quarta-feira, 29 de novembro de 2006

CRÍTICA: À PROCURA DA FELICIDADE / Se meu capitalismo falasse

Após ter visto o trailer 2.325 vezes, sabia que “À Procura da Felicidade” ia ser a apoteose do self made man. Mas eu tinha expectativas boas. É que, apesar do meu lado socialista, no fundo sou uma besta capitalista. Meu assunto preferido é dinheiro. Até li “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos” na tentativa da parte inteligente do casal (eu) ficar rica. Logo, pensei que “Felicidade” trataria muito de dólares. Ok, eu sabia que teria de suportar toda a lenga-lenga de um menininho falando “Papai” a toda hora, mas pensei que os cifrões falariam mais alto. Não é bem assim. Pra começar, o filme se passa em 1981, então os 25 centavos que custa uma barra de chocolate precisam ser calculados pros dias atuais. Esperava que falassem mais de riqueza, menos de pobreza, porque pobreza é um assunto tão deprê, né? E a gente nem precisa ver filme de Hollywood pra ver pobre de verdade.

O Will Smith faz um carinha que sofre, sofre, sofre, mas finalmente se dá bem. Digamos que ele sofra durante 95% do tempo e se dê bem nos 5% finais, quando legendas explicam que pouco depois ele ganhou seu primeiro milhão de dólares. O Will descola um estágio não-remunerado após montar o cubo mágico. Tá, eu sei que era muito jovem na época, mas, que eu me lembre, quando eu montei o tal cubo, ninguém me ofereceu estágio na bolsa de valores. A primeira vez de resolver o cubo foi difícil, mas as vezes seguintes não tiveram muito segredo. E olha que eu nunca fui um gênio matemático.

Fora absolutamente ninguém mencionar que o Will é negro, há três mulheres no filme. Uma é a mulher dele, a Thandie Newton, magérrima, coitada. O próprio herói dá o seu parecer: ela é fraca. Não acredita no seu homem. Todo o cinema sabe que ele chegará lá no final, menos ela. Por isso, além de fraca, é uma burralda. Outra é uma asiática, dona da creche onde o filho do Will fica (o guri é filho do Will na vida real e não tem três, mas quatro nomes. Se quiser se tornar o astro que seu pai é, precisa se livrar de uns dois). Ela é incompetente, porque não sabe soletrar felicidade (aliás, a julgar pelo título do filme, e pela ênfase que dão ao “y”, parece que o espectador americano médio também não sabe. Primeiro aparece a letra “y” em amarelo. Depois ela brilha, pisca, é sublinhada, e posta em negrito. Daí o Will repete como se soletra a palavra corretamente umas três vezes. Tomara que o pessoal tenha aprendido. Quem disse que cinema não pode ser um programa educativo?). A asiática analfa deixa o garoto vendo TV o dia todo (oh! oh! Fato inédito na história da humanidade!) e faz com que crianças convivam com seu pastor alemão. Pena de morte pra essa mulher! Só podia ser asiática, a maldita vietcong! A terceira dama é uma hippie. Deixe-me repetir: uma hippie, sabe, símbolo máximo da contracultura, fora do mercado de consumo? Esta ousa até roubar o nosso herói. Pô, como permitem que essa escória ande livremente pelas ruas? Vamos comparar com os homens brancos do filme. Todos, tirando um, que trata o nosso herói como criado, são bonzinhos. Levam o Will a um jogo de futebol, são francos com ele, até devolvem dinheiro que pegam emprestado. Não resta dúvida que quem emperra a América são as mulheres. Não as mulheres-troféus dos homens brancos (ausentes do filme), mas essas minorias negras, asiáticas, e hippies. Buu! Buu! Fora com elas!
Outro obstáculo pra melhoria da nação é o governo, que não faz nada além de aplicar multas. Até enfia a mão na conta do cidadão honesto pra cobrar impostos, fazendo com que nosso herói e seu filhinho tenham que dormir num banheiro público (maior e definitivamente mais limpo que a minha casa). Quem precisa de governo? Vamos deixar as corporações regerem as nossas vidas, porque elas sabem o que é bom pra gente. Por exemplo: estágio de seis meses, não remunerado. A empresa é tão camarada que permite que um bando de homens trabalhe lá durante meio ano e faça um montão de dinheiro pra ela. Puxa, que altruísmo louvável!

Um antídoto eficaz pra “Felicidade” é esse pequeno grande filme chamado “Pequena Miss Sunshine”. Os filmes são opostos. Enquanto “Miss” critica a divisão entre vencedores e perdedores, “Felicidade” bate palmas pra essa divisão, associa dinheiro à felicidade, e reitera a velha lenda dos EUA como terra das oportunidades. O Will consegue se dar bem porque é um lutador e não desiste nunca. Já as dezenas de pessoas (quase todas negras) na fila de uma cama pra passar a noite merecem estar lá, porque obviamente não se esforçam pra sair dessa situação. Ou seja, “Felicidade” é o novo campeão de audiência pra quem acredita em palestras de auto-ajuda e histórias de superação. Já eu prefiro o Will de “Homens de Preto”, antes salvando a Terra dos alienígenas do que fazendo propaganda do capitalismo selvagem.



P.S.: Existem filmes sobre dinheiro mais críticos ao sistema. Um é “Wall Street, Cobiça e Poder” (87), do Oliver Stone, que mostra o Michael Douglas como um vilão muito sedutor, daqueles que aconselham que, se você precisa de um amigo, compre um cachorro. Mas claro que “O Sucesso a Qualquer Preço” (92) é um filme melhor. A palestra inicial do Alec Baldwin é realmente inspiradora: o primeiro prêmio pra quem vender mais é um carro, o segundo é um jogo de facas, o terceiro é você está despedido.

4 comentários:

Anônimo disse...

Lola, nem de longe tenho o conhecimento ideológico que você tem e só assisti ao filme ontem. Concordo com muitos aspectos, mas o ponto da mulher dele ter ido embora me pareceu bom, para mim, ela é uma mulher independente que mantinha a casa se cansa de esperar uma melhora de vida que é tão distante que nem aparece efetivamente no filme (só é narrado). Quanto aos brancos, me pareceram todos caricatos; acredito que a intenção era essa mesmo, revelar a falsidade de uma burguesia, que aceita qualquer um que lhe dê dinheiro. O protagonista estava sempre fingindo que estava tudo bem e eles, tolinhos, acreditavam, ou fingiam acreditar, porque não era o bem-estar alheio que os interessava, mas o que os outros podiam fazer para aumentar sua renda.

Chicazil disse...

Tinha adorado esse filme quando o assisti e pensei que a crítica seria bem doce, mas foi salgada. rsrs Na verdade eu não tinha percebido essa atmosfera capitalista e machista, além de preconceituosa. Bom ter outras opiniões e abrir os olhos para certas coisinhas. :)

Areli disse...

mas se dinheiro é tão ruim assim e não traz a tal felicidade, pq vc anda tão desesperada pra vender seu livrinho, Lola?

mateus cardoso disse...

Amigo quando for fazer um artigo como esse tente resumi-lo sem reprimir seu pensamentos, e também não o deixei tão longo pois acaba ficando tedioso de ler e assim como eu muitos acabam nem lendo tudo