muito tentada a ficar, porque ele era na época extremamente charmoso). E pedi ajuda para o marido dela, que me ajudasse a lidar com o assédio. Ok.
Fomos para casa, ela desmaiou de bêbada assim que entramos, eu fiquei meio agitada, perdida, sem saber o que fazer. O marido dela foi conversar comigo, vendo meu estado, falando sobre a vida... até que ele me beijou. 
Eu: O QUÊ? Saia do meu quarto, agora. -- e o afastei e ameacei gritar e fazer um escândalo.
E coloquei um móvel na frente da porta e fui rolar na cama sem sucesso pra tentar dormir, já que só iria embora no dia seguinte e não tinha desculpa plausível para sair da casa dela antes disso. E pensando no que a [escritora canadense] Margaret Atwood disse, sobre abuso: a pior parte não é o ato físico, é quando você vê que sua confiança foi quebrada, aquele golpe irreversível na sua confiança.
O dia seguinte passou, e o cara foi me levar na rodoviária. No caminho, ele vira e diz: "Você me beijou só para provocar a Fulana de Tal?" (Pô, oi, quem beijou quem aqui?!). E veio com toda aquela conversa de meu-casamento-está-péssimo para cima de mim. Aham. Como se não fosse a conversinha mais clichê do universo. E me coagiu a beijá-lo "de verdade" quando me deixou na rodoviária. Achei que seria pior para mim negar -- mas saí destruída. Minha primeira reação foi ligar para outra amiga e contar tudo, com detalhes.
No dia seguinte, no msn, a amiga com quem me hospedei veio tirar satisfações sobre eu ter aceitado o flerte do... ex-caso dela. E pensei que, a conhecendo, eu NUNCA poderia dizer UMA PALAVRA do que o marido dela fez comigo. Sabe aquela história de feminista até apertar meu calo? É ÓBVIO qual seria o lado no qual ela ficaria nessa situação.
E por gostar muito dela, nunca quis me afastar, apesar de ter mudado um pouco o relacionamento e ter ficado com nojo eterno do marido dela. Não consigo perdoar. Não consigo esquecer. Queria que a máscara dele caísse, que as pessoas vissem o que ele realmente é. Mas pelo que sinto POR ELA, resolvi que nunca falaria uma palavra disso. Nunca a exporia. O marido que abusa de uma hóspede na casa DELA. 
E essa é minha maior dor no caso, sabe -- saber que fui abusada, quem foi meu abusador, mas que tinha MUITO a perder se falasse qualquer coisa. A bem da verdade, recentemente pensei: e se ele só fez isso porque sabia que sou leal a ela e nunca diria nada a ninguém? Já que a sociedade e a cultura em peso estão ao lado dele?
E o cara ainda me perseguiu na internet por uns tempos, mesmo não tendo retorno. Parou só quando comecei a namorar. E penso: por respeito a mim ou ao meu namorado, meu "dono"? 
E é o que me faz solidária a quem não denuncia, a quem guarda para si: há um mundo de ses e porques que não podemos tangenciar. E como o abuso pode ter muitas formas -- dou graças aos céus de não ter sido estuprada, mas meu abuso não foi violador, de certa forma? Não foi a quebra de confiança de alguém que eu julgava que não me faria nenhum mal? E me ver como objeto, e desrespeitar outras pessoas no processo? 
Enfim, muito obrigada pelo blog, por dar voz a quem precisa de uma palavra amiga, por mostrar que não é só com a gente. E que a culpa não é nossa, nunca é nossa.

17 comentários:

samira lopes disse...

só não entendi pq ela deixou o cara beijar ela na rodoviária,poderia ter fugido,se negado,ele n ia ter coragem de fazer nada com tanta gente em volta.

Rosangela disse...

Desculpe-me mas vejo alguns problemas nesse relato. Em primeiro lugar, a violência como resposta ao bullying. Posso entender a agressividade por parte daqueles que sofrem discriminação - eu mesma já fui desnecessariamente agressiva por me sentir reiteradamente discriminada/excluída. Mas a violência, sobretudo a violência física, jamais deve ser uma opção. Depois, com mil perdões, mas talvez você devesse alertar a sua amiga sobre o comportamento do marido. Sei que você omitiu isso para protegê-la mas não deixa de ser uma omissão. Será que ela não merece saber que vive com uma pessoa que não a respeita e a expõe dessa forma? Por último, qual o seu grau de intimidade com o marido de sua amiga? Ele é tão seu amigo quanto ela? Em caso negativo, por que justamente ele foi chamado a ajudá-la para escapar do assédio do ex dela? Por que vocês passaram a noite conversando tão intimamente a ponto de surgir um beijo no meio da conversa? Mil perdões mais uma vez, mas dois homens ligados amorosamente a sua amiga dando em cima de você tão ostensivamente parece uma coisa muito "freudiana", do tipo "o que está por trás" disso? Não vou dizer que não estou julgando você pois acho que acabei fazendo isso. Mas você já pensou nisso?

Fernanda disse...

Que bizarro este post.

samira lopes disse...

eu vi outro problema,sua amiga não parece ser tão honesta assim,já que é casada mas mesmo assim quis tirar satisfação com vc por causa de outro cara que ela supostamente n tem mais nada.

quem sofre bullying tem que revidar,acho q é o único jeito,pq eu n fiz nada e continuaram me atormentando até o dia que terminei o colégio.

Erres Errantes disse...

Tem alguns guest posts que são muito mimimi. Prefiro quando a Lola escreve os textos.

Paula disse...

alguem poderia me explicar o que vem a ser uma pessoa otaku? Ja vi uma galera dizendo que foi "bullynada" por ser isso, mas eu sinceramente nao sei do que se trata...
a explicacao que o Google me deu eu nao entendi...

Valéria Fernandes disse...

Otaku -> No Ocidente, é o fã de animação e quadrinhos japoneses, ou outro material da cultura pop nipônica. No Japão, é o fanático por qualquer coisa. Lá é termo ofensivo mesmo.

Mariana disse...

Tá meio sem lógica tudo isso, tem que ver isso aí... Sua amiga tá com raiva porque você aceitou o flerte do EX dela???? Muito estranho... É até compreensível você não querer contar sobre os avanços do marido, mas não acho que essa seja a melhor opção.

Por um lado, tem toda uma questão de auto-estima e ego ferido da sua amiga, ela deve ficar ressentida pelo ex-caso não flertar com ELA (mesmo sendo casada) e sim com vc, na cabeça dela deve ser cara-de-pau do rapaz. Já aconteceu comigo - a diferença é que não era ex -, um namorado meu começou a dar em cima de uma (ex)amiga minha e outro cara com quem eu fiquei e de quem ainda gostava deixava claro que estava interessado em outra (boa) amiga minha e ainda ficava me perguntando sobre ela toda hora. A ex-amiga me contou o que estava acontecendo e, com o outro cara, nem precisaram me contar, era flagrante o interesse dele - que minha boa amiga não correspondia. Claro que me senti péssima, feia, um lixo (sempre tive a mania horrível de me comparar com as outras). Mas, depois de passada a raiva, eu entendi que não era culpa delas (mesmo que eu tivesse raiva da ex-amiga por outras razões), ao contrário do que o patriarcado nos ensina, que a culpa é sempre da "puta" da outra mulher e nunca do homem. Os dois caras é que eram safados, eles é que faziam questão de dar em cima de outras, na minha cara, mesmo sendo (ou tendo sido) minhas amigas. Hoje agradeço à ex-amiga - de quem não tenho mais raiva, mas também não tenho mais contato - por ter me contado tudo, ela me ajudou a enxergar o FDP que era meu ex. O outro cara, bem, minha amiga nunca deu trela pra ele e eu o esqueci com o tempo, a vida continuou.

Por isso acho melhor você contar pra sua amiga sobre os avanços do marido dela. Se ele fez isso contigo, fato que deve tentar com outras amigas dela também. Você vai ficar com sua consciência tranquila e ainda vai ajudar sua amiga a se livrar de um FDP que não tem o menor respeito por ela. Se ela vai ficar com raiva de você? É bem possível, exatamente pela questão do ego ferido e pelo beijo na rodoviária (não entendi direito essa parte do relato). Mas com o tempo ela vai superar e perceber que foi melhor assim.

lu disse...

nao sei se me escapou alguma coisa, mas não vi o cara como um abusador. sem-vergonha, cara-de-pau, canalha, incoveniente sim. mas abusador nao.

Anônimo disse...

tipico de mulheres,o marido é o fdp e a mulher casada sentido ciúme do ex é uma santinha do pau oco.
a chance de ja ter chifrado ele é grande.

Anônimo disse...

anon 16:43
mas o chifre que ele colocou na esposa é concreto..
ridículo sentir ciúme de ex sendo casada.
Abominável beijar a amiga da esposa na casa dela ainda por cima.

Anônimo disse...

O homem é um infiel, horrível isso, mas abusador acho q não ... um beijo no meio de um clima de conversa ... depois ela beija o cara de novo ... pra mim a autora tem problema moral e psicológico e por isso precisa se mostrar desejada até para a amiga. Ser alvo de preconceito não é justificativa pra tudo, lamento!

Anônimo disse...

Ela aceita beijar um completo retardado mental, marido da amiga, tudo em plena rodoviária, e isso ainda faz dela vítima de um abusador. Patético.

vera disse...

só faltou dizer q foi estupro,deu mil e uma desculpas mas aceitou beijar o marido da amiga de novo e disse q as coisas iam piorar se n aceitasse.
vitimismo brabo hein,o q o cara ia fazer na frente de todo mundo?

e a amiguinha já deu sinal de q n é tão fiel e coitadinha assim,para ficar puta por vc ter algo com quem ela n tem mais nada,estranho isso.

o mundo tá uma putaria só,amizade e amor verdadeiro n existem mais,como disseram ai,ter sofrido bullying n justifica qualquer merda q vc faça depois.

Anônimo disse...

A história já fica estranha quando a pessoa é casada e continua saindo com o ex.
Ah, mas o marido estava junto.
E daí? Eu é que não vou querer me sentar na mesma mesa com a minha esposa e com alguma ex namorada minha, lance estranho demais para minha mente.
Ae a "amiga" fica brava porque a autora aceitou um flerte do ex, sendo que ela já é casada com outro cara e talz.
Sei não, sei não...

Claudia disse...

Desculpe, mas para mim perdeu a credibilidade quando disse que deixou o cara beijá-la na rodoviária. Era só abrir a porta do carro e dar tchau. A não ser que vc tenha 12 anos. Aí, sim, eu acredito em intimidação.

Layla disse...

até aqui os comentários são de julgamento e ficar questionando o relato da vítima, por favor. ela deixa bem claro que foi sim um abuso pra ela e é só ela quem pode dizer. não creio na falta de empatia de vcs... eu como mulher adulta, já fiz muita coisa que eu não queria fazer por pura insistência, pressão, choque, medo ou inabilidade de dizer não/reagir. hoje em dia que consigo enxergar isso, mas vcs não sabem como é se sentir uma idiota por ter feito algo que não queria? é uma vergonha, nojo, sensação de incapacidade... enfim, nossas reações às situações não fazem sentido lógico muitas vezes oras, ainda mais em momentos tensos.

Outra coisa... deixem a amiga em paz, tem que falar mal de qualquer mulher que aparece na história credo... "estranho" é o comportamento do marido, as outras envolvidas não estão no relato pra serem julgadas... pq motivo a moça que está se expondo no post inventaria alguma coisa? quando um homem te conta que se sentiu invadido ou foi assaltado vc questiona a credibilidade dele? "tá estranho esse seu relato, vc tem certeza que foi asssaltado?"