sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

TUDO QUE VOCÊ NÃO QUERIA SABER SOBRE ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ - FINAL

Cuidado, muito cuidado, todo o cuidado do mundo! Spoilers referentes ao livro do Cormac McCarthy! Esta é a parte final. Veja a primeira, a segunda, a terceira, e minha crônica sobre o filme.

- O quê? Não gostou do final do filme? Pois saiba que esse fim é 100% superior ao do livro. Porque o livro não acaba depois que Moss, Wells, Carla, e principalmente Chigurh saem de cena. Não, o livro prossegue por mais 50 páginas só do xerife repetindo o que a gente já conhece desde o título! É interminável. É um sexto do livro, e não tem razão de existir, na minha modesta opinião. Há um longo papo entre o xerife e seu tio, um homem que vive numa cadeira de rodas, cercado por gatos. No filme essa cena aparece, mas os Coen tiveram a esperteza de cortá-la um monte e colocá-la antes do acidente do Chigurh (se fossem mais ousados, teriam eliminado a cena completamente). Basicamente, nessa conversa no livro, o xerife (personagem do Tommy Lee Jones no filme) revela ao tio seu terrível segredo: ter abandonado seu pelotão durante a Segunda Guerra Mundial, e mesmo assim ter sido condecorado. Cumequié? Tem uma encarnação do mal chamada Chigurh à solta, e a gente precisa ficar interessada no que aconteceu com um xerifinho quatro décadas atrás?! Ah sim, ambos conversam sobre os EUA não serem um country for old men.

- E o livro continua... O xerife se aposenta. Sente-se culpado pela morte de Carla Jean, mas consola-se que não podia adivinhar que Chigurh iria matá-la. Ele fala com os dois adolescentes que viram Chigurh no acidente de carro (porque eles venderam a arma dele, e a polícia notou que foi a mesma arma usada para matar Carla Jean). Um mexicano é condenado à pena de morte por crimes cometidos por Chigurh no começo da trama. O xerife tenta testemunhar a favor do mexicano, mas não adianta. Chigurh é considerado um fantasma. O xerife assiste à execução do mexicano. O xerife visita o pai de Moss. Ambos conversam sobre... você sabe. Tá no título. O xerife fica mais em casa. Sua mulher é muito carinhosa e paciente, mas lhe dá uma cotovelada: “Lembro que quando Papai se aposentou, Mamãe disse pra ele: eu disse na saúde e na doença, mas não disse nada sobre almoço”. O xerife não tem simancol. Ele sente um sentimento de derrota que é pior que a morte. Fala de outras coisas pra mostrar como este não é um país para os velhos. Narra o sonho com o pai. The end.

Talvez eu esteja sendo rigorosa demais com o livro. Deve ter muita gente que o acha brilhante, uma alegoria perfeita de como os EUA são um país violento. Mas eu realmente achei tudo muito repetitivo. Em sua defesa, posso imaginar que o xerife é um homem traumatizado com tanta violência ao seu redor, e o que faz uma pessoa traumatizada? Ela repete. É uma interpretação coerente. No entanto, pra mim, leitora, o personagem do xerife precisa aparecer menos pra história fluir mais. E qual é a grande falha do filme dos Coen? Quando que o fascínio parece se esvair? Quando o xerife assume a posição central. I rest my case.

9 comentários:

lola aronovich disse...

Pra facilitar a sua vida, leitor(a):
Minha crônica/crítica sobre o filme: http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2008/02/crnica-de-cinema-um-grande-filme-at.html
Primeira parte: http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2008/02/tudo-que-voc-no-queria-saber-sobre-onde.html
Segunda parte: http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2008/02/tudo-que-voc-no-queria-saber-sobre-onde_18.html
Terceira parte: http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2008/02/tudo-que-voc-no-queria-saber-sobre-onde_25.html

lola aronovich disse...

É que eu ainda nao sei colocar aqueles linkzinhos azuis no texto! Buááá! Outra coisa fácil é escrever o título do filme no "busca" que tem no topo esquerdo do blog. Acho que aí aparece tudo.

Pedro disse...

Lolinha, depois de pesquisar e suar (acho que pelo clima daqui de Salvador hahaha não me espantaria se o Satanás estivesse de ferias por aqui e aparecesse na minha porta para pedir água reclamando do calor), isso foi oq eu cheguei mais perto, acho que por ser uma coisa que aparentemente deve ser simples, ngm explica O_o EHAUHEAU... Nos sites especializados só explicam coisas mais complexas...

Tenta esse [url=site]palavra[/url]

ex: [url=http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=23801811]Comunidade da Lola[/url]

Suzana Elvas disse...

Sobre o fim desse filme, cito aqui o Pedro, em seu blog "Utopia Dilucular" (http://www.utops.com.br/):

"É triste, mas é fato. Não dá pra detestar o filme ou dizer que ele é ruim. Seriam duas grandes injustiças. Mas afirmá-lo perfeito também é forçar muito a barra. Fico com a pergunta indignada que li em um fórum no qual uns caras discutiam cinema:'Qual o problema em acabar o filme com um final? É burguês? Ou é plebeu demais? É muita farinha na ‘média cultura?''"

lola aronovich disse...

É, e olha que o filme tem um "final" muito mais marcante que o do livro, que se perde. Mas minha queixa é que os Coen tinham a liberdade de fazerem o que quiser com o livro. É uma adaptação. Eles "melhoraram" o livro em diversas partes, mas nao tiveram coragem de mexer no fim. Pra mim nao é só o fim, é todo o terço final que é muito falho. Mas muitos críticos acham isso "artístico", porque os separa da plebe, que não tem capacidade pra apreciar algo tao "sutil".

Gabriel disse...

achei a abordagem extremamente simplista e rasa, apesar de farta de informações que foram importantes pra compreensão de alguns acontecimentos do filme.
acredito que existam aspectos muitos mais importantes que compões o roteiro e a obra literária que o baseou, que acabam passando despercebido em sua resenha.


fica a dica

paulo rogerio disse...

Acabei de assistir o filme no corujao, já é 3º vez q assisto o filme , tipo 1 vez por ano , e toda vez q assisto, saiu procurando coisas do filme por causa do final , tipo dá um branco e esqueço do filme , por causa da distância de ano q assisto , adorei os texto seus , valeu , pelas explicações abç.

Emmanuel disse...

Parabéns!

Belo texto, esclareceu muito algumas dúvidas que o filme deixou!

Minha principal percepção sobre o filme foi: não fica claro que foi o Chigurh quem ficou com o dinheiro (Foi oq eu imaginei, mas sem ter uma certeza absoluta). E o papel principal do xerife só caiu a ficha depois de ver duas cenas nada a ver, de diálogo entre ele e duas pessoas que sequer haviam aparecido no filme. Quando, então, conecta-se com o início do filme, ele contando sobre ser xerife, que seu pai e avô foram, que nem precisavam usar armas, e tudo mais. Ai cai a ficha do no country for a old man.

Filmaço!

E muito obrigado pelo texto, tava muito curioso pra saber como era a versão do livro.

Anônimo disse...

Melhor texto que eu li sobre o filme e o livro. Muito bom!! Críticas muito coerentes.