sábado, 3 de agosto de 2013

GUEST POST: COMO É SER FEMINISTA EM PORTUGAL

Analua é portuguesa e feminista com certeza. Pode haver um oceano nos separando, mas... nada nos separa.

Tenho 22 anos, sou de esquerda, feminista assumida e tenho uma personalidade forte. 
Ora, tais características fazem de mim um alvo a criticar, comentar, xingar... you name it.
Só a palavra feminista leva a que pensem que odeio homens, que não sou feminina (conceito esse, que não entendo mesmo) e que o meu sonho é queimar sutiãs e dominar os homens. Até já me perguntaram se luto pela supremacia feminina e se acho que as mulheres devem mandar nos homens (sim, as pessoas pensam mesmo isto).
Passei a minha adolescência e os últimos anos a ouvir piadas de que todas as minhas conversas viravam manifestações e reivindicações.  Sim, porque mulher não pode ter personalidade forte nem convicções. Ouve logo "Ui, que mau feitio", "Assim nenhum homem te atura!". Gente oca e preconceituosa, enfim.
A sociedade portuguesa ainda é muito fechada. A educação e criação de valores morais e pessoais está ligada ao catolicismo e conservadorismo. E logo aí fujo à regra. Os meus pais educaram-me com bons valores, incentivaram-me a ser culta e educada, mas sempre sem ligação à religião/igreja.
Lembro-me de ter 15 anos e já ouvir "Os teus pais devem ser muito religiosos", só porque disse que fazíamos voluntariado e imensas doações de comida, brinquedos, roupa e afins, para diversas instituições de caridade.
Aqui há muito a ideia que ser boa pessoa ou alguém legal (como vocês dizem) é porque se é católico e se vai muito à missa.
Pois bem, no meio deste conservadorismo e consequente mania de "cagar regra" e de ajuizar sobre a vida do vizinho, fui crescendo e lendo. Devorei livros, absorvi tipo esponja muitos filmes e documentários, e falei milhentas horas com a minha mãe. E assim me formei/politizei.
Admiro imenso a minha mãe, que há 10 anos já me dizia "tu não nasceste para ser mãe/dona de casa ou brinquedo de marido!". 
Hoje orgulhosamente afirmo o mesmo e sou logo rotulada de "machona", " lésbica". Ou ouço: "Tu vais morrer sozinha". Queres saber, o melhor, Lola?
É que ouço estas coisas de conhecidos/amigos com a mesma idade que eu. Estranhamente, e sem fazer qualquer tipo de sentido, os jovens adultos de hoje são mais conservadores que os próprios pais.
Quer dizer, faz algum sentido que os filhos dos pais que viveram a geração hippie, amor livre e afins, sejam tão providos de machismo e outros preconceitos?
Os sonhos das minhas amigas, algumas entre os 20/25 anos que nunca trabalharam,viajaram ou "viveram" a vida, baseiam-se em ser mães, em ser esposa e ter família. Tudo bem, mas e o sonho em ser "eu"? Em viver de bem com o que somos, a nível individual? Por quê ansiar por viver para os outros, e não por ti?
Não critico quem deseje ser mãe, mas então por que não respeitam a minha opção de não querer casar nem formar família?
Critico sim quem criou as filhas com a ideia de "tem que ser mãe!", "tem que casar ou não serás uma mulher completa". Esta imposição do suposto papel feminino vem até já intrínseco ao hábito de dar bebês, cozinhas e coisas ligadas a tarefas domésticas para meninas pequenas brincarem.
Questiono: serei menos mulher porque não ligar nem achar piada a crianças? Serei menos mulher porque não sonho com vestido tipo Cinderela e casamento enormão na igreja?
Sinto-me feliz a trabalhar na área em que me especializei na faculdade, sinto-me feliz a viajar, sinto-me feliz lendo livros, indo a manifestações, e tudo mais. Nasci para ser eu,para ser mulher como bem me apetecer, para viver e trabalhar como eu desejar. 
Quanto mais "achincalho" recebo, mais eu luto.
Luto por uma sociedade em que eu não seja vista como um objeto, mas sim como mulher. Luto para que as mulheres vivam nos seus plenos direitos, sem terem de ser dadas aos homens, só porque alguém lhes disse que é o correcto.
Luto, para que a mulher diga "Não", livremente. 
Acredito numa sociedade justa, onde não há papeis definidos, onde não terei de dizer "sou feminista" só porque acredito na igualdade.
Quero uma sociedade limpa de moralismos. Luto, para que um dia, todos tenhamos igual acesso a oportunidades, onde o dinheiro não compre honra, nem cargos nem direitos básicos, como saúde, educação e afins.
Luto por uma sociedade que entenda de uma vez por todas que o conceito de família tem a ver com afectos, e não com entidades e orientações sexuais. Seja bi, gay, hetero, lésbica, trans: toda  a gente merece constituir família, se assim o desejar. 
Luto, afincadamente, para que parem de rotular mulheres: acabem de uma vez por todas com os nomes de "santa", "dama", "piriguete", "vaca", "puta", "mulher que se dá ao valor" e coisas do gênero.
Para terminar o meu longo post, desejo as maiores felicidades do mundo a todas as feministas que lutam pela igualdade de direitos. Nunca desistam. Vençam conservadorismos e preconceitos, lutem para sermos vistas como seres humanos, lutem para que nos deixem de entender como objeto que têm que aguentar todo o tipo de baixarias e violências. Sejamos mulheres com orgulho, plenas e seguras de que o corpo é só nosso, e fazemos dele o que queremos.  
Sejamos mulheres fortes e independentes que lutam para fazer da sua vida profissional, íntima, social e familiar, aquilo que bem lhes apetece.
"Ni santas, ni putas. Solo mujeres". Uma das minhas frases favoritas.

17 comentários:

Maria Fernanda Lamim disse...

Querida companheira lusitana: tamos juntas! ;)

Vitória disse...

Meu marido já morou em Portugal e sempre falou como a sociedade portuguesa é altamente conservadora, mas não muito diferente da nossa (afinal, herdamos deles quase tudo).

Sempre quis saber como é ser feminista em Portugal, mas já imaginava algo assim. Força querida! Quanto mais conservadora é uma nação, mais ela precisa de nós.

Aiyra Bakunin disse...

Força a compa portuguesa, a luta é sem fronteiras! :-)

Lola, me mandaram esse texto e eu achei muito interessante: http://polemicasfeministas.blogspot.com.br/2013/05/manifesto-de-uma-feminista-feia.html

Como o próprio nome do blogue diz, é um assunto bem polêmico. O que vc acha? Beijos.

Leo disse...

Meio fora de contexto, mas achei esse texto bem emocionante e tenho certeza que você e suas leitoras acharão também:
http://www.friendsjournal.org/we-think-he-might-be-a-boy/

Caroles disse...

Que lindo esse post!
Também percebo que a geração de agora é bem mais conservadora do que a de ontem. Tenho colegas na Letras que se orgulham de ser mulheres que não são feministas, dizem abertamente que feminismo é uma besteira de mulher má-comida etc. COM 20 E POUCOS ANOS! E muitos, muitos guris que se dizem machistas mesmo e daquele tipo que acha que ser preconceituoso é legal, lutar contra o preconceito é chato. Meu irmão é mais novo, tem 17 anos, e sempre vi nos coleguinhas dele um conservadorismo e um machismo muito feio. Fico meio preocupada, sabe, Lola... Mas como eu também pensava diferente até uns anos atrás, penso que ainda há salvação!

Lola, tenho uma amiga que está morando em Dublin e fazendo muitos "estudos feministas" por lá, participando de coletivos, manifestações, palestras... Foi ela que me apresentou teu blog, e eu aconselhei que ela te escreva um post sobre como a coisa funciona por lá! Vamos ver! :)

Caroles disse...

@Leo
que lindo esse texto! é uma pena que nem todo mundo leia em inglês!

Liz Santiago disse...

Muito bom esse post! A impressão que tenho é a mesma de muitos; parece que os mais jovens são mais conservadores e reaças do que os seus pais. E já perdi um tempo pensando sobre isso. Já encontrei muitas pessoas mais velhas, que não eram assim tão jovens durante a revolução sexual e Era Woodstock nem nada, e quase sempre as mulheres mais velhas tinham um pensamento mais aberto. Acho que entendi o motivo: elas já viveram uma vida inteira sob a tutela do patriarcado, seguindo as regras que desde pequenas elas ouviam, e se desiludiram. Depois de tanta repressão, de tanto esforço para se encaixarem nos padrões, viram que ainda assim a obediência não era sinônimo de felicidade. São pessoas vividas, e desiludidas com o sistema machista que nos rege.
Principalmente para as mulheres, é um caminho meio obvio: elas vivem tentando agradar a tudo e a todos, para então se casarem e serem ótimas esposas e mães, e depois? Depois que a vida acontece, os casamentos passam por dificuldades, a maternidade também, os conflitos diante de uma carreira profissional ocorrem como ocorreriam com qualquer pessoa (homem ou mulher) e elas chegam a conclusão que todas as regras cagadas sobre elas a vida inteira não representam certeza de satisfação pessoal. A mulher pode ser esposa, mãe e ser lindinha e graciosa como manda o figurino, e não será recompensada por tamanha obediência. O sistema é injusto e mentiroso. E só o tempo revela isso. Normalmente as mulheres mais velhas que eu conheço são as que sofreram as consequências dessa propaganda mentirosa do conto de fadas do patriarcado na pele, e com isso mudaram de opinião. As mais jovens ainda estão na fase de acreditar na propaganda, tentando se ajustar aos parâmetros impostos na esperança de serem recompensadas com a felicidade por sua boa-mocice. Se elas forem bonequinhas, regularem o sexo na medida certa, não forem respondonas e aceitarem os defeitinhos do homem com quem estiverem, ficará tudo bem com elas. Será? As feministas não acreditam mais nessa.

Jéssica disse...

Sobre o texto postado as 14:43:

Sinceramente me pareceu que a familia da criança é bastante machista, do tipo que divide brinquedos e atitudes em coisas de homem e coisas de mulher. A criança simplesmente fez o raciocínio "Eu gosto de coisas de garoto, eu ajo como um garoto, então eu sou um garoto!". Me parece que a criança aprendeu que ser mulher é humilhante, pelo repudio que ela demonstra a coisas consideradas femininas. Inclusive me irrita bastante o tom do texto colocando que independencia e personalisade forte eram uma das coisas que provavam que a criança era um garoto. Já conheci muitas mulheres, e eu mesma sou uma, que não tinham comportamento 'feminino' quando criança, continuaram não tendo como adolescentes e adultas, passaram por bullying por causa disso, e que simplesmente se tornaram mulheres adultas fora da caixa de esteriótipos.

Jéssica disse...

Ah, e o Lupron, usado nos puberty blockers, causam sérios problemas de saúde em adultos, além disso, não realizaram pesquisas sobre os seus efeitos em crianças.

Thalita disse...

Tenho família portuguesa (que ainda vive em Portugal) e posso dizer: o nível é daí pra baixo. Não tem como ser fácil ser feminista por lá. Acho o conservadorismo deles maior que o nosso, sinceramente...

Eva disse...

Sonho com o dia em que a nossa luta não vai ser mais necessária, simplesmente porque teremos alcançado igualdade plena entre pessoas. Se não sonhar com isso, acho que morro de tristeza.
Apesar do oceano que nos separa, não há nada nos separando. Estamos juntxs ^-^

Caroles disse...

@Jéssica
Bah, achei NADA a ver com isso que tu disse! No final do texto eles até falam que são "ligados" a movimentos trans e tal desde antes de terem o PRIMEIRO filho, que nem é esse menino que é trans... Parecem pais maravilhosos, isso sim. Não dá pra simplificar a coisa toda e fingir que é super de boa. Até o menino sofre por coisas tipo "será que a professora vai me colocar no grupo dos meninos?". Acho super normal que a mãe tenha tentado "make sure" que o menino é trans mesmo. Não é questão de dividir entre meninos e meninas, bah. Nada a ver mesmo. Por que ele usava um laço quando era bebê e ainda não dizia que não queria o laço? ISSO faz da família machista? Porque aos 2 anos do menino, pelo que ela fala, eles já nem compravam roupa de menina, porque já tinham visto que ele não queria... Nossa, não li nada disso que tu falou. É bem óbvio pelo que a mãe fala que não é só uma "menina que não tem comportamento feminino".

Athena disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Danizita L. disse...

È, a sociedade européia ao mesmo tempo que apresenta muitos avanços, no geral, ainda é bem conservadora...

Sara disse...

Analua que bom que a Europa tem mulheres como vc, logo q me interessei mais pelo feminismo em minhas pesquisas fui parar em um blog machista Portugues, fiquei pasma de ver como são truculentos os machistas europeus, havia um manifesto nesse blog horrível, que chamava mulheres feministas de vírus, e que todas nós deveríamos ser segregadas da sociedade e exterminadas, aqui nos blogs machistas do Brasil não somos tratadas de forma muito melhor, mas pelo menos ainda não vi pregarem por nosso extermínio.
Por isso me causou uma forte má impressão dos homens europeus.

Alice Gaarder disse...

Adorei o post...

É interessante ver como a luta ainda é muito grande, a gente pensa nos nossos problemas e as vezes nos esquecemos de que em outras sociedades os mesmos problemas existem! Obrigada por ter compartilhado conosco!

Feminista capitalista disse...

Achei o texto bem legal,adorei,só discordo que os adolescentes e jovens estejam mais conservadores que seus pais e demais adultos que já passaram dos 40, isso ao meu ver não é verdade.

Infelizmente, existe sim ainda muito conservadorismo e principalmente misoginia entre adolescentes e jovens de hoje em dia, sinal de que o feminismo ainda terá muito pelo que lutar nas décadas seguintes e muita razão de ser, de estar aqui.
Só que essa idéia de que quem foi jovem nos anos 70 e 80 é a galerinha paz amor,contra o machismo, o racismo e a homofobia, é um tanto falsa ao meu ver, esses são uma minoria, a minoria das pessoas da idade da Lola pensa como ela, se vc sair por aí analisando,vai ver que o machismo que eles carregam é em geral,muito pior que aquele dos adolescentes,basta observar como tem adultos que criticam o fato de hoje em dia as adolescentes se inciarem mais cedo na vida sexual, como tem adultos que acham absurdo um garoto querer fazer chapinha, ou ter a aparência do Justin Bieber, como detestam o fato de hoje em dia supostamente haverem mais adolescentes bissexuais, que se permitem experimentar e serem mais libeirais com sua sexualidade, vejo gente criticando isso todo o dia ou como geralmente são,por exemplo, os mais velhos aqueles que mais se opõe as conquistas dos direitos LGBTT ou os que mais defendem o conceito de família 'tradicional' e fazem questão que todas as mulheres se casem e tenham filhos,pra pertencer a essa 'família', por pior que seja o machismo daqueles que tem no máximo seus 25 anos, pelo menos não vejo chegar nesse nível do absurdo, sinal de que o feminismo está sim, a duros passos, fazendo conquistas e colhendo os frutos, mesmo que seja aos poucos.

Nesse caso não tem como a gereção 70 querer ser menos machista que a geração 90, porque pra todos os efeitos, na prática não é.

Até pela conversa com homens mais velhos eu percebo isso,eles ainda se preocupam muito com os tradicionalismos e principalmente com o que os outros homens vão achar deles,coisa que felizmente os adolescentes,encarados hoje em dia como arrogantes e mal-educados se preocupam cada vez menos, principalmente por não quererem gente dando palpites (ainda mais palpites machistas) nas vidas deles.

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Outro ponto que discordo nos comentários é que os portugueses sejam mais machistas que os brasileiros, pelo que leio na internet não parece.
Sei que Portugal tem bastante valores arcaicos e hipócritas em sua sociedade e muito machismo mesmo, mas não acho que chegue a ser pior que o machismo latino do brasileiro, podem rir da minha cara, mas façam uma simples pesquisa sobre sexo, de preferência sobre o tema fio-terra que é controverso, pra ver por exemplo que se tem maior facilidade de ler textos machistas e cheios de fricote nos sites e blogs brasileiros,que nos portugueses.
Me parece que os brasileiros tem até mais xingamentos pra ofender as mulheres que os portugueses, basta ver que por aqui até 'rapariga' é sinônimo de ofensa, lá em Portugal, rapariga significa apenas ''moça'', garota, nada mais que feminino de rapaz.

Outro indício de que nosso país tupiniquim é ainda mais misógino.