Semana que vem saem as indicações ao Oscar 2020 e, a julgar pelo Globo de Ouro,
A História de um Casamento (Marriage Story, veja trailer legendado) será lembrado em várias categorias, incluindo melhor filme, melhor ator (Adam Driver), roteiro e direção (ambos de Noah Baumbach, do sensível A Lula e a Baleia, que se inspirou no seu próprio divórcio com a ótima atriz Jennifer Jason Leigh para fazer História).
Eu gostei bastante. Não considero o filme uma obra-prima, como alguns vem dizendo, mas certamente vale a pena ser visto. Como ele se centra mais em Charlie, o ex-marido, que em alguns momentos parece ser mais prejudicado com o divórcio que Nicole (Scarlett Johansson), achei o filme um tiquinho machista. Os misóginos vão adorar usar História como um documentário de como os pais são privados do convívio com os filhos. Mas, claro, estamos falando de mascus, que não enxergam sutilezas. E o filme está cheio delas, e é isso que o faz tão rico.
Esta é uma das melhores falas de História, na minha opinião. Vem logo depois de um quase monólogo em que Nicole, em close, responde perguntas sobre como é seu relacionamento com seu filho. Como a câmera fica fixada nela, não sabemos que ela está ensaiando para responder indagações numa corte, ou para uma assistente social.
Nora Fanshaw, sua advogada, que é pintada como uma megera (interpretada por uma carismática Laura Dern, que também deve ser indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante), a interrompe num certo momento, e faz um excelente discurso feminista (minha tradução; vou deixar o discurso original em inglês abaixo):
"As pessoas não aceitam mães que bebem vinho demais e gritam com seu filho e o chamam de babaca. Entendo. Eu também faço isso. Nós podemos aceitar um pai imperfeito. Vamos admitir, a ideia de um bom pai só foi inventada uns 30 anos atrás. Antes disso, esperava-se que os pais fossem silenciosos e ausentes e não confiáveis e egoístas, e todos podíamos dizer que queríamos que eles fossem diferentes. Mas num nível mais básico, nós os aceitamos. Nós os amamos por suas falhas, mas as pessoas absolutamente rejeitam essas mesmas falhas nas mães. Não aceitamos estruturalmente e não aceitamos espiritualmente.
Porque a base da nossa qualquer coisa judaico-cristã é Maria, mãe de Jesus, e ela é perfeita. Ela é uma virgem que dá à luz, apoia seu filho sem piscar e segura seu corpo inerte quando ele se vai. E o pai não está lá. Ele nem fez sexo. Deus está no céu. Deus é o pai e Deus não apareceu. Então, você tem que ser perfeita, e Charlie [o ex-marido] pode ser um desastre e isso não importa. Você sempre será medida por um padrão diferente e mais alto. É uma droga, mas é como é".
Em inglês: "People don't accept mothers who drink too much wine and yell at their child and call him an asshole. I get it. I do it too. We can accept an imperfect dad. Let's face it, the idea of a good father was only invented like 30 years ago. Before that, fathers were expected to be silent and absent and unreliable and selfish, and can all say we want them to be different.
But on some basic level, we accept them. We love them for their fallibilities, but people absolutely don't accept those same failings in mothers. We don't accept it structurally and we don't accept it spiritually. Because the basis of our Judeo-Christian whatever is Mary, Mother of Jesus, and she's perfect. She's a virgin who gives birth, unwaveringly supports her child and holds his dead body when he's gone. And the dad isn't there. He didn't even do the fucking. God is in heaven. God is the father and God didn't show up. So, you have to be perfect, and Charlie can be a fuck up and it doesn't matter. You will always be held to a different, higher standard. And it's fucked up, but that's the way it is".
Adorei a explicação religiosa para por que esperamos tão pouco da paternidade.


