sábado, 18 de dezembro de 2010

TRÊS HISTÓRIAS DE INJUSTIÇA

Não gosto muito de escrever sem me inteirar melhor sobre o que está acontecendo, mas, talvez, se a gente tuitar e blogar, a velha mídia (que tem recursos pra tanto) vá atrás e noticie o caso. Por enquanto, só temos a versão de Zé Celso, lendário nome do teatro brasileiro, criador do grupo Oficina. Leia aqui seu manifesto. Através dele, sabemos que uma de suas atrizes, a diretora de cinema Elaine Cesar, está na UTI, correndo risco de vida (ele não explica como ela foi parar na UTI). O que dá pra entender é que o ex-marido de Elaine exigiu a guarda do filho de três anos, que vive com Elaine e o atual marido (também ator do Oficina), alegando que ela não só faz parte de um teatro pornográfico como também envolveu o filho em práticas obscenas. Ele exigiu, e a Vara da Família acatou, que o menino fosse tirado da mãe e que dezenas de horas filmadas das peças fossem recolhidas para investigação. Este trecho de Zé Celso explica melhor:
"um ex-marido ciumento, totalmente perturbado, teve acolhidos por autoridades da Vara da Família, para esta praticar uma ação absolutamente anti-democrática, para não dizer nazista, todos seus pedidos mais absurdos de ex-marido ególatra, doente, de arrancar o filho do convívio da Mãe, acusando Elaine de trabalhar num 'Teatro Pornográfico' e para lá levar o filho: o Teatro Oficina. Fez oficiais de justiça sequestrarem os HD’s deste Teatro, com um texto de uma obscenidade rara, para procurar cenas de pedofilia e práticas obscenas que Elaine e seu atual marido, o ator Fred Stefen, do Teatro Oficina, teriam cometido com o filho de Elaine, o menino Theo".
Parece absurdo mesmo. Um dos espetáculos que o Oficina leva a vários cantos do país no momento é o Bacantes, que conta a história de Dionísio e tem cenas de nudez e de orgias, mas dentro de um contexto artístico. O Oficina existe há 52 anos e sempre apresentou uma proposta alternativa, bem longe do mainstream. Pra mim soa absurdo chamar uma montagem do Oficina de pornográfica. Mas e se fosse? E se Elaine César não fosse diretora de cinema, videomaker, e integrante do grupo, mas uma atriz pornô? Atrizes pornô não podem ter a guarda dos filhos e criá-los? E que cheira à censura a Justiça confiscar horas e horas de gravação de um grupo teatral, ah, isso cheira. Minha solidariedade a Elaine e ao Oficina.
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No dia 29 de novembro, menos de dois meses depois do primeiro turno das eleições presidenciais, a Natura demitiu 29 funcionárias e um funcionário que sofrem de LER (Lesão por Esforço Repetitivo). Por que eu menciono as eleições? Porque o dono da Natura, o bilionário Guilherme Leal, foi candidato a vice-presidente pelo PV na chapa de Marina. A ex-ministra não tem nada com isso, mas bem que podia escolher com mais cuidado quem pega pra vice. Ou é aceitável pra uma empresa fazer isso com seus empregados? A LER é uma doença terrível, que causa muita dor e que, em muitos casos, é irreversível (a pessoa sentirá dor pro resto da vida). Se um funcionário desenvolve a doença enquanto trabalha, o mínimo que se espera é que a empresa se responsabilize pelo empregado durante sua recuperação. Demiti-lo, a meu ver, está fora de cogitação. É desumano. E parece que não é a primeira ocasião em que a Natura faz isso. Só não havia despedido tantos funcionários de uma só vez.
Vamos ver no que dá. Se a Natura não revir essas e outras demissões, acho que devemos organizar um boicote. Hoje, com a internet, temos força de mobilização.
E sobre a LER, todos nós, que passamos boa parte dos nossos dias em frente ao computador, precisamos nos preocupar. Desde que conversei com uma caixa de supermercado que estava com o pulso engessado por causa da LER, mudei pelo menos um hábito meu: quem passa as compras na esteira sou eu. Esse movimento de passar produtos centenas de vezes por dia causa LER em praticamente todas as caixas de supermercado (pergunte pra elas). Pra gente é uma vez só. Não custa nada fazer a nossa parte.
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Essa notícia eu li pouco antes das eleições, e pensei, indignada: mais um caso de “Você sabe com quem está falando?” dos mimadinhos da elite. O que eu não sabia é que a vítima era negra. Depois da reportagem do caderno Aliás, do Estadão, fiquei mais revoltada ainda.
Vocês devem ter visto: um jovem estudante de Administração conseguiu, com muito esforço, uma vaga para ser estagiário do STJ (Superior Tribunal de Justiça). Era uma vaga disputadíssima, com mais de 200 candidatos, e ele, filho de empregada doméstica, evangélico, ficou entre os dez primeiros. Porém, seu sonho se acabou no dia 19 de outubro, quando esperava numa fila (vazia) de um caixa automático do Banco do Brasil para fazer um depósito para uma amiga. O sujeito usando o caixa não gostou de sua presença (mesmo que estivesse esperando atrás da faixa), gritou com ele e, finalmente, o despediu. Era o presidente do Tribunal, Ari Pargendler.
Não muda muito que o rapaz, Marco Paulo dos Santos, seja negro. Mas talvez isso ajude a entender por que o presidente ficou tão incomodado com sua presença. O Estadão dá a entender que pode ter sido a diferença de altura dos dois (Marco é alto, Ari é baixo). Sei lá. Num país racista como o nosso, eu chutaria a primeira opção.
Agora o caso está no Supremo Tribunal Federal onde, lógico, corporativismo é o que não falta. Fico feliz que ao menos um dos grandes jornais do país tenha dedicado uma matéria a mais esse caso escabroso de abuso de poder. Espero que continuem noticando, pra que a gente saiba o que acontece. Pô, espero até que vire filme, desses de tribunal, sabe? Tipo Justiça para Todos.

19 comentários:

Anunciação disse...

Lola,soube dos casos e fiquei muito revoltada;aliás não sabia dos servidores da natura e,o pouco q sei de lei trabalhista,nem demitir ele poderia nesse caso;parece-me q o empregado vítima de doença ocupacional tem que ser "encostado"(não sei se o termo é correto)e encaminhado p possivel reabilitação e possivel transferência p outra atividade;e mais detalhes q eu n sei direito.Na verdade tenho visto aqui por essas terras esquecidas,muita situação revoltante com relação a trabalhadores.E concordo com vc quanto à atriz;já pensou se tirasse a guarda de todas as atrizes?uma ou outra hora todas podem fazer cenas "escandalosas"e nem por isso deixam de ser boas mães.O que li,inclusive com depoimento de uma testemunha sobre o caso do rapaz q se atreveu a ficar atrás na fila do cx eletrônico em q o juiz fazia uma operação,me fez chorar.

Raphael disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Raphael disse...

Sobre o caso da atriz, acho certo ela ficar com a guarda do filho. Mas não acho certo levá-lo para os ensaios de uma peça imprópria para sua idade, mesmo que seja um contexto artístico.

Por trás das notícias disse...

O que esperar das empresas, estas que demitem mulheres que engravidam após voltar da licença? Empresas que colocam data de validade em seus trabalhadores. Este da Natura é apenas mais um caso onde a classe trabalhadora é tolhida de seus direitos, pagando com a saúde e, agora, o desemprego.

Por trás das notícias disse...

Como você colocou, é difícil falar quando não se sabe a história a fundo. Mas essa do caixa eletrônico... Fica complicado de não pensar que tem influência a cor do (ex-)estagiário.

Laurinha (Mulher modernex) disse...

Seria ótimo mesmo se passassem a fazer filmes sobre esses casos de injustiça ou preconceito que ocorrem na vida real, mas acho que estão muito ocupados realizando certos filmes e programas que mais ajudam a eternizar esse tipo de coisa...

Joel Bueno disse...

Sobre as lesões por esforço repetitivo - LER:

Sua intenção é boa, mas não adianta muito. Repare nos movimentos repetitivos da caixa do mercado para ler o código de barra do produto. Ela segura o produto em uma das mãos, o leitor na outra. Com esta, faz movimentos giratórios até acertar a posição. LER garantida.

Tem mercados onde é pior: a leitora do código de barras é fixa. Nesse caso, a caixa segura o produto e o gira - muitas vezes é um objeto pesado.


A moça com gesso no pulso provavelmente adquiriu ler com a leitora de barras. O movimento de puxar os produtos levaria, creio, a outras lesões - ombros, cotovelo, etc. Não sou médico do trabalho, mas acompanhei muitos casos no sindicato.

As empresas que têm casos de LER não devem apenas afastar os trabalhadores doentes e reaproveitá-los em outras funções. O fundamental é a prevenção. E não é difícil: ergonomia, ginástica laboral, ritmo de trabalho adequado e PAUSA nos movimentos repetitivos. 50 minutos trabalhando, 10 de descanso. Talvez redução da carga horária.

Mudanças no processo de trabalho também são possíveis. Já existem chips para as embalagens. O cliente passa num portal com leitor do chip e a nota é expedida automaticamente.

Acho que não preciso falar sobre os interesses que se opõe a essas simples medidas de prevenção.

Pentacúspide disse...

Concordo com Rafael. E para mim é sempre merdosa a decisão judicial contra alguém baseando-se em sexo. Ok, é certo que promiscuidade não ajuda me nada, considerando que vivemos dentro de um contexto socio-cultural, porém, se a criança não visse peças de nus, mas apenas consumisse jogos de computador, programas de tv e filmes violentos, aí, ninguém se importaria.

Mas comentado o Joel, parece<que o meu camba aí está a sonhar uma utopia. 10 minutos em 8 horas de trabalho significam 80 minutos, ainda está para nascer, no nosso mundo de capitalismo cruel, um patrão que abra a mão de ao menos 15 minutos de tempo útil do trabalho em benefício dos seus empregados.

nelsonalvespinto disse...

Olha, eu já asssisti um monte de peças do Zé Celso. Se a criança assistiu aos ensaios é algo a se pensar e obter mais detalhes.

Sobre o caso do estagiário. Quem pegou o caso foi a Ellen Gracie. Ela tem um bom histórico a seu favor.

No caso da Natura a justiça do Trabalho quase sempre fica a favor do empregado. Como eles devem ter pedido uma indenização é bem fácil a natura continuar com eles trabalhando em casa. Sai mais barato que pagar a indenização, além da repercussão negativa.

Detalhe: A repercussão negativa afeta as empresas e muito. Comunidades no orkut, twitter, e-mails ao SAC ameaçando não comprar nada deles.

Principalmente depois que descobriram (o pessoal de marketing)que atrair um ex-cliente custa muitas vezes mais caro do que obter um novo.

L. Archilla disse...

O que eu ia falar já foi dito: a prevenção é o melhor "remédio" no caso da LER. Minha mãe tem há muitos anos, então a gente já pesquisou um bocado. Na verdade, além do movimento repetitivo em si, o que mais conta é a insatisfação profissional. Trabalhando contrariado, o funcionário tensiona os músculos, o que é um prato cheio pra qualquer lesão. Os casos de LER são cada vez mais comuns, e se todos conseguirem a aposentadoria pelo INSS - o que, convenhamos, é justo - vamos afundar os cofres públicos rapidinho. O ideal seria que os empresários se conscientizassem disso e dessem condições de trabalho decentes pros empregados...

Quanto ao caso da atriz, concordo que a criança não deveria assistir aos ensaios, mas tirar a guarda por isso é arbitrário DEMAIS! Ou será que ela já tinha sido, por exemplo, notificada judicialmente? Provavelmente não, né?

Joel Bueno disse...

Pentacúspide,

Não é utopia. É sindicato forte. Os bancários em situação de risco têm direito.

Lu-Bau.Blog disse...

Joel, esta do cliente passar os produtos no leitor de códigos de barra é uma ótimaaaaaaaaaaaaaaa (ironic mode on) desculpa para reduzir o número de empregados.
Espero que os empresários do ramo de supermercados não leia a sua sugestão. É trocar um problema por outro.
Sobre o caso do estagiário: Tá na cara que juntou dois preconceitos: Preconceito Racial + Preconceito de Classe Social, fora que eu levantei outra suspeita, mas como o homem é louco, melhor não comentar kkkk.
E sobre o juiz que tirou a guarda da criança da mãe, é meio complicado opinar, pois peças do Zé Celso normalmente são polêmicas mesmo. E creio eu que a justiça não tire somente pelo fato da criança ficar no teatro. E se alguém acusa outra pessoa que tem criança em casa de pedófilo, a primeira coisa que o conselho tutelar faz é retirar a guarda da criança provisoriamente até se provar ou não a acusação.

Vivien Morgato : disse...

Os absurdos me deixam pasma.
Em relacao ao Teatro Oficina, vi agora mesmo no facebook.
O que eratrivial aos gregos paree ser chocante no seculo XXI? estranho, muito estranho.
Tenho um interesse especial pelo Oficina. Seu arquivo da decada de 60 esta na Unicamp - pecas em texto e video, fotos, etc - esta tudo no Arquico Edgard Leuenroth.
Fzi um trabalho sobre eles, quando estava na graduacao. Adorei me perder no desconhecido pirado.

cronicasurbanas disse...

Lola, estivemos mal mesmo no quesito vice-presidente, hein? Índio, Leal, Temer... tá danado.
Evitei falar sobre o caso do Teatro Oficina justamente por não ter informações sobre o outro lado da história. Mas se for remotamente como o Martinez descreveu, é realmente um absurdo. Só acho que o espaço do ensaio não é o melhor para se levar uma criança pequena, tendo em vista o tipo de espetáculo que o grupo coloca em cena.
Quanto ao caso do rapaz e o juiz, fiquei besta quando li a notícia há umas 2 semanas. Comentei lá no blog que achei incrível que tanta gente na internet tenha saído em defesa da Geisy Arruda, mas não tenha se pronunciado com o mesmo entusiasmo nesse episódio. Não estou comparando os casos ou dizendo que um merece mais atenção do que o outro, mas sim que a sociedade parece ter ignorado por completo o que aconteceu com o moço...
Bom domingo!
Mônica
@madamemon

Ághata disse...

Nossa, fiquei sabendo desse caso e esqueci de falar nele no blog!

O bendito do Ari Pagendler ficou gritando e puxando o crachá do coitado, "Você está acabado"!!

Coisa de louco.

Joel Bueno disse...

Lau Bau,

Não sou ludista. Não sou contra o progresso técnico. Acho ótimo quando a máquina substitui trabalhos repetitivos, perigosos, monótonos. Outra questão é quem vai se apropriar do ganho de produtividade. Também não sou derrotista, não acho que seja sempre a burguesia. Vai depender da situação da economia, da correlação de forças, etc.

Fabio Salvador disse...

SÓ CORRIGINDO:
O Guilherme Leal não é MILIONÁRIO... ele é BILIONÁRIO, e isso pode ser constatado na declaração de bens que ele fez à Justiça Eleitoral.

Daniele disse...

Lola, a Elaine é diretora de vídeo do Oficina, não atriz como você escreveu. Os HD que foram sequestrados, como o próprio Zé diz, pela Vara da Família, contém toda a história do Oficina, o material foi usado na ocupação no Itaú Cultural.
A Elaine já está se recuperando, se não me engano ela já saiu da UTI.
As peças do Oficina tem essa proposta bem alternativa, como você mesma pôs, mas está longe de ser um teatro pornográfico.

nelsonalvespinto disse...

Lola,

Eu acabei escrevendo uma grande bobagem aqui. Confundi Ellen Gracie com Denise Frossard.

A Ellen é amiga do tal Ari.

Pelo menos ela teve a dignidade de se afastar do caso. Outro relator será nomeado.