quarta-feira, 16 de fevereiro de 2000

QUANTO MAIS SELVAGEM MELHOR

Livro e programa especial trazem de volta o genial e genioso Billy Wilder 16/2/00

Com a morte de Kubrick, o posto de maior diretor vivo parece pertencer a um velhinho de seus noventa e poucos anos que não filma há quase duas décadas, e que agora voltou a entrar em evidência por causa da publicação de um livro de entrevistas onde ele, pra variar, continua sem papas na língua. É Billy Wilder, salve salve. A partir de hoje, por uma semana, o canal Telecine 5 exibe os melhores filmes dele.
Nos tempos em que tinha forças para escrever e dirigir, Wilder foi um grande criador. Era originalíssimo, mordaz, às vezes macabro, sempre irônico. E tem um nome que lhe cai como uma luva: "wilder" significa algo como "mais selvagem". Poucos fizeram tanto jus a um sobrenome.
Wilder foi um dos muitos judeus alemães que, com a ascensão do nazismo, foram se refugiar em Hollywood. Ele chegou lá em 1934, aos 28 anos, sem saber falar inglês, e logo se tornou um roteirista por contrato. Quando descobriu que escritores não tinham poder de decisão, decidiu ser diretor. Adaptou-se tão bem ao way of life americano que aprendeu todas as gírias, colecionou estatísticas sobre jogos de beisebol e passou a usar boné.
Infelizmente, só algumas de suas obras-primas estão disponíveis em vídeo no Brasil. Você pode encontrar A Montanha dos Sete Abutres (crítica feroz ao sensacionalismo da imprensa), Quanto Mais Quente Melhor, deliciosa comédia com Marilyn, e Se Meu Apartamento Falasse, que deu a Wilder seu segundo Oscar. Pra ver Farrapo Humano, filme definitivo sobre o alcoolismo, pelo qual Wilder foi brindado com sua primeira estatueta, você que tem TV a cabo deve rezar pela boa vontade dos programadores e ficar de olho. O mesmo vale para Pacto de Sangue, um clássico noir sobre um corretor que se envolve com uma mulher fatal e, juntos, tentam fraudar o seguro, e Crepúsculo dos Deuses.
Veja como era uma época de traduções estranhas, aquela. Assim, o que deveria ser O Fim-de-Semana Perdido virou Farrapo Humano (1945), Dupla Indenização virou Pacto de Sangue (44), Tudo sobre Eva (que não é de Wilder) virou A Malvada (50), e por aí vai. E, principalmente, Avenida do Pôr-do-Sol (Sunset Boulevard) virou Crepúsculo dos Deuses, que também é poético, mas não tão sutil quanto o original.
Este ano [2000], Crepúsculo está completando meio século de vida. É, provavelmente, o filme mais pessoal de Wilder. Pra começar, é narrado por um morto: um cadáver bóia numa piscina enquanto sua voz em off avisa que vai nos contar como acabou assim. Este corpo é de um roteirista que, fugindo de credores que querem confiscar seu carro, pára na mansão decadente de uma ex-estrela do cinema mudo. Ela, que vive com seu chofer/mordomo, que já fora seu marido e diretor, passa a sustentar o jovem em troca de favores sexuais e de um roteiro que signifique seu retorno à fama. No fim, claro, ela o mata, mais louca do que nunca.
Wilder havia trabalhado como um escort em salões de dança de Berlim, então o tema de Crepúsculo não lhe era novo. Além disso, o filme é uma bela metáfora de uma Hollywood que estava mudando na metade do século, e que ainda iria mudar muito mais.
Gloria Swanson, uma estrela do cinema mudo na vida real que, em 1950, aos 51 anos, não atuava há uma década, não foi a primeira escolha de Wilder para o papel. Aliás, Wilder ligou pra ela pedindo-lhe pra que ela fizesse um teste. Ela, altamente ofendida, já que nunca tivera que participar de uma audição antes, gritou: "Teste pra quê? Você quer ver se eu estou viva?". Depois, quando foi convencida de que esta seria a parte pela qual seria lembrada, engoliu o orgulho e fez o teste. Bingo. Certamente, se você já ouviu falar nela, terá sido por Crepúsculo dos Deuses.
Para o papel do mordomo, Wilder chamou um diretor e ator que havia se tornado lenda pela sua excentricidade: Erich von Stroheim. Wilder adora narrar seu primeiro encontro com Stoheim. Quando o conheceu, foi logo manifestando sua admiração, elogiando, "você sempre esteve dez anos à frente do seu tempo", ao que Stroheim rapidamente corrigiu, "Vinte, sr. Wilder, vinte". Stroheim encarnou o personagem e saiu-se tão bem que foi indicado para o Oscar de melhor coadjuvante. Só que ele não gostou: declarou ser importante demais para concorrer naquela categoria e ameaçou processar o estúdio pela infâmia.
Para a parte principal, a do roteirista, Wilder originalmente convidou Montgomery Clift, que recusou porque já estava representando o papel na vida real. Sua amante platônica (Clift era homossexual), trinta anos mais velha, jurou que iria se suicidar se Clift aceitasse. Gene Kelly também não quis, ou não pôde. O papel ficou mesmo com William Holden (de Férias de Amor e Rede de Intrigas, Oscar por Inferno no. 17, também de Wilder), que o interpretou com perfeição.
Nas exibições-teste (sim, já havia isso naquele tempo), Crepúsculo dos Deuses foi massacrado. A responsabilidade pelo fracasso cabia à cena inicial. Wilder errou na mão e exagerou, iniciando o filme em um necrotério de Los Angeles, onde o roteirista morto conversa animadamente com outros cadáveres. Só depois ele optou pelo cadáver na piscina. Mas este clássico precisou ser aclamado em Londres antes de conquistar os Estados Unidos.
E mesmo assim não conquistou todo mundo, como era de se esperar. Louis B. Mayer (foto), chefão da MGM, saiu da sessão de estréia bradando para Wilder, "Seu miserável, você desgraçou a indústria que te fez. Você deveria ser expulso de Hollywood!". Na ocasião, a resposta de Wilder se resumiu a um palavrão. No entanto, sete anos depois Mayer morreu, atraindo uma multidão para seu funeral. Aí Wilder não perdeu a oportunidade: "isso comprova tudo: dê às pessoas o que elas querem ver, e elas comparecerão".
Crepúsculo recebeu onze indicações ao Oscar e só ganhou três, num ano em que A Malvada levou tudo. A Malvada é outro grande filme que voltou a ficar na moda, desta vez por causa de Almodóvar e seu Tudo Sobre Minha Mãe. Pois é, na falta de obras de arte atuais, a gente tem de se concentrar nas de cinqüenta anos atrás.
Um dos diálogos mais famosos de Crepúsculo dos Deuses é bastante emblemático, apropriado até pros dias de hoje. O roteirista diz à ex-estrela, "Você já foi grande", ao que ela dispara, "Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos". E como ficaram.

Citações do excelente livro A Cidade das Redes: Hollywood nos Anos 40 (Companhia das Letras, 1989), de Otto Friedrich.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2000

CRÍTICA: A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA chega em filme acéfalo

Trama sobre cavaleiro sem cabeça não faz jus ao talento de Tim Burton, diretor com grandes trabalhos no currículo

A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, em cartaz no Estado, não é um filme qualquer. Não é cria de um desses diretores por encomenda, mas de um autor ultrapessoal: Tim Burton. Então, por que este terror gótico tem aquele gostinho de "já vi isso antes..."? Talvez sejamos nós que realmente já vimos de tudo, então tudo hoje em dia pareça dejá-vu. A Lenda é um amontoado de clichês, mas este também é o caso de outros filmes que tenho visto: Risco Duplo, Joana D'Arc.... No fundo, a última obra original que assisti recentemente foi Tudo Sobre Minha Mãe, do sempre criativo Almodóvar.Voltando à Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, devo esclarecer que eu gosto do Tim Burton, então sou suspeita pra falar. Tim, se me permitem esta intimidade, fez Beetlejuice - Os Fantasmas se Divertem (que quando passa na TV dublam como "besouro-suco", pasmem), o comovente Edward Mãos-de-Tesoura, e os dois primeiros Batman. O Batman inicial tem os gritinhos irritantes da Kim Basinger e uma fotografia mais escura que a capa do homem-morcego, e o segundo tem pouco mais que a abertura brilhante de um bebê boiando no esgoto, mas, convenhamos, ambos são mais marcantes que os outros que vieram depois pelas mãos do Schumacher (não o da Fórmula 1). Tim realizou ainda O Estranho Mundo de Jack, uma ótima animação que mostra o que aconteceria se o Dia das Bruxas fosse comemorado no Natal (pra quem acha que um menino abrindo seu presente de Natal e tirando de dentro do pacote uma cabeça ensanguentada seja um filme infantil), e Ed Wood, que, na minha modesta opinião, entra na galeria dos melhores filmes da década de 90. Infelizmente, pouca gente viu Ed Wood, a cinebiografia mais carinhosa já feita e que, ironicamente, trata do pior diretor de todos os tempos. Depois, Tim escorregou feio com Marte Ataca!, uma bobagem sem tamanho.
Digamos que
você estivesse hibernando nos últimos 12 anos e não viu nenhum desses filmes. Não faz mal, pois basta assistir à Lenda pra ter um resumo de toda a obra de Tim Burton (tirando Ed Wood, que é único). Ele fala de um detetive atrapalhado que, em 1799, é enviado a uma cidadezinha (a Sleepy Hollow do título original) para investigar um serial killer sem cabeça que tem a inconveniente mania de decepar suas vítimas. O que você pode esperar ver é uma profusão de cabeças sendo cortadas com uma espada, por vários ângulos. Algumas espirram sangue, outras rodam nos eixos antes de caírem, umas contém olhos arregalados, e há até o corte da cabecinha de um morcego (deve ser pra gente comparar). Logo, se você se interessa por algo mais que o caráter quase didático de cabeças rolando, A Lenda não é sua praia.Um diretor começa a ficar chato quando reproduz imagens de suas outras obras. Mais ou menos como fez Gus Van Sant na sua refilmagem de Psicose, quando incluiu, no meio de um assassinato, fotogramas de uma vaca pastando. Algo que não tem nada a ver com nada, mas serviu pra nos lembrar de seu pior filme, Até as Vaqueiras Ficam Tristes. Bom, é pena que Tim Burton se auto-homenageie à exaustão em A Lenda. Tem a moça girando com os braços abertos, em cena que remete direto à Mãos-de-Tesoura, tem a escuridão de outras paisagens, tem os casarões mal-assombrados de todos os filmes de Tim Burton. Parece até a mesma tomada.Atores amigos de Tim também estão lá, como Johnny Depp (caricato demais, e o personagem não ajuda), Martin Landau numa ponta não-creditada - ele é o primeiro a perder a cabeça -, e Christopher Walken como o cavaleiro das trevas.

"Sleepy Hollow" em inglês significa algo como "Vale Dormente". Separando as palavras, temos sleepy ("que dá sono") e "hollow", que quer dizer oco. Sejamos justos: A Lenda não causa dormência, mas é um filminho pra lá de oco, vazio mesmo, bem diferente do que se espera de um diretor-cabeça como Tim.Tim Burton para Johnny Depp: "Ainda voltaremos a fazer um grande filme".

domingo, 9 de janeiro de 2000

1939 NÃO DEVERIA TER ACABADO

Ano foi um dos mais generosos para o cinema, com inúmeras salas, muitas produções de qualidade e vários clássicos.

Sessenta anos atrás, Hollywood andava a pleno vapor. A depressão ainda afetava o cotidiano, a Segunda Guerra estava prestes a começar, e o cinema funcionava como válvula de escape. Era um verdadeiro fenômeno. Em 1939, nos EUA, existiam mais salas de cinema do que bancos. A indústria do entretenimento era a décima primeira mais forte, maior, por exemplo, do que as cadeias de supermercados. Este número já diz tudo: 50 milhões de americanos iam ao cinema toda semana. Tanto que a soma de salas per capita era duas vezes superior à de hoje.
Antes de continuar, é importante observar que poucos lendo este artigo viveram este período. Mas isso não significa que a gente deva fechar os olhos a este que é considerado o ano dourado de Hollywood. Seis décadas se passaram, e o cinema nunca mais chegou perto de produzir tantas obras-primas em um só ano. É um contraste fascinante com a década de 90, eleita, por unanimidade, a pior da história da sétima arte. Aliás, atualmente, ninguém mais se refere ao cinema como uma arte sem esconder o sarcasmo no rosto. Porém, em 1939, esta indústria ainda era bem artística.
"Indústria" é a palavra certa pra se usar hoje, e nisto não era muito diferente 60 anos atrás. Era a época dos grandes estúdios, do cinema cujo autor era o produtor, dificilmente o diretor, dos contratos de ator que o obrigavam a interpretar vários papéis por temporada. Tal como hoje, em 1939 Hollywood também lançava 400 novos filmes por ano. A diferença é que então havia vários que valiam a pena.
Bette Davis, pra ficar em um só nome, estrelou quatro produções naquele ano. Vitória Amarga, em que interpreta uma socialite mimada cuja vida está no fim, foi apenas um deles. Foi em 1939 que "Garbo riu", mais especificamente em Ninotchka, uma comédia suprema sobre uma espiã comunista corrompida pelo luxo parisiense. Greta Garbo já era um mito antes desse filme, mas ele veio para consolidar a lenda.
Frank Capra também já era reconhecidamente consagrado. No entanto, ele dirigiu sua comédia mais famosa em 1939. A Mulher Faz o Homem, com seu ator predileto, James Stewart, mostra a decepção de um jovem idealista ao se deparar com a corrupção no senado americano.
Só John Ford rivalizava com Capra pela posição de diretor mais popular, e então Ford lançou um John Wayne novinho em No Tempo das Diligências. Este faroeste, um dos mais influentes de todos os tempos, retrata passageiros com personalidades diversas cruzando o Oeste dos EUA. Naturalmente, há um ataque de índios - lembre-se que os nativos são os vilões da história e os brancos, os mocinhos. Mesmo sendo uma obra fascista, permanece indiscutivelmente na galeria dos clássicos, assim como Nascimento de uma Nação, de Griffith. É um daqueles filmes que moldaram o inconsciente coletivo americano.
E o que dizer de O Mágico de Oz? Pois é, também é de 1939. Judy Garland, então com 17 aninhos, cantando "Over the Rainbow", serve como referência? A sueca Ingrid Bergman arrasou em Intermezzo, seu primeiro filme falado em inglês. A aparição mais notória de Joan Crawford nas telas daquele ano se deu em As Mulheres, sobre a competição entre (mui) "amigas" para conquistar os corações dos homens.
O monstro sagrado Laurence Olivier (considerado um dos grandes atores do século - só Marlon Brando pode roubar seu posto) foi a Hollywood pela segunda vez para ser transformado em galã na adaptação da obra de Emily Bronte, O Morro dos Ventos Uivantes, sobre um amor sem futuro na Inglaterra pré-Vitoriana. Este clássico fez tanto sucesso entre o público feminino que, nos meses seguintes, um terço das meninas nascidas em 39 receberiam o nome de Cathy, a heroína do filme.
Poucas estatuetas
Mas, acredite, nenhuma dessas produções teve muita sorte no Oscar. A estatueta de melhor ator foi para Robert Donat por Adeus, Mr. Chips. Além dele, 1939 foi o ano de Beau Geste, com Gary Cooper na Legião Estrangeira; de Marlene Dietritch em Atire a Primeira Pedra; de Howard Hawks dando um papel essencial a Rita Hayworth, ao lado de Cary Grant; de musicais de Busby Berkeley; do Gunga Din de George Stevens; de Katharine Hepburn afiando suas unhas no teatro; da adaptação definitiva do romance de Steinbeck para o cinema, em Carícia Fatal; de Hitchcock chegando a Hollywood; de Charles Laughton brilhando como o corcunda de Notre Dame....
Eram tempos ingênuos, quando patrões sem grande talento para a arte acertavam meio que sem querer. O chefão da MGM, Louis B. Mayer, recusou a entrada de Mickey Mouse em seu estúdio sob a alegação que "toda mulher tem medo de rato". Depois, o próprio, ao consultar seu subalterno Thalberg, rejeitou um certo drama sobre a Guerra da Secessão, já que esses "não rendiam um níquel sequer". Ahn, era E o Vento Levou.
Se este clássico dos clássicos tem um autor, ele é o produtor Selznick, genro de Mayer. Sua busca pela Scarlet O'Hara perfeita mobilizou a sociedade, testou todas as atrizes imprescindíveis da época e custou 100 mil dólares, mas atingiu uma repercussão incalculável. A lenda conta que o irmão do produtor conheceu Vivien Leigh, namorada de Laurence Olivier, e a levou para conhecer Selzick no dia em que queimavam Atlanta. A inglesa ganhou o papel e incendiou o imaginário do público, que via no casal o encontro ideal entre Scarlet e Heathcliff, o herói de O Morro dos Ventos Uivantes.
O impressionante mesmo é que E o Vento Levou foi apenas um dos clássicos feitos na Hollywood de 1939. Houve tantos outros que é fácil perder a conta. Agora analise comigo: quantas obras-primas você viu nesses últimos vinte anos? Certo, certo, sei que a comparação é injusta. Mas seria bom se 1939 não terminasse nunca, se fosse um ano constante a assombrar a produção cinematográfica atual, a lembrá-la de quando os americanos sabiam fazer cinema. Faz tempo, né? 60 anos...

quinta-feira, 30 de dezembro de 1999

LISTA ESCOLHE OS 100 MELHORES FILMES BRITÂNICOS

Relação do British Film Institute comete gafes, subestima Hitchcock e faz justiça a clássicos como O Terceiro Homem (foto)

Recentemente, o British Film Institute elegeu os 100 melhores filmes britânicos do século. Surpreso? Sim, parece que existem mais de cem filmes ingleses, mas o instituto tratou de escolher apenas 100. Listas são sempre estranhas, como se sabe. Dependem do juízo muito particular do júri, e fica aquela sensação de injustiça. É como se o pessoal, após ter votado nos 100, dissesse, "Ih! Esqueci! Onde que a gente coloca este?!". Neste final de século e milênio, pode ir preparando seu coração e mente para um bocado de listas. As listagens dos melhores álbuns do milênio unanimemente põe Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, no topo - o que é justíssimo, mas é esquisito esquecer Beethoven, Mozart, esses caras aí que também revolucionaram a música. Pessoalmente, eu adoro quando fazem listas dos 100 melhores filmes dos últimos cem anos, já que não existia cinema antes disso. Deve haver até lista das melhores listas, ó céus.

Bem, voltando ao BFI (não confundir com FBI). Esta lista veio coroar o que todos desconfiavam: que a década dourada do cinema inglês foi mesmo a de 60. Vinte e cinco selecionados, ou um quarto, vem daquele período inesquecível. Porém, desconfia-se desta escolha acertada ao ver o que o BFI pôs como "segundo período brilhante": as décadas de 80 e 90. Tsc, tsc, tsc... Se a produção britânica dos últimos 20 anos fosse assim tão maravilhosa, não estaria apanhando tanto de Hollywood, né? A lista dá-se ao luxo de incluir Shakespeare Apaixonado e Elizabeth (foto) entre os top 100. São bons filmes, mas melhores da história?! Essas inclusões automaticamente depõe contra a lista. É o tal "diga-me com quem andas e eu te direi quem és".

Na primeiríssima posição aparece O Terceiro Homem (1949), de Carol Reed. Com roteiro do escritor Graham Greene, fotografia fantástica em preto e branco e música de corda imitada até hoje, este policial (difícil classificar) conta uma história mirabolante de espionagem e contrabando na Viena pós-guerra. As atuações são tão boas que Orson Welles, o rei dos reis, faz só uma ponta. O filme está cheio de graça e charme e de diálogos incríveis, como este: "Durante os Borgia e seu reino de terror, o mundo foi presenteado com a Renascença, Michelângelo e Da Vinci. E o que 500 anos de democracia e paz suíça criaram? O relógio-cuco". Se O Terceiro Homem não é um clássico indiscutível, então eu não sei o que é.

Em segundo lugar vem outro super clássico: Desencanto (1945, no original Brief Encounter, o que significa "breve encontro"), de David Lean, certamente o maior diretor inglês de todos os tempos. A lista faz justiça a Lean, incluindo seis de seus filmes (e três deles entre os dez maiores). Por exemplo, Lawrence da Arábia (62) chega em terceiro, e Grandes Esperanças (46) em quinto. Lean é chegado a épicos (fez também A Ponte do Rio Kwai e Doutor Jivago, entre outros) e é por isso que Desencanto é seu filme mais peculiar. Impossível imaginar um drama mais intimista.

Desencanto é pura melancolia. Fala de duas pessoas, ambas casadas, que se encontram por acaso em uma estação de trem e perdidamente se apaixonam entre si. Se você já supunha não existir sexo entre os ingleses, Desencanto será sua confirmação. O adultério carnal jamais ocorre (e precisa?). Quer dizer, o que dói mais ao traído: que seu cônjuge tenha uma noite ardente com um desconhecido ou que ele não consiga parar de pensar em outro alguém?

Desencanto vai além do casamento sem paixão, metendo-se na nossa existência vazia. A fala-chave é deferida pelo protagonista, em tom que nem chega a ser irônico: "que vidas excitantes levamos, não é?". É um drama 100% honesto e enxuto, que não perde tempo com frivolidades. Tente assistir sem derramar muitas lágrimas.

Só por curiosidade: Billy Wilder, o grande, ficou tão encantado com Desencanto que não pôde tirá-lo da mente. Transportou um dos personagens secundários da trama (o amigo que empresta a chave de seu apê ao "adúltero") para sua comédia Se meu Apartamento Falasse, desta vez na condição de protagonista. Isso que é criatividade.

Um dos (poucos) belos filmes dos anos 90, Trainspotting (1996; foto) aparece na lista como o mais bem posicionado entre as produções atuais, em 10º lugar. Assim como Desencanto, também trata de vazio existencial, mas usa as drogas pesadas e um ótimo senso de humor para passar sua mensagem, que, imagino, deve ser algo como "viva e deixe viver".

Agora, às injustiças. Hitchcock mal é visto na lista. Será que deixou de ser inglês quando foi filmar nos Estados Unidos? Aliás, este é um dos problemas do BFI. Como decidir qual filme é britânico e qual é americano? Vamos ao caso de Laranja Mecânica (1971), que amarga a rídicula 81ª posição na lista (eis aí um típico exemplo do "ih! Esqueci!"). O americano Kubrick passou quase metade da sua vida em Londres. Por que só Laranja Mecânica é inglês? E 2001, Uma Odisséia no Espaço, e Doutor Fantástico, e O Iluminado, todos ausentes da lista? Muito estranho.

Outra: Quatro Casamentos e um Funeral é simpático (está na 23ª posição), mas nem com extrema boa vontade pode ser considerado superior a Um Peixe Chamado Wanda (em 39º lugar; foto). E, sinceramente, só para ficar entre os recentes, Ou Tudo ou Nada e Traídos pelo Desejo (25ª e 26ª posições, respectivamente) serão melhores que Segredos e Mentiras (40º lugar)? Não creio.

E atenção para a melhor notícia deste artigo: todos os filmes citados acima estão disponíveis em vídeo, inclusive em Joinville. Veja-os, não só para aumentar sua cultura cinematográfica, mas também para entender porque Hollywood continua aceitando de braços abertos os talentos britânicos (se bem que só depois de eles se renderem ao sistema). Se pensou em Ridley Scott, Alan Parker, Stephen Frears, Neil Jordan (Adrian Lyne não conta), acertou. Longa vida aos ingleses!

Os 50 mais

1- O Terceiro Homem

2- Desencanto

3- Lawrence da Arábia (foto)

4- Os 39 Degraus

5- Grandes Esperanças (foto)

6- As Oito Vítimas

7- Kes

8- Inverno de Sangue em Veneza

9- Sapatinhos Vermelhos

10- Trainspotting (foto)

11- A Ponte do Rio Kwai

12- Se (foto)

13- Quinteto da Morte

14- Tudo Começou no Sábado

15- Rincão das Tormentas

16- Carter, o Vingador

17- O Mistério da Torre

18- Henrique 5º

19- Carruagens de Fogo

20- Neste Mundo e no Outro

21- The Long Good Friday

22- O Criado (foto)

23- Quatro Casamentos e um Funeral

24- Alegrias a Granel

25- Ou Tudo ou Nada

26- Traídos pelo Desejo (foto)

27- Doutor Jivago

28- A Vida de Brian

29- Os Desajustados

30- Gregory's Girl

31- Zulu

32- Almas em Leilão

33- Como Conquistar as Mulheres (foto)

34- Gandhi (foto)

35- A Dama Oculta

36- Assalto à Milanesa

37- Momento Inesquecível

38- Os Commitments - Loucos pela Fama

39- Um Peixe Chamado Wanda

40- Segredos e Mentiras (foto)

41- 007 Contra o Satânico Dr. No

42- As Loucuras do Rei George

43- O Homem que Não Vendeu sua Alma

44- Narciso Negro

45- Coronel Blimp

46- Oliver Twist (foto)

47- Papai é Nudista

48- Performance

49- Shakespeare Apaixonado

50- Minha Bela Lavanderia (foto)

Veja a lista completa aqui.

domingo, 26 de dezembro de 1999

CLÁSSICOS: APOCALYPSE NOW / Vinte anos depois do Apocalypse

O melhor dos inumeráveis filmes sobre a Guerra do Vietnã já nasceu como obra-prima do cinema

Quando Apocalypse Now foi finalmente apresentado ao mundo, depois de quatro anos intermináveis de filmagens, a comoção não poderia ter sido maior. Este filme de duas décadas atrás foi imediatamente saudado como obra-prima, ainda que imperfeita, posto que ocupa até hoje. Com justiça, é considerado um dos melhores trabalhos sobre a Guerra do Vietnã, se não o melhor. Em geral, quando se fala desta guerra horrorosa, a primeira e única até agora perdida pelos americanos, mencionam Apocalypse, O Franco-Atirador e Platoon. Vai saber porque omitem Nascido para Matar, de Kubrick...

Foi por uma série de acasos que Apocalypse veio a se tornar o que é. Para início de conversa, quem havia sido escalado para dirigi-lo era ninguém menos que George Lucas, que abandonou o projeto para primeiro se dedicar a Loucuras de Verão e, depois, a Guerra nas Estrelas. O roteiro original, escrito em 1969, quando a intervenção dos EUA não era ainda vista como desastrosa, descrevia soldadinhos a la John Wayne, e levava a assinatura de John Milius, direitista de carteirinha. Se quiser ter uma noção do fascismo de Milius, basta assistir a Amanhecer Violento, sobre adolescentes mascadores de chiclete que defendem sua cidade de uma invasão comunista. Pode-se imaginar que Apocalypse teria sido um tanto diferente com Lucas e Milius.

No fundo, sem Francis Coppola, o filme nunca teria sido realizado. Só que Coppola alternava crises de depressão e megalomania e estava a um passo da loucura. É impossível falar de Apocalypse sem abrir um parênteses para o ego de Coppola na época. Em 1975, quando assumiu as rédeas do filme, Coppola era tido como um deus, e não para menos. Acabava de ver duas de suas obras (O Poderoso Chefão II e A Conversação) nomeadas ao Oscar de melhor filme no mesmo ano - fato único na história do prêmio -, e nadava em dinheiro. Ou seja, estava no céu. Por isso que a queda foi tão brusca.

Coppola teve enormes dificuldades para escalar seu ator principal. Robert Redford, Jack Nicholson, Gene Hackman, Al Pacino, Steve McQueen - todos foram sondados e recusaram, já que não queriam passar seis meses na selva. Finalmente, contratou Harvey Keitel, e o despediu logo depois, por razões mal explicadas. Chamou então Martin Sheen para o papel de sua carreira. Sheen se empenhou tanto que, no meio das filmagens, teve um ataque cardíaco. Quase morreu aos 37 anos, o que significaria o caixão também para Apocalypse.

Ah, a história! Um capitão americano no Vietnã é enviado, numa missão secreta, até o Camboja, para liquidar um oficial (de seu próprio exército) que havia enlouquecido e inaugurado uma seita. No caminho, ele presencia uma série de atrocidades.

A cena mais famosa é a que mostra Robert Duvall, no comando de uma tropa de helicópteros que bombardeia uma escola vietnamita, incentivando seus homens a aproveitarem as ondas e surfarem ao som da "Cavalgada das Valquírias", de Richard Wagner. A verdade é que Duvall rouba o filme como o demente que diz "adoro o cheiro de napalm pela manhã", e que nem sequer pisca durante o fogo cruzado. Sua imagem virou a marca registrada de Apocalypse.

O filme foi rodado nas Filipinas, entre tufões que derrubavam cenários e rebeliões armadas, além de muitas drogas. O documentário da esposa de Coppola, Hearts of Darkness - O Apocalipse de um Cineasta, também disponível em vídeo, expõe claramente como os atores e a equipe viviam dopados.

O final de Apocalypse traz Marlon Brando, e é a parte imperfeita deste clássico, por ser confusa e pretensiosa demais. Brando não criou nenhum problema, apesar da obesidade e de não ter lido o livro de Joseph Conrad, Coração das Trevas, no qual o filme é inspirado.

Apocalypse, orçado em US$ 12 milhões, terminou gastando uns 40 mi. Muito desse dinheiro era de Coppola, que ganhou de brinde um colapso nervoso. Se valeu a pena? Digamos apenas que foi a última obra-prima de Coppola - e uma das últimas do cinema.