Vi o filme Contágio ano passado, gostei pacas (adoro catástrofes com fim de mundo e epidemias), fiz várias anotações... e, pra variar, ainda não tive tempo de escrever sobre ele. Felizmente a Susana fez uma análise muito melhor do que qualquer coisa que eu poderia bolar. Tive o privilégio de conhecer Susana de Castro em março, quando ela me chamou para dar uma aula inaugural na UFRJ, onde é professora-adjunta de Filosofia. Depois ela e a Amana me convidaram pra participar de um grupo de pesquisa em gênero, e eu, claro, aceitei correndo. Eis o que Susana achou de Contágio (tem spoilers; veja o trailer legendado pra ver do que se trata).
Contágio (2011) de Steven Soderbergh é um filme incrível para quem estuda a problemática do gênero nas grandes mídias. Há uma clara inversão entre os estereótipos dos papéis de gênero. Neste filme os homens são os traídos, não as mulheres; também são eles que colocam a família e os laços de amizade na frente do dever e do trabalho. Ao contrário do que em geral se espera, não temos os encontros românticos entre pares famosos. Matt Damon não acaba junto com Gwyneth Paltrow (sua esposa adúltera), ou com Kate Winslet (uma diligente médica epidemiologista que o entrevista no hospital). Mais ainda, a primeira morre no início do filme e a segunda na primeira meia hora.
O filme retrata o rápido contágio da população mundial por um vírus letal. Começa no dia 2 do surto, isto é, quando a personagem de Paltrow está à espera de sua conexão que a levará para casa, depois de uma viagem de negócios a Hong-kong -- com uma rápida parada em Chicago para um encontro amoroso extraconjugal. Uma representante da Organização Mundial da Saúde é enviada a Hong Kong para investigar a origem do vírus e, mediante as imagens da câmera de vídeo interna do cassino visitado pela personagem de Paltrow, consegue identificá-la como tendo sido a primeira a contrair o vírus (todos aqueles com quem entra em contato são os primeiros a morrer).
Mas é só ao final do filme, quando a vacina para a cura já foi descoberta, que a câmera onisciente mostra ao espectador como de fato o vírus foi produzido e transmitido. É muito importante prestarmos atenção à construção das personagens da epidemiologista e também a da cientista que descobre a cura.
Ambas são caracterizadas como imbuídas de um tipo de heroísmo atípico para as representações das mulheres nos filmes de massa. Para constatar isso, basta que descrevamos duas cenas: quando constata o seu contágio, a primeira coisa que a epidemiologista faz é buscar os telefones de todos que estiveram com ela no hotel em que estava hospedada para avisar-lhes da situação, e quando já no leito improvisado de uma quadra de esporte ouve um paciente ao seu lado reclamar de frio, seu último gesto é o de tentar lhe passar o casaco que a cobria; morre deixando o casaco cair no chão.
A cientista que descobre a vacina da cura age de modo heroico ao aplicar a vacina em si. Para provar a eficácia ou não do remédio, visita sem proteção o pai doente no hospital. Quando ao final é chamada pelo seu chefe para receber as honras pela descoberta, não se mostra nem um pouco lisonjeada, ao contrário, lembra-lhe todos os que foram sacrificados.
Para completar essa descrição das personagens femininas no filme, voltemos à personagem da representante da OMS, interpretada por Marion Cottilard. Sequestrada por seu companheiro de trabalho -- a população de sua vila natal havia sido quase toda dizimada pelo vírus, e ele pretendia usá-la como moeda de troca para receber a vacina, logo que ela fosse descoberta --, ela foge do aeroporto quando descobre que a vacina que lhe foi entregue como resgate por sua vida, continha, na verdade, placebo.
Cabe finalizar essa rápida descrição do filme falando rapidamente dos personagens interpretados por Matt Damon e Laurence Fishburne. Ambos são homens sensíveis, dedicados pais e amantes amorosos, cuja principal preocupação é com o bem estar de seus entes mais próximos. Matt Damon é o marido desempregado que cuida do enteado enquanto a esposa faz viagem de negócios em Hong Kong. Fará de tudo para que a filha não seja também contagiada, depois que a esposa e o enteado morrem.
Fishburne mostra-se excepcionalmente preocupado com o estado de saúde da amiga, a epidemiologista. Uma preocupação atípica para o padrão de relacionamento chefe e subordinado. Quando sabe que as saídas das cidades serão fechadas, pede à namorada que saia imediatamente da cidade em que está e venha ao seu encontro. Ao final do filme forja um suposto casamento para receber de presente duas vacinas. Aplica uma no filho do faxineiro do trabalho e a segunda na namorada.
Vejam: é claro que homens podem ser ‘sensíveis’ e mulheres altruísticas, mas na maioria das vezes, os estereótipos prevalecem. As mulheres são os seres emocionalmente desequilibrados e fisicamente frágeis que esperam um herói que as libertem de uma situação de risco, e os homens são, pois, os heróis que enfrentam todas as dificuldades para salvar o mundo e a namorada (lembremos aqui dos dois últimos papéis marcantes de Damon e Fishburne, o primeiro como Bourne na trilogia Identidade Bourne, e o segundo como Morpheus da trilogia Matrix). Achar filmes como este de Soderbergh é difícil, mas quando o encontramos a satisfação é tão grande que queremos compartilhar a descoberta.
Com seu olhar treinado, a Lola é uma grande ‘garimpeira’ de filmes desse tipo. Suas críticas de filmes são sempre argutas para a questão da representação da mulher, por isso fico feliz em poder compartilhar com seus leitores e leitoras o meu entusiasmo por esse filme.











