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domingo, 19 de fevereiro de 2012

O OSCAR JÁ É DOMINGO QUE VEM...

- Seu livro Como vencer a Lolinha no Bolão será um sucesso! Iremos revelar todos os detalhes.

Este post-lembrete é uma sugestão do Júlio César. Humpf! Gostei mais de outros (que serão publicados) em que ele se refere a minha invencibilidade.
Falta uma semana pro Oscar, e essas duas aí da foto de cima talvez sejam as favoritas em suas categorias. Difícil saber. Participe do tradicional bolão do Oscar! É só depositar R$ 15 numa das minhas contas -– Banco do Brasil, agência 3653-6, cc 32853-7, ou Santander, agência 3508, cc 010772760 –-, mandar um comprovante por email (lolaescreva@gmail.com), e apostar aqui. Você também pode apostar no bolão não pago. Entre nos dois! Ganhar de mim pode não render um livro, mas renderá um guest post tripudiador. Não vai acontecer!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

HISTÓRIAS CRUZADAS, CRÍTICAS CERTEIRAS

O diretor Tate Taylor conversa com atrizes durante as filmagens

Pensava que, após minha crítica de Histórias Cruzadas, algumas pessoas iriam dizer: Ah, só porque muitas negras americanas detestaram o filme, é pra eu não gostar também? Ninguém disse, mas vou responder: Não. Pode gostar do filme. Mas procure aprender com gente que sabe mais do que a gente (e historiadoras americanas negras são um bom parâmetro de quem conhece história negra nos EUA). Traduzi alguns trechos da nota que a Associação de Historiadoras Negras divulgou sobre o livro e filme:

“A representação que Histórias Cruzadas faz dessas mulheres [nada menos que 90% das mulheres negras no sul segregado dos anos 1960 eram empregadas domésticas em casas brancas!] é uma ressurreição desapontadora da mammy –- um estereótipo mítico de que mulheres negras estavam propensas, através da escravidão ou da segregação, a servir famílias brancas. Retratadas como assexuais, leais, e babás satisfeitas de brancas, a caricatura da mammy permitiu que a América mainstream ignorasse o racismo que prendia as negras a trabalhos pesados e mal-pagos em que patrões rotineiramente as exploravam. A popularidade desta mais recente repetição é problemática porque revela uma nostalgia contemporânea por dias em que uma negra só podia sonhar em limpar a Casa Branca em vez de presidi-la”.
“Não reconhecemos a comunidade negra descrita em Histórias Cruzadas, em que a maioria dos personagens negros são retratados como bêbados, agressivos, ou ausentes. Essas imagens distorcidas são enganosas e não representam as realidades históricas da masculinidade negra”.
“Retratar os racistas mais perigosos do Mississippi dos anos 60 como um grupo de mulheres da sociedade, bem-vestidas e atraentes, enquanto o filme ignora o reino de terror perpetuado pela Ku Klux Klan e pelo Conselho dos Cidadãos Brancos, reduz a injustiça racial a atos individuais de maldade”.
Histórias Cruzadas não é uma história sobre as milhões de negras dignas e perseverantes que trabalharam em casas de famílias brancas para sustentar suas famílias e comunidades. Na realidade, é uma história de iniciação de uma protagonista branca, que usa os mitos sobre as vidas das negras para fazer sentido de sua própria vida. A Associação das Historiadoras Negras considera inaceitável que livro ou filme removam a precisão histórica das vidas das negras pelo valor do entretenimento”.

Ainda bem para os realizadores brancos do filme que a Academia de Artes e Ciências não é feita de historiadoras negras...

Com todas essas críticas que merecem ser ouvidas, surgem as besteiras de sempre, como jornalista americano branco dizendo que racista não é o filme, mas quem acha o filme racista (já ouvimos isso antes).
O diretor Tate Taylor, que é branco, têm feito o que pode para se esquivar das críticas (fala contra o racismo; diz pra todo mundo que sua melhor amiga é Octavia Spencer, que concorre a atriz coadjuvante por fazer a empregada Minny), mas também se ressente, e pensa que, se o diretor tivesse sido negro, não haveria tanto incômodo por parte da comunidade negra (nisso ele provavelmente tem razão): “Acho que qualquer um vendo este filme vai sentir que Aibeleen e Minny são as humanas mais corajosas, brilhantes, espertas, espirituais e carinhosas do planeta, e ah sim, elas usam um uniforme. Não filmei essas mulheres esfregando latrinas”. Não, filmou uma delas dando uma torta feita de estrume pra ex-patroa comer.
Tate dá escorregadas típicas de alguém que não tem a menor ideia do que seja violência ou racismo: A cena em que Viola Davis está sentada num vaso sanitário numa garagem a 108 graus, e então uma mulher branca aparece e lhe diz para se apressar, foi visualmente brutal. Pra mim isso é pior que ver um linchamento. Apenas é”.
Não sei, Tate, pra mim linchamentos parecem um pouco piores.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

CRÍTICA: HISTÓRIAS CRUZADAS / Branca salva negras e combate o racismo

- Obrigada por existir, sinhazinha!

Assim que vi o trailer de Histórias Cruzadas (em inglês, The Help), sabia que aquilo lá ia dar chabu. Percebi de cara que a protagonista não era uma empregada negra do sul dos EUA nos anos 1960, e sim uma jovem branca que decide ajudar as negras, registrando suas vozes num livro. Depois vi a entrevista de uma professora, negra, no fabuloso Colbert Report (você pode ver a entrevista aqui, sem legendas, se bem que a decepção no olhar da professora já diz tudo). Depois de ver o filme, que estreia hoje no Brasil, descobri que negras americanas fizeram um site inteiro só pra basicamente falar mal dele. Aliás, se alguém encontrar alguma negra validando o filme, avise, porque por enquanto tudo que li é unânime (em outros posts pretendo relatar o que elas dizem).
Desculpa, gente, mas sou macaca velha. Posso até gostar (muito!) de filmes que tenham o homem branco como salvador do oprimido povo de qualquer raça (por exemplo, adoro Dança com Lobos, Avatar, Mississippi em Chamas, até O Último Samurai), só que sei que é o tipo de filme feito pra 1) convocar o público liberal branco de classe média pra ver uma história edificante; 2) mostrar que o racismo existe mas que nem todos os brancos são malvados ou responsáveis pelo racismo –- por sinal, alguns são super bonzinhos; 3) aliviar a culpa branca. É possível se envolver com um filme desses (quem não derrama uma catarata do Iguaçu quando o lobinho é assassinado em Dança?), e ainda assim manter uma visão crítica. E não sejamos hipócritas quanto as nossas boas intenções: a gente iria ver O Último Samurai se fosse filmado por japoneses e mostrasse o ponto de vista não de um ocidental bonitão que se transforma no melhor samurai ever, mas de um japonês que salva o próprio povo? Esse tipo de filme encontraria distribuição no mundo? Teria sido feito se não fosse com o Tom? Apesar das críticas das americanas negras, Histórias Cruzadas está indo muito bem. Já tinha rendido 150 milhões de dólares antes das suas quatro indicações pro Oscar. O livro de Kathryn Stockett (que em português chama-se A Resposta) já vendeu mais de 3 milhões de cópias. O livro é dedicado não à empregada negra que a autora disse que a inspirou, mas ao avô. Ao avô branco da autora branca, gico.
Há duas capas. A americana tem três passarinhos, nada a ver com conflitos raciais. A britânica é de duas empregadas negras (sabemos que são empregadas por causa de seu uniforme) cuidando de uma bebê branca que é o centro do universo, ou, pelo menos, da diagramação da capa. E os dizeres: “Um livro que é como se fosse uma grande amiga sobre amor feminino que transcende raça e cor”. Tradução pra lá de capenga, eu sei, mas me diga se tem algo na capa que demonstre qualquer coisa transcendendo qualquer coisa?
Nem na capa, nem no filme. Eu acho engraçado ouvir @s fãs de Histórias dizendo que ele é lindo e sensível quando, na realidade, ele é escatológico pacas. (Vem aí um meio spoiler). Posso não gostar nadinha de uma personagem, mas, honestamente, não desejo que ela tenha que comer torta de m****. Ahn, ficou ambíguo. Digamos, torta de cocô (acento tá no lugar certo? Não tô falando da fruta que não é de deus). Nem que ela seja constantemente bullied por causa disso. Nem que todo mundo morra de rir com sua desgraça. Eu, hein? Parece coisa de soldado americano que mija em cima de cadáver talibã. Não tem graça. Pelo contrário: é ultrajante. Pode ser por esse subtexto escatológico nada sutil que não gostei nem um pouco da atuação de Octavia Spencer (Sete Vidas), indicada à atriz coadjuvante, junto com Jessica Chastain (Árvore da Vida), que faz sua frágil patroa branca. Jessica está bem, mas Octavia me pareceu caricata, exagerada, o estereótipo da mammy (a famigerada figura da criada negra cheia de amor pra dar às crianças brancas de quem cuida. Veja E o Vento Levou, que, não por acaso, representa o primeiro Oscar dado a uma atriz negra, Hattie McDaniel, justamente pelo papel de mammy). Mas pra mim a mais fraca de todo o elenco é a heroína branca, Emma Stone (Zombieland, Superbad). E por mais que eu goste da Bryce Dallas Howard (Crepúsculo: Eclipse, Manderlay, A Vila), que faz a vilã-mór, ela não deveria ter aceitado o papel, que é bem degradante. Aí sobra a Viola Davis (Dúvida, Longe do Paraíso), sempre uma excelente atriz. Mas sua personagem me pareceu um tanto vazia, sem desenvolvimento. Por que ela não pode escrever o livro? Ela é escritora. Não dá pra entender por que as negras confiam na protagonista. Suas motivações em contar as histórias pra uma mulher branca não ficam muito transparentes. E tampouco é convincente o que leva a protagonista a querer escrever sobre elas.
Os homens mal existem nesse filme, pois as vilãs são mulheres. Todo o racismo da história dos EUA foi causado por mulheres brancas, não sabia? Pois é. Tem um marido branco que boceja e inventa uma desculpa pra sair dali assim que a empregada pede um empréstimo. Mas tem um outro marido gente boa pra compensar. A gente ouve falar que a Ku Klux Klan (provavelmente composta por mulheres) matou um negro. Compare qualquer marido/namorado branco no filme com o marido negro (que nunca aparece) de Minny. No livro, a personagem diz que muitos homens negros abandonam suas famílias. Pode até ser verdade, mas falar mal de homens negros num filme que faz dos homens brancos gente boa soa racista.
Há muitos pontos não resolvidos no filme. Uma empregada que precisa de dinheiro pra mandar os filhos pra faculdade é presa, acusada de roubar um anel. O que acontece com ela? Não sabemos. Nunca mais se fala nela. E todas as empregadas que quiçá sofram represálias de suas patroas após o livro ser publicado? O filme não se interessa nisso. Está mais concentrado em mostrar a tristeza de uma menina branca por perder sua mammy. Quantas imagens de garotinha chorando pela janela a gente precisa ver antes do cérebro ser comunicado “Estão querendo que eu chore?”. Uma? Duas? Nenhuma? Pois no filme são quatro. Eu contei.Talvez Histórias Cruzadas tenha sua importância porque ele conta, aparentemente pra quem não sabia, que houve (por que o passado?) muito racismo nos EUA. Mas sabe o que seria mais legal? Deixar que essas mulheres negras contassem a história elas mesmas. E sim: infelizmente, numa Hollywood controlada por homens brancos, a palavra apropriada é mesmo deixar.
Mais sobre Histórias Cruzadas aqui