segunda-feira, 5 de agosto de 2013

MEDO E INTUIÇÃO PODEM NOS SALVAR DE PERIGOS

O caso que mais me impressionou no excelente As Virtudes do Medo é o que Gavin de Becker conta logo no início do livro (que você pode ler inteirinho aqui, em inglês).
É a história de uma americana de 27 anos, Kelly, que chega em seu prédio no final de uma tarde carregando muitas compras de supermercado. Assim que ela chega, ela repara que a porta do prédio está destrancada. Ao subir as escadas, um dos sacos de compra se rompe, e latas de ração pra gato saem rolando degraus abaixo. Uma voz masculina que ela instintivamente não gosta grita lá de baixo: "Peguei! Vou levá-las pra cima".
Um rapaz com rosto amigável aparece recolhendo as latas, e diz: "Deixe que eu te ajude". Kelly responde: "Obrigada, não precisa, estou bem". 
E ele: "Você não parece estar bem. Pra qual andar você está indo?" Kelly hesita antes de responder que está subindo pro quarto andar, e ele diz que está indo pra lá também, e que está com pressa por estar atrasado, mas que não é culpa dele, o relógio quebrou. "E me dê essa sua outra sacola", ele pede. Ela repete que não precisa, e ele diz: "Não é qualidade ser orgulhosa demais, sabe?" Ela permite que ele leve sua outra sacola. Ele: "Vamos nos apressar, temos um gato faminto lá em cima".
No meio do caminho ele vai falando de que um gato pode viver três semanas sem se alimentar, e que ele aprendeu isso ao esquecer de alimentar o gato de uma amiga. Quando eles chegam ao quarto andar, na porta do apartamento de Kelly, ela agradece, mas ele não aceita ser barrado: "Ah não, não trouxe suas compras até aqui só para você derrubar tudo de novo". Ao vê-la hesitar, ele diz: "Podemos deixar a porta aberta, como as velhinhas fazem nos filmes antigos. Só vou deixar essas coisas aí dentro e eu saio, prometo". 
Kelly permite que ele entre. Ele está armado com um revólver e a estupra. Mais tarde, Kelly vai descobrir que ele já fez isso antes, e que inclusive matou uma de suas vítimas. Mas, nesse dia terrível, depois das três piores horas da vida de Kelly, o estuprador se veste, fecha a janela, olha pro relógio, e diz a ela: "Ei, não fique tão assustada. Não vou te machucar, prometo. Vou até a cozinha pegar algo pra beber e aí irei embora, prometo. Mas não se mexa ou faça nada, senão..." (e ele aponta sua arma pra ela). 
Nesse momento, Kelly teve certeza absoluta que ele iria matá-la. 
Kelly lhe assegura que não irá se mexer, mas, no instante em que ele sai do quarto, ela salta da cama, se cobre com o lençol, e o segue, como se fosse sua sombra, como se fosse um fantasma. Eles andam pelo corredor juntos. Ele para, e ela para atrás dele. Ele aumenta o volume de um rádio. Quando ele se direciona pra cozinha, ela para na sala, abre a porta, corre até o apartamento vizinho, que ela sabia estar aberto, e fecha a porta atrás de si. 
Ao seguir sua intuição, Kelly salva a própria vida.
Mas o que deu a ela tanta certeza de que seria morta? Ele ter fechado a janela. Se ele iria realmente sair, por que fecharia a janela? Por que a preocupação com o barulho? Foi esse detalhe que causou terror em Kelly, e que lhe deu a coragem de lutar por sua sobrevivência. Esse medo, diz Becker, é medo real, não um medinho à toa como o que sentimos nos filmes. Esse medo real é aquele que faz alguém fingir que está morto, por exemplo.
O mais interessante é que todos os sinais que devemos temer estão presentes neste relato. Óbvio que, neste caso, um sinal evidente é que havia um estranho dentro do prédio de Kelly. Mas o estuprador forneceu várias outras dicas que, se observamos direito, se respeitarmos nossa intuição, se abrirmos mão desse condicionamento de que, como mulheres, precisamos ser sempre educadas e simpáticas, podem nos resguardar de sérios riscos.
Um dos sinais do estuprador foi o que Becker chama de "jogo de equipe forçado". O cara vai fingir que vocês estão no mesmo barco, que estão juntos nessa. É o que o sujeito que estuprou Kelly faz ao dizer "Temos um gato faminto lá em cima". Tipo, temos?! Quem é você, cara pálida? Nessas horas, Becker recomenda ser firme e, mesmo sendo vista como rude, afirmar claramente: "Não pedi sua ajuda e não preciso dela". (E é mais sábio pedir ajuda para um completo estranho do que aceitar ajuda de um completo estranho que surge do nada pra te "ajudar". E mais sábio ainda: pedir ajuda pra mulheres!).
Mas por que Kelly iria duvidar de um cara com um rosto amigável? Porque, como explica Becker, ser amigável pode ser uma performance. Um sorriso é o disfarce típico que mascara todos os outros sentimentos.
Outro sinal de que alguém pode estar querendo te enganar é dar detalhes demais. Segundo Becker, quando as pessoas mentem, elas sentem que não estão convencendo, e por isso vão adicionando detalhes não muito relevantes. Foi o que fez o estuprador de Kelly com detalhes como ele estar atrasado porque seu relógio quebrou, ou ter esquecido de alimentar um gato, ou das velhinhas dos filmes deixarem a porta aberta.
Outra estratégia geralmente utilizada por sujeitos perigosos, e certamente usada por aquele que estuprou Kelly, foi a de jogar algumas palavras levemente ofensivas. No caso, o "Não é qualidade ser orgulhosa demais". É comum a pessoa querer provar que não, não é orgulhosa demais. 
Mas talvez o sinal mais marcante a ser percebido é a promessa não requisitada. Você deve ter notado quantas vezes o estuprador de Kelly diz "Eu prometo". Promessas são usadas para nos passar intenções, mas elas não são garantias. Portanto, toda vez que alguém te fizer uma promessa que você não pediu pra ser feita, pergunte a si mesma: "Por que ele está querendo me convencer?" 
Assim como nós temos intuição (que infelizmente não costumamos respeitar), agressores também a têm. Eles sabem quando não estão convencendo, e é nessas horas que vão falar sem querer um "Eu prometo" ou "eu juro". Segundo Becker, quando alguém te disser "Prometo" sem que você peça, você deve responder, nem que seja só mentalmente: "Tem razão, eu estou hesistante em confiar em você, e talvez eu tenha bons motivos. Obrigada por apontar isso".
E nunca devemos nos esquecer do maior sinal a acender o sinal de perigo: a dificuldade do sujeito em aceitar um não. Qualquer não, pra qualquer coisa. 

30 comentários:

Aline disse...

É medonho imaginar que essas coisas são reais, que sim existem estupradores em série, assassinos em série e uma grande quantidade de psicopatas. Mas o que mais assusta é que a maioria dos estupradores NÃO É um psicopata, é uma pessoa "normal" que se sente no direito de usar do corpo de outrem.
=(

Luana Rodrigues disse...

Lola, obrigado por estar dividindo os conselhos do Gavin conosco.
Lerei o livro e passarei este post para as minhas amigas.
Muito Obigado por manter o seu blog,Lola! Eu amo, eu leio diariamente a quase 2 anos. Eu cresci muito com ele. Aprendi me aceitar, sou gorda e tenho cabelos cacheados que hoje os ostento com orgulho. E derrubei vários preconceitos, o que foi bom para meu crescimento pessoal e que pretendo um dia passar também para os meus alunos. (Sou professora inglês e de História)

Um abraço apertado,
Luana G.

Lucas disse...

Muita gente questiona essa postura defensiva de não se aceitar ajuda de estranhos por medo como potencialmente ofensiva.

Bom, pode acontecer que uma pessoa bem intencionada seja rechaçada e fique ofendida com o comportamento da mulher, mas cacete, o que é mais importante? A ofensa passageira de uma pessoa bacana ou a segurança física e psicológica de uma mulher?

/\/\erry disse...

Gostei muito do post, mas não consegui entender o que exatamente se deve fazer nessa situação, por que se a moça da história simplesmente negasse a ajuda do estuprador tenho certeza que ele a obrigaria a deixa -lo entrar da mesma forma, já que ele estava armado, então o que fazer?

otomes disse...

Merry, também tenho esse receio, sempre tenho medo de reagir e receber retalhação, mas também tenho certeza que muitas vezes é o patriarcado encrustado em mim, gritando para eu ser boazinha, delicada, senão algo ruim pode acontecer.

Cética disse...

E não são as raras as vezes que uma mulher é acusada de ser metida/esnobe por não encorajar conversas de estranhos(sem contar os donzelos,cujo sangue só circula na cabeça de baixo,"interpretando" um simples sorriso como um convite pra sexo). Se falar e acontecer algo é pq ela procurou,se não falar e acontecer é pq fulana é toda metida,tá ai o castigo.É muito foda isso viu.

| viviana | disse...

Também tive a mesma dúvida da Merry. Ok, tudo faz sentido, mas se o cara estava armado, não tinha como escapar apenas com um "não". Outro perigo que eu vejo nisso é colocar na vítima o ônus de se defender de uma situação que já estava errada logo no início e não tinha como acabar bem. Ela não foi violentada só porque resolveu ser boazinha e acreditar no cara -- mas sim porque o cara era um invasor armado que já tinha estuprado/matado vítimas.
Eu entendo o conselho, mas me soa como "não ande sozinha à noite". A gente já tá de saco cheio de conselho, a gente quer é ver o que move um cara a se achar no direito de fazer isso (machismo + facilidade de ter arma de fogo) seja removido da sociedade.

Beatriz Gosmin disse...

Eu já fui salva por minha intuição, quando tinha 15 anos. Não sei se naquele momento, se eu não tivesse seguido minha intuição e um senhor não tivesse aparecido pelo caminho que tomei, seria apenas estuprada ou se também seria morta. Centro da cidade, de madrugada (ainda escuro) por não saber andar de ônibus e medo de se atrasar. Lembro que durante vários dias me vi andando e olhando para trás repetidas vezes. E olha que não aconteceu nada demais, eu me salvei... Imagino como se sentem mulheres que são todos os dias, violadas e agredidas.

Viviani disse...

Merry,estou lendo o livro do gavin e talvez fique mais claro quando se lê mais, no caso desse estuprador, mesmo armado, ele insitiu para ir para um lugar privado com a Kelly antes de ameaçá-la. na área comum, onde poderiam ser surpreendidos por alguém, ele fez o papel do cavalheiro. Claro que apenas dizer não, por si, não pode deter um homem armado, mas talvez ele não tivesse se arriscado a ser pego no corredor. Se ele tivesse disposto a correr esse risco poderia apenas ter apontado a arma desde o principio.

Gabriel disse...

Baixei e li o livro do Becker um tempo atrás e achei bem interessante, vale a pena a leitura.

Quanto as críticas que algumas pessoas estão fazendo, apesar de também serem válidas, acho que se lessem o livro entenderiam melhor o argumento do autor.

Concordo que em situações limites não sobra muito tempo para agir nem para ter intuições. Se o cara sacar uma arma e colocar na minha, na sua, na cabeça do Anderson Silva, pronto, não há muito o que fazer.

Mas dá pra perceber que não é assim o "jogo" dos que cometem violência sexual, nesse caso, estupro. Se no exemplo dado fosse um mero assaltante arriscaria dizer que ele nem ia tentar ludibria-la, renderia ela na entrada do prédio, subiria com elas as escadas, a trancaria no banheiro e roubaria tudo (e provavelmente renderia quem mais aparecesse na frente, como vemos em assaltos a lojas e prédios).

No caso do estupro, faz parte da tática ir adquirindo controle sobre a vítima, para minar a reação dela quando ele atacar. Ao final, ela estará sozinha com ele em um quarto trancado, em um matagal ermo ou em qualquer lugar que lhe permita total controle sobre a vítima, que há um minuto atrás acreditava na ilusão de estar com um sujeito amigável.

Nesse caso, ler os sinais pode ser útil sim. Será que, por exemplo, o maníaco do parque atacaria as mulheres que se recusassem a subir na moto e irem para o lugar ermo? Ou será que ele ia acabar preferindo procurar outra que aceitasse mais ingenuamente seu plano?

No livro do Becker tem um capítulo sobre relacionamentos abusivos, stalkers e tal, e mesmo que não se trate da mesma coisa acho que se aplica aqui. Ele diz, mais ou menos assim: "homens que não desistem, escolhem mulheres que não conseguem dizer não". Sabe aquela expressão: "perder a vida por gentileza". Acho que agressores sexuais procuram vítimas com esse lema.

otomes disse...

Depois do post e dos comentários, acabo de comprar o livro na Estante Virtual. :)

Paula Santana disse...

Obrigada por nos proporcionar mais um post sobre os conselhos do Gavin, Lola. Por mais aterrorizante que seja nos reafirma sobre nossas ações e volta a nos chamar atenção sobre a educação que recebemos desde pequenas sobre sermos sempre gentis e doceis, mesmo quando nossa intuição ou a situação que estamos vivenciando nos alerte para que nos afastemos.

Kel disse...

Tenho uma história real p/ contar q aconteceu comigo. Éramos 3 garotas entre 13 e 14 anos, íamos à noite de sábado numa festa junina de uma igreja no nosso bairro (periferia de SP). Na volta, reparamos na presença de um carro estacionado na rua, que não era do nosso bairro, por ser um esportivo caro. De dentro saíram 2 rapazes brancos, muito bem arrumados, aparentando entre 16 e 19 anos. Quando notei que eles olharam p/ nossa direção, eu puxei os braços das minhas amigas e disse corram (na direção oposta). Após corrermos durante alguns minutos por vários quarteirões, paramos na casa de uma delas. Elas começaram a brigar comigo por ter agido como uma caipira selvagem, afinal o que 2 garotos bonitos e ricos poderiam fazer de mal. Elas não olharam na minha cara pelo resto do fim de semana. Segunda feira na escola, elas se aproximaram de mim e me pediram desculpas. Me contaram que 2 garotas da nossa idade foram encontradas estupradas e mortas na beira da represa Billings, e a última vez que elas foram vistas c/vida no bairro, foi naquela noite da festa junina, onde entraram num carro c/ a mesma descrição daquele que nós tínhamos visto. Minhas amigas me perguntaram como eu soube do perigo, eu respondi que foi intuição. (Obs.: esse crime não foi solucionado apesar das inúmeras testemunhas, pois os acusados eram ricos e as vítimas pobres)

Julia disse...

Nossa, Kel. Que medo.
Eu já me livrei de uma também, não acho que ia acontecer nada de errado, mas eu simplesmente não estava a fim e tive coragem de dizer não. Às vezes é tão difícil. Foi desse jeito "ah, agora não, quem sabe outro dia", mas o importante é que não aceitei um convite que não queria só para não parecer chata ou antipática.

Bárbara disse...

Kel, estou chocada com o seu comentário! Esse tipo de desfecho me deprime.

Cereja disse...

O comentário da Kel me deu um arrepio.
Me lembrei de uma vez em que eu fui no aniversário de uma amiga (12, 13 anos) e eu e mais umas 4 ou 5 meninas fomos dar uma volta na rua. Cidade pequena, rua calma, lugar seguro, enfim. Um carro parou pra pedir informações pra gente. Achei que só eu tinha ficado desconfiada, mas minha melhor amiga também ficou e deu uma resposta atravessada pra eles. Depois disso voltamos pro aniversário e de repente eu, essa amiga e mais uma outra falamos sobre sentir um mal estar por causa do episódio.
Ninguém foi estuprada e morta na cidade naquele final de semana, ao menos nada que tenha chegado aos nossos ouvidos, mas foi nessa época que comecei a questionar por que homens entre 20-30 anos iriam parar adolescentes na rua pra ficar pedindo informações, sendo que era uma cidade pequena e a placa do carro era local. Tipo, não conhece o centro da própria cidade?
Serviu de um alerta pra mim, pois nessa época eu já ouvia comentários, buzinadas e assobios na rua, só que apesar de eu me incomodava - e muito! - eu achava "normal".

Thainara Carreiro disse...

Quando quase fui abusada, meu medo gritou, berrou, quase saiu de mim!
É engraçado que a gente sempre ignora. Geralmente se vc nunca passou por situações assim, vc ignora, acha que é bobagem, que isso nunca aconteceria com vc. "Que isso..."

Eu ignorei o medo transbordando em mim. Por sorte, tive consciencia a tempo de não acontecer nada, mas se esperasse mais alguns minutos para me manifestar poderia não estar contando isso.

E é verdade, o cara falou tanta coisa desnecessária. Era um motorista de ônibus!

patricia. disse...

Amei o post,Lola!O livro parece ser bastante interessante,pretendo ler!

Eu acho que muita gente deve me perceber como antipática ou esnobe porque eu nunca dou atenção quando estranhos tentam puxar conversa comigo. Eu não acho que tenha a ver necessariamente com esse instinto de auto proteção, a maioria das vezes(no meu caso) é timidez mesmo, mas não deixa de ajudar no quesito segurança.

Não gosto de ser chata com as pessoas(na maioria das vezes rs),mas concordo que é bem mais importante se manter segura do que se colocar em uma situação de risco por não querer ser grossa:)

Fernanda Lacerda disse...

Lerei esse livro! Achei ótimo esse post!

Fugindo do assunto, Lola olha os comentários desse colunista do IG sobre mulheres gordinhas

http://colunistas.ig.com.br/machoalfa/2010/01/14/minha-amiga-e-bonitnha-e-gordinha-e-nao-arranja-ninguem/

''mas vou ser obrigado a te ensinar uma máxima masculina: “Mina feia tudo bem. Mas mina gorda é f…” Eu aprendi isso com um amigo na sétima série e foi umas das frases mais sábias que escutei na vida.''

''Mulher feia todo mundo já pegou na vida, mas gordinhas são poucos que encaram...Nós, homens, somos visuais. O jeito da mulher conta, mas a carcaça é MUITO importante.''

''Mulher feia não tem o direito de ser chata. Então mulher “gordinha” não pode ser tímida. Porque aí ela reduz as chances a quase zero.''

''E não adianta rasgar elogios para a sua amiga. Em 2010 uma mulher de 25 anos virgem deve ter algo de muito errado, psicologicamente ou fisicamente falando''

Links disse...

Pois é.. lembro quando tinha uns 17, 18 anos. Conheci um carinha, amigo de um amigo de um amigo. Daí uma noite ele passa de carro na minha casa e me chama pra ir não sei onde. Eu aceito.

Quando percebo ele está fazendo um caminho totalmene estranho,indo para uns cantos desertos da cidade. Aí ele colocou a mão na minha coxa. Eu tirei. Ele colocou e apertou, eu tirei novamente. Aí eu falei bem seca "me leva pra casa agora!" ele começou a falar coisas do tipo "..imagina, só vamos dar uma voltinha..., na sua idade gata, você já é escolada, se sobe no carro com alguém, é porque tá querendo..."
Minha cabeça foi a mil. O pânico começou a me sufocar, realmente achei que ele fosse me estuprar. Comecei a gritar insana no carro: FAZ MEIA VOLTA AGORA!!!! ele rindo todo calmo e olhando pra minha cara "não se estressa, vamos dar uma voltinha, eu esqueci o caminho de volta". Ai eu comecei a gritar: - agora vc pega a esquerda, agora a direita.. eu estava histérica, hurlava dentro do carro. E no fim ele me deixou em casa.

Essa noite fiquei super mal... me sentia culpada, aliviada, chorei igual criança. Tenho certeza que se não tivesse sido histérica, estressada ou sei la mais o que, o pior teria acontecido.

Só para completar a história: uma vez vi uma entrevista de um estuprador num programa de televisão que falava que só atacava mulheres que ele pensava que não se defenderiam. Logo, ser agressiva pode sim fazer o cara repensar o ataque, porque desestabiliza.

Juli disse...

Gente, esse livro é muitooooo bom. Tem um capítulo sobre mulheres que sofrem violência de seus companheiros que é extremamente interessante. Eu recomendo horrores

Unknown disse...

Quando morava no Brasil sempre fui cortando qualquer papinho, enfim nao dava espaco e nunca aconteceu nada atororizante.
Fui fazer estágio na Alemanha e indo naquelas de Europa é seguro quase fui uma vítima.
Morava na residência de estudantes e os prédios estavam praticamente vazios por ainda ser férias. Fui na cabine telefônica de noite e um rapaz veio falar comigo. Ele era negro e falava em inglês (talvez jamaicano), prestei atencao pois vi que era estrangeiro e achei que ele queria informacoes sobre ônibus (junto à cabine tinha uma parada). Quando vi que era papinho eu disse que tinha que ir e entrei na cabine. Falei com a minha família e ele ainda lá. Eu achei que ele estava esperando o bus e nao dei bola dele ainda estar lá, senao tinha ligado pra polícia. Quando eu saí ele comecou a me seguir e de papinho. Eu fui cortando. Disse pra ele sair que estava me assustando e ele comecou dizendo que era Alemanha que nada acontece por lá e tal e coisa. Eu repeti pra ele sair de perto de mim, ele ficou de papinho. Andei mais de quadra com o sujeito na minha cola.
Uma hora ele disse que era casado, respondi que nao me interessava que queria ele longe e ele falou que eu sabia o que ele queria, daí eu me assustei muito. Mais uns passos e eu vi uma pessoa ao longe e comecei a gritar histérica dizendo que era pra ele sair, parar de me seguir e ele finalmente saiu. Saí correndo pro meu apê.
Morri de medo pois no meu apê só tinha mais 2 pessoas e eu nao sabia se estavam em casa na hora. Fora que com as portas e vidros grossos talvez ninguém nem ouvisse eu gritando.
Aquela pessoa ao longe provavelmente me salvou.
Ainda moro na Alemanha e fui importunada mais três vezes por africanos e duas vezes por muculmanos (essas no trabalho!). Enfim, depois dessas eu infelizmente adquiri preconceitos que eu nao tinha antes. Hoje em dia ligo o alarme quando vejo homens com tipos físicos dessas culturas misóginas, ainda mais que a diferenca de comportamento é gritante, já que eu nunca levei nem cantada de alemao ou outro europeu.

donadio disse...

Uma coisa que acho que ninguém reparou é como ela mesma fornece informação ao estuprador. Isso, aliás, põe vc em perigo, não só diante do estuprador, mas também do estelionatário, ou até mesmo do pretenso "adivinho" ou "médium".

Esse é o tipo de coisa que faz a "intuição" disparar. A gente inconscientemente faz uma contabilidade dessas coisas, e uma vozinha dentro da gente começa a reclamar, "ei, eu já disse o andar onde moro, ele ainda não disse nada a respeito dele mesmo".

Beatriz Correa disse...

Aconteceu cmg algo parecido com o q houve com a Cereja, mas eu tinha 16, o cara parecia ter uns 30 e foi em plena tarde de domingo, numa das ruas mais monvimenntadas da zona oeste do Rio de Janeiro, q no dia estava vazia.
O cara veio me pedir informação, mas antes q eu dissesse qualquer coisa, percebi q ele tava se masturbando. Saí apertando o passo e ele foi atrás de mim com o carro, me chamando de gostosa, perguntando minha idade, pedindo pra entrar no carro... Qndo foi ficando bem perto da minha casa, me apavorei. Tentei atravessar a rua, ele foi com o carro pra cima de mim! Por sorte, na esquina da minha rua, apareceu um casal e eu comecei a gritar como uma doida e ele foi embora. Cheguei em casa pálida como um fantasma.
Concordo sempre q ser agressiva pode ajudar, muitas vezes pode ser a diferença entre um grande susto e algo bem pior.

MonaLisa disse...

Poxa, podia ter esse livro ai pra ler em português, não?

Vou demorar uns 300 anos pra ler. :(

Gabriel disse...

Tem ele em português sim.

http://www.estantevirtual.com.br/mod_perl/busca.cgi?pchave=Becker%20Gavin%20de+Virtudes%20do%20Medo&fdesconto_frete=&ffrete_gratis=&paginar=40&fadded=&showptit=0

Anônimo disse...

Genial!

Anônimo disse...

Nunca corri tanto perigo como Kelly, mas os constrangimentos de todo tipo que passei por causa da minha educação para ser sempre gentil não foram poucos (para piorar, além da "educação" feminina que recebi, tive reforço extra de um cristianismo doentio). Tive sorte, porque com a criação estúpida que tive, poderia estar morta pela simples vergonha de dizer "não". Em vez disso, "apenas" sofri abuso sexual na infância, quando adulta fui parar na cama com vários homens que não desejava porque não tinha direito de frustrá-los, e me casei com um homem agressivo que me tratava como escrava. Até que entendi que se não aprendesse a dizer não, acabaria literalmente morrendo. Louca já estive prestes a ficar, mas escapei. Como sou feliz e como tenho orgulho de ter aprendido a dizer NÃO e a mandar para todos os lugares imagináveis quem quer que se atreva a forçar uma simples conversa que não me convenha!!! Boa sorte a todas que ainda estão aprendendo!!!

Vanessa Coelho disse...

Infelizmente é preciso ser mal educada às vezes. Não respondo nem bom dia de homens estranhos, especialmente quando o tom de voz do cara vem com um tom meloso e ele parece estar tentando me agradar de alguma forma...Passo reto sem nem olhar na cara. Óbvio que um ser doente pode encarar isso como desaforo e me fazer mal de qualquer jeito, mas prefiro barrar o contato desde o começo.

Anônimo disse...

Tenho visto tantos "loucos" por aí que não me surpreenderia ao ver que muitas pessoas estão completamente doentes, se não de forma congênita, de forma adquirida por lidar com uma sociedade podre todos os dias.

Lembro de ter passado duas vezes por situações semelhantes, mas não de estupro. De "forçação de intimidade" mesmo.

Uma delas foi quando estava num primeiro encontro com um homem que foi extremamente educado e gentil. Mas foi gentil de maneira exagerada, pois até caixa de bombom me trouxe logo no primeiro encontro... pois bem, no final do encontro (detalhe que ele era um estranho, nunca tivemos amizade mais profunda antes disso) ele insistiu pra me levar em casa. Eu disse "não", que eu o acompanharia até o ponto de ônibus, mas ele insistiu e até usou a frase: "Eu faço questão de acompanhá-la".

Acabei aceitando. Fiquei meio desconfiada porque ele já queria andar de mãos dadas na rua e nem éramos namorados. A "forçação de intimidade" era imensa.

Por sorte só foi até a porta da minha casa e depois foi embora, mas depois fui descobrir, o sujeito é um golpista, que provavelmente vive de golpes em cima de mulheres ingênuas e por isso mesmo quis ver onde eu morava pra ver se tinha bom dinheiro na parada. No meio do relacionamento, que foi curto, ele ainda depreciava as "ex" dele que tinham camisinha em casa e só sabia querer forçar a intimidade cada vez mais, por exemplo, ao querer noivar muito rapidamente - muito provavelmente pra tirar dinheiro logo.

Não aceitei, e quando soube da maracutaia terminei com ele sendo bem grossa mesmo, que não era pra ele nunca mais passar na frente de minha casa.

O outro caso foi com um rapaz com quem tive também um relacionamento curto. Tivemos uns amassos num dia em especial, ele insistiu pra transar mas eu não estava a fim. Ele respeitou e não passamos daquilo, mas mais tarde me disse que "agora que ele era controlado" ele conseguira se conter, mas se fosse uns anos antes ele "teria avançado o sinal".

Fiquei com medo daquilo, pensando como ele saberia que "avançaria o sinal"... e se esse "avançar o sinal" significava um possível estupro em sua vida pregressa.

De qqr forma, hoje sem maiores sequelas tenho pra mim que a gente tem de ter muito cuidado a lidar com estranhos... principalmente com "estranhos" que fazem promessas desmedidas, como o texto mesmo citou.