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quarta-feira, 27 de novembro de 2002

CRÍTICA: MATA-ME DE PRAZER / Alpinismo sexual

Imagine a cena: você mora com um carinha na Inglaterra. No caminho do trabalho, você se interessa por um estranho e o segue. Num piscar de olhos, vocês estão transando loucamente. Você logo se casa com o enigmático, e aí você pensa, puxa, preciso conhecer melhor meu esposo – tudo que sei é que ele é alpinista. Essa é a trama de "Mata-me de Prazer", um thriller que se aproxima muito da estrutura do sagrado matrimônio. Ou seja, o filme começa com sexo ardente, já na metade não há mais contato físico entre os personagens, e no final ninguém nem se fala mais.

As semelhanças com a vida real terminam aí, já que "Mata-me" conta com a Heather Graham no elenco. Heather esteve no auge como a atriz pornô sobre patins de "Boogie Nights", mas, para o grande público, ela é a loira de "Austin Powers", aquela paródia de 007. E quem faz o sujeito misterioso é o Joseph Fiennes ("Shakespeare Apaixonado"), o irmão menos esperto do Ralph. Em "Mata-me", eu olhava pro Joseph e pensava no Falcon. Você já teve um Falcon? Era o boneco que as minhas Suzies namoravam. O Joseph é idêntico ao Falcon, só que menos intelectual. O diretor deve ter pedido pro Joseph fingir um ar de mistério, e o ator decidiu mexer a cabeça bem devagarzinho. Aliás, ele mal se mexe, o que pega mal prum alpinista. Com sua barba por fazer e uma argola de lata de cerveja como colar, o Joseph imita os movimentos do meu Falcon ao ser atirado da estante. Devem ter economizado um monte com dublê.

Bom, Heather e Joseph vivem sua lua de mel. Ele amarra um lenço em volta do seu pescoço de sonsa pra lhe tirar o ar enquanto fazem amor, depois a joga contra um muro, e ela adora. Eu sei como é isso, pois ainda ontem o maridão me deu uma cotovelada. Como a mulher apaixonada que sou, amei quando os dois pombinhos se beijam no meio da rua à noite e vão se apoiando nas paredes, enquanto a bolsa da Heather repousa em cima de um banco. Virei pro maridão e perguntei: "Ela deixou a bolsa lá? Eles estão em Londres, né?". Mais adiante, um trombadinha de fato furta a bolsa da Heather, e o Joseph o persegue. Parecia um comercial: se um dia um homem espancar até a morte um carinha que te rouba a carteira, isso é Impulse.

Mas os problemas conjugais realmente têm início quando o personal escalator Joseph prepara uma longa caminhada pra Heather e diz: "Vou fazer você forte". Eu esperava que ela respondesse, "Você e quem mais, seu paspalhão?". Mas não, ela vai atrás. Imagino a minha reação se o maridão aparecesse pulando me convidando prum cooper. Eu tentaria ganhar tempo enquanto a camisa de força e o advogado com toda a papelada do divórcio não chegassem. Olha, a Heather deveria saber que não há orgasmo múltiplo que faça a gente escalar montanhas. Tudo tem limite. Como dizia aquela música, não há montanha alta o bastante.

Mais impenetrável que a cara do Joseph, só mesmo a razão pro Chen Kaige aceitar dirigir um filminho tão meia-boca. O Chen ganhou em Cannes com "Adeus, Minha Concubina". O que leva um chinês de prestígio a desembarcar em Hollywood? Só as verdinhas? Duvido que ele tenha lido o roteiro e gritado: "Oba! Sempre sonhei em trabalhar com a Heather e o Joseph!".

Antes do thriller ser contaminado pela rotina do casamento e "Mata-me de Prazer" virar "Passe-me a Colher", há várias cenas de sexo. Pra quem gosta de ver loira pelada, é um prato cheio. Pra mim, o filme revela que, numa discussão conjugal, não se deve ficar amarrada numa mesa enquanto o outro maneja facas. É uma mensagem importante.