quarta-feira, 27 de novembro de 2002

CRÍTICA: RESIDENT EVIL / A volta dos mortos-vivos

"Resident Evil" é mais um filme baseado num videogame, e não pense que acho isso ruim. Pelo contrário, é uma chance da criançada largar o joystick, sair da frente da tela do computador e ir ao cinema prestigiar uma aventura edificante, com conteúdo, cheia de moral. Tá, ironia de lado, não entendo por que teimam em não traduzir o título. Devem pensar que no Brasil todo mundo domina o inglês. É até possível, um país de primeiro mundo como o nosso, mas quando falei pro bilheteiro o nome da película, ele quase respondeu "é a sua". Basta comparecer na locadora pra notar que o pessoal continua usando "Xereque" pra pedir "Shrek". Dá dois dias e "Resident Evil" estará sendo chamado de "Presidente Elvis", ou algo assim.

Só pra garantir, a galera colocou um subtítulo, "O Hóspede Maldito", que eu apelidei de "Meu Cunhado Aqui em Casa". Tem um slogan também: "Sobreviva ao terror". Eu sobrevivi. Quer dizer, mais ou menos. A vantagem é que o filme já começa a cem por hora. Numa corporação misteriosa, um vírus é solto. O computador central decide matar todo mundo. Essa parte é massa. Tem cena de decapitação via elevador e tudo. Mas, de repente, a ação pára pra se concentrar numa mulher nua que logo põe um mini-vestido e é levada por uma força de combate pra dentro da colméia pra desligar o computador malvado. É isso, né? Esqueci alguma coisa? Posso estar confusa.

Como o filme é um videogame, surgem os tradicionais vilões de videogame. Uau! Os funcionários não morreram?! Viraram mortos-vivos? Não olhe agora, mas tem uma gangue de dobermans demoníacos atrás de você! E, opa, o que é esse cruzamento entre o monstro de "Alien" e a língua do vocalista do Kiss? Tem tudo isso e muito mais em "Recipiente Ih! Viu", menos uma história bem contada. No entanto, os meninos que brincam de joguinhos eletrônicos devem adorar ver mulheres disparando bazucas, então o herói que sobrevive mais tempo é a Milla Jovovich. Milla é a margarina que veio do milho, Milla. Ela já esteve em "Joana D'Arc" e "O Quinto Elemento". Uma gracinha, a Milla, apesar de ser meio dentuça e de ter pinta de quem pula todas as refeições. Graças aos dentões e ao vestidinho vermelho, fiquei lembrando da Mônica portando uma metralhadora. Os mortos-vivos estão famintos e desejam carne humana, mas ninguém come a Milla – no bom sentido, claro. Sabe por quê? Porque os zumbis querem carne, e a Milla é só osso. E quem gosta de osso é cachorro, certo? A cena mais divertida, inclusive, ocorre quando a Milla foge de um doberman e se tranca em outro recinto, só pra se virar e encontrar uns dez cães babando por ela. Ela mata todos. Não gosto quando chutam cachorro, nem que seja cachorro-morto-vivo. Por isso, costumo ficar até o fim dos créditos, pro desespero do projecionista. Exijo ver aquele aviso de que "nenhum animal foi machucado durante as filmagens". E, aleluia, o aviso sempre aparece. Bom, em "Magnólia" não tinha aviso algum. Há uma chuva de sapos e não tem aviso?! Até hoje tenho pesadelos com os sapinhos sendo jogados vivos dos prédios, chuif.

E sou só eu ou ninguém mais tem medo de morto-vivo? Eles comem gente, mas são meio lerdos, chegam com os braços esticados, dá pro candidato à refeição dar a volta no quarteirão antes d'eles darem o segundo passo. Sei lá, o monstrinho à la "Alien" é aterrorizante, mas os zumbis... Pode ser que minha convivência com o maridão tenha me tornado imune a essas pragas. Ah, por falar no dito-cujo, a Michelle Rodriguez (de "Velozes e Furiosos") tá em "Incipiente". Ela interpreta a soldada machona, o que levou o maridão a perguntar: "Quem é ela? O que ela tá fazendo no filme? Alguém faltou?". Sacanagem dele com a moça que usa o branco dos olhos como método de interpretação. O bom é que ela não precisa fazer o mínimo esforço pra mudar de humana pra zumbi.

Resumindo, a trama de "Reincidente" se passa na Cidade Guaxinim, na corporação Guarda-Chuva, e tem a Mônica como protagonista. Uma história infantil, decerto. Programão pra crianças.

CRÍTICA: QUARTO DO PÂNICO / Entrando em pânico

Assim como não vou mais adquirir uma Ferrari para me vingar do que a montadora está fazendo com o Rubinho, desisti de comprar uma mansão em Nova York após ver "O Quarto do Pânico". E deixo aqui a dica pra você – ó, nada de ter um compartimento secreto para guardar seu tesouro em casa. Isso é perigoso, mais aterrorizador ainda que aplicar dinheiro em fundos DI. É o que aprende a Jodie Foster neste filminho do mesmo diretor badalado de "Seven – Os Sete Pecados Capitais" e "Clube da Luta".

Vi o trailer de "Quarto do Pânico" tantas vezes que parece que eu conhecia o thriller inteirinho. Mas vou imaginar que você andou ausente do cinema nos últimos dois meses e passou longe da TV, e, por isso, ignora a trama. É bem simples: a Jodie faz uma mãe recém-divorciada que se muda com sua filha (isso não dá pra ver nos comerciais, admito; a menina é 100% andrógina) para um casarão que possui um cubículo high-tech. Dizem que os ricos têm dessas heranças dos castelos medievais. Em caso de invasão, eles se refugiam no bunker. Logo na primeira noite das novas moradoras, um trio entra no apartamento pra roubar uma antiga fortuna. As moças se trancam no quartinho. Adivinha onde está o dinheiro que os gatunos querem surrupiar? Acertou...

Pois é, trata-se de um bom ponto de partida. E lida com o pesadelo recorrente da porta que se fecha no exato instante em que alguém a ameaça. Por que, então, "Quarto" não poderia ser mais satisfatório? Mais divertido, até? O diretor não permite. David Fincher é respeitado por seu virtuosismo e sua paixão pelos detalhes. Em alguns momentos, parece que ele está gritando: "Olha por onde eu consigo enfiar a câmera! Não é bárbaro? Não sou o bom?". É sim, David. É trilegal ver o interior de uma fechadura e de um cabo de telefone, ou a câmera passando pela asa de uma chaleira. Eu tava quase aplaudindo e pedindo "Mais! Mais! Agora mostra os cupins comendo o corrimão por dentro!", quando me lembrei que os truques não estavam acrescentando grande coisa pro andamento da história.

Mas o principal problema do filme não está no David, e sim no roteiro chinfrim. Os personagens são rasinhos de dar dó. Vamos nos deter nos larápios. Há três: o ladrão bonzinho, o ladrão paspalhão e o ladrão psicopata. Nenhum deles diz direito a que veio. Os diálogos são bizarros, sem nexo, e as situações não são desenvolvidas, até porque existe uma total falta de comunicação. Sinta o drama. A Jodie tá no cubículo com a filha e com sete monitores de TV. Através de alto-falantes, ela pode conversar com os bandidões se quiser, só que opta por ficar num silêncio sepulcral. Pô, não dá pra usar argumentos do tipo "daqui não saio, daqui ninguém me tira"? Se fosse eu a trancafiada, iria tagarelar com os carinhas o tempo todo. Se eu cantasse, acho que eles abandonariam o imóvel no ato. Se eles insistissem em ficar, eu discursaria sobre o tema de "Clube da Luta", que é como o homem contemporâneo trata a dualidade de ser másculo e sensível nesta sociedade consumista. Vai me convencer que os vilões não partiriam em disparada na hora? Sim, disse o maridão, mas há o risco da menina sair correndo antes. Aliás, prefiro nem mencionar o dito-cujo, que viu este filme de quase duas horas e gostou dos... créditos iniciais?!

Admiro a Jodie de montão, mas ela tá desperdiçada na película. A pior perda, porém, ocorre com o Jared Leto, o ladrão palerma. O caso é tão sério que só notei que ele tava no filme quando li seu nome no final. O ator esteve infinitamente superior em "Réquiem para um Sonho". Mas talvez eu não tenha reparado nele porque a casa é muitíssimo mal-iluminada.

Na escuridão, fiquei lembrando de outros filmes que promovem a defesa da propriedade privada. Vou citar alguns: "Horas de Desespero", o austríaco "Violência Gratuita", e o campeão do fascismo "Sob o Domínio do Medo". A diferença entre eles e "Quarto" é que eles são ótimos, e este do David deixa um gostinho de desperdício. Mas não entre em pânico, que ele é melhor que "Esqueceram de Mim".

terça-feira, 26 de novembro de 2002

CLÁSSICOS: APOCALYPSE NOW REDUX / Apocalipse antes tarde do que nunca

Milagre! Aconteceu o que ninguém esperava: “Apocalypse Now Redux” estreou em Joinville! Fui toda faceira assistir ao clássico de Coppola pela primeira vez no cinema. Quando o original foi lançado, em 1979, eu era muito novinha.
Pra quem não sabe, não há nada no original que não esteja aqui. Nada foi tirado. E esta não é uma refilmagem. No relançamento de “ET”, se você piscar, você perde os dois minutos e pouco que foram acrescentados. Em “Apocalypse”, não há chance
disso ocorrer. Tem quase uma hora de acréscimos, catapultando o épico pra três horas e 20 minutos de duração. Agora, tenho uma boa e uma má notícia pra contar. Qual você quer primeiro? A boa: vale a pena ficar sentadinho numa poltrona não muito confortável pra presenciar este espetáculo numa telona. A má: os 50 minutos a mais não dizem a que vieram.
Eu, sendo a formidável crítica cinematográfica que sou, estou num dilema. Não sei pra quem dirigir este texto (supondo que alguém me leia). A quem nunca ouviu falar de “Apocalypse”? A quem já ouviu falar, sabe que é uma obra importante, mas nunca a viu? A quem já a viu mas não conhecia o “redux”? A quem já a viu várias vezes, viu também o excelente documentário “O Apocalipse de um Cineasta”, até leu o livro “Coração das Trevas”, de Conrad, no qual a obra foi baseada, e sabe todos os detalhes da nova versão? Bom, se você estiver neste último grupo, só posso perguntar: meu filho, pra que você quer ler este artigo? Então decidi escrever pra quem já viu o filme, mas não está a par das novidades.
Primeiro, a história. “Apocalypse Now” é sobre a insanidade de qualquer guerra, mais especificamente a do Vietnã. Um militar interpretado por Martin Sheen é enviado em missão secreta para liquidar o coronel Kurtz, ninguém menos que o deus Marlon Brando, que ficou maluco e fundou uma seita no meio da selva. No longo caminho de barco até lá, Martin conhece tipos esquisitos, como o lunático feito por Robert Duvall, que usa chapéu de caubói, não pisca com os tiros que lhe passam raspando, gosta de trucidar malditos vietcongues ouvindo Wagner, crê que está no Vietnã pra surfar, e declara “adoro o cheiro de napalm pela manhã”. Não é à toa que este é o personagem mais marcante. Há também Larry Fishburne (de “Matrix”) aos 14 aninhos, Harrison Ford limpando a garganta, e o alucinante fotógrafo adorador de Kurtz vivido por Dennis Hopper, que, visivelmente, não estava drogado por amor ao seu papel. Estava drogado e pronto. É impressionante que tenha conseguido decorar suas falas. Mas compõe outra figura inolvidável.
Coppola não estava normal quando dirigiu “Apocalypse”. Tinha o ego inflado por
causa do sucesso de “O Poderoso Chefão” (1 e 2), considerava-se acima do bem e do mal, gastava os tubos. Não deu ouvidos a quem lhe desaconselhou rodar sua odisséia nas Filipinas, onde havia tufões e golpes de estado. Conclusão: entre inúmeros desastres, Martin Sheen teve um ataque cardíaco; Coppola estourou o orçamento em dezenas de milhões e quase faliu. Mas realizou uma obra-prima. Não uma obra perfeita, já que “Apocalypse” tem muitos defeitos. Pra começar, o final é confuso e cerebral demais e revela que ninguém fazia a menor idéia de como terminar o filme. Pessoalmente, nem creio que “Apocalypse” seja a melhor produção sobre o Vietnã. Prefiro “Nascido para Matar”, mas acho que sou minoria, e trago enorme desprezo por atentados como “Platoon”. Porém, o clássico de Coppola tem momentos surrealistas realmente únicos, como os helicópteros ao som de “Cavalgada das Valquírias”, o show das coelhinhas da Playboy no meio do nada, as flechas e lanças que surgem de repente, e a terrível seqüência em que os soldadinhos americanos revistam um bote de pescadores vietnamitas, e os chacinam. Talvez o espírito da obra possa ser resumido no breve diálogo entre Martin e Brando, onde Brando pergunta: “Você acha meus métodos insanos?”, e Martin responde: “Francamente, não vejo método algum, senhor”.
Este “redux”, 22 anos depois, traz um reencontro entre os soldados e as coelhinhas, e todo um subtexto dos franceses no Vietnã, que chegaram lá antes dos ianques. Fica mais político, a fotografia é linda, mas parece estar em outro filme e arrasta um pouco o ritmo. O coronel-surfista de Duva
ll é mostrado ainda mais desmiolado ao sobrevoar o pântano e gritar “Não vou machucar vocês. Só quero minha prancha de volta”. O fim torna-se um tiquinho menos abrupto porque Brando ganha mais falas, mas isso não torna o “the end” menos fraco. Aqui cabe um parêntesis. Vejo muito crítico por aí que toma as dores do Kurtz e passa a idolatrá-lo, sem perceber que ele é doido de pedra. Tsc tsc, o papel do fotógrafo (Hopper) é essencial porque ele também beija o chão que Kurtz pisa. Mas dá pra perceber que ele está alterado, e que o objeto de sua devoção é pura pretensão. No livro de Conrad, as coisas ficam mais claras. O protagonista decepciona-se com Kurtz e com suas célebres últimas palavras (“O horror... O horror...”) que, no fundo, são ditas pelo coronel para descrever o que ele vê dentro de si próprio, em seu coração das trevas. Quando o protagonista encontra a noiva de Kurtz e ela quer saber quais foram os suspiros finais de seu amado, ele mente que foram o nome dela. Kurtz não é nenhum santo – é apenas mais um desequilibrado que sente prazer em matar. Acho que os críticos perdem este ponto porque é Brando que interpreta Kurtz, e tudo bem, a gente tem mesmo que se curvar diante de Brando. E diante de “Apocalypse Now” que, apesar de suas imperfeições, é cinema de verdade, pra gente grande.

terça-feira, 19 de novembro de 2002

CRÍTICA: PRENDA-ME SE FOR CAPAZ / Aceita um cheque sem fundo do Leo?

Finalmente estreou um filme digno de nota por aqui. Estou falando de "Prenda-me ser for Capaz", título com o qual ainda não me acostumei porque me remete à "Agarra-me se Puderes", uma comédia constrangedora com o Burt Reynolds. Então vou chamar "Prenda-me" de "Ketchup", uma homenagem ao nome original da mais recente empreitada spielbergriana.

A mais recente e talvez uma das mais diferentes e impessoais do grande diretor. Sim, eu assumo: Spielberg é um grande diretor. Não é por ele ser biliardário ou por ter cometido coisas como "Hook" e "Amistad" que ele deixa de ser um gênio. Quem fez "ET" e "Caçadores da Arca Perdida" não precisava ter feito mais nada, mas o sujeito é persistente. Os anos 90 foram duros pra ele, mas agora ele mais ou menos recuperou a boa forma. Achei "Minority Report" bárbaro, se bem que não se parece com um filme do Spielberg. Digo o mesmo de "Ketchup".

Tá, bárbaro é exagero. Com praticamente duas horas e meia, "Ketchup" é longo demais. Meia hora a menos cairia bem. Mas a história de um menino de 16 anos que enriquece fraudando o sistema bancário é cativante. O filme levinho se baseia numa autobiografia do personagem, que existiu de verdade. Existiu em termos, sabe como é Hollywood. Parece que o carinha real não fugiu de casa. Tampouco existiu um único agente federal a perseguir o guri. Portanto, todas aquelas legendas do fim são pura galhofa. É de novo aquele negócio: quase sempre, filme que enche a tela com legendas explicativas reflete a preguiça do roteiro em encontrar um desfecho melhorzinho.

Quem faz o agente é Tom Hanks, que aparenta estar se divertindo bastante com as filmagens. Não é legal quando os astros não apenas ganham milhões de dólares pra trabalhar, mas também se divertem na labuta? Agora, quem está a anos-luz do habitual é Christopher Walken. Ele interpreta o pai do escroque-mirim. Walken é sempre intenso e perigoso. Ele é aquele da roleta russa de "O Franco-Atirador", o do relógio em "Pulp Fiction". Um cara muito estranho. Em "Ketchup", ele diminui o sentimentalismo de seu personagem, já que o público não confia no ator. A gente imagina, "ih, esse sujeito vai aprontar alguma". Por causa disso, suponho, ele foi nomeado pro Oscar de coadjuvante.

Claro que, se o filme tem charme, a responsabilidade é todinha do Leonardo DiCaprio. Inclusive, o título original viria a calhar pra uma biografia do ator. "Catch me if you can" tem mais de um sentido, vai além do "prenda-me". "Catch" também lembra pegadinha, que é justamente o que tentamos fazer com o Leo desde "Titanic". Não há ator mais visado que ele. A gente torce pra que o loirinho superstar fracasse, e foi por isso que ficamos exultantes com aquele desastre ecológico chamado "A Praia". Ele é gay? Ele ia se casar com a Gisele? Nessas perguntas a gente se esquece que o carinha é um excelente ator. Alguém lembra que ele foi indicado ao Oscar por "Aprendiz de Sonhador"? Tudo bem, ele fazia um deficiente mental, o que equivale a um pé no Oscar, mas ele foi saudado como o melhor ator de sua geração ao aparecer. Depois de "Titanic", tudo mudou. Do dia pra noite, ele virou ídolo das adolescentes e alvo número um de todas as outras faixas etárias. Pessoalmente, sou fã dele, assim como era do River Phoenix. Não pelo Leo ser bonitinho (qualquer mulher com mais de 15 anos que não queira adotar alguém acha sua aparência insossa), mas por ele, Edward Norton etc. serem muito bons no que fazem.

Bom, há vários momentos felizes em "Ketchup", começando pela abertura inspirada em Saul Bass, de uma época em que a TV jamais cortaria os créditos iniciais. E são engraçadas declarações como "pai, você sempre me disse que um homem honesto não tem o que temer, então estou tentando não ter medo". Mas o filme vai perdendo o fôlego até chegar ao final chinfrim. A gente admira o herói contraventor enquanto ele quebra as leis, não quando ele usa o que sabe pra ajudar o FBI e salvar os bancos. Danem-se os bancos!

quinta-feira, 20 de junho de 2002

CRÍTICA: DIA DE TREINAMENTO / O primeiro dia do resto de sua vida

Vida de estagiário é ruim? É. O salário, quando existe, é irrisório, o chefe nem sabe que você existe, e você tem que fazer tudo aquilo que ninguém mais quer fazer. Isso sem falar que não há uma só alma que saiba o seu nome. Ah, mas pare de reclamar de barriga cheia. Em "Dia de Treinamento", o estágio é muito pior que as piadinhas que os colegas fazem contigo no escritório. Não é bem um estágio, mas quase. Há um tira com pouca experiência que deseja integrar uma equipe investigadora de narcóticos. Antes do almoço, o carinha já foi forçado a tomar drogas e cerveja, apanhou e bateu em dois bandidões, e teve uma arma apontada para sua cabeça por seu instrutor, que, só por sadismo, lhe dirige toda sorte de insultos.

Tá, você já notou que trata-se de um filme pra macho. Eu particularmente percebi isso quando o protagonista dá uma cotovelada nocauteadora num sujeito que o ameaça. Nós, mulheres, teríamos outras formas mais civilizadas de abordar o assunto. Mas, apesar de "Dia de Treinamento" não ser o programa adequado pra se levar a namorada, até que o filminho é decente. Até um certo ponto, bem entendido. Na meia hora final, a trama degringola legal e fica até constrangedora.
Mencionei a palavra protagonista no parágrafo acima, e o diacho é que o personagem central não é o policial malvado do Denzel Washington, que levou o Oscar de ator principal, e sim o policial bonzinho do Ethan Hawke, que foi indicado pra melhor ator coadjuvante. São essas tramóias de Hollywood que permitem que, sei lá, o Michael Douglas seja considerado o princip
al de "Wall Street", só pra citar um exemplo. É claro que o policial do Denzel é mais interessante, mais marcante, mais sexy que o do Ethan, mas sempre tive a impressão que o protagonista deveria ser quem aparece mais. Vivendo e aprendendo.

O filme inteiro praticamente se passa dentro de um carro com esses dois personagens. O Denzel mostra como ele é corrupto e o Ethan mostra como ele é íntegro e idealista. O Denzel usa montes de colares, rouba dinheiro de traficantes e enfia uma caneta goela abaixo de um deles pra que ele vomite pedras de crack. E o Ethan torce para mudar o sistema e abandona tudo que está fazendo pra salvar uma donzela em perigo. É o velho embate do bem contra o mal de novo. Vamos fazer uma aposta pra ver quem vence? Não espere novidades. Ethan chega bastante perto da maldade, mas se regenera a tempo de emergir como o tradicional herói americano. A maldade não é apenas Denzel, mas as ruas de Los Angeles, repletas de gangues e drogas. Lembra de "As Cores da Violência"? É igual. Há outros clichês também, como a questão racial (tira branco/tira negro), tudo embalado em músicas do gênero.

No entanto, "Dia de Treinamento" é envolvente. Tem um ritmo razoável, diálogos mordazes, e ótimas interpretações, e é sempre bom saber que Scott Glenn e Tom Berenger estão vivos. É estranho que tanta ação ocorra em um dia só, mas a gente faz vista grossa. O problema é o fim. Aí o cinemão aplica a pena de morte de praxe e o bem triunfa. Quer dizer, quando um sujeito semi-morto cai repentinamente em cima de um carro em movimento, você sabe que está em terreno conhecido. Pra piorar, a melodia que fecha a produção insiste que "isto não é a América". Se a gente tivesse alguma dúvida sobre a benevolência dos States, o final dissipa nossas ilusões. América, terra das oportunidades. A situação não anda boa, mas o policial herói vai consertá-la.

Agora, tem um outro segredinho ainda pra explicar porque "Dia" atrai o fascínio dos homens. Nem sei se conto, mas vamos lá. Trata-se do medo primordial do estupro masculino. Pergunte aos machões do que eles mais se lembram de filmes bárbaros como "Amargo Pesadelo", "Pulp Fiction" e "Um Sonho de Liberdade". Não é mera coincidência que o Denzel chame o Ethan de "meu negão" a toda hora. Para o público masculino, a ameaça da sodomia é muito mais aterrorizante que as drogas, a corrupção, as mortes... e o estágio.